sábado, 26 de dezembro de 2015

EPIFANIA, 03/01/2015


EPIFANIA DO SENHOR E SUA MENSAGEM PARA NÓS




Primeira Leitura Is 60,1-6


1 Levanta-te, acende as luzes, Jerusalém, porque chegou a tua luz, apareceu sobre ti a glória do Senhor. 2 Eis que está a terra envolvida em trevas, e nuvens escuras cobrem os povos; mas sobre ti apareceu o Senhor, e sua glória já se manifesta sobre ti. 3 Os povos caminham à tua luz e os reis ao clarão de tua aurora. 4 Levanta os olhos ao redor e vê: todos se reuniram e vieram a ti; teus filhos vêm chegando de longe com tuas filhas, carregadas nos braços. 5 Ao vê-los, ficarás radiante, com o coração vibrando e batendo forte, pois com eles virão as riquezas de além-mar e mostrarão o poderio de suas nações; 6 será uma inundação de camelos e dromedários de Madiã e Efa a te cobrir; virão todos os de Sabá, trazendo ouro e incenso e proclamando a glória do Senhor.


Segunda Leitura: Ef 3,2-3a. 5-6


Irmãos: 2 Se ao menos soubésseis da graça que Deus me concedeu para realizar o seu plano a vosso respeito, e como, por revelação, tive conhecimento do mistério. 5 Este mistério Deus não o fez conhecer aos homens das gerações passadas, mas acaba de o revelar agora, pelo Espírito, aos seus santos apóstolos e profetas: 6 os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo, são associados à mesma promessa em Jesus Cristo, por meio do Evangelho.


Evangelho: Mt 2,1-12


1 Tendo nascido Jesus na cidade de Belém, na Judeia, no tempo do rei Herodes, eis que alguns magos do Oriente chegaram a Jerusalém, 2 perguntando: “Onde está o rei dos judeus, que acaba de nascer? Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo”. 3 Ao saber disso, o rei Herodes ficou perturbado assim como toda a cidade de Jerusalém. 4 Reunindo todos os sumos sacerdotes e os mestres da Lei, perguntava-lhes onde o Messias deveria nascer. 5 Eles responderam: “Em Belém, na Judeia, pois assim foi escrito pelo profeta: 6 E tu, Belém, terra de Judá, de modo algum és a menor entre as principais cidades de Judá, porque de ti sairá um chefe que vai ser o pastor de Israel, o meu povo”. 7 Então Herodes chamou em segredo os magos e procurou saber deles cuidadosamente quando a estrela tinha aparecido. 8 Depois os enviou a Belém, dizendo: “Ide e procurai obter informações exatas sobre o menino. E, quando o encontrardes, avisai-me, para que também eu vá adorá-lo”. 9 Depois que ouviram o rei, eles partiram. E a estrela, que tinham visto no Oriente, ia adiante deles, até parar sobre o lugar onde estava o menino. 10 Ao verem de novo a estrela, os magos sentiram uma alegria muito grande. 11 Quando entraram na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Ajoelharam-se diante dele, e o adoraram. Depois abriram seus cofres e lhe ofereceram presentes: ouro, incenso e mirra. 12 Avisados em sonho para não voltarem a Herodes, retornaram para a sua terra, seguindo outro caminho.
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Celebramos hoje a festa da epifania do Senhor. Epifania significa manifestação de uma divindade ou de alguma intervenção prodigiosa de uma divindade. Esta festa chama-se Epifania no seu contexto de Natal porque Deus vem nos revelar quem nos criou e por quê. Nela compreendemos o amor de Deus por nós. O nascimento de Jesus manifesta ou epifaniza ao mundo a misericórdia, o amor que Deus é e com que nos ama. O amor de Deus não tem limites e alcança a todos. E os Magos representam os povos de todas as línguas e nações que se põem a caminho, chamados por Deus, para adorar Jesus, Deus feito homem cujo nome é Amor.


Como já se sabe de que Mateus coloca essa passagem no seu evangelho para expor a tese da universalidade da salvação. Jesus inaugura o Reino aberto a todos. As interdições cultuais foram abolidas. Todos os privilégios são abolidos. Os coxos, os cegos, os leprosos, os pobres são convidados ao festim. Por isso, podemos entender que Jesus convive com os publicanos e pecadores para salvá-los, pois para estes é que Deus se fez carne em Jesus Cristo. O Reino de Jesus não é deste mundo (Jo 18,36). Ele desceu até os homens, mas escapa totalmente a seu poder. A acesso à família de Deus depende da total gratuidade de Deus e da fé da parte dos homens. Jesus é o eixo para deste Reino (cf. Jo 14,6).


Mateus pretende nos dizer, então, que Jesus, tendo nascido em Belém como menino judeu e para salvar os judeus, quer oferecer também ao paganismo, logo desde o berço, a possibilidade de um encontro para o que envia a luz da fé(estrela), cuja missão é guiar os pagãos(magos) até onde o Salvador(Jesus) se encontra. Deste modo, cada um dos elementos da narrativa simbolizaria uma realidade distinta: os magos representam os pagãos; Herodes, os judeus; e a estrela, a fé. Por isso, a estrela dos Magos na narrativa de Mateus é nenhum fenômeno celeste surgido realmente no firmamento, mas o símbolo da luz da fé que brilha nas trevas do pecado quando o Salvador aparece no mundo.


Mateus desenvolve assim uma nova tese: Jesus, embora judeu e descendente de Davi, é um Messias com força para afugentar do mundo inteiro as trevas do pecado, por mais afastado que o homem se encontre e seja em que deserto for. Para tal deve cumprir um único requisito: deixar-se guiar pela luz da fé.


Como foi dito acima, a universalidade da fé é um dos motivos dominantes da liturgia da Epifania. Que fazemos para que se realize o desígnio salvífico de Deus, cuja meta é que todos os homens conheçam e adorem Jesus como Salvador e Emanuel? Talvez as palavras de S. João Crisóstomo possa nos despertar: ”Se os magos percorreram um caminho tão longo para vê-lo recém-nascido, que desculpa terás tu se nem sequer fores ao bairro ao lado para visitá-lo enfermo e encarcerado?”. Como cristãos, somos todos “apóstolos” ou “enviados”. E o enviado deve ir aonde é chamado por Deus.


Além disso, a Epifania é também a festa de Cristo, Luz dos povos/nações. Toda dinâmica da solenidade sublinha o fato de que o mistério da epifania também é revelado aos gentios. Os magos do Oriente são frutos amáveis da revelação. Eles vem de longe conduzidos pela Luz, símbolo da fé (estrela) para encontrar e adorar o Rei dos judeus. Eles trazem para Ele os dons. Mas o mais importante é o dom de seu coração sincero. E receberam a luz da fé que os leva para o caminho da vida e não para o caminho da crueldade de Herodes.  


A exemplo dos magos, vale a pena descobrir o caminho da fé que nos apresenta o Evangelho: Os magos descobrem um sinal (a estrela), seguem a Luz de Deus, se informam, buscam, perguntam. E finalmente, encontram o Salvador. De joelhos O adoram. Trata-se do símbolo do itinerário da fé dos que são vistos como os primeiros entre os crentes não israelitas. É o caminho que cada homem deve percorrer.


O evangelho de hoje interpela o homem moderno. O homem moderno não pode ficar somente deslumbrado diante do progresso da ciência e da técnica. Sob as estrelas que brilham no mundo moderno, o homem moderno precisa buscar um sinal mais profundo e mais humanizador. Se não encontrarmos Deus que dá sentido para nossa vida e nossa morte, seremos vítimas da própria ciência e técnica, pois “ninguém está tão só do que aquele que vive sem Deus” (Santo Agostinho).


Segundo o grande teólogo P. Tillich, a grande tragédia do homem moderno é ter perdido a dimensão da profundidade. Já não é capaz de perguntar de onde vem e para onde vai. Não sabe interrogar-se pelo que faz e deve fazer de si mesmo neste breve lapso de tempo entre seu nascimento e sua morte. Corremos o risco de perder nossa própria identidade e de nos converter em uma coisa entre outras coisas e de não saber em que direção devemos caminhar.


Por isso, nestes tempos, temos que voltar a recordar que ser crente é, antes de tudo, perguntar apaixonadamente pelo sentido de nossa vida e estar abertos para uma resposta e estar prontos para nova pergunta a partir da resposta encontrada.


Outras Mensagens Do Texto:


1). Para encontrar Jesus, é necessário sair da própria terra para ir ao encontro de Jesus.


Os escribas e os sumos sacerdotes esquadrinharam a Bíblia e encontraram pelo menos 466 profecias messiânicas e mais de 550 conclusões tiradas da Sagrada Escritura. E até indicaram a Herodes o lugar exato onde podia encontrar o Salvador, o verdadeiro Rei dos judeus. No entanto, nenhum se pôs a caminho. Como comenta Santo Agostinho:” Ensinam a outros a fonte da vida e eles morreram de sede”. E em outra passagem ele acrescenta: ”Aqueles (os magos) buscavam na terra destes (dos judeus) o que estes não reconheciam na sua terra...”.  Mateus sublinha, assim, o paradoxo entre a busca e a acolhida de Jesus pelos “magos do Oriente”, que eram pagãos, e o seu não conhecimento por parte do rei de Jerusalém, dos chefes dos sacerdotes, dos escribas e do povo.


Os magos puseram-se a caminho e deixaram sua terra em busca do Rei recém-nascido. O texto nos diz: “Vimos sua estrela no céu e viemos adorá-lo” (v.2). Guiados pela estrela no céu e pela estrela de uma grande esperança no coração, os magos puseram-se a caminho. São João Crisóstomo comentou: “Não se puseram a caminho porque viram a estrela, mas viram a estrela porque se tinham posto a caminho”. Põem-se a caminho porque têm perguntas e inquietações no coração. São o símbolo dos que buscam, como diz Santo Agostinho: “Anunciam e perguntam, crêem e buscam; simbolizando aqueles que caminham na fé e desejam a realidade”.


Somos peregrinos nesta terra. Mas para onde caminhamos? Saibamo-lo ou não, caminhamos para Deus. Consciente ou inconscientemente, no fundo todos procuram Deus. O destino do homem é, certamente, a união plena com Deus. E na espera desse destino, o homem vive sobre a Terra com fé. A fé é ter confiança em Deus apesar das próprias dúvidas, perguntas e interrogações, queixas e murmurações; é ter a coragem de agir apesar dos próprios medos; é esperar no amanhã apesar do sofrimento e dificuldades de hoje. Porque Deus veio antes ao nosso encontro e semeou no nosso coração a fome e a sede da justiça e da paz, da felicidade e da comunhão, enfim, da salvação que só podemos encontrar nele.


Para chegar ao encontro de Deus é necessário pôr-se a caminho e atravessar, como os magos, desertos escaldantes e noites escuras, desinstalar-se e romper com o convencional, vencer novos obstáculos e refutar argumentos velhos e novos. Quem quer encontrar a Deus, não pode ficar preso ao passado. Precisa partir sempre de novo, com o coração cada vez mais leve e livre, porque na nossa vida costumam acontecer fatos carregados de sentido, que exigem a nossa atenção e o nosso êxodo. Mas se a pessoa não se põe a investigar e a tentar perceber o que Deus lhe quer dizer, com certeza vive mais tranqüilo, não se interroga, não levanta problemas. Conseqüentemente, não avança, move-se num horizonte estreito, mesquinho, sem dimensões, e priva-se do que as suas capacidades lhe proporcionam para progredir. E Deus, quando queremos encontrá-lo de verdade, vem em nossa ajuda, indica-nos o caminho, às vezes, através de meios menos aptos. Mas, com certeza, Deus não se encontra na soberba que nos separa dele, nem na falta de caridade que nos isola.


Os magos iniciaram uma longa caminhada, desejando encontrar Deus guiando apenas pela estrela. Na vida, é preciso seguir uma estrela. Um ideal. Um modelo de santidade. Essa é a estrela que brilha para nós no azul do nosso céu. E tem que se seguir, apesar de todos os sacrifícios. Jesus, no fim, está à nossa espera.


2). Para encontrar Jesus é necessário discernir os sinais


Para encontrar Jesus é necessário, em primeiro lugar, buscá-lo e querer encontrá-lo; e em segundo lugar, perceber e discernir os sinais exteriores e interiores de sua manifestação. Para ver os sinais é necessário estar com os olhos e o coração abertos para as realidades que estão além do que vêem os olhos carnais e do que sente o coração de carne. É necessário adquirir uma visão nova da realidade. Para isso, é importante sair do pequeno mundo em que estamos instalados e empreender um caminho novo. Em outras palavras, é preciso o êxodo interior e exterior. Se o nosso coração inquieto, aberto e despojado, e se for generoso como o dos magos, saberemos distinguir a voz de Deus das vozes que nos querem afastar do seu caminho.


3). Para encontrar Jesus é necessário deixar-se comover


Para chegar ao encontro de Jesus é necessário também deixar-se mover pelos sinais percebidos e discernidos; é necessário deixar-se mover e guiar por eles ao longo de toda a caminhada. Quem é movido por uma grande esperança ou por um grande amor, tem força e entusiasmo para deixar tudo o que tinha até esse momento ao encontro do Senhor que é Tudo. A “estrela” que guia nossa busca continua sempre apontando para mais verdade, mais entrega, mais justiça, mais fraternidade, mais partilha, mais honestidade, mais sinceridade e mais comunhão. Ela continua iluminando apesar das nuvens que nos atrapalham passageiramente, das decepções, das noites que anunciam o dia, dos sofrimentos etc.


4). Para encontra Jesus é necessário caminhar juntos e perguntar.


A sabedoria antiga diz: “Estar juntos é apenas o início; caminhar juntos é o progresso e trabalhar juntos é sucesso”. Não sabemos por quanto tempo os magos caminharam. O que sabemos é que caminharam juntos. O longo caminho da busca, enfrentando o cansaço, obstáculos etc., só pode ser feito em comunidade. Só ajudando-se e animando-se mutuamente, carregando o peso uns dos outros durante um longo caminho da busca, é possível chegar à meta.


Quando parece que as nuvens atrapalham a nossa vista ou visão, quando aparentemente Deus nos abandonou e sentimos que não caminha mais ao nosso lado, é necessário pararmos para perguntar, como fizeram os magos. Essas perguntas fazem parte da providência de Deus. Os chineses até dizem: “Quem pergunta, é bobo por cinco minutos. Quem não pergunta, é bobo para sempre”. Na verdade, Deus está também nas nossas perguntas, porque são perguntas sobre ele e por ele.


5). No comum encontra-se o extraordinário


Os magos não encontram a riqueza e a glória do rei recém-nascido, mas um bebê numa casa pobre, filho de pais pobres, pobremente vestido. Também não viram sua mãe coroada de pedras preciosas ou reclinada num leito de ouro. Mas “sua fé (dos magos) foi mais penetrante que o olhar, porque viram coisas humildes e entenderam coisas elevadas”, comenta S. João Crisóstomo. A glória de Deus não está nos astros do céu, mas na fragilidade dessa criancinha.


6). Quem encontra o que procura tem algo a oferecer


Os magos encontraram Jesus e lhe ofereceram presentes: ouro, incenso, mirra. Tradicionalmente esses presentes simbolizam a identidade de Jesus: recebe ouro como rei, incenso como Deus e mirra como homem mortal (mirra era utilizada no embalsamamento de cadáveres).


Sabemos que a entrega de nós mesmos na adoração é o dom mais perfeito e mais agradável ao Deus que nos amou até o extremo de querer viver nossa vida mortal, e morrer nossa morte, para fazer-nos participantes de sua vida eterna. Mas o gesto de oferta pode nos recordar também que aqueles que encontram Deus com sinceridade demonstram a profundidade desse encontro concretamente através daquilo que se tornam capazes de partilhar. Quem é de Deus, ajuda os outros, desenvolvendo a sensibilidade solidária.


7). Epifania e Missão Evangelizadora


Como foi dito acima, a universalidade da fé é um dos motivos dominantes da liturgia da Epifania. Que fazemos para que se realize o desígnio salvífico de Deus, cuja meta é que todos os homens conheçam e adorem Jesus como Salvador e Emanuel? Talvez as palavras de S. João Crisóstomo possa nos despertar: ”Se os magos percorreram um caminho tão longo para vê-lo recém-nascido, que desculpa terás tu se nem sequer fores ao bairro ao lado para visitá-lo enfermo e encarcerado?” Como cristãos, somos todos “apóstolos” ou “enviado”. E o enviado deve ir aonde é chamado pela missão. 


P. Vitus Gustama,svd

Um comentário:

viagem disse...

Gostei muito. Tirei algumas dúvidas e questionei-me sobre alguns pontos.