quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Domingo,11/10/2015
 
BENS MATERIAIS E O SEGUIMENTO

XXVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM ANO “B”

    

I Leitura: Sb 7,7-11

7 “Orei, e foi-me dada a prudência; supliquei, e veio a mim o espírito da sabedoria. 8 Preferi a Sabedoria aos cetros e tronos e, em comparação com ela, julguei sem valor a riqueza; 9 a ela não igualei nenhuma pedra preciosa, pois, a seu lado, todo o ouro do mundo é um punhado de areia e, diante dela, a prata será como a lama. 10 Amei-a mais que a saúde e a beleza, e quis possuí-la mais que a luz, pois o esplendor que dela irradia não se apaga. 11 Todos os bens me vieram com ela, pois uma riqueza incalculável está em suas mãos”.


II Leitura: Hb 4,12-13

12 A Palavra de Deus é viva, eficaz e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes. Penetra até dividir alma e espírito, articulações e medulas. Ela julga os pensamentos e intenções do coração. 13 E não há criatura que possa ocultar-se diante dela. Tudo está nu e descoberto aos seus olhos, e é a ela que devemos prestar contas.
                                 

Evangelho: Mc 10,17-30

Naquele tempo, 17 quando Jesus saiu a caminhar, veio alguém correndo, ajoelhou-se diante dele e perguntou: “Bom Mestre, que devo fazer para ganhar a vida eterna?” 18 Jesus disse: “Por que me chamas de bom? Só Deus é bom, e mais ninguém. 19 Tu conheces os mandamentos: não matarás; não cometerás adultério; não roubarás; não levantarás falso testemunho; não prejudicarás ninguém; honra teu pai e tua mãe”. 20 Ele respondeu: “Mestre, tudo isso tenho observado desde a minha juventude”. 21 Jesus olhou para ele com amor, e disse: “Só uma coisa te falta: vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu. Depois vem e segue-me!” 22 Mas quando ele ouviu isso, ficou abatido e foi embora cheio de tristeza, porque era muito rico.  23 Jesus então olhou ao redor e disse aos discípulos: “Como é difícil para os ricos entrar no Reino de Deus!” 24 Os discípulos se admiravam com estas palavras, mas ele disse de novo: “Meus filhos, como é difícil entrar no Reino de Deus! 25 É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus!” 26 Eles ficaram muito espantados ao ouvirem isso, e perguntavam uns aos outros: “Então, quem pode ser salvo?” 27 Jesus olhou para eles e disse: “Para os homens isso é impossível, mas não para Deus. Para Deus tudo é possível”.  28 Pedro então começou a dizer-lhe: “Eis que nós deixamos tudo e te seguimos”.  29 Respondeu Jesus: “Em verdade vos digo, quem tiver deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos, campos, por causa de mim e do Evangelho, 30 receberá cem vezes mais agora, durante esta vida — casa, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, com perseguições — e, no mundo futuro, a vida eterna.
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No contexto da Igreja dos séculos I e II, o episódio do chamamento era relido à procura de uma resposta à interrogação: quais são as condições para salvar-se? Destaca-se no texto evangélico deste domingo o tema da posse dos bens: qual é o relacionamento entre a posse das riquezas, a vida eterna e o seguimento de Jesus? Esses problemas foram sentidos com muita seriedade e urgência nas primeiras comunidades cristãs.


O nosso texto começa com estas palavras: “Ao retomar o seu caminho...”. Jesus está no caminho que o levará a Jerusalém, à morte. O seguimento significa seguir ou trilhar o caminho de um mestre até as últimas consequências de doação de si. Jesus passou a vida neste mundo fazendo o bem (cf. At 10,38). Esse é o caminho de Jesus. Por isso, este texto pode ser colocado sob o título: o caminho rumo à vida para os discípulos.


Estando Jesus nesse caminho, alguém (sem nome, que pode ser qualquer um de nós) correu e ajoelhou-se, em atitude de reverência, perguntando a Jesus: ”Bom mestre, que farei para herdar a vida eterna ?” É uma pergunta que os jovens faziam aos rabis, quando se apresentavam para iniciarem a formação acadêmica nas escolas hebraicas: que devo fazer? No evangelho de Mateus o jovem rico diz: “Mestre, que farei de bom para ter a vida eterna ?” (Mt 19,16).


Antes de responder à pergunta desse rico, Jesus se cautela diante do apelativo “bom”: “Por que me chamas bom? Ninguém é bom senão só Deus”. Essa precisão servirá para se compreender a resposta que Jesus fará a esse rico. Esta observação de Jesus corresponde perfeitamente à concepção bíblica e judaica segundo a qual só Deus é chamado bom, porque ele usa de misericórdia, socorre os pobres e defende os fracos (cf. Dt 10,18). Por isso, a única condição para entrar na vida eterna é imitar o único bom, Deus, isto é, ser misericordioso, ser solidário, ser compassivo, ser irmão do outro, ser próximo de todos. A fidelidade a Deus é exercida no amor ao próximo, síntese dos mandamentos.


Jesus prossegue, indicando ao seu interlocutor o caminho para “herdar” a vida definitiva junto a Deus, e citou só os mandamentos que se referem aos deveres para com o próximo (v.19). O rico responde: “Mestre, tudo isso eu tenho guardado desde a minha juventude” (v.20). A palavra “juventude” ofereceu a Mateus a oportunidade para fazer do rico um “jovem” que inicia o caminho cristão (cf. Mt 19,16-30).
 

E os deveres para com Deus? A resposta da tradição evangélica é conhecida: a maneira concreta de amar a Deus é amar e ser fiel ao homem no qual Deus se torna nosso próximo (cf. Lc 10,25-37: o bom samaritano). Neste caso, aquele que tem observado “todos” os mandamentos que dizem respeito ao próximo deveria estar no caminho da vida eterna. No entanto, Jesus lhe propõe o teste definitivo.


O texto prossegue: “Fitando-o, Jesus o amou e disse:’ uma só coisa te falta: vai, vende o que tens, dá aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me’” (v.21). “Fitar” é o mesmo que cravar, admirar, fixar a atenção e o pensamento, ficar imóvel. Esse olhar intenso de Jesus é típico do evangelho de Marcos; ele é um sinal de amor para com um homem justo, disponível para o reino de Deus. Marcos apresenta algumas pessoas que se aproximam com simpatia de Jesus e estão no limiar do reino de Deus (cf. Mc 12,34). Mas eles ainda  estão no âmbito judaico. Quem observa os mandamentos é um bom judeu, mas ainda não entrou em comunhão com Jesus, não se tornou cristão. O sinal distintivo da identidade do discípulo é seguir a Jesus, isto é, ficar envolvido em seu destino, seu modo de amar e de ser fiel ao outro homem até o testemunho supremo da cruz.


A diferença entre a renúncia aos bens como estilo de vida e o seguimento evangélico está nessas duas palavras de Jesus: “dá-os aos pobres”. Se nos detivermos na primeira: “vai e vende tudo o que tens”, ainda estamos no limiar do evangelho que para termos liberdade interior, nos afastamos de todas as coisas e preocupações materiais. A novidade evangélica é o convite: “dá aos pobres, porque assim imitas o único bom, Deus; depois vem e segue-me”. Trata-se de seguir aquele que, pelos pobres, deixou não só sua atividade, a segurança social e os laços de parentesco, mas também entrega sua própria existência como dom de amor pelos muitos, pela libertação deles (cf. Mc 10,45). Não simplesmente o estar livre dos bens, para não ter aborrecimento ou preocupação, para dedicar-se às coisas espirituais. Essa seria a escolha sapiencial. A escolha religiosa evangélica é amar como ama Deus, bom e “perfeito”. Nessa perspectiva, dar os bens aos pobres é um gesto de amor. Para quem possui riquezas, esta fidelidade e amor para com o outro, no seguimento de Jesus, concretamente se realizam, não na renúncia estoica (sapiencial) ou ascética, mas no doar os bens aos pobres. Esta é a realização de seu amor para com o próximo. Nesta perspectiva, a observância dos mandamentos não é mais um meio para se garantir um privilégio espiritual ou uma dignidade moral, mas é a expressão de amor e fidelidade ao próximo. O próximo é a passagem obrigatória para chegar até Deus. Isto agora é possível no seguimento de Jesus, onde o rosto do único bom se tornou um rosto humano. Agora aquele que se põe a seguir Jesus não só sabe, mas tem também a real possibilidade de imitar o único bom, que socorre os fracos e se solidariza com os pobres(cf. Dt 10,18). Quem entra na vida eterna, então, não é aquele que não pratica o mal, mas aquele que pratica o bem(cf. Mt 25,31-46). Por isso, dar os bens para pobres e seguir a Jesus não é um passatempo ou um luxo religioso proposto a um elite; não é um conselho para os mais generosos. É a condição básica para ter um tesouro no céu, para entrar no Reino, isto é, para herdar a vida plena e definitiva.


Esse chamamento tem uma resposta negativa, ao contrário de todos os outros chamamentos evangélicos recordados até agora, como o dos quatro irmãos pescadores, que tinham uma pequena empresa de pesca (Mc 1,16-20), ou o de Levi, o publicano, pertencia à classe média (Mc 2,13-17). O único episódio de chamamento de um rico teve um resultado negativo. “Ele, porém, contristado com essa palavra, saiu pesaroso, pois era possuidor de muitos bens” (v.22;cf. Mt 19,22). O evangelho de Lucas diz explicitamente: “era muito rico” (Lc 18,23). O homem rico, pelo seu apego à riqueza, não aceita o convite de Jesus. Seu amor aos outros é relativo, não chega ao nível necessário para um cristão. Não está disposto a trabalhar por uma mudança social, por uma sociedade justa; a antiga lhe basta. Prefere o dinheiro ao bem do homem. Prefere usar o dinheiro a se preocupar com os necessitados, com os famintos, com os pobres e assim por diante.


Segue-se a segunda parte do texto: o diálogo de Jesus com os discípulos, que impressionou os leitores de todos os tempos. A interrogação que domina o diálogo de Jesus com os discípulos é esta: “Pode um rico salvar-se?” Essa pergunta se põe no âmbito da comunidade dos discípulos. Também as Igrejas que releem esse episódio devem abordar a questão dos ricos que se convertem e acham difícil perseverar. “Então Jesus, olhando em torno, disse a seus discípulos: ‘Como é difícil a quem tem riquezas entrar no Reino de Deus’“ (v.23). Jesus não condena a riqueza, mas a ansiedade de acumular fortunas de forma gananciosa. O ideal do cristão não é a pobreza, nem a fome, nem a nudez, mas a divisão fraterna dos bens que Deus pôs à disposição de todos. Pecado não é ficar rico, mas ficar rico só por si (cf. Lc 16,19-31: o mau rico e o pobre Lázaro) .


Os discípulos “se espantam com estas palavras”. Na crença popular, a posse de riquezas era sinal da bênção de Deus (Algumas igrejas de nosso tempo pregam este tipo de teologia: a teologia da prosperidade: leia Leonildo Silveira Campos: Teatro, Templo e Mercado, Editora Vozes). No fundo, os próprios discípulos não eram livres da esperança de ganhar alguma recompensa tangível por ter seguido a Jesus (10,28.37.41). 


Aos discípulos, que perguntam “espantados”: “Então, quem pode ser salvo?”, Jesus fitando-os, diz: “Aos homens é impossível, mas não a Deus, pois para Deus tudo é possível” (v.27). Esse olhar intenso de Jesus aos discípulos corresponde ao que foi dirigido antes ao rico disponível. A sua resposta faz compreender que o seu seguimento é graça, dom de Deus. Não é uma questão de dosagem no uso dos bens, mas se trata de uma mudança radical de mentalidade, que pode ser pedida a Deus, porque só Deus pode realizá-la.


O alerta de Jesus sobre os perigos da riqueza não é somente para os ricos de fato, mas para todos quantos queiram ser seus discípulos e herdar a vida eterna. O dinheiro é o deus que tem seu altar em cada coração humano. Seria ingênuo negá-lo. Como o “Deus” em quem cada crença deposita sua confiança, cria briga, assim também o deus- dinheiro cria briga até causa a morte de tantas pessoas. O alerta de Jesus sobre os perigos da riqueza é para todos. É um ensinamento para todos, pois todos temos “alma de rico’, incluindo os pobres que são cobiçosos, avarentos e apegados ao pouco que possuem. Em todos os níveis sociais se busca o dinheiro/riqueza material, frequentemente com espírito de cobiça, e se põe nele a confiança mais que em Deus. Jesus pede a todos os seus seguidores que tenham o desprendimento que sabe se conformar com o necessário e compartilhar com os outros o que se tem, sem entesourar nem incorrer na idolatria do dinheiro como bem supremo.


Lembra-nos que somos responsáveis pelos bens que não são exclusivamente nossos, mas que devemos considerar dons de Deus e, portanto, tratar com prudência e com audácia dignos de filhos de Deus. Tudo o que possuo: meus bens, minhas qualidades, minhas riquezas intelectuais e morais, minhas faculdades afetivas, os aspectos do meu caráter, de tudo isto Deus pedirá conta e eu devo prestar contas diante de Deus (cf. Mt 25,14-30). Não sou mais do que o gerente de tudo isto que foi confiado por Deus e continua pertencendo a Deus. Não tenho direito de menosprezar os dons de Deus. Terei que prestar contas das riquezas que não foram desenvolvidas ou não foram multiplicadas e partilhadas com os necessitados que são também filhos de Deus. Não podemos nos esquecer que “Esta vida mortal, mais que uma morada de residentes por direito, é uma pousada de viajantes em trânsito” (Santo Agostinho: In ps. 122,8). E “Os famintos, os maltrapilhos, os mendigos, os peregrinos, os prisioneiros, os doentes... são  teus ‘batedores’ no Reino do céu” (Santo Agostinho: Serm. 11,6).


O homem no evangelho de hoje recusa o seguimento porque está totalmente dominado pela riqueza. Isso nos indica que toda posse leva facilmente alguém a ficar escravo da própria riqueza. O homem teme renunciar à segurança aparente das riquezas terrenas (bens materiais). Na verdade, Jesus quer alertar a esse homem que a riqueza engana, pois não dá nenhuma segurança, nenhuma liberdade interior. O que é pior é que ela não deixa o homem do evangelho aceitar o convite de Jesus e segui-lo. “Mas quando ele ouviu isso, ficou abatido e foi embora cheio de tristeza, porque era muito rico”. 


A primeira leitura nos convida a vivermos com prudência e sabedoria neste mundo para que possamos chegar à plenitude de nossa vida que é a comunhão plena com Deus: “Orei, e foi-me dada a prudência; supliquei, e veio a mim o espírito da sabedoria. Preferi a Sabedoria aos cetros e tronos e, em comparação com ela, julguei sem valor a riqueza”.


A prudência é a capacidade de ver, de compenetrar-se e de ajustar-se à realidade. O homem prudente está sempre atento para agir corretamente e falar sabiamente. A prudência determina o que é necessário escolher e o que é necessário evitar. "O homem prudente não diz tudo quanto pensa, mas pensa tudo quanto diz" (Aristóteles).

 
A palavra “sabedoria” provém do latim “sapere” que quer dizer ter inteligência, ser compreendido. Mas propriamente significa ter gosto, exercer o sentido do gosto, ter este ou aquele sabor, capacidade desenvolvida de saborear. A sabedoria é reunir o gosto pela vida. A sabedoria é refinar o gosto pela vida. Com a sabedoria a existência se torna mais saborosa, pois a sabedoria se alimenta pelos valores. Com a sabedoria o homem é capaz de dar respostas adequadas e magníficas. Quem cultiva a sabedoria, quem aprende a dar justo valor às coisas, quem vive de acordo com os projetos de Deus através dos ensinamentos de Jesus que se resumem no amor a Deus e ao próximo inseparavelmente, encontra a verdadeira felicidade que está no próprio Deus. 
 
P. Vitus Gustama,svd
 
 
 
 
 
 

Um comentário:

viagem disse...

Obrigada por partilhar sua sabedoria.