terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

17/02/2015
 
SER BOM FERMENTO DO SENHOR NA SOCIEDADE

 
Terça-Feira Da VI Semana Comum


Evangelho: Mc 8,14-21

Naquele tempo, 14os discípulos tinham se esquecido de levar pães. Tinham consigo na barca apenas um pão. 15Então, Jesus os advertiu: “Prestai atenção e tomai cuidado com o fermento dos fariseus e com o fermento de Herodes”. 16Os discípulos diziam entre si: “É porque não temos pão”. 17Mas Jesus percebeu e perguntou-lhes: “Por que discutis sobre a falta de pão? Ainda não entendeis e nem compreendeis? Vós tendes o coração endurecido? 18Tendo olhos, não vedes, e tendo ouvidos, não ouvis? Não vos lembrais 19de quando reparti cinco pães para cinco mil pessoas? Quantos cestos vós recolhestes cheios de pedaços?” Eles responderam: “Doze”. 20Jesus perguntou: E quando reparti sete pães com quatro mil pessoas, quantos cestos vós recolhestes cheios de pedaços? Eles responderam: “Sete”. 21Jesus disse: “E ainda não compreendeis?”
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 A partir de um episódio de pouca importância, isto é, o esquecimento de os discípulos levarem pães suficientes no barco, Jesus aproveita a ocasião para dar uma lição sobre o fermento que eles devem evitar. “Cuidado! Guardai-vos do fermento dos fariseus e do fermento de Herodes”.


O fermento é um elemento pequeno, simples, humilde, mas que é capaz de fermentar para o bem ou para o mal toda a massa de farinha de trigo. Ele trabalha silenciosamente e imperceptível, mas o resultado é bem notável.


No AT a festa da Páscoa implicava, entre outras coisas, o rito de comer pães não fermentados. O fermento era considerado como sinal e causa de corrupção. A Páscoa era a festa da novidade, da renúncia ao velho, da busca de um Deus que se revela no novo. O NT aprofunda este sentido da novidade e vê em Jesus o homem novo diante do homem velho (1Cor 15,20-23; Rm 6,1-11). Assim fica patente como o fermento se põe em relação com a maldade e a bondade (cf. 1Cor 5,7-8).


Na literatura judeu-helenista a metáfora do fermento se aplicava freqüentemente não a qualquer “corrupção” moral e sim muito concretamente ao orgulho/à arrogância, à soberba, à hipocrisia. No judaísmo antigo, fermento era símbolo de decomposição, de corrupção espiritual, de impureza.


Na Primeira Carta aos Coríntios São Paulo alertou: “Não é digno o vosso motivo de vanglória! Não sabeis que um pouco de fermento leveda toda a massa? Purificai-vos do velho fermento para serdes nova massa, já que sois sem fermento” (1Cor 5,6-7; cf. Gl 5,9: fermento é símbolo da falsa doutrina). Em outras palavras, São Paulo alerta aos Coríntios para não serem impregnados da maldade e da mentira deste mundo. Por isso, São Paulo acrescentou: “Celebremos, portanto, a festa, não com velho fermento, nem com fermento de malicia e perversidade, mas com pães ázimos: na pureza e na verdade” (1Cor 5,8).


No texto do evangelho de hoje Jesus alerta aos discípulos: “Prestai atenção e tomai cuidado com o fermento dos fariseus e com o fermento de Herodes”. Na passagem paralela o evangelista Lucas acrescenta expressamente: “Acautelai-vos do fermento, isto é, da hipocrisia dos fariseus” (Lc 12,1).


Jesus alerta, então, a todos os seus seguidores sobre o perigo do orgulho e da soberba, da malicia e perversidade, da mentira e da impureza. Sabemos muito bem que o orgulhoso/arrogante não se preocupa em conhecer a verdade, mas apenas em ocupar uma posição em que ele possa ser o centro de atenção e a norma para o resto. O orgulhoso tem todos os vícios como o egoísmo, a injustiça, a ingratidão, a imoralidade, a hipocrisia. Normalmente o orgulho encontra o abrigo nas pessoas desequilibradas ou de pouca personalidade. A arrogância é uma forma de não aceitar as próprias fraquezas e defeitos.


É preciso que estejamos conscientes de que somos criaturas dependentes da graça de Deus para viver e conviver em harmonia com os demais, com a natureza e com o próprio Criador. Por isso, são Paulo diz: “Eu sou o que sou pela graça de Deus” (1Cor 15,10). A graça é a razão principal de nossa alegria e de nossa coragem: “Basta-te a minha graça”, responde o Senhor quando são Paulo se queixa do aguilhão em sua carne (2Cor 12,9).


Há fermentos e fermentos. O bom fermento faz crescer a massa e a converte em pão, alimento básico. Na época de Jesus era difícil entender a vida diária sem o pão feito com trigo ou com cereais. Para fazer o pão é necessário o fermento. Uma pequena quantidade de fermento é suficiente para transformar uma quantidade maior de farinha de trigo. Mas existem outros fermentos, capazes de estragar a massa, de empobrecê-la. O bom fermento transforma a massa de trigo em pão saboroso. Mas o mau fermento estraga a massa e o pão já não será fonte de vida, mas será fonte de enfermidade e de morte.


Um fermento bom ou mau dentro de uma comunidade pode enriquecê-la ou destruí-la. Jesus quer que todos os seus seguidores evitem o fermento dos fariseus e de Herodes isto é, o orgulho/arrogância, a soberba, a hipocrisia.


O orgulhoso não se preocupa em conhecer a verdade, mas apenas em ocupar uma posição em que ele possa ser o centro e a norma. Ele pretende que tudo esteja sujeito a si próprio. O orgulhoso gosta de desprezar, maltratar e colocar os outros na parede. Seus atos não precisam respeitar moral nenhuma, mas impõe aos outros normas morais e éticas.


Um hipócrita gosta de simular virtudes, sentimentos nobres e boas qualidades que não existem nele, com o intuito de conquistar a estima dos outros e obter louvores. Ele julga seus atos a partir da aprovação dos outros e não a partir do valor moral e ético. Ele é tão habilidoso em camuflar-se a ponto de nós o admirarmos. O hipócrita não tem consciência de que a dignidade da pessoa humana não consiste em parecer bom e sim em ser bom. Foge por um instante do homem irado, mas foge sempre do hipócrita”, dizia Confúcio, sábio chinês.


Estes fermentos têm uma força suficiente para destruir uma comunidade por dentro. Uma atitude interior de vaidade, de hipocrisia e do legalismo (como os fariseus), de rancor, de egoísmo, de arrogância, de superficialidade interesseira e de sensualismo (como Herodes), pode destruir nossa própria vida e a vida de uma comunidade.


Mas quando dentro de nós e de uma comunidade há fé e amor fraterno tudo se transforma em fermento bom. Nossos atos visíveis têm sua raiz em nossa mentalidade e em nosso coração. O coração é de cada um de nós, mas o nosso rosto é dos outros, isto é, aquilo que tem no nosso coração passa a ser visível no nosso rosto e no nosso comportamento. Por isso, São Paulo nos dá o seguinte conselho: “Não sabeis que um pouco de fermento leveda a massa toda? Purificai-vos do velho fermento, para que sejais massa nova, porque sois pães ázimos, porquanto Cristo, nossa Páscoa, foi imolado. Celebremos, pois, a festa, não com o fermento velho nem com o fermento da malícia e da corrupção, mas com os pães não fermentados de pureza e de verdade” (1Cor 5,6-8).


O fermento bom transforma a massa de trigo em pão saboroso, alimento básico para o ser humano. O fermento mau/ruim estraga a massa de trigo e o pão se torna fonte de enfermidade e de morte. Que tipo de fermento sou eu na minha comunidade, no meu grupo ou na minha família? O que tem na sua mão diante da “massa” da comunidade: fermento bom ou fermento mau/ruim? “O espírito se enriquece com aquilo que recebe; o coração com aquilo que dá” (Victor Hugo).


Para nossa situação atual, o que significa o alerta de Jesus: “Prestai atenção e tomai cuidado com o fermento dos fariseus e com o fermento de Herodes”. Quem são os fariseus e os Herodes na nossa atualidade? Será que somos incluídos neste grupo de pessoas? Será que nosso comportamento corrompe nossa própria dignidade e a dignidade dos outros? De que maneira nos tornamos “o fermento dos fariseus e de Heriodes”?

P. Vitus Gustama,svd

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