sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

DOMINGO, 22/02/2015 
 
JESUS É IMPELIDO PELO ESPÍRITO DE DEUS E SUPEROU TENTAÇÃO


I DOMINGO DA QUARESMA DO ANO “B”


Evangelho: Mc 1,12-15

Naquele tempo, 12 o Espírito impeliu Jesus para o deserto. 13 E ele ficou no deserto durante quarenta dias, e aí foi tentado por Satanás. Vivia entre animais selvagens, e os anjos o serviam. 14 Depois que João Batista foi preso, Jesus foi para a Galileia, pregando o Evangelho de Deus e dizendo: 15 “O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho!”

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Para entender o trecho do evangelho deste domingo precisamos ligá-lo com a cena anterior. Na cena anterior fala-se do Batismo do Senhor (Mc 1,9-11). A cena do Batismo do Senhor estabelece uma íntima ligação com a da tentação de Jesus. Por isso, Marcos usa o advérbio “logo”, “imediatamente”, “sem tardar” ao falar da tentação de Jesus (v.12). Isto quer dizer que a estada de Jesus no deserto está intimamente ligada à missão a qual Jesus foi chamada. No lecionário dominical, normalmente, não aparece o advérbio “logo”, pois é substituído por “Naquele tempo...”, o que não diz muita coisa exegeticamente. Além disto, o termo “Espírito” é a palavra chave de ambas as cenas. A cena do Batismo acontece no rio de Jordão e a tentação de Jesus acontece na região deserta vizinha do Jordão.


Nós podemos dividir o texto em duas partes. A primeira parte relata a cena da tentação de Jesus (vv.12-13). A segunda parte (vv.14-15) serve de introdução ao relato da vida pública de Jesus.


I. A Cena Da Tentação De Jesus (vv. 12-13)


O relato da tentação é desenvolvido mais amplamente em Mt (Mt 4,1-11) e em Lc (Lc 4,1-13) do que em Marcos.


1. Jesus É Impelido Pelo Espírito De Deus          


A cena da tentação em Mc começa com esta afirmação: “E logo o Espírito impeliu Jesus para o deserto” (v.12). O Espírito que acabou de descer sobre Jesus no seu Batismo (Mc 1,10), impele-o para o deserto. Sabemos da tradição bíblica de que geralmente as pessoas que recebem a missão especial de Deus são conduzidas e transportadas pelo Espírito de Deus, como Elias (1Rs 18,12;2Rs 2,16), Ezequiel (Ez 3,12.14-15;8,3;11,24), Felipe (At 8,39) etc..


Mas em relação a Jesus, o termo usado não é mais “conduzir” ou “transportar”, mas “impelir”. “Impelir”, no seu sentido lexical, significa fazer avançar com força; dar impulso a, empurrar para diante, projetar com força para algum lugar. Isto quer dizer que impelir implica em pressão ou em agir com violência. Este ato de impelir é igual à cena que encontramos na expulsão dos demônios (Mc 1,34), em tratar do membro que provoca escândalo (Mc 9,47), em expulsar os vendilhões do Templo (Mc 12,8), ou na própria expulsão de Adão e Eva do paraíso (Gn 3,34). Com o poder irresistível arrebata Jesus para a solidão, longe do homem para ficar a sós com Deus.


A expressão “O Espírito impeliu Jesus” significa que Jesus é totalmente dominado pelo Espírito de Deus. Jesus se deixa totalmente conduzir ou guiar pelo Espírito de Deus. Tudo o que ele faz e prega é conduzido pela vontade de Deus. Ele é tão dominado e guiado pelo Espírito de Deus a ponto de não poder fazer outra coisa a não ser a própria vontade de Deus. No Evangelho de São João Jesus afirmou: “Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e consumar a sua obra” (Jo 4,34).


Se Jesus se deixa impelir pelo Espírito divino, será que sabemos viver sob impulso do Espírito de Deus? Ou deixamos outro espírito nos conduzir? Embora o poder do Espírito divino seja irresistível para quem o aceita, não será frutificante para quem tem resistência diante do mesmo. Verifiquemos, se em determinada ocasião, o Espírito de Deus falou no nosso coração fortemente ou nos impeliu para fazer algo e se atendemos ou o mesmo encontrou resistência em nós. Para que possamos viver os ensinamentos de Jesus é indispensável deixarmos nos conduzir pelo Espírito de Deus.


2. O Espírito Impele Jesus Para o Deserto


O Espírito impele Jesus para o deserto. Na tradição bíblica o deserto é o lugar da provação ou da verificação e o lugar do encontro com Deus, especialmente nos momentos de dificuldade. O povo eleito tinha sentimento de que não teria sobrevivido na passagem do deserto rumo à Terra prometida, se não houvesse contado com a proteção de Javé (cf. Dt 8,14ss;Jr 2,6). Além disto, o deserto é o lugar onde se tomam as grandes decisões. E no judaísmo posterior, o deserto é também o lugar de moradia dos espíritos (cf. Mt 12,43).
 

Em Mc ocorre várias vezes o deserto. Além de ser o lugar onde acontece o encontro com Deus, também acontece a multiplicação dos pães (Mc 6,35). Jesus chama os discípulos a ficarem sós (Mc 1,35;6,31). O deserto é o lugar de silêncio. E Deus chama e age no silencio e move a história ao impulso das forças armazenadas na solidão com Ele. O silêncio toma o lugar de destaque na vida de Jesus e de seus discípulos.
  

Temos impressão de que, hoje em dia, a inflação verbal suprime o espaço do silêncio e do recolhimento. Além disto, muitas vezes acontece que a nossa própria desordem oferece resistência ao silêncio. Estamos cheios de barulhos ou de ruídos. É preciso que nos calemos para que Deus possa falar e possamos escutar a sua voz. Quando pensamos que Deus ficou calado, não foi Ele que emudeceu, mas nós é que tapamos os ouvidos. Reclamamos que Deus não ouve nossas preces nem responde nossas perguntas, mas, na verdade, nós é que não escutamos suas respostas e não enxergamos suas obras na nossa vida. Na vida são necessárias “paradas” para calar-se. Silenciar é escutar Deus em todo o lugar, até dentro de nós mesmos, onde Ele fala. O silêncio é um caminho para o nosso relacionamento com Deus e para nos encontrarmos. Depois de fazer-se silêncio escuta-se melhor. As palavras precisas e acertadas são frutos de um silêncio.


3. Jesus É Tentado No Deserto

Jesus ficou no deserto durante quarenta dias, e aí foi tentado por Satanás
   

Jesus está no deserto durante quarenta dias, enfrentando as provas (tentação) do adversário (Satanás). Assim, Jesus revive em si mesmo as grandes experiências de provação que aconteceu com o povo de Deus no AT: a provação do dilúvio (Gn 7,17), a prova na passagem do deserto durante quarenta anos (Ex 16,35; Dt 1,3; Nm 14,3-34; Sl 95,10; Ne 9,21), a prova da opressão sob o poder dos filisteus durante quarenta anos(Jz 13,1), Moisés se retirou durante quarenta dias no Montanha de Deus (Ex 24,18;34,28; Dt 9,9) e quarenta dias da caminhada do profeta Elias pelo deserto(1Rs 19,8).


O número quarenta representa uma totalidade ilimitada (4 x 10), ou uma geração. Isto quer nos dizer que Jesus é permanentemente posto à prova durante sua vida terrena, seja pelos próprios parentes e discípulos, seja pelos fariseus (cf. Mc 1,35-38;2,1-3,5;3,20-21.32;8,11;9,19;11,27-33;12,13.15;14,32-42;15,34) ou seja pela própria personificação do mal ou toda força do adversário contra o Reino de Deus (Mc 3,23.26). Mas Jesus venceu todas as provas de sua vida e com isto ele nos abriu o caminho da vitória (cf. Hb 4,15;5,7-9;12,1-4). A proteção de Deus sobre Jesus durante tentação nos garante que Jesus é único capaz de nos ajudar na nossa luta contra as forças do mal que ameaçam controlar nossa vida. Para que isto aconteça devemos nos deixar habitar pelo Espírito de Deus como aconteceu com Jesus.
    

No deserto Jesus foi tentado, mas saiu vitorio. Tentação é toda aquela sugestão interior que procedendo de causas, tanto internas como externas, estimula o homem a pecar. Ela engana o entendimento com ilusões; enfraquecendo-nos a vontade, tornando-a fraca ao cair no comodismo, na negligência, na preguiça etc.; estimulando os sentidos internos principalmente a imaginação com pensamento de sensualidade, de soberba, de ódio, de vingança, etc..


A tentação é uma verificação da fidelidade do homem a Deus. “Nossa maturidade se forja nas tentações. Ninguém conhece a si mesmo se não é tentado; nem pode ser coroado, se não vence; nem vencer, se não luta; nem lutar, se lhe faltam inimigos” (Santo Agostinho, In Ps. 60,30).  Quem é tentado não é propriamente o pecador, mas o homem piedoso, isto é, aquele que caminha com o Senhor permanentemente. Por isso, a tentação é, a partir desta ótica, uma prova da predileção de Deus para com aquele que é tentado (cf. Dt 8,2). Jesus é o Filho de Deus. Apesar disso, ele não está isento de qualquer tipo de tentação. A santidade de Jesus não anula sua condição como um ser humano. A tentação faz o cristão rever mais uma vez sua compreensão do desígnio de Deus e o perigo que possa desviá-lo do caminho de Deus.
   

Nesta vida é impossível escapar do ataque de tentações. Mas uma coisa é certa: tentações que enfrentamos existem não para fazer-nos cair; elas nos fortalecem; não para nos arruinar, mas para nosso bem. Elas são teste para superarmos as barreiras na nossa caminhada rumo ao encontro com Deus e com o irmão. Porque a tentação só pode estimular a pecar, e nunca obriga a vontade. Nenhuma força interna ou externa pode obrigar o homem a pecar. Por isso, podemos vencer sempre as tentações, pois nenhuma delas é superior às nossas forças (cf. 1Cor 10,13). Jesus sentiu tentações, mas não as consentiu.


4. No Deserto Jesus Está Entre Os Animais Ferozes e Os Anjos
       

Mc é o único evangelista que relata que Jesus “estava entre as feras” que não ameaçam a vida de Jesus (v.13). Isto nos indica a vida paradisíaca. Além disto, Mc é o único evangelista que não fala do jejum no deserto, porque quando se vive a alegria (paraíso) não pode haver o jejum, pois viver no paraíso é viver na plena harmonia com Deus. A vitória de Jesus sobre a tentação possibilita o restabelecimento do paraíso perdido. Jesus se torna, assim, o novo Adão (Gn 2,19-20; Sl8), princípio de novas relações e da harmonia universal e cósmico (Is 11,1-9; 35,5-10; 65,25; Jó 5,22; Os 2,16-20; Ez 34,23-28). A presença de Jesus não é uma ameaça para as feras nem as feras para Jesus. Isto acontece porque Jesus vive permanentemente em comunhão com Deus. Por isso, ele se encontra em paz com as feras selvagens tão perigosas para o homem. Isto quer nos dizer que quando vivemos em plena comunhão com Deus, os outros se tornam irmãos nossos e não são ameaças para nós. São Francisco de Assis chamava tudo de irmão/irmã: Irmão sol, Irmã lua, irmã morte etc..
    

E os anjos, de guardas do paraíso que proibiam a entrada de Adão e Eva no paraíso depois de sua expulsão, agora, são servidores de Jesus (cf. Gn 3,24; Sl 91;1Rs 19,5-9). O universo inteiro volta para sua harmonia primordial e o homem convive harmoniosamente com as forças do alto (anjos) e com as potências inferiores (feras). Os homens podem voltar a conviver com os animais ferozes, pois eles não se tornam mais adversários, mas próximos (cf. Sl 91;Dn 6,17-25). O segredo dessa comunhão cheia de paz e de harmonia é deixar-se conduzir totalmente pelo Espírito de Deus.


II. A segunda parte (vv.14-15) serve de introdução ao relato da vida pública de Jesus
    

Depois que terminou seu retiro no deserto, Jesus começa a proclamar a Boa Notícia.  É a Boa Notícia porque Deus se importa com todos; porque Deus ama a todos e quer salvá-los (cf. Jo 3,16). Ninguém está excluído deste amor que salva e liberta. Ninguém fica cortado da atenção amorosa de Deus nem mesmo os que cometeram grandes crimes desde que voltem novamente para Deus: “Eu sou o que apaga as tuas transgressões por amor de mim, e já não me lembro dos teus pecados”, diz-nos Senhor (Is 43,25). Deus sempre oferece novas chances para todos, pois ele é amor (cf. 1Jo 4,8.16).
     

No entanto, toda dádiva divina, toda oferta de amor de Deus espera uma resposta da parte dos homens. O amor de Deus exige amor igual, tanto a Ele como aos próximos (cf. Mc 12,30s). Eis porque segue à proclamação da Boa Nova o postulado da conversão e da fé no Evangelho: “Convertei-vos e crede no Evangelho” (v.15). Aqui a conversão está intimamente ligada à fé. A conversão é sempre sinal de que alguém crê em Deus. Por isso, a falta de disposição para a conversão é sinal da falta de fé.
   

Converter-se significa colocar-se em dia com as exigências da justiça, deixar de explorar o próximo e reparar, se necessário, as injustiças cometidas (cf. Lc 19,8); significa começar a amar de um modo diferente, mudar de vida para o bem. Jesus pede a conversão a quem mantém escondida uma vida desonesta só para conservar ao mesmo tempo pecado e bom nome; a quem enche a própria vida de pecados carnais; a quem macula o próprio matrimônio com infidelidade.
     

Devemos estar convencidos de que não estamos sozinhos nesta luta contra o mal dentro e fora de nós. Jesus está conosco nesta luta, aquele que venceu as tentações no deserto. Com ele e somente com ele é que poderemos vencer todas as provas e tentações nesta vida. Mas há uma condição: deixarmo-nos totalmente impelir pelo Espírito de Deus a exemplo do próprio Jesus.

P. Vitus Gustama,svd

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