sábado, 5 de dezembro de 2015

IMACULADA CONCEIÇÃO DE MARIA, 08 DE DEZEMBRO
IMACULADA CONCEIÇÃO DE MARIA


8 de Dezembro


I Leitura: Gn 3,9-15.20


9 O Senhor chamou Adão, dizendo: “Onde estás?” 10 E ele respondeu: “Ouvi tua voz no jardim, e fiquei com medo porque estava nu; e me escondi”. 11 Disse-lhe o Senhor Deus: “E quem te disse que estavas nu? Então comeste da árvore, de cujo fruto te proibi comer?” 12 Adão disse: “A mulher que tu me deste por companheira, foi ela que me deu do fruto da árvore, e eu comi”. 13 Disse o Senhor Deus à mulher: “Por que fizeste isso?” E a mulher respondeu: “A serpente enganou-me e eu comi”. 14 Então o Senhor Deus disse à serpente: “Porque fizeste isso, serás maldita entre todos os animais domésticos e todos os animais selvagens! Rastejarás sobre o ventre e comerás pó todos os dias de tua vida! 15 Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar”. 20 E Adão chamou à sua mulher “Eva”, porque ela é a mãe de todos os viventes.




II Leitura: Ef 1,3-6.11-12


3 Bendito seja Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Ele nos abençoou com toda a bênção do seu Espírito em virtude de nossa união com Cristo, no céu. 4 Em Cristo, ele nos escolheu, antes da fundação do mundo, para que sejamos santos e irrepreensíveis sob o seu olhar, no amor. 5 Ele nos predestinou para sermos seus filhos adotivos por intermédio de Jesus Cristo, conforme a decisão de sua vontade, 6 para o louvor da sua glória e da graça com que ele nos cumulou no seu Bem-amado. 11 Nele também nós recebemos a nossa parte. Segundo o projeto daquele que conduz tudo conforme a decisão de sua vontade, nós fomos predestinados 12a sermos, para o louvor de sua glória, os que de antemão colocaram sua esperança em Cristo. 


Evangelho: Lc 1,26-38


Naquele tempo, 26no sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, 27a uma virgem, prometida em casamento a um homem chamado José. Ele era descendente de Davi e o nome da Virgem era Maria. 28O anjo entrou onde ela estava e disse: “Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!” 29Maria ficou perturbada com estas palavras e começou a pensar qual seria o significado da saudação. 30O anjo, então, disse-lhe: “Não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. 31Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. 32Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi. 33Ele reinará para sempre sobre os descendentes de Jacó, e o seu reino não terá fim”. 34Maria perguntou ao anjo: “Como acontecerá isso, se eu não conheço homem algum?” 35O anjo respondeu: “O Espírito virá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com sua sombra. Por isso, o menino que vai nascer será chamado Santo, Filho de Deus. 36Também Isabel, tua parenta, concebeu um filho na velhice. Este já é o sexto mês daquela que era considerada estéril, 37porque para Deus nada é impossível”. 38Maria, então, disse: “Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!” E o anjo retirou-se.
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Na primeira metade do século VIII, a Igreja bizantina (no Oriente) celebrava a concepção de Santa Ana, mãe da Theotokos (Nossa Senhora). Em suas origens, esta festa celebrava o anúncio do Anjo a Ana e Joaquim que, depois de anos de esterilidade, gerariam Maria, segundo a narração do protoevangelho de São Tiago, um evangelho apócrifo (“apócrifo” é palavra grega, “apocryphos” que significa escondido, secreto, oculto. Foram assim chamados os livros que não eram usados oficialmente na liturgia e no ensino. Alguns são contemporâneos dos escritos bíblicos e outros pouco posteriores) que surgiu no século II (cf. Protoevangelho de São Tiago IV,1-2). Até aqui a festa não encontrou polêmicas teológicas porque não se tratava da “imaculada” concepção.


A dura polêmica começou quando esta festa passou dos mosteiros do sul da Itália, no século IX, à Irlanda e à Inglaterra. Aqui, no século XI, a festa começou a fixar-se no dia 8 de dezembro por relação ao dia 8 de setembro (a festa da natividade da Nossa Senhora) e recebeu o nome a “Conceição da Santa Virgem Maria”. E no século XII (cerca de 1119) começou com clareza o conceito da festa quando o prior de Westminster, Osberto de Clara, falou da santificação de Maria desde o início de sua criação e concepção no útero materno, pela graça de Deus, que a santificou em sua própria concepção “sem contágio de pecado”.


Por estímulo de alguns teólogos, um deles é o beneditino Eadmer (+ 1134) que é considerado o primeiro teólogo da imaculada conceição, a festa se difundiu na França, mesmo com divergências de opiniões. Em 1263, a ordem franciscana adotou a festa, e teólogos franciscanos como o beato Ramon Llul e João Duns Scotu defenderam em Paris o privilégio da Imaculada.  Muitas ordens religiosas (com exceção dos dominicanos) adotaram a festa. No século XIV a festa do dia 8 de dezembro era tão comum que em 1439 o concílio de Basiléia decidiu estendê-la a toda a Igreja; mas o decreto ficou sem efeito porque se tratava de concílio cismático. E em 1477, Sisto IV(1471-1484), franciscano, introduziu a festa em Roma e afirmou (não como dogma) com clareza a preservação de Maria em sua concepção de todo contágio de pecado original. Somente a partir do dia 8 de dezembro de 1854 Pio IX(1846-1878) proclamou como dogma a conceição imaculada de Maria, na Bula Ineffabilis Deus, onde ele afirmou: “...Virgem Maria por graça e privilégio de Deus todo-poderoso, em vista dos méritos de Cristo Jesus, Salvador do gênero humano, foi preservada imune de toda mancha do pecado original no primeiro instante de sua concepção”.  E o Concílio Vaticano II recorda este dogma na Constituição dogmática Lumen Gentium capítulo VIII no.53.59.




Mensagem da festa


Não encontramos em nenhuma página do NT a concepção de Maria nem sobre seus pais (somente encontramos no protoevangelho de São Tiago). Na festa da Imaculada Conceição de Maria lemos o evangelho da Anunciação (Lc 1,26-38) que não fala do concebimento de Maria, mas do concebimento de Cristo em Maria. A escolha de Maria como Mãe do Senhor (Lc 1,43) é muito preciosa que nos faz entender que quem dá valor a toda a existência de Maria é o Filho. Em outras palavras, Maria é redimida por seu filho e pela preservação divina. Maria é imaculada por ação de Deus em vista da redenção de Cristo. A sua imaculada conceição só pode ser uma participação na graça redentora do Redentor em função de sua maternidade em relação a Cristo.  Podemos afirmar que por causa da encarnação redentora do Verbo, Maria foi eleita desde a eternidade e, na plenitude do tempo, lhe foi enviado o anjo Gabriel com a mais inefável das saudações: “Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo” (Lc 1,28). Em Maria Deus encontra “lugar” para estar sempre com a humanidade: “O Senhor está contigo”. E em Maria a graça divina encontra uma resposta de que Maria será o instrumento desta graça: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a Tua Palavra” (Lc 1,38).


Da afirmação surge a pergunta, se Maria é redimida em vista da redenção de Cristo, como isto pode ser explicado porque Jesus nasceu depois dela? Para compreender tudo isto precisamos nos colocar na posição de Deus. Para Deus tanto o ontem quanto o amanhã são um eterno hoje(cf. Hb 13,8). Para Deus, a redenção futura de Jesus é um já presente. Em razão disto, Maria é isenta e preservada. Como dizia Dante: “Maria é filha do seu Filho, porque por Ele foi totalmente livre do pecado original e do próprio débito do pecado”.


Ao solenizar a Imaculada Conceição de Maria devemos estar conscientes de que não se trata da auto-salvação de Maria; trata-se da graça de Deus. A concepção imaculada não significa que Maria não teve necessidade de ser salva à semelhança de todos os homens; ao contrário, proclama o incomparável dom que lhe foi prodigalizado: ter sido agraciada sem ter provado a desgraça do pecado. A redenção de Maria acontece por preservação divina. Nisto Maria é a expressão máxima do poder de Deus. Ela é santa porque santificada pelo Espírito do Pai, emanado por meio do Filho. Diante da Imaculada, a Igreja celebra primeiramente a infinita misericórdia de Deus para com a humanidade inteira. Podemos dizer em outras palavras, Maria se beneficia mais abundantemente do que todos nós da misericórdia divina e do resgate. Pois maior misericórdia é ser preservado pela graça de Deus de pecados pessoais, do que ser perdoado de pois de termos pecado. A sua preservação do pecado é fruto unicamente da graça redentora. Ela nunca conheceu pecado.


Maria realiza o homem que Deus sempre quis: aquele que se ergue ao céu, sem se encurvar a nenhum pecado e sem cair na tentação de olhar apenas para o mundo; aquele que se abre ao outro, sem cair no isolamento do egoísmo, e aquele que se confraterniza com o mundo.


Nós, seres humanos, sempre estamos numa encruzilhada entre o desejo de fazer o bem e a fraqueza em praticar o mal que não queremos. Buscamos a bondade, mas caímos na maldade cometida. Queremos criar um mundo mais fraterno, mas ficamos presos no mundo de rancores, de julgamento sem piedade, de falta de perdão e misericórdia. Talvez possamos resumir a nossa situação naquilo que São Paulo diz: “...não faço o bem que não quero, mas pratico o mal que não quero” (Rm 7,19). São Paulo no versículo seguinte explica que a origem de tudo isto é o pecado que faz ninho dentro de nós: “Ora, se eu faço o que não quero, já não sou eu que estou agindo, e sim o pecado que habita em mim” (Rm 7,20). O pecado que habita em nós gera toda sorte de iniqüidade, de injustiça, de violência etc....  Viver no pecado é viver preso no mundo velho.


Maria, ao contrário, pertence a outra ordem, ao novo mundo inaugurado por Deus. Ela é uma criatura sem qualquer malícia. Todos os seus atos são orientados para o certo, pois ela está totalmente aberta para Deus e se abre para os outros amorosamente. Em Maria, por isso, podemos ver um possível novo começo da humanidade. Nela o paraíso perdido se encontra novamente.


Mas precisamos saber que dizer que Maria era imaculada não significa que ela não sofria, que não se angustiava ou que não necessitava crer e esperar. De ponto de vista humano, ela é como todos nós. Maria como todo ser humano normal sentia as diversas paixões da vida. Mas ela conseguia orientar tudo num projeto divino e dimensionar tudo a ponto de ser plenamente filha de Deus. Por graça de Deus ela tinha uma força interior capaz de ordenar tudo. Por isso, não de admirar que ela foi chamada por anjo Gabriel de “cheia de graça” (Lc 1,28). A graça é a presença pessoal e viva do próprio Deus dentro da vida, fazendo a vida ser mais vida ainda e o mundo mais fraterno. Maria antecipa o destino de todos. Por ela temos certeza de que Deus não nos abandona na nossa desgraça. Ela nos ensina a vivermos orientados sempre a Deus que se traduz no amor ao próximo.


Sabemos que a imaculada conceição é um privilégio único para Maria. Mas todos nós somos chamados a sermos imaculados, seguindo os passos de Cristo, nosso Redentor. Assim como Maria, seremos totalmente imaculados. A partir de Maria e olhando para ela, temos certeza de que o mundo tem um futuro bom, pois Maria nos antecipa este futuro. Temos que estar conscientes da nossa vocação inicial de sermos escolhidos desde a eternidade para sermos santos, como diz São Paulo: “Nele nos escolheu antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele no amor” (Ef 1,4).


Além disso, precisamos estar conscientes de que Maria é a primeira cristã por causa do seu sim a Deus para que possa nascer para a humanidade Jesus Cristo, nosso Salvador. Não era nenhuma princesa nem nenhuma patroa na sociedade do seu tempo. Era uma mulher simples do povo, uma moça pobre. Mas Deus se compadece dos humildes e dos simples. Para Deus tudo é simples, e para o simples tudo é divino. A simplicidade atrai a bênção de Deus e a simpatia humana. O simples, o humilde é o terreno fértil onde a graça de Deus encontra seu lugar e através do qual Deus fala para o mundo.


De certa forma, podemos dizer que com o sim de Maria à vontade de Deus a Igreja começou. A Virgem Maria, no momento de sua eleição radical e no momento de seu sim a Deus foi início e imagem da Igreja. Quando ela aceitou o anúncio do anjo, da parte de Deus, pode-se dizer que começou a Igreja: a humanidade, nela representada, começou a dizer sim à salvação que Deus lhe ofereceu. Nela e através dela a humanidade foi abençoada. Podemos olhar, por isso, para Maria como modelo de fé e motivo de esperança e de alegria.

P. Vitus Gustama,svd

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ANO DA MISERICÓRDIA

SER MISERICORDIOSO COMO CRISTO


Sede misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso (Lc 6,36)


A palavra “misericórdia” em hebraico é “rahamins” que deriva de “réhem”. “Réhem” significa matriz, o útero da mulher. E a função do útero é receber, manter e dar a vida, oferecendo ao feto tudo de que ele necessita enquanto estiver no útero.


O amor de Deus por nós é o amor misericordioso, pois cuida, sustenta e salva a humanidade. E este amor misericordioso se encarna em Jesus Cristo. Por isso, Jesus e Sua Palavra alimentam, cuidam, mantêm, sustentam, curam, transformam e dão a vida para a humanidade. “Misericórdia: é a palavra que revela o mistério da Santíssima Trindade. Misericórdia: é o ato último e supremo pelo qual Deus vem ao nosso encontro. Misericórdia: é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida. Misericórdia: é o caminho que une Deus e o homem, porque nos abre o coração à esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado” (Papa Francisco: Misericordiae Vultus n.2). O amor de Deus por nós é misericordioso porque ele nos ama até as entranhas, nos ama até o fim (cf. Jo 13,1).


Quem segue Jesus e se alimenta de Sua Palavra, deixa-se tomar pela misericórdia. Quando a misericórdia divina invade uma pessoa, ela transforma o coração da pessoa, e o seu coração vai frutificar de misericórdia.


O Papa Francisco, através da Bula Misericordiae Vultus (O Rosto da Misericórdia), proclama como ”um Jubileu Extraordinário da Misericórdia” o período entre 8 de dezembro de 2015 (Solenidade da Imaculada Conceição de Nossa Senhora) a 20 de novembro de 2016 (Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo).


Na Bula, o Papa Francisco nos recorda que “A Igreja tem a missão de anunciar a misericórdia de Deus, coração pulsante do Evangelho, que por meio dela deve chegar ao coração e à mente de cada pessoa. A Esposa de Cristo assume o comportamento do Filho de Deus, que vai ao encontro de todos sem excluir ninguém” (n.12).” Não nos deixemos cair na indiferença que humilha, na habituação que anestesia o espírito e impede de descobrir a novidade, no cinismo que destrói. Abramos os nossos olhos para ver as misérias do mundo, as feridas de tantos irmãos e irmãs privados da própria dignidade e sintamo-nos desafiados a escutar o seu grito de ajuda. As nossas mãos apertem as suas mãos e estreitemo-los a nós para que sintam o calor da nossa presença, da amizade e da fraternidade. Que o seu grito se torne o nosso e, juntos, possamos romper a barreira de indiferença que frequentemente reina soberana para esconder a hipocrisia e o egoísmo” (n.15).


Para pôr em prática a misericórdia o Papa Francisco nos relembra tanto das obras de misericórdia corporal como as de misericórdia espiritual. “Redescubramos as obras de misericórdia corporal: dar de comer aos famintos, dar de beber aos sedentos, vestir os nus, acolher os peregrinos, dar assistência aos enfermos, visitar os presos, enterrar os mortos. Não esqueçamos as obras de misericórdia espiritual: aconselhar os indecisos, ensinar os ignorantes, admoestar os pecadores, consolar os aflitos, perdoar as ofensas, suportar com paciência as pessoas molestas, rezar a Deus pelos vivos e defuntos” (n.15b).


Não podemos professar seriamente a nossa fé no Deus da misericórdia, sem praticarmos, ao mesmo tempo, a sua misericórdia. Amor é misericordioso. Esta é uma afirmação central e o cume da fé e de toda a doutrina cristã acerca de virtudes. É através da misericórdia ativa e efetiva que provamos que adoramos e honramos verdadeiramente a Deus misericordioso. Toda a experiência profunda de Deus, toda a consolação espiritual autêntica nos leva à prática eficaz da misericórdia. As nossas pequenas mortificações e exercícios ascéticos só têm valor na medida em que servirem de treino para o exercício da misericórdia e para a consequente prática da auto-renúncia.


Não esqueçamos a exortação de São Tiago acerca da misericórdia: Haverá juízo sem misericórdia para aquele que não usou de misericórdia. A misericórdia triunfa sobre o julgamento” (Tg 2,13). “No entardecer de nossa vida seremos julgados sobre o amor” (São Joao da Cruz).

P. Vitus Gustama,svd





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