segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

04/02/2015
 
DEUS ESTÁ CONOSCO COTIDIANAMENTE

Quarta-Feira Da IV Semana Do Tempo Comum

 
Evangelho: Mc 6,1-6

Jesus voltou com os seus discípulos para a cidade de Nazaré, onde ele tinha morado. No sábado começou a ensinar na sinagoga. Muitos que o estavam escutando ficaram admirados e perguntaram: - De onde é que este homem consegue tudo isso? De onde vem a sabedoria dele? Como é que faz esses milagres? Por acaso ele não é o carpinteiro, filho de Maria? Não é irmão de Tiago, José, Judas e Simão? As suas irmãs não moram aqui? Por isso ficaram desiludidos com ele. Mas Jesus disse: - Um profeta é respeitado em toda parte, menos na sua terra, entre os seus parentes e na sua própria casa. Ele não pôde fazer milagres em Nazaré, a não ser curar alguns doentes, pondo as mãos sobre eles. E ficou admirado com a falta de fé que havia ali.

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Até agora o número de pessoas que recorrem a Jesus fica cada vez maior. Essas pessoas vêm de toda parte da Palestina, inclusive do território pagão (Mc 3,7-8). As pessoas se reúnem em torno de Jesus a ponto de Jesus e seus discípulos não terem tempo nem para comer (Mc 3,20). Eram tão numerosas essas pessoas que faz Jesus subir a uma barca para ensinar (Mc 4,1). Que pensa de Jesus todas essas pessoas? Quem é Jesus para elas? Será que elas crêem nele? O que elas crêem nele? O Evangelho não nos dá nenhuma resposta explícita para essas perguntas. Percebemos apenas o entusiasmo e a admiração do povo sobre o ensinamento de Jesus (Mc 1,27).


Agora Jesus está de volta para sua terra, Nazaré. Mais ou menos durante trinta anos vivendo em Nazaré, convivendo com as pessoas comuns de Nazaré, vivendo com elas e Ele era tão comum como seus conterrâneos. Mais ou menos trinta anos mantendo-se tão semelhante àquele povo que não se notava diferença alguma entre Ele e Tiago, José, Judas ou Simão. Mais ou menos durante trinta anos morando num lugar desconhecido e desprezado. Até um dos futuros discípulos de Jesus, Natanael, lançará esta pergunta: “De Nazaré pode sair algo de bom?” (Jo 1,46). Jesus está de volta para Nazaré depois que instituiu os Doze (Mc 3,13-19). Ele volta para suas raízes antes de continuar sua missão itinerante. Agora é a hora de se manifestar e de receber o juízo de seu povo sobre ele. O que pensa o povo de Nazaré sobre Jesus? Quem é Jesus para seus conterrâneos? Será que Deus tem um aspecto tão humano em Jesus, o nazareno? Será que é possível Deus estar tão próximo dos homens comuns como os de Nazaré? Será que Deus não pode estar tão perto dos homens no seu dia a dia como em Nazaré? Ou onde está Deus? Onde Deus habita? Para o povo, onde Deus mora? Onde fica Sua morada? “Mestre, onde moras?”, perguntaram dois dos discípulos de João Batista a Jesus (Jo 1,38).


É preciso abrir os olhos e a mente, e deixar o coração aberto para poder experimentar Deus e sentir Sua presença no cotidiano, no aspecto cotidiano da vida. É preciso o homem deixar o coração puro e purificado para sentir Deus no cotidiano. Deus está aqui e agora. Sinta e experimente Sua presença! Aprenda a saborear o momento, mesmo que ele não dure para sempre. Há momentos de nossas vidas que podem ser eternos mesmo que não sejam permanentes, por causa da presença da própria Eternidade que é Deus. Deus estar presente permanentemente como o silêncio está sempre presente, mas somos nós que preenchemos o silêncio com barulho. Assim que o barulho cessar, o silêncio voltará a reinar novamente o ambiente. Deus sempre nos surpreende, porque na sua atuação ele não tem esquemas prévios, métodos preestabelecidos, lógica precisa ou raciocínio bem lógico. Pode desistir de uma lógica, mas não desista da vida cuja origem está em Deus! Deus está sempre acima de nosso raciocínio, “Pois meus pensamentos não são os vossos, e vosso modo de agir não é meu” diz o Senhor (Is 55,8). Por isso, onde menos O esperamos, onde O menos imaginamos, Ele aparece, comunicando-se conosco e convivendo conosco (Jo 1,14). “No meio de vós está quem vós não conheceis”, alerta-nos o evangelista João (Jo 1,26). Deus habita e está no homem e não nas paredes de um templo ou de uma igreja (cf. Mt 25,40.45). Os animais não questionam o sentido da vida, mas as pessoas sim, porque em cada um de nós há uma dimensão divina e somos imagem de Deus (Gn 1,26) que nos faz perguntar por que estamos vivos e para que estamos vivos? Nós somos homens com dimensão transcendente e por isso somos capazes de ir e de ver além da aparência. Deus quer encontrar seu povo onde este vive e atua.


A encarnação de Deus em um carpinteiro de Nazaré nos descobre que Deus não é um exibicionista que se oferece em espetáculo. Deus não é o Ser todo-poderoso que se impõe, mas propõe e convida. Podemos descobrir Deus nas experiências mais normais de nossa vida cotidiana: em nossas tristezas inexplicáveis, na felicidade insaciável, na solidão em busca da comunhão, em nosso amor frágil, mas apaixonante, na saudade de uma presença de quem se foi, mas que está presente fortemente na sua ausência, e nos sonhos de uma vida de paz e serenidade, na reconciliação por amor, nas perguntas mais profundas sobre a vida e seu sentido, em nosso pecado mais discreto, nas nossas decisões mais responsáveis, na nossa busca sincera do bem e da verdade, no nosso “bom dia, boa tarde, boa noite” endereçado para as pessoas para o seu bem, no nosso “obrigado” pelo bem que o outro fez por nós, no nosso agradecimento pelo novo dia que nos é dado por puro amor de Deus. Por isso, a raiz da incredulidade é precisamente esta incapacidade de acolher a manifestação de Deus no cotidiano. “Quem era Deus fez-se homem. Assumindo o que não era, mas sem perder o que era... Deixa, pois, que Ele te ajude a levantar-te pelo que tem de homem, que Ele te guie pelo que tem de Deus-homem e que Ele te conduza ao que tem de Deus” (Santo Agostinho: In Joan. 23,6). “Veio passar fome e dar fartura, ter sede e dar de beber, vestir-se de morte e revestir-se de imortalidade. Veio pobre para nos fazer ricos” (Santo Agostinho: In ps. 49,19).


O que necessitamos são de uns olhos mais limpos, simples e menos preocupados em possuir coisas e em ter poder. As coisas são meios e elas jamais são fim de nossa vida. As coisas continuam alheias a nós, pois não são nossos semelhantes (cf. Gn 2,20-23). Um ônibus é um meio que me leva até o centro da cidade, mas o ônibus não é o centro da cidade. O que necessitamos é uma atenção mais profunda e desperta para o mistério da vida que não consiste somente em ter “espírito observador” e sim em saber contemplar e acolher com simpatia as inumeráveis mensagens e chamadas que a mesma vida irradia permanentemente. Deus não está longe dos que O buscam. Deus está no centro de nossa vida. Deus nos visita (Lc 1,68; 7,16) como visitou seu povo em Nazaré que jamais ele abandonou. É preciso abrir a porta de nosso lar e de nosso coração para a visita do Senhor como a própria sinagoga em Nazaré aberta para o Senhor entrar nela e falar das coisas essenciais da vida para seu povo reunido nela.


Em Nazaré o povo ficou admirado pelo ensinamento de Jesus, mas ficou desiludido por causa de sua origem: “De onde é que este homem consegue tudo isso? De onde vem a sabedoria dele? Como é que faz esses milagres? Por acaso ele não é o carpinteiro, filho de Maria? Não é irmão de Tiago, José, Judas e Simão? As suas irmãs não moram aqui? Por isso ficaram desiludidos com ele”. Quando seus conterrâneos falam dele, não pronunciam seu nome. Eles o designam somente com pronomes depreciativos para sua pessoa e sua atividade (ele, este etc.). Os nazarenos, apesar de conhecer as Escrituras, não conseguiram recordar aquilo que Moises havia dito: “O Senhor, teu Deus, te suscitará dentre os teus irmãos um profeta como eu: a ele que deveis ouvir” (Dt 18,15). Os nazarenos não conseguiram captar a novidade de Deus em Jesus; não reconheceram nele o enviado de Deus. Somente são os discípulos que fazem a seguinte pergunta: “Quem é este?” (Mc 4,41), mas a multidão nunca e os nazarenos nem sequer  sonhavam uma pergunta semelhante, pois eles “sabiam” quem era Jesus: um artesão, o filho de Maria; conheciam seus parentes. Mas não quiseram ir além disso; eles ficaram presos em juízos puramente humanos; eles encontraram em Jesus um obstáculo para a fé. Não mudam de ângulo para ver outra parte da mesma realidade para encontrar a novidade. Tudo que se vê de um ângulo é apenas visto de um ângulo.


E Jesus “ficou admirado com a falta de fé que havia ali”.  O amor oferecido é recusado. Mas o amor não pode resignar-se diante da recusa. O amor continua a existir mesmo tendo a recusa, pois é eterno. “Deus é amor”, afirmou São João (1Jo 4,8.16). Diante dessa recusa, Jesus precisa ir a outras aldeias onde o amor é bem acolhido e vivido. Onde há o amor, todos são vistos como irmãos. na falta de amor, todos viram rivais a ponto de se tornarem inimigos.


O evangelista Marcos acrescenta um provérbio citado por Jesus para explicar a incompreensão e a falta de fé de seus conterrâneos: “Um profeta é respeitado em toda parte, menos na sua terra, entre os seus parentes e na sua própria casa”. A fé não se adquire por ativismo ou por herança. A fé precede aos milagres, nunca ao contrário. Por isso, é inútil montar uma apologética para “provar” a divindade de Jesus partindo da existência de uns fatos superiores às forças da natureza. Quem vive sua vida profundamente e com muita consciência, quem leva seu ser a sério, não tem como não ter fé em Deus que está muito além da inteligência humana.


Reconhecer em Jesus o Messias, o Ungido de Deus, não é fácil. Somente quem crê, O reconhece, aceita suas palavras e admira suas obras. Muitos olham sem ver e ouvem sem escutar. Cristo continua desconcertando: sua palavra escandaliza, sua mensagem gera oposição e sua vida e obras criam conflitos. Outros O conhecem, O aceitam e sua vida adquire um novo sentido. A fé madura caminha à descoberta e não evita as perguntas e a obscuridade. Hoje o Senhor nos pede mais fé n’Ele para realizar coisas que superam nossas possibilidades humanas.


Para Refletir:


“Ele não é o carpinteiro, filho de Maria?”


“Se o orgulho nos faz sair, a humildade nos faz entrar… Como o médico, depois de estabelecer um diagnóstico, trata o mal em causa, tu, cura a raiz do mal, cura o orgulho; então, já não haverá mal algum em ti. Para curar eu orgulho, o Filho de Deus se abaixou, se fez humilde. Por que tu te orgulhas? Para ti, Deus se fez humilde. Talvez tu tenhas vergonha de imitar a humildade do homem; imita pelo menos a humildade de Deus. O Filho de Deus se humilhou fazendo-se homem. Tu, homem, conhece que és homem. Toda sua humildade consiste em conhecer quem és.


Escuta a Deus que te ensina a humildade: ‘Eu desci do céu não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou’ (Jo 6,38). Ele, humilde, veio para ensinar a humildade, como Mestre de humildade. Aquele que vem a Mim se faz um comigo; se faz humilde. Quem se aderir a mim será humilde. Não fará sua vontade e sim a vontade de Deus. E não será tirado fora (Jo 6,37), como quando era orgulhoso”. (Santo Agostinho [354-430] bispo de Hipona)

P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

03/02/2015

 

BASTA TER FÉ EM JESUS 

Terça-Feira Da IV Semana Comum


Evangelho: Mc 5,21-42


Naquele tempo, 21Jesus atravessou de novo, numa barca, para a outra margem. Uma numerosa multidão se reuniu junto dele, e Jesus ficou na praia. 22Aproximou-se, então, um dos chefes da sinagoga, chamado Jairo. Quando viu Jesus, caiu a seus pés, 23e pediu com insistência: “Minha filhinha está nas últimas. Vem e põe as mãos sobre ela, para que ela sare e viva!” 24Jesus então o acompanhou. Numerosa multidão o seguia e comprimia. 25Ora, achava-se ali uma mulher que, há doze anos, estava com hemorragia; 26tinha sofrido nas mãos de muitos médicos, gastou tudo o que possuía, e, em vez de melhorar, piorava cada vez mais. 27Tendo ouvido falar de Jesus, aproximou-se dele por detrás, no meio da multidão, e tocou na sua roupa. 28Ela pensava: “Se eu ao menos tocar na roupa dele, ficarei curada”. 29A hemorragia parou imediatamente, e a mulher sentiu dentro de si que estava curada da doença. 30Jesus logo percebeu que uma força tinha saído dele. E, voltando-se no meio da multidão, perguntou: “Quem tocou na minha roupa?” 31Os discípulos disseram: “Estás vendo a multidão que te comprime e ainda perguntas: ‘Quem me tocou’?” 32Ele, porém, olhava ao redor para ver quem havia feito aquilo. 33A mulher, cheia de medo e tremendo, percebendo o que lhe havia acontecido, veio e caiu aos pés de Jesus, e contou-lhe toda a verdade. 34Ele lhe disse: “Filha, a tua fé te salvou. Vai em paz e fica curada dessa doença”. 35Ele estava ainda falando, quando chegaram alguns da casa do chefe da sinagoga, e disseram a Jairo: “Tua filha morreu. Por que ainda incomodar o mestre?” 36Jesus ouviu a notícia e disse ao chefe da sinagoga: “Não tenhas medo. Basta ter fé!” 37E não deixou que ninguém o acompanhasse, a não ser Pedro, Tiago e seu irmão João. 38Quando chegaram à casa do chefe da sinagoga, Jesus viu a confusão e como estavam chorando e gritando. 39Então, ele entrou e disse: “Por que essa confusão e esse choro? A criança não morreu, mas está dormindo”. 40Começaram então a caçoar dele. Mas, ele mandou que todos saíssem, menos o pai e a mãe da menina, e os três discípulos que o acompanhavam. Depois entraram no quarto onde estava a criança. 41Jesus pegou na mão da menina e disse: “Talitá cum” — que quer dizer: “Menina, levanta-te!” 42Ela levantou-se imediatamente e começou a andar, pois tinha doze anos. E todos ficaram admirados. 43Ele recomendou com insistência que ninguém ficasse sabendo daquilo. E mandou dar de comer à menina.
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Estamos nos últimos dois milagres de uma serie de milagres no início do evangelho de Marcos (Mc 4,35-5,43). No texto do Evangelho de hoje Jesus é apresentado como aquele que tem poder de curar as doenças por graves que elas sejam e de devolver a vida para quem se encontra morto. Mas para que seu poder possa acontecer na vida do homem, há uma condição indispensável: fé.  “Não tenhas medo. Basta ter fé!”, disse nos Jesus. “A fé é a garantia dos bens que se esperam, a prova das realidades que não se vêem” (Hb 11,1). A mulher que estava doente de hemorragia durante 12 anos viveu a fé e ficou curada como premio de sua fé. "Fé é o pássaro que sente a luz e canta quando a madrugada é ainda escura." (Rabindranath Tagore)


1. O Reino de Deus é a Vida Para Todos (cf. Jo 10,10b).


Jesus percorre o país para anunciar o Reino de Deus e para estabelecê-lo. Ele fala e age com autoridade. A sua fama se espalha, porque uma força brota d’Ele, é a força da ressurreição, a força do Espírito de vida, suas palavras estão cheias de autoridade, pois fazem todos crescerem na fraternidade e na igualdade.


“Fica curada!”. O imperativo de Jesus tem algo de afetuoso para com a mulher sofrida de hemorragia durante 12 anos, e é restaurada na sua dignidade, restabelecida na sociedade que excluía o seu mal. Este imperativo “fica curada” aparece também como uma constatação: é a fé dessa mulher que a salvou, e Jesus se alegrou por isso. A cura é conseqüência da fé, que é sempre fonte de vida e de felicidade. “Filha, a tua fé te salvou. Vai em paz e fica curada dessa doença”.


“Levanta-te!”. Este segundo imperativo do Evangelho deste dia é dinâmico e traduz perfeitamente a paixão de Deus em ver o homem vivo, o seu amor incondicional pela vida, pois Ele é a própria fonte de vida (cf. Jo 11,25; 14,6; 10,10). “Adormecida”, no “sono da morte”… um estado do qual Deus nos quer fazer sair, um estado do qual Ele nos salva, Jesus, o Deus-Conosco, chamou a jovem mulher a voltar à vida. “Eu te ordeno: levanta-te”. A palavra evoca a ressurreição, o novo surgir da vida, o amor divino que nos coloca de pé. É um imperativo que quer nos mostrar que  a vida jamais acaba, pois sua origem está em Deus (cf Jo 1,4; 11,25; 14,6). É preciso mantermos nossa fé no Deus da vida, origem e destino da vida. Ter fé no Deus da vida significa não parar de existir. É viver para sempre. Jesus pede ao pai da jovem apenas uma coisa: fé. “Não tenhas medo. Basta ter fé!”.  E quanto a nós, cremos verdadeiramente em Jesus Cristo, Filho de Deus vivo?


“Retirai-vos porque a menina não morreu e sim está dormindo”, disse Jesus à multidão.  Jesus quer dizer que para ele e para o poder de Deus a morte não significa mais que um sono ligeiro. Da mesma maneira Jesus também falou de Lázaro morto: “Nosso amigo Lázaro está dormindo e vou despertá-lo” (Jo 11,11). A morte para Deus não é um poder insuperável. Para quem ainda não está no caminho da fé tem dificuldade para entender tudo isso. As coisas têm um aspecto muito distinto diante do olhar de Deus e diante da experiência do homem. Mas se aprendermos a olhar tudo a partir de Deus, então a morte perderá seu caráter arrepiante e teremos alegria de tratar nossa vida com carinho e respeito, pois a vida é de Deus e Deus está nela.


As duas beneficiadas das ações de Jesus neste Evangelho têm algo em comum: a primeira estava doente durante 12 anos, e a jovem filha morreu aos 12 anos, a idade em que se devia tornar mulher. No povo de Israel, o percurso destas duas mulheres era sinal de um fracasso. Uma estava atingida, como Sara, a mulher de Abraão, na sua fecundidade, pois essa mulher de hemorragia perdia o seu sangue, princípio de vida na mentalidade semítica. A outra perdia a vida, precisamente na idade em que se preparava para transmiti-la (era tradição casar-se muito cedo). Cristo cura as duas mulheres e permite-lhes assim assumir a sua vocação maternal. “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância”, disse-nos Jesus (Jo 10,10b). Estar com Jesus significa estar com a vida em abundância. Longe dele perdemos a capacidade de produzir frutos para uma vida em abundância (cf. Jo 15,5).


2. Transformação Pela Fé.


Um chefe de sinagoga cai de joelhos, reconhecendo a divindade de Jesus, e suplica a Jesus para salvar a sua filha. Uma mulher atingida por hemorragias não diz nada, mas contenta-se em tocar as vestes de Jesus, porque se considera impura ritualmente (por isso ela fez tudo silenciosamente). Isto basta para Aquele que veio para levantar, curar, salvar a humanidade ferida. Só a fé solicita um sinal de Jesus, a fé de Jairo, a fé da mulher, a fé de Pedro, Tiago e João… E esta fé faz Jesus agir e transforma os beneficiados: a mulher é curada, a jovem volta a viver (levantar-se.


A fé nos diz que não há nada que seja perdido. A fé amplia nosso horizonte e alarga nossa perspectiva para mais longe. A fé nos levanta para um topo mais alto para ver até os vales da vida na sua profundidade. A fé nos coloca no mapa de nossa vida para que saibamos para onde vamos e por onde vamos. A fé é um tipo de “GPS” que nos leva até o endereço certo de nossa vida. Por causa da fé eu preparo o espaço necessário para que Deus possa atuar em mim. A fé é sempre e continua sendo a condição e o fundamento da ação salvadora de Deus em mim.


Não tenhas medo. Basta ter fé!”. É o convite de Jesus para cada um de nós. Jesus não nos pede outra coisa a não ser fé. E isso Ele pede até quando nos encontrarmos numa situação impossível de superar. A exemplo da mulher com a hemorragia durante 12 anos que toca na veste de Jesus, precisamos tocar o próprio mistério para que possamos sair de nossa situação sem saída. Além disso, precisamos deixar nossa mão segurada pelo Senhor para que possamos nos levantar novamente de uma situação de morte, como a menina de 12 anos que se encontrou morta e voltou a viver, pois o Senhor segurou sua mão e a ajudou a se levantar.


“Não temas; basta que tenhas fé!”. Este é o segredo. Ter fé é uma maneira mais eficaz para ficar perto de Deus. Mas a fé não se adquire nem nos livros, nem nas revistas nem nas receitas e sim está no encontro pessoal com Jesus. Para esse Jesus podemos pedir: “Toque-me, Senhor para que eu possa ficar curado e viva novamente!”.


A fé move montanhas. Nossas montanhas de medo, de covardias, de falta de compromisso com a vida. Aquela mulher, com fluxo de sangue, considerada impura que não podia ser tocada por ninguém nem tocar alguém, tomou coragem de tocar o manto de Jesus, pois tem fé no poder de Jesus de que ficaria curada. Para ela não há lei que a detenha. E ficou curada. Diante  da morte de sua filha, Jairo escuta  a voz do Senhor que lhe diz: “Não temas; basta que tenhas fé!”. Quem tem fé não há nada nem ninguém possa o deter.


Não tenhas medo. Basta ter fé!”, disse-nos Jesus hoje.


·        “A fé nasce no encontro com o Deus vivo, que nos chama e revela o seu amor: um amor que nos precede e sobre o qual podemos apoiar-nos para construir solidamente a vida. Transformados por este amor, recebemos olhos novos e experimentamos que há nele uma grande promessa de plenitude e se nos abre a visão do futuro. A fé, que recebemos de Deus como dom sobrenatural, aparece-nos como luz para a estrada orientando os nossos passos no tempo.”(Papa Francisco: Carta Encíclica Lumen Fidei no.4)


·        “A fé está ligada à escuta. ... A fé é a resposta a uma Palavra que interpela pessoalmente, a um Tu que nos chama por nome. A fé desvenda-nos o caminho e acompanha os nossos passos na história.” (Idem no.8)


  • Acreditar significa confiar-se a um amor misericordioso que sempre acolhe e perdoa, que sustenta e guia a existência, que se mostra poderoso na sua capacidade de endireitar os desvios da nossa história. A fé consiste na disponibilidade a deixar-se incessantemente transformar pela chamada de Deus. Paradoxalmente, neste voltar-se continuamente para o Senhor, o homem encontra uma estrada segura que o liberta do movimento dispersivo a que o sujeitam os ídolos. (Idem no. 13)

·        “A fé não só olha para Jesus, mas olha também a partir da perspectiva de Jesus e com os seus olhos: é uma participação no seu modo de ver.” (Idem no.18)


·        “Aquele que acredita, ao aceitar o dom da fé, é transformado numa nova criatura, recebe um novo ser, um ser filial, torna-se filho no Filho: « Abbá, Pai » é a palavra mais característica da experiência de Jesus, que se torna centro da experiência cristã [cf. Rm 8, 15].” (Idem no.19)

  • “Em família, a fé acompanha todas as idades da vida, a começar pela infância: as crianças aprendem a confiar no amor de seus pais. Por isso, é importante que os pais cultivem práticas de fé comuns na família, que acompanhem o amadurecimento da fé dos filhos. Sobretudo os jovens, que atravessam uma idade da vida tão complexa, rica e importante para a fé, devem sentir a proximidade e a atenção da família e da comunidade eclesial no seu caminho de crescimento da fé. Todos vimos como, nas Jornadas Mundiais da Juventude, os jovens mostram a alegria da fé, o compromisso de viver uma fé cada vez mais sólida e generosa. Os jovens têm o desejo de uma vida grande; o encontro com Cristo, o deixar-se conquistar e guiar pelo seu amor alarga o horizonte da existência, dá-lhe uma esperança firme que não desilude. A fé não é um refúgio para gente sem coragem, mas a dilatação da vida: faz descobrir uma grande chamada — a vocação ao amor — e assegura que este amor é fiável, que vale a pena entregar-se a ele, porque o seu fundamento se encontra na fidelidade de Deus, que é mais forte do que toda a nossa fragilidade.” (Idem no.53)

A ausência da fé suscita a angústia e o pavor. Quando confiamos apenas nas nossas forças, quando contamos apenas com as nossas capacidades e nossas técnicas, com aquilo que possuímos ou somente com as relações que mantemos com as pessoas com as quais estamos ligados, mais cedo ou tarde ficaremos desiludidos. A confiança total em Deus nascida da nossa fé na Sua Palavra é a única resposta adequada ao Seu insondável amor por nós.


3. A Vida Que Nos Aproxima e A Força Curadora Que Nos Atrai e Levanta
 

Jesus se encontra no meio da multidão. Evidentemente há muita conversa, gritaria e barulho. A multidão esmaga Jesus. No meio dessa multidão eis que uma mulher se aproxima de Jesus, a todo o custo, somente para tocar ao menos as vestes do Senhor. Para ela chegou seu momento e Jesus passou providencialmente pela sua vida. Ela não quer perder esse precioso momento para se aproximar d’Aquele que é fonte da verdadeira vida. Ela conseguiu tocar as vestes do Senhor com muita fé. Destas vestes saiu uma força curadora para essa mulher.


Há momentos preciosos na nossa vida em que nos esforçamos, isto é, usar toda nossa força em função daquele momento. E nenhum de nós quer perder aquela oportunidade. Por isso, costuma-se dizer: “Ou agora ou nunca mais!”.


Se eu ao menos tocar na roupa dele, ficarei curada”. A mulher de hemorragia se esforça para tocar no corpo de Jesus em função de sua cura de uma doença de longos anos (12 anos). É claro que Jesus não crê que Seu corpo seja um tipo de talismã que emita umas forças misteriosas, pois Jesus atua sempre sabendo daquilo que faz, e cura os enfermos que crêem nele. Por isso, seus milagres não acontecem por debaixo de consciência. A fé é um ato consciente. É uma entrega total para Deus, aconteça o que acontecer, pois Deus é soberano nos seus atos e misericordioso em suas sábias decisões, pois tudo em função da salvação do homem. Tudo que Deus faz por nós é sempre para nos salvar. Basta correspondermos à ação de Deus para que aconteça a salvação.


Apesar de estar sendo esmagado pela multidão Jesus mantém sua atenção para cada um. Jesus está atento a estas pessoas concretas, manifesta uma disponibilidade extraordinária, está extremamente atento à sua presença. Ninguém fica anônimo aos olhos de Jesus. Para Jesus cada um é chamado silenciosamente pelo nome (Jo 10,3b; Is 43,1), pois o nome de cada um está tatuado na palma da mão do Senhor (cf. Is 49,16). Jesus está habitado pelo amor de Deus Pai para com os seus filhos. No Coração do Pai, Jesus é capaz de uma atenção extrema a cada angústia do ser humano. Não interessa quem possa vir junto d’Ele, não interessa qual seja a situação: ele será sempre acolhido, Jesus dará sempre a sua atenção como se cada um estivesse sozinho no mundo com Ele, pois ele ama cada um na sua individualidade. Se eu também começasse a fazer silêncio em mim para melhor escutar Jesus, através da sua Palavra, se eu tivesse tempo para a oração interior, para aprofundar o meu silêncio interior… certamente ficaria mais disponível, mais atento aos outros.


Na Eucaristia celebramos o memorial do amor de Jesus por nós. Ele veio como vem não somente para curar nossas enfermidades corporais, mas principalmente para nos libertar da enfermidade do pecado que nos separa do amor de Deus e do próximo. Deus não nos quer são em nosso corpo, mas principalmente que sejamos renovados no Seu amor para que possamos ver o outro como nosso irmão. Apesar de nossas rebeldias, Deus jamais nos abandona e jamais Ele deixa de nos amar. Essa fidelidade do Senhor é que celebramos em cada Eucaristia. Aceitamos o amor de Deus que tem por nós e nos deixamos conduzir por seu amor.

P. Vitus Gustama,svd

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

02/02/2015
 
FESTA DA APRESENTAÇÃO DO SENHOR

02 de Fevereiro

 

Evangelho: Lc 2,22-40

22 Quando se completaram os dias para a purificação da mãe e do filho, conforme a lei de Moisés, Maria e José levaram Jesus a Jerusalém, a fim de apresentá-lo ao Senhor. 23 Conforme está escrito na lei do Senhor: “Todo primogênito do sexo masculino deve ser consagrado ao Senhor”. 24 Foram também oferecer o sacrifício — um par de rolas ou dois pombinhos — como está ordenado na Lei do Senhor. 25 Em Jerusalém, havia um homem chamado Simeão, o qual era justo e piedoso, e esperava a consolação do povo de Israel. O Espírito Santo estava com ele 26 e lhe havia anunciado que não morreria antes de ver o Messias que vem do Senhor. 27 Movido pelo Espírito, Simeão veio ao Templo. Quando os pais trouxeram o menino Jesus para cumprir o que a Lei ordenava, 28 Simeão tomou o menino nos braços e bendisse a Deus: 29 “Agora, Senhor, conforme a tua promessa, podes deixar teu servo partir em paz; 30 porque meus olhos viram a tua salvação, 31 que preparaste diante de todos os povos: 32 luz para iluminar as nações e glória do teu povo Israel”. 33 O pai e a mãe de Jesus estavam admirados com o que diziam a respeito dele. 34 Simeão os abençoou e disse a Maria, a mãe de Jesus: “Este menino vai ser causa tanto de queda como de reerguimento para muitos em Israel. Ele será um sinal de contradição. 35 Assim serão revelados os pensamentos de muitos corações. Quanto a ti, uma espada te traspassará a alma”. 36 Havia também uma pro­fe­tisa, chamada Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser. Era de idade muito avançada; quando jovem, tinha sido casada e vivera sete anos com o marido. 37 Depois ficara viúva, e agora já estava com oitenta e quatro anos. Não saía do Templo, dia e noite servindo a Deus com jejuns e orações. 38 Ana chegou nesse momento e pôs-se a louvar a Deus e a falar do menino a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém. 39 Depois de cumprirem tudo, conforme a Lei do Senhor, voltaram à Galileia, para Nazaré, sua cidade. 40 O menino crescia e tornava-se forte, cheio de sabedoria; e a graça de Deus estava com ele.
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I. A FESTA DA APRESENTAÇÃO DO SENHOR E SEU SENTIDO

1. Jesus Na Apresentação

Ainda que a festa da apresentação caia fora do tempo do Natal, ela faz parte inseparável do relato do Natal do Senhor. Trata-as de outra Epifania do Senhor no quadragésimo dia. Natal, Epifania e Apresentação do Senhor são três aspectos do Natal inseparáveis.


A festa da Apresentação celebra uma chegada e um encontro: a chegada do Senhor desejado, núcleo da vida religiosa do povo e a bem-vindo concedida a ele pelos representantes dignos do povo eleito: Simeão e Ana. Por sua idade avançada os dois personagens simbolizam os séculos de espera e de anseio fervente dos homens e das mulheres devotos da Antiga Aliança (Antigo Testamento). Pode-se dizer que os dois simbolizam a esperança e o anseio da humanidade.


Ao festejar e reviver este mistério na fé, a Igreja dá novamente as boas vindas para Jesus Cristo. Este é o verdadeiro sentido da festa. É a festa do encontro: encontro de Cristo e sua Igreja. Isto vale para qualquer celebração litúrgica, mas especialmente para esta festa. A liturgia nos convida a dar boas vindas a Cristo e à sua Mãe, como fizeram Simeão e Ana. Ao celebrar esta festa a Igreja professa publicamente a fé na Luz do mundo (Jo 8,12), Luz de revelação para a humanidade.


A festa da apresentação é uma festa de Cristo, por excelência. É um mistério da salvação. O nome “apresentação” tem um conteúdo rico. Fala de oferecimento, de sacrifício. Recorda a auto-oblação inicial de Cristo, Palavra Encarnada, quando entrou no mundo: “Eis me aqui que venho para fazer Tua vontade”. Aponta para a vida de sacrifício e para a perfeição final dessa auto-oblação na colina do Calvário. 


2. A Presença de Maria Na Apresentação E Seu Significado


Qual é o papel de Maria e José nessa Apresentação? Eles simplesmente cumprem o ritual prescrito, uma formalidade praticada por muitos outros casais?


Para Maria, a Apresentação e oferenda de seu Filho no Templo não era um simples gesto ritual. Indubitavelmente, Maria não estava consciente de todas as implicações nem da significação profética desse ato. Ela não consegue alcançar todas as conseqüências de sua Fiat na Anunciação. Mas foi um ato de oferecimento verdadeiro e consciente. Significava que ela oferecia seu Filho para a obra da redenção, renunciando aos seus direitos maternais e toda a pretensão sobre seu Filho. Ela oferecia seu Filho à vontade de Deus Pai. São Bernardo comentou que Santa Virgem ofereceu seu Filho e apresenta ao Senhor o fruto bendito de seu ventre e o oferece para reconciliação de todos os homens.


Existe uma conexão entre esse oferecimento e o que sucederá na Gólgota quando se executam as implicações do ato inicial de obediência de Maria: “Faça-se em mim segundo Tua Palavra” (Lc 1,38b).


Na Apresentação Maria põe seu Filho nos braços do ancião Simeão. Esse gesto é simbólico. Ao atuar dessa maneira, ela oferece seu Filho não somente para Deus Pai, mas também para o mundo representado por aquele ancião. Dessa maneira, Maria desempenha seu papel de Mãe da humanidade e nos é recordado que o dom da vida vem através de Maria.


A festa deste dia não permite apenas revivermos um acontecimento passado. Ela também nos projeta para o futuro. Ela prefigura nosso encontro final com Cristo na sua segunda vinda, na Parusia. A procissão representa a peregrinação da própria vida. O povo peregrino de Deus caminha penosamente através deste mundo, no tempo, guiado pela Luz de Cristo e sustentado pela esperança de encontrar finalmente o Senhor da glória em Seu Reino eterno. Na bênção das velas o sacerdote pronuncia as seguintes palavras: “... Fazei que, levando as velas nas mãos em vossa honra e seguindo o caminho da virtude, cheguemos à luz que não se apaga”. A vela acesa na nossa durante a procissão recorda a vela de nosso batismo.


II. ALGUMAS MENSAGENS A PARTIR DO TEXTO DO EVANGELHO DA FESTA


1.     A importância de Jerusalém para Lucas
    

Para Lucas, Jerusalém é importante, pois é centro de tudo. Por isso, todos os acontecimentos importantes da vida de Jesus acontecem em Jerusalém. Jerusalém é mencionado no início e no fim do relato (vv.22.25.38). A apresentação do Senhor acontece em Jerusalém. E em Jerusalém acontecerão sua morte e ressurreição. De Jerusalém ele subirá ao céu. E de Jerusalém partirá a missão cristã para o resto do mundo (cf. Lc 2,41-52;4,9-13;9,31.51.53;13,22;17,11;18,31;19,11.28-48;24,47-53;At 1,4.8).


2. A imposição do nome de Jesus
     

Lucas, neste relato, quer sublinhar a importância da imposição do nome de Jesus que se afirma na frase principal: “Foi-lhe dado o nome de Jesus” (v.21). O nome “Jesus” foi escolhido pelo próprio Deus (Lc 1,31;2,21;cf. Mt 1,21).
    

Para os judeus, o nome expressava a identidade e o destino pessoal que cada um devia realizar ao longo de sua vida.  E quando uma pessoa é eleita para uma nova missão, recebe um nome novo, em função da etapa de vida que começa (cf. Gn 17,5;17,15;32,29; Mt 16,18; cf. 2Rs 23,34;24,17;Is 62,2;65,15).
     

Não há nenhum nome que coincidiu tão perfeitamente com o nome como no caso de Jesus. Jesus significa Salvador. Desde o primeiro instante de sua existência até a morte na cruz, ele foi o que significa seu nome: Salvador.
    

Por isso, o nome de Jesus como Senhor e Salvador é invocado ao longo da história do cristianismo por bilhões de cristãos. O nome de Jesus é invocado, pois ele é o Senhor de tudo. Está acima de todo principado, de todo poder, de toda dominação e potência. Por mais poderoso que seja um político ou um atleta, um dia a morte o vencerá. Por mais rico que seja alguém, um dia a morte levará a melhor. Ao contrário, Jesus venceu a morte, pois ele ressuscitou. Por isso, São Paulo afirma: “Se confessas com tua boca que Jesus é o Senhor, e crês em teu coração, que Deus o ressuscitou dos mortos, tu serás salvo”(Rm 10,9; cf. Rm 8,35-39). Jesus é o Senhor porque vive uma vida sobre a qual a morte não tem poder algum. Ele detém a chave do segredo da vida e ilumina o mistério da vida.
    

A soberania do Senhor Jesus pode nos dar uma força imensa para combater o mal dentro de nós e o mal ao nosso redor. Jesus é Senhor exprime uma fé libertadora que tira de nossas vidas toda a angústia exagerada. Jesus é Senhor implica que ele é Senhor de nossa vida. Exprime uma entrega, um total abandono nas mãos do Senhor. Implica construir a vida sobre ele(cf. Mt 7,24-25) e não sobre os fundamentos fracos e frágeis(cf. Mt 7,26-27).


3. Jesus é sinal de contradição
  

Israel tinha murmurado contra Deus na passagem do deserto (Nm 20,1-13;Dt 32,51). Na apresentação do Senhor no templo, Simeão profetiza a nova rebelião de Israel contra Jesus, que será relatada no evangelho da vida pública e da paixão e a rejeição da missão cristã em Israel que será contada no livro de Atos. Tudo isto resulta também no sofrimento de sua mãe, Maria.
   

Lucas relata ao longo de sua obra que diante de Jesus e sua missão, uns são a favor, outros contra; uns abrem os olhos à luz, outros os fecham; uns encontram força nele e por isso, se levantam, enquanto os outros tropeçam e caem por não crer. Isto quer dizer que ninguém pode ficar indiferente diante de Jesus: ou aceitar Jesus para ser libertado ou rejeitá-lo que significa tropeço na caminhada.
  

Jesus e seu evangelho continuam sendo em todos os tempos e lugares sinal de divisão e de contradição. Perante Jesus e seu evangelho ninguém pode ficar indiferente: ou aceitar ou rejeitar, com conseqüências para cada opção feita. A salvação é oferecida a todos, mas não é dada automaticamente nem pode ser recebida passivamente. Ela tem que ser recebida conscientemente como um compromisso a ser assumido a vida toda. O Evangelho de Jesus, quando for proclamado e vivido verdadeiramente, sempre incomoda tanto para quem o prega e vive como para quem o escuta, pois ele é como uma luz que brilha na escuridão: revela o verdadeiro ser de pessoas e das coisas. Aquele que quer manter uma vida falsa e dupla ou camuflada, a presença do Evangelho funciona como se fosse um espinho que irrita a carne. Se alguém não tiver medo de ser feliz, a presença incômoda do Evangelho será um momento oportuno de libertação. Para quem vive somente em função do prazer, não tem prazer de viver. O prazer tem que ser fruto de um viver bem.


4. Nós e o ancião Simeão
    

Na parte central do relato (vv.25-35) encontramos o ancião Simeão. Ele é apresentado como um homem justo e piedoso, isto é, um homem fiel aos mandamentos de Deus. Ele se deixa guiar pelo Espírito Santo e por isso, compreende o sentido de sua existência. Ele é o símbolo da perseverança. Apesar de ter consciência de sua iminente morte, continua esperando a salvação. Na sua velhice ele é premiado, pela sua fidelidade e perseverança, pela presença do Messias esperado. Ele é uma pessoa que sabe olhar para frente para viver melhor o presente.
   

A partir de Deus e com Deus nada é perdido no mundo. Simeão é a testemunha e prova disto. Ele nos ensina a conversarmos com Deus permanentemente e a olharmos para a frente. Ele nos ensina a olharmos para Jesus, o nosso Salvador e a irmos ao Seu encontro. No encontro com Jesus, como aconteceu com Simeão, são realizadas nossas esperas e esperanças, encontramos alegria e paz, nossos olhos são iluminados para ver as pessoas e as coisas no seu justo valor, como também a nossa própria vida. Mas para que o nosso encontro com Jesus aconteça, precisamos nos deixar guiar pelo Espírito Santo.


5. O silêncio de Maria e o nosso silêncio
    

No relato, Maria é descrita como uma personagem que não profetiza nem fala. Em outras palavras, ela está em silêncio total. Ela acolhe na obediência as profecias sobre o futuro de seu Filho silenciosamente.
   

Maria nos ensina a fazermos o silêncio obrigatório no meio de nossa vida e trabalho para vermos melhor as coisas, os acontecimentos e as pessoas na sua justa perspectiva e no seu justo valor. O silêncio chega quando as nossas energias começam a descansar e nos acolhe quando o nosso ego fica em paz e sossego. Quando não sabemos o que é descansar, não sabemos também o que é viver. O nosso ego não é o nosso centro de gravidade. O ego é o centro de todos os desejos desenfreados, dos lucros, possessões e domínios. Hoje em dia há uma dependência exagerada do trabalho. Quando há dependência, não existe liberdade. Há pessoas que se entregam a tudo desde que não fiquem no vazio. A vida nunca é o que se consegue. Não é o que se tem. A vida é o que se é. Não se pode ignorar que tudo quanto se alcança, se perde. Só o que se é, permanece. O silêncio, por isso, é tão importante, pois ele nos leva a encontrarmos o nosso eixo. As nossas palavras serão boas, se brotarem do silêncio. E Deus nunca cessa de clamar, mas para escutarmos a sua voz é preciso criarmos o silêncio dentro de nós. E a escuta exige uma atenção total e plena. O silêncio é um vazio que faz tornar presente a plenitude. Mas a plenitude não se torna presente de repente. É preciso tempo. Na semente está a qualidade do fruto, mas naturalmente é preciso tempo. Dizia Cícero: “Há três coisas na vida nas quais não pode haver pressa: a natureza, um ancião e a ação dos deuses na tua história”. O silêncio é esvaziar-se para receber. No silêncio diminuem as defesas e fica-se pronto para receber o que vier. O silêncio quando se souber aproveitá-lo melhor, ele será frutificante e benéfico para quem o cria e consequentemente para os que o cercam.

P. Vitus Gustama,svd
01/02/2015
 

VIVER DE ACORDO COM AUTORIDADE DE CRISTO

IV DOMIMGO DO TEMPO COMUM ANO “B”

 

Evangelho: Mc 1,21-28

21 Na cidade de Cafarnaum, num dia de sábado, Jesus entrou na sinagoga e começou a ensinar. 22 Todos ficavam admirados com o seu ensinamento, pois ensinava como quem tem autoridade, não como os mestres da Lei. 23 Estava então na sinagoga um homem possuído por um espírito mau. Ele gritou: 24 “Que queres de nós, Jesus Nazareno? Vieste para nos destruir? Eu sei quem tu és: tu és o Santo de Deus”. 25 Jesus o intimou: “Cala-te e sai dele!” 26 Então o espírito mau sacudiu o homem com violência, deu um grande grito e saiu. 27 E todos ficaram muito espantados e perguntavam uns aos outros: “O que é isto? Um ensinamento novo dado com autoridade: Ele manda até nos espíritos maus, e eles obedecem!” 28 E a fama de Jesus logo se espalhou por toda a parte, em toda a região da Galileia.
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O texto do Evangelho deste domingo relata o primeiro dia da atividade apostólica ou missionária de Jesus em Cafarnaum. O texto podemos dividir em duas partes. A primeira parte (vv.21-22) fala do ensinamento de Jesus que causa a admiração da parte do povo na sinagoga, pois ele fala com autoridade. A segunda parte (vv.23-28) relata a expulsão do espírito mau de um homem encontrado na sinagoga.


1. Jesus Ensina Com A Autoridade (vv.21-22)
  

Depois de ter formado o primeiro grupo de discípulos (cf. Mc 1,14-20: o Evangelho do Domingo anterior), Jesus começa a dar início à sua atividade tomando contato com os israelitas na instituição religiosa (Sinagoga) que aceitam a doutrina oficial transmitida pelos Mestres da Lei. Neste ambiente é que Jesus começa a ensinar.


Jesus se preocupa com o ensinamento. No ensinamento de Jesus, os ouvintes percebem a força do Espírito Santo nas suas palavras. A reação é, então, favorável, pois reconhecem nele a autoridade de um profeta:”...ele ensina como quem tem autoridade” (v.22). Não se diz o conteúdo do ensinamento de Jesus. Diz-se apenas a reação de admiração do povo. Jesus possui a autoridade e o poder de quem, anunciando a chegada do Reino de Deus (cf. Mc 1,15), a torna realidade. A poderosa palavra doutrinal(ensinar legitimamente) e a poderosa ação exorcista constituem por igual um sinal do poder divino de Jesus e ao mesmo tempo, um sinal de que nele e com ele se abre o caminho para a soberania de Deus no mundo. Com ele, o povo começa a ter um senso crítico de tudo, pois a mente do povo se abre com os ensinamentos de Jesus. O mais perigoso do mundo não é aquele que tem dinheiro ou poder, e sim aquele que tem todas as informações e dados.
    

Como conseqüência, o ensinamento de Jesus provoca o desprestígio do ensinamento habitual dos Mestres da Lei: “Ele ensina como quem tem autoridade e não como os mestres da lei” (v.22). Os mestres da lei, quando fizeram uma afirmação, citaram os grandes mestres do passado. Jesus, ao contrário, quando fala, ele não necessita nenhum autoridade e nenhuma citação de um especialista. Ele fala com a finalidade da voz de Deus. Por isso, o povo percebe a diferença. Certamente Jesus, com seu ensinamento, pretende alargar o horizonte do povo. Com seu ensinamento Jesus consegue libertar o povo da dependência dos Mestres da Lei e do Deus enquadrado criado por eles. Ele provoca o início da tomada da consciência crítica no povo para avaliar a realidade em que se encontra com a maneira de Deus em Jesus Cristo.


Por que Jesus ensina com tanta autoridade?


A autoridade de Jesus não está a serviço de uma instituição, de um poder, de uma ideologia ou de um partido, e sim está a serviço do ser humano para que este reconheça sua própria dignidade, sua vocação à vida comunitária (sem exclusão). A nova forma de Jesus ensinar “com plena autoridade” apela a valores e atitudes fundamentais do ser humano: apela à capacidade de convivência, ao reconhecimento respeitoso e tolerante do outro, ao desenvolvimento da auto-estima como condições para um autêntica libertação da situação de marginalização em que vive a grande maioria, à fraternidade universal, pois Deus é o Pai de todos e por isso, todos são irmãos cuja vocação fundamental é proteger o irmão de todo mal, à familiaridade, pois todos são membros da família humana. Se um ser humano sofrer, eu sofrerei também, pois faço parte da humanidade (cf. 1Cor 12,12-30).  Por isso, o ensinamento de Jesus desperta uma grande admiração da parte do povo na sinagoga: “Todos ficavam admirados com o seu ensinamento, pois ele ensinava como quem tem autoridade, não como os mestres da lei”. O povo fica admirado por Jesus e Jesus luta pela dignidade do povo. Onde há mutuo respeito, há mutua admiração. Mas onde não há o mútuo respeito, não há espaço para a mútua admiração. E onde não houver a mutua respeito e a mutua admiração, um homem virará lobo para outro homem; um devorará o outro sem piedade em nome do próprio interesse e vantagem. Quando tenho plena consciência de que meu coração é humano, jamais ferireo o coração do outro ser humano, pois dentro de seu coração está também meu coração.
 

Jesus ensina como quem tem autoridade e não como os mestres da lei”. A autoridade está ligada ao crescimento. A própria palavra vem do latim “augere”, que quer dizer “crescer”. Por isso, exercer a autoridade é sentir-se realmente responsável pelos outros e por seu crescimento, sabendo que eles não são nossa propriedade, nossos objetos, mas pessoas que têm um coração, nas quais existe a Luz de Deus, e que são chamadas a crescer na liberdade da verdade e do amor. O maior perigo para aquele que tem autoridade é manipular as pessoas e dirigi-las para seus próprios objetivos e sua necessidade de poder. Se for assim, ele deixará de ser uma pessoa com autoridade.


Jesus fala como quem tem autoridade. Há palavras que nos aproximam de Jesus. Quais são estas palavras? Sempre que pronunciarmos uma palavra viva, aquela que não é fingida, aquela que sabe detectar em cada momento o que o outro está necessitando, aquela que faz o outro melhorar e crescer, aquela que não semeia a discórdia, a palavra que humaniza, estaremos falando com autoridade. Sempre que pronunciarmos uma palavra compassiva, aquela que consola nos momentos de dificuldade, a palavra que anima quem está desesperado, a palavra sincera de querer ajudar, estaremos falando com autoridade. Sempre que pronunciarmos uma palavra solidária, aquela que coloca as coisas no seu devido lugar, aquela que sai do coração para aliviar a dor do outro, aquela que serena, estaremos falando com autoridade. Sempre que pronunciarmos uma palavra de esperança que diz que nem tudo está perdido, que o melhor está para vir porque Deus está conosco, estaremos falando com autoridade.


É bom cada um fazer um exame de consciência para saber se vive, fala e ensinado com autoridade como Jesus.
   

Cada um de nós, de certa forma, exerce alguma autoridade, no grupo, no trabalho, em casa etc.. Exercer a autoridade é sentir-se realmente responsável pelos outros e por seu crescimento, sabendo que eles não são nossa propriedade, nossos objetos, mas pessoas que têm um coração, nas quais existe a luz de Deus, e que são chamadas a crescer na liberdade da verdade e do amor. O maior perigo para alguém que tem autoridade é manipular as pessoas e dirigi-las para seus próprios objetivos e sua necessidade de poder. Uma pessoa que realmente tem autoridade é aquela que encoraja, ensina, dá apoio e aconselha, e se for necessário, corrige, para ajudá-lo a ter confiança em si próprio e a crescer para uma maturidade, sabedoria e liberdade maiores. Uma pessoa que tem a verdadeira autoridade é aquela que trabalha visando justiça para todos, especialmente para aqueles que não podem se defender, que fazem parte de uma minoria oprimida. É aquela que não se compromete com o mal, com a mentira e com as forças da opressão que esmagam as pessoas, principalmente os indefesos. A autoridade existe para a liberdade e o crescimento das pessoas.
    

O povo ao redor de Jesus fica admirado pela pessoa de Jesus, porque ele ensina como quem tem autoridade. Será que sabemos também ensinar com autoridade? Você será uma boa autoridade se for amado mais do que obedecido ou temido.


2. Expulsão do espírito mau (vv.23-28)
    

Jesus vai à sinagoga. Ele vai lá para ensinar e purificar. Pela imundice que a habita (um homem está possuído por um espírito imundo/mau dentro da sinagoga), a sinagoga não é mais a “Casa de Deus”, ou a “Assembléia de Javé”. O povo reunido (sinagoga quer dizer reunião) não é mais o lugar santo onde Deus habita (Ex 19,5s). Jesus vai à sinagoga para livrar o povo do poder da instituição que o aliena e com isso, denuncia, ao mesmo tempo, seu caráter perverso e opressor. Jesus quer convidar o povo para um novo espaço (a casa: onde acontecerá a cura da sogra de Pedro. Saberemos isso no evangelho do próximo domingo), onde acontecerão possíveis novas relações.
     

Entre os fiéis da Sinagoga há quem se identifica de maneira tão fanática com o ensinamento dos Mestres da Lei, que não tolera que a autoridade doutrinária deles seja submetida à censura. Para exprimir o fanatismo, Marcos usa a expressão “estar possuído por um espírito imundo/mau” (em oposição ao Espírito Santo que está com Jesus).  O fanatismo é a força que despersonaliza o homem e impede todo espírito crítico. O fanatismo é, em concreto, uma ideologia contrária ao plano de Deus. O fanatismo fomenta a idéia da superioridade própria e o conseqüente desprezo dos demais. O possesso é, neste texto, homem inteiramente alienado pela adesão fanática a essa ideologia e sai em defesa dos Escribas.
      

O espírito “mau/impuro” toma  o homem por inteiro fazendo com que o homem não pense nem aja por si mesmo. O espírito mau, em outras palavras, aliena o homem, cortando os laços de relacionamento com os outros e tirando o homem da sua existência como um ser social (socius = amigo), um ser amigo/irmão para  os outros. O homem possesso personifica a alienação total.
     

É interessante observar que o próprio possesso fica dividido dentro de si mesmo. Porque, por um lado, ele não pode negar a autoridade divina de Jesus: “Sei quem Tu és: Tu és o Santo de Deus”. Por outro lado, ele não admite que a autoridade divina de Jesus possa opor-se à autoridade da instituição religiosa e da sua doutrina (que para ele também divina). Por isso, ele diz: ”Que tens contra nós, Jesus Nazareno. Vieste para nos destruir?” Ao chamar Jesus de Nazareno, o possesso sugere-lhe que, segundo a sua origem (de Nazaré), Jesus deveria professar as idéias nacionalistas. Aqui Jesus é tentado (primeira vez que ocorre a tentação do poder, cf.1,13) para que ponha sua autoridade divina a serviço do sistema, aceitando o papel de Messias nacionalista. Mas Jesus o interrompe e, apesar da sua resistência, liberta-o do seu fanatismo, isto é, consegue convencê-lo do erro do seu posicionamento.


O episódio do homem possuído por um espírito impuro, mais do que demonstrar autoridade de Jesus sobre as forças do mal, quer mostrar como Jesus integra ao seio da comunidade aquele que era excluído e recusado como muitos outros em nome de um poder que desumaniza, até usa o nome de Deus (leis religiosas) para oprimir ou praticar atos violentos e discriminatórios. Na verdade, Mc coloca aqui o possuído como representante dos fanáticos pelo poder. Para assinalar o fanatismo Mc usa a expressão “estar possuído por um espírito impuro” em oposição ao Espírito Santo que dá vida, que anima, que capacita o ser humano a amar. A força que despersonaliza o homem e impede todo espírito crítico é uma ideologia contrária ao plano de Deus.
   

O possuído não pode negar a autoridade de Jesus (profeta), mas não admite que sua autoridade se oponha à instituição religiosa e a sua doutrina que despersonaliza o ser humano. Para o possuído a autoridade de Jesus deve estar a serviço do sistema. Mas apesar de sua resistência, Jesus o liberta de seu fanatismo ou convence este possuído do erro de sua postura. Ao aceitar o Espírito de Deus o homem se liberta de suas escravidões.


Até aqui podemos fazer perguntas para nós mesmos: Você é fanático(a) na sua religião ou em outras áreas de vida ? Fanático significa quem se julga inspirado por uma divindade qualquer, e o resto não. É uma adesão cega a uma doutrina ou sistema. Será que muitas vezes ou alguma vez você abusa da sua autoridade ou do seu poder(político ou econômico ou intelectual) para  dominar os outros e para conseguir algo que moralmente ou de ponto de vista da doutrina de Jesus é ilícito ou errado ? Lembre-se que Jesus não se submeteu à tentação do poder.

 

OUTRAS MENSAGENS DO TEXTO
 

1. Com Jesus seremos libertados

   
Olhando para essa cena chegamos a uma lição que o processo de libertação não é fácil. Por um lado, os opressores não querem abrir mão de seus interesses, suas intenções e métodos. Por outro lado, os oprimidos acabam por se acostumar à sua situação, já não fazendo mais caso dela. A libertação começa quando o escravo do mal se insurge contra sua situação com a ajuda de Jesus Cristo. Trata-se, por isso, de uma terrível luta interior. Às vezes (como o possesso) se pensa que a presença de Jesus só sirva para perturbar ou atrapalhar o sossego ou comodismo. Mas devemos estar conscientes sempre de que a presença de Jesus purifica o ser humano dos espíritos imundos que flagelam e contaminam. Livres de toda escravidão, os que tinham sido beneficiados por Jesus, sem dúvida nenhuma, tornam-se sinal do poder efetivo de Deus nesta terra.
    

Somente se Deus for reconhecido como Deus, e amado com eterno amor, saberemos o que é o pecado, mas saberemos também o que é o perdão divino, insondável e sem nenhuma outra razão de ser do que o amor do pai que procura a felicidade dos seus filhos.
  

Se toda a vida de Jesus foi perpassada de luta contra as forças do mal e não cruzava os braços ao se deparar com quem era vítima do mal e do pecado, mas sua presença fazia o dinamismo libertador do Reino em ação neste mundo, então que cada um de nós, como seguidor(a) dele, saiba, com a ajuda de Jesus, se esforçar para sair de todo tipo de escravidão dentro de si mesmo que criamos. Ninguém pode ter medo de ser feliz e livre. Por isso, devemos abandonar as cadeias que nós mesmos fizemos. Sabemos que tudo isso não é fácil. Trata-se de uma terrível luta interior  sem parar.
 

Peçamos, por isso, ao Senhor Jesus Cristo, nosso Libertador, que afaste para longe de nós e de nosso lar o mal que nos impede de sermos felizes e livres e de fazer-nos servidores do Reino de Deus.


2. O espírito de Jesus e o espírito imundo
     

Percebemos também através deste Evangelho que entre o Espírito de Jesus e o espírito imundo nada tem em comum. O Espírito de Jesus liberta o ser humano, enquanto o espírito imundo o escraviza. Um recupera as pessoas para Deus, já o outro as afasta sempre mais do plano ou da vontade de Deus. Um restaura no coração humano o sentido da vida e o da vida fraterna e solidária, o outro, pelo contrário, gera discórdia e divisão dentro si e entre as pessoas. Um encarna a novidade da misericórdia de Deus, o outro insiste no caminho inconveniente da soberba.
   

Por isso, a única intenção de Jesus que deve ser também a nossa intenção como seguidores verdadeiros dele é derrotar este espírito mau/imundo. Com Jesus tudo se torna possível, pois ele é o nosso Libertador.
     

Até aqui nós podemos perguntar: Você está, realmente, com o Espírito de Jesus ou ainda está com outro espírito ? Verifique suas atitudes e compare com o Espírito de Jesus.


3. Não se deixe ajudar por Jesus
    

O Evangelho nos relata também que à ordem de Jesus, o espírito mau deixou o possesso, depois de agitá-lo violentamente e fazer grande grito.
  

Esta é, na verdade, a imagem do que se passa no coração de cada um de nós: o espírito mau reluta em abandonar o espaço conquistado no nosso coração. Se não nos deixarmos ajudar por Jesus Cristo, correremos o risco de permanecer escravos desse espírito imundo. A situação do homem possesso representa a condição daquele que ainda não encontrou Jesus Cristo: vive subjugado por forças hostis que o destróem e que ele não consegue controlar.


O discipulado cristão exige que façamos a experiência de ser libertados pelo Senhor Jesus Cristo, pois é impossível compatibilizá-lo com as forças do mal que age dentro de nós.
   

Aqueles que, diante das forças hostis ou obstáculos, desanimam e desistem da luta, mostram que não confiam ainda na força da Palavra de Jesus Cristo que continua ressoando nas nossas comunidades ou famílias, como naquele Sábado de dois mil anos atrás na Sinagoga de Cafarnaum.
 

Perguntemo-nos sinceramente: a Palavra de Deus que hoje ecoa nas nossas celebrações ou nos nossos ouvidos, provoca alguma transformação, causa alguma inquietação e desembaraça situações aparentemente irremediáveis ?
 

Portanto, peçamos ao nosso Pai celeste que nos dê forças suficientes para que jamais permitamos ao poder do mal prevalecer sobre nós e sobre nossa família. Seja o nosso coração e o coração de nosso lar totalmente voltado para Deus e seu Reino. Pois só nele cada um de nós e o nosso lar encontraremos o porto seguro ou refúgio.

 
P. Vitus Gustama,svd