sábado, 24 de outubro de 2015

26/10/2015
MISERICÓRDIA DIVINA NOS SALVA E NOS CHAMA A CAMINHAR


Segunda-Feira Da XXX Semana Comum 


Evangelho: Lc 13,10-17


Naquele tempo:10 Jesus estava ensinando numa sinagoga, em dia de sábado. 11 Havia aí uma mulher que, fazia dezoito anos, estava com um espírito que a tornava doente. Era encurvada e incapaz de se endireitar. 12 Vendo-a, Jesus chamou-a e lhe disse: 'Mulher, estás livre da tua doença.' 13 Jesus colocou as mãos sobre ela, e imediatamente a mulher se endireitou, e começou a louvar a Deus. 14 O chefe da sinagoga ficou furioso, porque Jesus tinha feito uma cura em dia de sábado. E, tomando a palavra, começou a dizer à multidão: 'Existem seis dias para trabalhar. Vinde, então, nesses dias para serdes curados, mas não em dia de sábado.' 15 O Senhor lhe respondeu: 'Hipócritas! Cada um de vós não solta do curral o boi ou o jumento, para dar-lhe de beber, mesmo que seja dia de sábado? 16 Esta filha de Abraão, que Satanás amarrou durante dezoito anos, não deveria ser libertada dessa prisão, em dia de sábado?' 17 Esta resposta envergonhou todos os inimigos de Jesus. E a multidão inteira se alegrava com as maravilhas que ele fazia.
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Continuamos a acompanhar e a escutar as lições de Jesus durante a sua última viagem para Jerusalém (Lc 9,51-19,28), pois lá ele será crucificado, morto, mas glorificado pelo bem que faz (cf. At 10, 38) e pelo amor incondicional ao homem (cf. Jo 3,16; 13,1)




As comunidade de Lucas são comunidades de pobres com alguns ricos. Há um contraste que aparece, sobretudo, no evangelho de Lucas: de um lado, os pobres, famintos, perseguidos, aflitos (Lc 6,20-23) e, do outro, os ricos (Lc 12,16-21) que se banqueteiam sem se preocupar com a miséria dos outros (Lc 16,19-31); Comunidades com pessoas cansadas, medrosas, desanimadas e perdidas por causa da situação na qual viviam (Lc 24,13-24).




Deus Da Misericórdia Nos Visitou Também na Nossas Dores




No texto do evangelho de hoje Lucas nos relatou uma mulher sofrida durante dezoito anos que Jesus curou no Sábado. No seu evangelho Lucas relatou três vezes a cura ocorrida no Sábado: a cura do homem com a mão paralisada (Lc 6,6-11); a cura de uma mulher encurvada (13,10-17); e a cura de um hidrópico (14,1-6).




Hoje estamos diante de uma mulher encurvada  e sofrida durante dezoito anos. É todo um símbolo. É uma mulher que não pode endireitar-se nem levantar sua cabeça para o céu. Uma pessoa encurvada só pode olhar para o chão e sem condições para olhar para o céu. É uma mulher com uma perspectiva limitada e sem horizontes pelo peso carregado nas costas. É uma mulher que carrega um peso insuportável para sua vida que a incapacita de olhar além do chão. É uma mulher cansada e oprimida, esmagada e deprimida. É uma mulher que recebia, em seus ombros, fardos incontáveis. É um símbolo de todas as mulheres na história. É um símbolo de todos os que suportam ou carregam pesos intoleráveis.




Em qualquer lugar do planeta terra podemos encontrar homens e mulheres curvados pelo peso da fome e da pobreza, pela miséria e exploração, pelo abandono e exclusão de uma convivência mais humana e familiar, pela falsidade e mentira, pela perseguição e a tortura. Homens e mulheres curvados pelo peso dos filhos cheios de problemas e pelas preocupações familiares diante de tantas dificuldades que a vida impõe. Homens e mulheres curvados pelo peso de trabalho de escravidão e de exploração. Homens e mulheres encurvados pelo esforço e pela luta para não faltar pão para os filhos na mesa da família. Homens e mulheres encurvados pela incompreensão e solidão. Homens e mulheres encurvados pelo vício desenfreado e pelos apegos que cria uma vida vazia. Homens e mulheres encurvados pelos fracassos e pelas tristezas. Homens e mulheres curvados pela falta de saúde. Homens e mulheres encurvados pela violência sem piedade que causa tantas lágrimas e tristezas.




Diante de tudo isso, Jesus não fica insensível. Ele não espera o pedido da mulher para ser curada, como aconteceu com outros milagres. Ele nem quer saber se é num sábado ou qualquer dia sagrado na concepção dos homens. Jesus não quer saber das veneráveis prescrições religiosas por sagradas que pareçam ser. Nenhuma lei sagrada, nenhum dia santo de guarda, na concepção do homem, é capaz de impedir Jesus de fazer o bem e de salvar pessoas em necessidade. Na sinagoga Jesus se depara com a miséria da mulher. Cheio de misericórdia, Jesus chama a mulher para si e dirige-lhe a palavra e impõe-lhe as mãos. Jesus é Deus que visita seu povo (Lc 1,68.78; 7,16) e se aproxima do seu povo para salvá-lo. Deus não nos abandona mesmo que estejamos cercados por alguma dificuldade que parece sem saída. Diante da mulher sofrida Jesus se compadece e toma a iniciativa, mesmo que seja no dia de Sábado: “Vendo a mulher, Jesus chamou-a e lhe disse: ‘Mulher, estás livre da tua doença’. Jesus pôs as mãos sobre ela, e imediatamente a mulher se endireitou e começou a louvar a Deus”. A partir de agora em diante ela pode olhar para o céu, aquilo que ela não conseguia fazer, para louvar a Deus.




O Bem Deve Ser Praticado Durante Vinte Quatro Horas Por Dia e Em Qualquer Lugar e Situação




O chefe da sinagoga se preocupa com o que pode e o que não pode fazer no Sábado colocando de lado a necessidade humana e a vida que está em jogo. Este chefe religioso olha muito mais para as regras e proibições do que para um ser humano em perigo.




Esse chefe de sinagoga é um manipulador religioso. O manipulador trabalha para adormecer sua vítima. A manipulação está sempre apontada para duas áreas: o fazer e o ser. Os manipuladores são pessoa que querem ter controle sobre sua vida. O manipulador costume aparecer como alguém que é protetor, bom, que quer “amá-lo”, que dá coisas, mas depois ele cobra tudo de você, pois ele quer recompensa. Aquele que dá sinceramente nunca vai pedir nada em troca. Voltemos nosso olhar para as pessoas e continuemos em busca de relações sadias. Aprender a nos cuidar e a cuidar dos outros é trabalho difícil, mas não impossível, e devemos fazê-lo a exemplo de Jesus.




Além disso, quando nos preocupamos apenas com as regras e preceitos religiosos e não com o bem que devemos praticar é porque nosso coração está vazio de Deus. “O homem exterior é o homem inimigo e mau que semeou e lançou o joio... A carne recomenda o vício e a maldade; o espirito inculca o amor de Deus, a alegria, a paz e toda a virtude. O homem interior é a arvore boa que produz sempre frutos bons e nunca maus, visto querer a bondade e aspirar à bondade. O homem exterior é a arvore má que em tempo algum pode dar fruto bom" (Mestre Eckhart: O Livro Da Divina Consolação 4ª Edição p. 91. Ed.Vozes,1999)




O chefe da sinagoga, o homem religiosos, não se compadece com a mulher sofrida, mas se preocupa em cumprir as leis religiosas. “O pior é educar por métodos baseados no temor, na força, no poder, porque se destrói a sinceridade e a confiança, e só se consegue uma falsa submissão” (Albert Einstein).  Por isso, Jesus o chama de “hipócrita”: “Hipócritas! Cada um de vós não solta do curral o boi ou o jumento, para dar-lhe de beber, mesmo que seja dia de sábado? Esta filha de Abraão, que Satanás amarrou durante dezoito anos, não deveria ser libertada dessa prisão, em dia de sábado?”. Ama menos quem se preocupa somente com as regras e proibições. O Deus de Jesus não é o Deus de regras e sim o Deus de amor (Jo 3,16; 1Jo 4,8.16). O que agrada a Deus não é o cumprimento das regras por sagradas que elas pareçam ser, e sim a vivência do amor fraterno. É a preocupação pela dignidade humana. Deus fica contente com a libertação de seus filhos. Para Jesus a Lei dever ser humana e torna o ser humano em irmão do outro.




Deus não quer que sejamos encurvados. Deus não quer que sejamos oprimidos e escravizados, nem deprimidos e prostrados no chão de uma vida sem sentido. Ele nos quer livres. Ele quer que estejamos em pé e de pé diante dessa vida para ver que a vida é maior do que chão para onde dirigíamos nosso olhar. Estar em pé ou estar de pé significa liberdade, confiança, transcendência. Deus não nos criou para ficarmos encurvados, e sim para que vivamos com dignidade, para que sejamos livres (cf. Mt 11,28). Para estar de pé durante esta vida temos que aprender a ficar de joelhos diante de Deus. Encurvar-se diante de Deus nos faz erguermo-nos diante desta vida para louvar a Deus que nos ama com seu amor misericordioso incondicionalmente.




Um dos imperativos que mais se repetem na história da salvação é “Levanta-te!”. Podemos ter fracassos na vida, podemos cair no chão, mas é preciso que nos levantemos, pois a misericórdia divina está nos esperando e a esperança nos chama a caminharmos na direção do futuro de Deus que nos salva.


P. Vitus Gustama,svd

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