quinta-feira, 29 de outubro de 2015

31/10/2015

SER HUMILDE É VIVER CONFORME O PRÓPRIO SER E TER ATITUDE DE APRENDIZAGEM

Evangelho: Lc 14,1.7-11

1 Aconteceu que, num dia de sábado, Jesus foi comer na casa de um dos chefes dos fariseus. E eles o observavam. 7 Jesus notou como os convidados escolhiam os primeiros lugares. Então contou-lhes uma parábola: 8 “Quando fores convidado para uma festa de casamento, não ocupes o primeiro lugar. Pode ser que tenha sido convidado alguém mais importante do que tu, 9 e o dono da casa, que convidou os dois, venha te dizer: ‘Dá o lugar a ele’. Então ficarás envergonhado e irás ocupar o último lugar. 10 Mas, quando fores convidado, vai sentar-te no último lugar. Assim, quando chegar quem te convidou, te dirá: ‘Amigo, vem mais para cima’. E isto vai ser uma honra para ti diante de todos os convidados. 11 Porque quem se eleva será humilhado e quem se humilha será elevado”.
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Jesus continua ainda com suas últimas lições/instruções dadas aos seus discípulos no seu Caminho para Jerusalém (Lc 9,51-19,58). A intenção de Jesus ao dar tais lições é preparar os discípulos para a futura missão na ausência física de Jesus nesta terra. E estas lições servem também como instrução catequética-catecumenal para todos os cristãos de todos os tempos e épocas. Por ser tratarem de lições importantes Lucas não tem pressa de relatar a chegada de Jesus em Jerusalém.        
        
A lição que Lc nos apresenta através da passagem do evangelho deste dia é sobre a humildade.
        
Para falar destes temas Lc parte de uma refeição preparada por um fariseu para Jesus como seu convidado especial. Lc nos relata que Jesus é convidado por três vezes para uma refeição na casa dos fariseus (cf. Lc 7,36-50; 11,37-53; 14,7-14). O fariseus convida Jesus para uma refeição não tem intenção de partilhar e sim para observar como Jesus se comporta: “Aconteceu que, num dia de sábado, Jesus foi comer na casa de um dos chefes dos fariseus. E eles o observavam” (Lc 14,1). O comportamento dos fariseus de ficar vigiando a vida de Jesus nos mostra que eles têm muita resistência diante da mensagem de Jesus. Por isso, eles querem procurar algum ponto fraco na vida de Jesus. Quando não gostamos de alguém ou não o amamos, sempre colocamos em evidência suas fraquezas. Mas quando gostamos de alguém ou o amamos de verdade, destacamos muitas suas qualidades do que suas fraquezas.

É interessante saber que se os fariseus observavam Jesus. Mas Jesus também observava, no sentido positivo, o modo de viver dos fariseus. Eles gostam de poder e por isso, eles “respeitam” quem tem mais poder do que a sociedade em geral. Eles “respeitam” quem tem prestígio e não dão atenção para os demais. Por isso, eles gostam de ser cumprimentados e reconhecidos. São mendigos da honra. Eles se esquecem que somente quem vive de acordo com os valores, quem tem qualidade de vida ética e moral espontaneamente será respeitado pela população ou sociedade em geral. Será que não acontece a mesma coisa no nosso tempo?
      
No mundo semita o banquete ou a refeição é o espaço do encontro fraterno, onde os comensais partilham do mesmo pão (companheiro é aquele que come do mesmo pão). E o pão/alimento é fruto dos processos do trabalho humano e é distribuído a cada membro da família para sua subsistência. A refeição é o espaço onde se manifestam e estabelecem laços de comunhão, de proximidade, de familiaridade e de fraternidade. Em qualquer povo, o primeiro gesto de hospitalidade e de fraternidade é o convite para a mesma mesa, para a partilha daquele alimento que transforma estranhos em amigos. Sob o aspecto físico, a refeição é indispensável para a sobrevivência; no aspecto social, ela sela uma boa relação, uma aliança. Todas as alianças no mundo semita sempre se finalizam com uma refeição. Tanto que não convidamos qualquer pessoas para fazer refeição conosco.

Percebendo o olhar clínico dos fariseus dirigido a ele, Jesus disse-lhes, então: “Quando fores convidado para uma festa de casamento, não ocupes o primeiro lugar. Pode ser que tenha sido convidado alguém mais importante do que tu, e o dono da casa, que convidou os dois, venha te dizer: ‘Dá o lugar a ele’. Então ficarás envergonhado e irás ocupar o último lugar”. Não persigam a honra e os primeiros lugares, mas sejam humildes! Não vivam  apenas na aparência , pois todos vão perceber que vocês são pessoas vazias por dentro! Sejam humildes! Humildade é ter atitude de aprendizagem. E a aprendizagem é o caminho de crescimento e de sucesso. Ser humilde é ser sábio. Sempre estamos em tempo de aprender, em tempo de desenvolver nossos talentos ou aptidões. Quem vive aprendendo, questiona até as próprias certezas e crenças.               
        
O vocábulo “humildade” deriva do latim humilis, que por sua vez, deriva de húmus: chão, terra. E o húmus é a parte nutritiva da terra. É o lugar em que, recebendo os cuidados adequados, calor e umidade, germina a semente saudavelmente.
        
A humildade consiste em saber ocupar o próprio lugar de criatura; em reconhecer que o que somos e temos é um dom de Deus por causa de seu amor. Humilde é saber ser o que cada um é e saber lutar por ser o que Deus espera que sejamos. Humilde é aquele que se encontra bem consubstanciado com a terra. É aquele que está com os pés bem firmes no chão, é aquele que pisa firme, com segurança, e confiança. Ele não se despreza. Ser humilde significa assumir com simplicidade o nosso lugar, colocar/pôr os próprios dons ao serviço de todos com simplicidade e com amor sem nunca humilhar os outros com a própria superioridade. Por isso, a humildade é refúgio e alimento do ser. É na humildade que germinam nossos autênticos valores. A humildade é uma forma de ser por dentro. Por isso, Santo Agostinho nos alerta: “Simular humildade é a maior das soberbas”.  

A humildade nos leva ao amor. “Onde está a humildade, está também a caridade”, dizia Santo Agostinho. Sem a humildade o eu ocupa todo o espaço disponível e vê os outros apenas como objetos para serem usados ou aproveitados ou como inimigos que precisam ser eliminados. A humildade é um esforço pelo qual eu tento me libertar das ilusões que tem sobre mim mesmo. A grandeza do humilde é que ele vai ao fundo de sua pequenez, de sua miséria, de seu nada. A partir daí ele se esforça para cresce. Por isso, a humildade não é ser pobre. É ter atitude de aprendizagem permanentemente.  

A humildade é a virtude que atrai a simpatia dos homens e as bênçãos de Deus: “Filho, na medida em que fores grande, deverás praticar a humildade, e assim, encontrarás graça diante do Senhor... pois é aos humildes que Ele revela seus mistérios e... é glorificado pelos humildes” (Eclo 3,20s). O caminho à verdadeira exaltação é a humildade: “Quem se eleva será humilhado e quem se humilha será elevado” (Mt 14,11).

A pessoa humilde é que estabelece relações que trazem a felicidade, que acabam com o egoísmo, com a competição, com a ostentação, e fazem reinar no mundo as atitudes de intercâmbio generoso dos dons de Deus.


P. Vitus Gustama,svd

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