terça-feira, 3 de março de 2015

05/03/2015

 
SOLIDARIEDADE NOS LIBERTA DA GANÂNCIA QUE MATA A FRATERNIDADE


Quinta-Feira da II Semana da Quaresma

 

Textos: Jr 17,5-10; Lc 16,19-31

Naquele tempo, disse Jesus aos fariseus: 19“Havia um homem rico, que se vestia com roupas finas e elegantes e fazia festas esplêndidas todos os dias. 20Um pobre, chamado Lázaro, cheio de feridas, estava no chão, à porta do rico. 21Ele queria matar a fome com as sobras que caíam da mesa do rico. E, além disso, vinham os cachorros lamber suas feridas. 22Quando o pobre morreu, os anjos levaram-no para junto de Abraão. Morreu também o rico e foi enterrado. 23Na região dos mortos, no meio dos tormentos, o rico levantou os olhos e viu de longe a Abraão, com Lázaro ao seu lado. 24Então gritou: ‘Pai Abraão, tem piedade de mim! Manda Lázaro molhar a ponta do dedo para me refrescar a língua, porque sofro muito nestas chamas’. 25Mas Abraão respondeu: ‘Filho, lembra-te de que recebeste teus bens durante a vida e Lázaro, por sua vez, os males. Agora, porém, ele encontra aqui consolo e tu és atormentado. 26E, além disso, há grande abismo entre nós: por mais que alguém desejasse, não poderia passar daqui para junto de vós, e nem os daí poderiam atravessar até nós’. 27O rico insistiu: ‘Pai, eu te suplico, manda Lázaro à casa de meu pai, 28porque eu tenho cinco irmãos. Manda preveni-los, para que não venham também eles para este lugar de tormento’. 29Mas Abraão respondeu: ‘Eles têm Moisés e os profetas, que os escutem!’ 30O rico insistiu: ‘Não, Pai Abraão, mas se um dos mortos for até eles, certamente vão se converter’. 31Mas Abraão lhe disse: ‘Se não escutam a Moisés, nem aos Profetas, eles não acreditarão, mesmo que alguém ressuscite dos mortos”’. (Lc 16,19-31)

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Estamos acompanhando Jesus no seu Caminho (êxodo) para Jerusalém onde ele será crucificado, morto e ressuscitado (Lc 9,51-19,28). Na passagem do evangelho deste dia Jesus fala sobre o perigo da riqueza/bens materiais ou de dinheiro. Este tema é repetido no evangelho de Lucas para enfatizar o peso do conteúdo que quer se passar para os ouvintes para que tenham consciência disso.


O dinheiro e todos os demais bens deste mundo são bons, pois sua matéria prima foi criada por Deus. Mas a grande questão é de que maneira conseguimos -los (dinheiro justo ou injusto), como usamos os bens (esbanjar no ritmo de consumismo sem freio?) e qual é o objetivo ao usá-los? (para ajudar ou para dominar os outros?). Os bens materiais podem nos ajudar a conseguirmos nossas metas fundamentais, mas também podem nos desviar do bem que devemos praticar.


Segundo o tom de todo o evangelho de Lucas, o bom uso que temos que fazer com os nossos bens é compartilhá-los com os necessitados. Não temos que converter o dinheiro em fim. Ele é um meio e como tal, ele é relativo e não absoluto, pois, de fato, ele não pode fazer nada assim que terminarmos nossa caminhada nesta terra. São os que ficam neste mundo que determinarão o uso do dinheiro, pois perderemos o poder sobre ele nesse dia. A ambição sem medida, a cobiça e a avareza não devem ter lugar na vida de qualquer cristão. Se não, descuidaremos das coisas de Deus ou dos valores superiores que dignificam o ser humano. Não podemos servir a dois senhores. Os que aceitam o Reino de Deus são os que não estão cheios de si mesmos nem de ambições humanas.


Como foi dito anteriormente na passagem do evangelho deste dia Jesus nos fala sobre o perigo da riqueza. Trata-se de uma severa advertência para todos. Para entender a severa advertência de Jesus sobre o perigo da riqueza precisamos partir de uma consciência plena de que Jesus ama a todos sem exceção (cf. Jo 3,16; 10,10). Quanto maior se tornar um perigo, maior será a advertência de Jesus por amor. Por isso, Deus não é uma ameaça para os homens, especialmente para os ricos ou um concorrente deles, mas Ele é uma potência de amor que constrói todos os homens. Acima de tudo, Deus é o Pai de todos. Todas as riquezas do universo são de Deus, pois Ele é o Criador de tudo isso. Por isso, ao chamar a atenção dos ricos apegados Jesus quer evitá-los do perigo mortal, se eles continuarem a se deixar aprisionar pelo dinheiro. Jesus quer lhes dizer assim: “Atenção com o dinheiro! Atenção com a riqueza! É uma arma perigosíssima!”.


Para falar deste tema Jesus conta uma parábola na qual o rico e o pobre Lázaro são seus protagonistas.


Sabemos que, neste mundo, com o dinheiro se possui tudo: poder, honra, influência, etc.. O dinheiro é a medida das coisas materiais e nos afeta pessoalmente. Quem põe a mão sobre o dinheiro, põe sua mão sobre as pessoas e consequentemente sobre sua própria salvação. O poder e a riqueza têm capacidade de transtornar a vista. Mas a Palavra de Deus nos faz encontrarmos o irmão.


O Papa Francisco nos alerta: O grande risco do mundo atual, com sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada. Quando a vida interior se fecha nos próprios interesses, deixa de haver espaço para os outros, já não entram os pobres, já não se ouve a voz de Deus, já não se goza da doce alegria do seu amor, nem fervilha o entusiasmo de fazer o bem. Este é um risco, certo e permanente, que correm também os crentes. Muitos caem nele, transformando-se em pessoas ressentidas, queixosas, sem vida. Esta não é a escolha duma vida digna e plena, este não é o desígnio que Deus tem para nós, esta não é a vida no Espírito que jorra do coração de Cristo ressuscitado” (Evangelii Gaudium no.2).


A parábola sobre Lázaro e o rico quer nos alertar que o mau uso do dinheiro, usando-o e abusando-o egoisticamente e individualisiticamente aliena o homem, rompe toda possibilidade de comunicação com Deus e de toda comunicação mais humana com os demais. O egoísmo obscurece o coração a ponto de não poder ler os sinais que Deus oferece ao homem, inclusive os milagres diários. O egoísmo fecha todas as antecipações de Deus sobre o homem.


Na parábola, os cachorros conseguem enxergar o pobre Lázaro do que o rico. O animal consegue ver o homem, mas o homem não consegue ver o próprio homem. O homem olha para as coisas e não para os homens. O dinheiro é temível, não pelo que conseguimos com ele e sim porque chega a possuir o homem de tal maneira que é o único que marca a pauta de sua vida. O apego aos bens materiais faz esquecer o sentido de Deus, o sentido do homem e o próprio sentido da liberdade: se cai na escravidão. “Quando muitos morrem por falta de pão, não é porque Deus deixa faltar trigo, mas porque nós homens deixamos que falte o amor” (René Juan Trossero).


O texto do evangelho de hoje quer nos recordar também que não temos a ultima palavra. É Deus Quem tem esta palavra. Deus tem a ultima palavra sobre a história particular de cada ser humano e a história de todos os homens, em geral.


Por tudo isso, é difícil não sentir certo estremecimento ao considerar a ultima frase da parábola à luz da celebração da Eucaristia: “Se não escutam a Moises, nem aos Profetas, eles não acreditarão, mesmo que alguém ressuscite dos mortos”. Nós que celebramos a Eucaristia escutamos a Moisés, aos Profetas, isto é, todo o conjunto do AT, e temos entre nós a presença do Ressuscitado entre os mortos, Jesus Cristo. Mas será que nos deixamos convencer? Celebrar a Eucaristia é algo extraordinariamente comprometido; é realmente um juízo de Deus sobre nós. Se o coração não tem nenhum laço espiritual, tudo será inútil. Quem não crê na Palavra de Deus tampouco mudará de atitude por um milagre.


Portanto, os cinco irmãos do rico, nesta parábola, representam todos os homens deste mundo, todos nós, que podemos correr a mesma sorte de nosso irmão defunto que era rico para si, mas pobre para Deus e para os demais. Nós somos os irmãos deste rico. Peçamos a Deus que a preocupação demasiada pelos bens materiais não nos tornem cegos diante do necessitado que está junto a nós e que não nos torne surdos ao chamamento de Cristo para compartilhar nossos bens com os necessitados. Os necessitados nos ajudam a sermos mais humanos e conseqüentemente mais divinos neste mundo. O necessitado desperta nossa humanidade que está muitas vezes adormecida. E não esqueçamos: é a Palavra de Deus que nos questiona continuamente e que nos permite a mudança de um coração egoísta para um coração capaz de amar e de partilhar. A Quaresma é o tempo oportuno para abrir o coração para a graça de Deus e estender nossa mão para ajudar os necessitados.


A advertência de Jesus no evangelho de hoje é um convite para a solidariedade. E o pecado que podemos cometer contra a solidariedade é a apatia social e política. Isto acontece quando um se encerra na própria vida e fica cego e insensível diante da frustração, da humilhação, da fome e do desespero dos demais seres humanos que são filhos e filhas de Deus e, portanto, nossos irmãos. Quem não vê o pobre, não será visto por Deus. Quem não estende a mão para o pobre a fim de ajudá-lo, para ele não será estendida a mão de Deus para abençoá-lo. “O inferno é o sofrimento de não poder mais amar” (Dostoievski). “Os famintos, os maltrapilhos, os mendigos, os peregrinos, os prisioneiros, os doentes... são teus “batedores” no Reino do céu” (Santo Agostinho: Serm. 11,6; cf. Mt 25,40.45).


Em vez da ganância e do consumismo egoísta das coisas deste mundo somos chamados a nos vestir de despojamento e de solidariedade. Saber ajudar os outros com o que temos e somos é a expressão de nossa riqueza interior. Posso dizer que as alegrias mais belas e espontâneas, que vi ao longo da minha vida, são as alegrias de pessoas muito pobres que têm pouco a que se agarrar. Recordo também a alegria genuína daqueles que, mesmo no meio de grandes compromissos profissionais, souberam conservar um coração crente, generoso e simples. De várias maneiras, estas alegrias bebem na fonte do amor maior, que é o de Deus, a nós manifestado em Jesus Cristo” (Papa Francisco: Evangelii Gaudium no.7). Uma das piedades cristãs que devemos praticar principalmente durante a Quaresma é a caridade fraterna: solidarizar-se com os necessitados.
 
P. Vitus Gustama,svd

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