sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

24/01/2015
 
 
UM PROFETA É ADMIRADO E ODIADO SIMULTANEAMENTE

Sábado Da II Semana Comum

 
Evangelho: Mc, 3, 20-21

Naquele tempo, 20Jesus voltou para casa com os discípulos. E de novo se reuniu tanta gente que eles nem sequer podiam comer. 21Quando souberam disso, os parentes de Jesus saíram para agarrá-lo, porque diziam que estava fora de si.
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O relato de Mc começa com um dado surpreendente: os parentes de Jesus, ao saber que ele estava fora de si, ou estava louco, eles foram até Jesus para retirá-lo do seu lugar de missão. A loucura era considerada como sinal de possessão diabólica.  Qualificar alguém de louco era uma forma de excluí-lo, anulá-lo e condená-lo. Com Jesus seus inimigos queriam aplicar também essa tática para anulá-lo, e os parentes de Jesus simplesmente acreditavam nessa “fofoca”, sem nenhuma verificação.


Um provérbio árabe disse: “Você nunca deve dizer o que sabe; crer em tudo que ouve; fazer tudo o que pode e gastar tudo o que tem, porque se você diz tudo o que sabe; crê em tudo que ouve; faz tudo o que pode e gasta tudo o que tem, você acaba dizendo o que não ouve; julgando o que não vê e gastando o que não pode”. Devemos nos preocupar com o bem praticado e com a verdade que deve ser vivida. Lembremo-nos de que “O bem que você faz hoje pode ser esquecido amanhã. Faça o bem assim mesmo. Veja que, ao final das contas, é tudo entre você e Deus! Nunca foi entre você e os outros, não se preocupe com a opinião das pessoas. Seja obediente à verdade. Com essa obediência humilde você nunca vai se sentir perturbado” (Madre Teresa de Calcutá).


Por que Jesus é considerado “fora de si” pelos seus parente? O que tem por trás da atitude dos parentes de Jesus?


Porque Jesus quis construir uma comunidade cimentada nos valores do amor e da justiça. Viver de acordo com a igualdade, a solidariedade e a fraternidade universal significa romper com o modelo de família tradicional e com sistema vigente que oprime, discrimina e exclui. Para Jesus todos têm que se sentir irmãos daqueles que até então eram considerados excluídos, impuros, forasteiros, inimigos, pecadores. Para a mentalidade de então essas pessoas teriam que ser afastadas. Jesus fez o contrário: a casa onde ele se encontrava estava lotada de gente pobre e empobrecida que ele tratava com respeito. Por isso, Jesus não podia estar de acordo com seus parentes que, se deixando levar da qualificação de louco que lhe davam seus inimigos, tratavam de retirá-lo de sua missão.


Sempre sucede o mesmo. O plausível para os homens não é em todo momento o honesto para Deus. O politicamente correto não coincide em muitas ocasiões com eticamente justo. Um profeta diz a seu tempo e contra seu tempo o que Deus lhe manda dizer aos homens mesmo que os homens não concordem. Não é fácil ser profeta. Ele é odiado por aqueles cujos interesses individuais são afetados. Mas ele é respeitado e admirado por todos os que vivem na honestidade, na verdade, na fraternidade, na igualdade e assim por diante. Há que estar muito identificado com Jesus para sê-lo de verdade. Um profeta de verdade sempre termina sua vida como mártir. Ele é crucificado, mas ninguém consegue crucificar a verdade porque a verdade mora na própria consciência do homem. O próprio homem sabe disso e tem consciência disso.


Os parentes de Jesus acreditaram nas fofocas ou nos comentários maldosos dos inimigos de que Jesus era louco. Por isso, eles foram até Jesus para levá-lo para casa sem perguntar até que ponto esse comentário tinha fundamento. Às vezes, acontece o contrário: aquele que acha que o outro seja louco é muito mais louco do que todos os loucos de verdade. Precisamos nos perguntar também tanto pessoalmente como comunitariamente: Quem é Jesus em quem acreditamos? Por que nos reunimos em Seu nome? Por que celebramos a Eucaristia? porque ele mandou fazer em sua memória? Mas que memória? Vale a pena continuar acreditando e esperando n’Ele?


Jesus é considerado como louco por ser próximo para todos e de todos, por ajudar a quem está em necessidade; por integrar numa família quem era excluído, por salvar a vida no dia de preceito (Sábado), por lutar pela igualdade, pois todos são filhos e filhas de Deus. Nós que amamos Cristo, nós que escutamos Sua voz e nos comprometemos a viver conforme Seu evangelho também nós podemos ser considerados como loucos, sonhadores e ilusórios pelo mundo, se vivermos realmente e fielmente os ensinamentos de Jesus. Somente aquele que vive verdadeiramente unido a Deus e comprometido na salvação de todos, poderá fazer seu o caminho de Cristo e jamais vai usar o Evangelho para o proveito próprio. Ao contrario, ele saberá ir ao encontro dos que falharam na vida moral ou eticamente para fazer todos eles aproximarem-se do perdão e do amor de Deus; saberá ir ao encontro das pessoas que sofrem para manifestar-lhes a misericórdia divina não somente com palavras e sim com a própria entrega, com obras que lhes ajudam a viver uma vida digna. Sejamos essa Igreja do Senhor que vive não para servir-se do Evangelho e sim para estar a serviço do Evangelho até as ultimas conseqüências. Deus espera de nós uma vida de totalmente comprometida com o Evangelho.


Jesus é totalmente entregue à sua tarefa como o Enviado do Pai; absorvido por seu trabalho missionário a ponto de não ter tempo nem para comer, conforme o evangelista Marcos. Sua vida é totalmente dedicada ao bem das pessoas, especialmente ao bem das pessoas necessitadas. Precisamos refletir profundamente sobre a vida de Jesus. Quanto por cento dedicamos nosso tempo, como cristãos, para ajudar os necessitados? Será que os necessitados fazem parte de nossa preocupação pastoral? Como reagimos quando vemos que certos cristãos de nossas comunidades cristãs tomam atitudes mais comprometidas e mais arriscadas em função do bem do próximo? Será que consideramos “pouco razoáveis” certas decisões proféticas de alguns membros da Igreja? Será que seguimos a Jesus verdadeiramente ou somente dizemos que O seguimos, porque levamos o nome cristão e somos batizados? Seguir a Jesus é aceitar o que Ele diz, não somente aquilo que está de acordo com nossa linha de pensamento e nosso modo de nos comportar, mas aquilo que vai contra nosso desejo ou nossos gostos. Todos os ensinamentos de Jesus deve iluminar toda nossa maneira de viver, todas as nossas decisões e escolhas na vida. É preciso sermos cristãos em todas as coisas, em todos os momentos e em todos os lugares. Nisso seremos chamados pelo mundo como pessoas “fora de si”, como aconteceu com Jesus, pois “O discípulo não está acima do mestre, nem o servo acima do seu senhor. Basta que o discípulo se torne como o mestre e o servo como o seu senhor” (Mt 10,24-25).

P. Vitus Gustama,svd

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