sábado, 28 de março de 2015


DOMINGO DA PÁSCOA
 
CORRER AO ENCONTRO DO SENHOR RESSUSCITADO PARA SER SALVO
 

Evangelho: Jo 20,1-10


1 No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda estava escuro, e viu que a pedra tinha sido tirada do túmulo. 2 Então ela saiu correndo e foi encontrar Simão Pedro e o outro discípulo, aquele que Jesus amava, e lhes disse: “Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o colocaram”. 3 Saíram, então, Pedro e o outro discípulo e foram ao túmulo. 4 Os dois corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa que Pedro e chegou primeiro ao túmulo. 5 Olhando para dentro, viu as faixas de linho no chão, mas não entrou. 6 Chegou também Simão Pedro, que vinha correndo atrás, e entrou no túmulo. Viu as faixas de linho deitadas no chão 7 e o pano que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não posto com as faixas, mas enrolado num lugar à parte. 8 Então entrou também o outro discípulo, que tinha chegado primeiro ao túmulo. Ele viu, e acreditou. 9 De fato, eles ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar dos mortos.

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O Capítulo 20 de João tem quatro episódios que algum teólogo intitula: “Em busca dos sinais do Ressuscitado”. O primeiro episódio (vv.1-10) tem como personagens Maria Madalena e depois Pedro e João. O segundo episódio (vv.11-18) faz-nos contemplar Maria Madalena que gradualmente reconhece Jesus. Neste episódio Maria Madalena é apresentada como o personagem mais interessado na busca dos sinais e, através dos sinais, da própria presença do Senhor. O terceiro episódio (vv.19-23) é o episódio da manifestação de Jesus aos apóstolos: Jesus entre os seus. E por fim, Jesus e Tomé (vv.24-29). Tomé nos apresenta a tendência do homem a fechar-se ao mistério. Em outras palavras, ele representa aqueles que têm dificuldade de ver os sinais da presença do Senhor no mundo (os céticos).


Para o Domingo da Páscoa o texto fala do primeiro episódio cujos personagens são Maria madalena, Pedro e João.


1. O primeiro dia é o “dia do Senhor”


O texto começa com estas palavras: “No primeiro dia da semana quando estava escuro, Maria Madalena foi ao túmulo...”(v.1). O primeiro dia é o dia da ressurreição do Senhor. Na tradição cristã este dia é chamado “Domingo” palavra que vem do latim “dies dominicus” ou “Dies Domini”, “dia do Senhor”. “Senhor” é um titulo pós-pascal.


No contexto pascal, a expressão “primeiro dia” sugere que começou um tempo novo nascido da morte e ressurreição de Jesus para o mundo (2Cor 5,17). O dia que para os judeus era o primeiro depois do Sábado tornou-se para os cristãos “o primeiro dia da semana”.  Ele passou a ser chamado “dia do Senhor” (dies dominicus), domingo, porque nesse dia o Senhor ressuscitou. Por essa razão os cristãos se reúnem nesse dia para “partir o pão” (Eucaristia), o memorial da morte e ressurreição do Senhor (cf. 1Cor 16,2;At 20,7;Ap 1,10).  Jesus é a luz do novo dia que não termina jamais. Jesus é o Senhor que ilumina o mistério da vida. Cristo detém a chave do segredo da vida e deixa sua luz brilhar nas trevas. Nele o mistério da vida é tornado luminoso. O que é a vida, seu significado, sua finalidade, como apreciá-la e torná-la autêntica, dar-lhe um sentido, é tudo isto que Jesus pode nos ensinar, pois ele veio para nos fazer viver plenamente (Jo 10,10). Por isso, com muita certeza, São Paulo diz: “Se confessas, com tua boca que Jesus é o Senhor e crês em teu coração que Deus o ressuscitou dos mortos, tu serás salvo” (Rm 10,9).


Portanto, não podemos considerar o Dia do Senhor (Domingo) como um peso. Ao contrário, ele é como uma explosão de vida que merece ser celebrada, pois, de fato, o nosso futuro está garantido pela ressurreição do Senhor. É claro que temos problemas! Mas ao mesmo tempo temos a certeza de nossa vida que terminará com a vitória. Quem nos garante isto é Jesus ressuscitado: “No mundo haveis de ter aflições. Coragem! Eu venci o mundo” (Jo 16,33), e “...aquele que perseverar até o fim será salvo” (Mt 10,22). E o próprio Jesus foi perseverante até o fim. E o prêmio desta perseverança é a ressurreição, a vida que não acabará jamais.


2. Com Jesus ressuscitado somos chamados a sair das trevas
  

Maria Madalena foi ao túmulo quando ainda estava escuro (em grego skotia: a treva). A escuridão, aqui, é um símbolo do estado interior de Maria, das trevas que a habitam e a envolvem. Com a morte de Jesus, que era a luz de sua vida, ela perdeu o sentido e a alegria de viver. Tudo se torna escuro para ela. Apesar da escuridão do seu interior, em Maria Madalena ainda sobrevive o amor que ela tem por Jesus. Ninguém jamais pode tirar esse amor do seu coração, pois ele é mais forte que a morte. Esse amor a leva ao encontro do Senhor. E quem fez nascer esse amor no coração de Maria Madalena, o amor absolutamente novo, puro e belo, depois que ela foi pisada e desprezada por tantos homens, certamente foi Jesus. Foi Jesus quem devolveu a dignidade a Maria Madalena depois que a libertou “de sete demônios” (Mc 16,9; Lc 8,2). O encontro com Jesus tinha sido para ela o novo começo de sua vida, a nova luz que ilumina tudo na sua vida, a nova fonte de sua verdadeira felicidade.
     

Maria Madalena foi ao túmulo quando ainda estava escuro. No Evangelho de João, onde claro e escuro têm seus papéis, a escuridão dura até que alguém acredite em Jesus ressuscitado, Luz do mundo (Jo 8,12). Este termo, “escuridão/treva”, aparece em Jo oito vezes. “As trevas” em Jo não significam mera ausência de luz. Este termo apresenta dois aspectos: Primeiro, as trevas são consideradas como entidade ativa e perversa que pretende extinguir a luz da vida (Jo 1,5) e assim impedir a visão do projeto de Deus sobre o homem. Portanto, define-se como ideologia contrária ao desígnio criador. As trevas produzem no homem a cegueira (ocultamento do desígnio de Deus), impedindo-lhe de se realizar. Segundo, as trevas são consideradas como âmbito de obscuridade ou cegueira criada por sua ação, onde o homem se encontra privado da experiência da vida e não conhece o desígnio de Deus sobre ele. As trevas sugerem que os personagens ainda não têm a luz plena. Maria vai ao túmulo, possuída pela falsa concepção da morte, e não se dá conta de que o dia começou. Maria crê que a morte triunfou. Não é por acaso que o termo “túmulo” é mencionado nove vezes nesta perícope, mostrando que a idéia de Jesus morto domina na comunidade.
  

O único meio que se encontrou para não sermos atingidos por esta escuridão total de nosso coração ou de nosso ser é aceitar Jesus, Luz do mundo (Jo 8,12), para que, por nossa vez, nos tornemos uma verdadeira luz para o mundo (Mt 5,14-16). Quem acredita em Jesus, Luz do mundo, não teme a escuridão, pois ele será sempre iluminado: “Ainda que eu caminhe por um vale tenebroso (escuro), nenhum mal temerei, pois estais junto comigo” (Sl 23(22),4).


3. Quem ama corre mais e chega primeiro
   

Quando chegou ao túmulo, a reação de Maria é de alarme quando viu que a pedra tinha sido “retirada”. E ela ficou mais espantada ainda ao encontrar o túmulo vazio. A tristeza de Maria ficou maior porque além da morte do seu Mestre, o corpo do mesmo desapareceu. O sepulcro vazio, por isso, não foi para Maria Madalena motivo de fé e de esperança, mas de um sofrimento maior. Maria Madalena ficou totalmente desolada e perdida. Mas se ela soubesse ver com os olhos da fé os sinais que viu com seus olhos carnais no túmulo, saberia ou pelo menos deduziria que Jesus não tinha sido feito prisioneiro da morte como todos os que morreram antes dele. A pedra retirada é um sinal de que não existe mais um abismo intransponível entre Jesus e o mundo dos vivos, entre Jesus e seus seguidores. Existe ainda alguma pedra na sua vida que o faz continuar vendo tudo escuro? O poder da ressurreição retira “qualquer pedra” na nossa vida. Mas será que você acredita no poder da ressurreição?
     

A reação imediata de Maria Madalena, sem mesmo entrar no túmulo, é correr para comunicar aos discípulos sobre o fato: Pedro e o discípulo amado. A comunidade sente-se perdida sem Jesus. Há atitude de busca mas buscam um Senhor morto. Jesus representava a força da comunidade; crendo que passou a ser debilidade e impotência, a comunidade se vê por sua vez sem forças e sem amparo.
      

Os dois discípulos têm a mesma reação diante da notícia que lhes dá Maria: dirigem-se ao túmulo. Os dois correm juntos, mostrando sua adesão a Jesus e o seu interesse pelo ocorrido. Durante a corrida, porém, o discípulo amado correu mais rápido e chegou primeiro do que Pedro no túmulo.


Corre mais depressa o que tem a experiência do amor de Jesus e sempre chega primeiro. O amor é sem asas, mas pode voar, sem pernas, mas pode andar e correr, sem olhos, mas pode ver tudo. O amor é a força sem limite, por isso nunca cansa. Uma pessoa apaixonada está cheia de forças. Onde há amor, há força para tudo.


Amar é sair de si para encontrar o outro. É dialogar. É estender a mão. É abraçar para fazer as pazes. É doar a vida, o coração e a felicidade aos outros. Páscoa é alegria. Somente encontra a alegria aquele que sabe amar os outros. Nossos lares são como túmulos cerrados a cimento, quando não se amam; quando não há respeito, ajuda mútua e fé. Túmulos cerrados são as igrejas quando não se vive o que se reza e se canta.


Páscoa é a saída rápida. É êxodo, partida. Para onde? É sair para encontrar os outros. Se permanecermos fechados, trancados dentro de nós mesmos, vamos morrer. Páscoa é reencontro com a vida. Somente sabe viver, encontrando a vida, aquele que ama. Jesus morreu e ressuscitou porque nos ama verdadeiramente.


4. Quem ama acredita que no impossível há o possível
    

Apesar de chegar primeiro, o discípulo amado não entrou no túmulo, mas esperou a chegada de Pedro. No texto de Jo, a precedência de Pedro é mantida (cf. Jo 21). Pedro é o primeiro a entrar no túmulo (v.6) e a observar os panos (vv.6-7). Ele viu os panos e ficou calado. Jo não diz nada da reação de Pedro. O discípulo amado também entrou. “Ele viu e acreditou” (v.8). Quem tem amor no coração sempre vê no impossível o possível, no incrível o crível. À luz de seu laço profundo com Jesus, o discípulo amado reconhece o mistério da presença por meio da ausência. Mesmo antes do contato com o Ressuscitado, ele foi capaz de superar o abismo: na ausência do corpo, o que ele viu dos panos funerários teve para ele valor de sinal. Além disso, o amor que penetrava o discípulo amado deixou entrar nele a luz com que ele pode ver tudo naturalmente e claramente. Para ele, o túmulo não está nem vazio, nem cheio. Ele se transformou em linguagem. Atento, ele capta no vazio do túmulo que Cristo vencera o que pertencia ao tempo; em outras palavras, Jesus venceu a morte, ele ressuscitou. Este discípulo também vai reconhecer a presença do Senhor Ressuscitado na sua aparição aos discípulos (cf. Jo 21,7)


5. A Ressurreição é Uma Novidade Para O mundo e Renova Tudo no Homem


Com o fato da ressurreição de Cristo entrou uma novidade total na história humana, pois nunca aconteceu isso antes nem depois dele, em nosso mundo fechado pelo círculo da morte. Jesus rompeu esse círculo e deu esperança a todos nós. Ao vencer a morte, Jesus revoluciona todos os anseios e sonhos do mundo. Por isso, a Páscoa é a festa de alegria porque a nossa vida está assegurada; esta vida que aqui vivemos não nos será tirada com a morte; a morte será apenas um fenômeno biológico, mas que não poderá destruir o nosso verdadeiro ser. A partir da ressurreição do Senhor, não vivemos mais para morrer, mas morremos para viver; a vida não pertence mais à morte mas sim a morte pertence à vida. A morte não é total: atinge apenas o corpo do homem. O mundo precisa saber que não somos condenados a um fim sem sentido. Não há Boa Notícia mais radicalmente importante do que a certeza da vitória da vida. Por isso, Jesus nos diz: “Tenha coragem! Eu venci o mundo” Temos a garantia de que Deus não vai deixar que se perca nada do que é bom: nossos esforços, nossos sacrifícios, nossas lutas, nossas boas ações, nossos afetos, as pessoas que amamos, tudo isso fica guardando e seguro nas mãos de Deus da ressurreição. Se a morte não tem a última palavra, toda a nossa vida pode estar, sem medo, a serviço daquilo que traz mais vida para todos. Seja qual for o resultado, nada estará perdido. Por isso, compreendemos por que São Paulo escarnece da morte e triunfante lhe pergunta: “ Ó morte, onde está a tua vitória ? Ó morte, onde está o espantalho com que amedrontavas os homens ?”(1Cor 15,55). O homem que crê em Jesus Cristo é destinado à ressurreição para participar, com a totalidade de sua realidade complexa, na vida eterna de Deus.


6. Jesus Está Conosco Permanentemente


 “Jesus ressuscitou” significa também que Cristo vive. Esta é a grande verdade da nossa fé. Cristo vive quer dizer que ele não é uma figura que passou, que existiu num tempo, deixando-nos uma lembrança. Cristo vive quer dizer: ele está conosco. Ele não nos abandona. Isto significa que o cristão, cada um de nós, nunca é um homem solitário mas solidário porque ele vive com Deus e Deus com ele. Por isso, o centro da fé cristã não consiste na celebração da memória de um herói morto, mas da presença de um Vivo e Vivente no qual se decifrou para todos nós o sentido último da vida.


Se Cristo está vivo, então todas as coisas da vida devem refletir isto; todas as coisas devem se voltar para Jesus Cristo. Quando Jesus Cristo é o centro, as pessoas tornam-se melhores; as pessoas tornam-se mais humanas, buscam o crescimento e têm vontade de conseguir todas as coisas no crescimento e na maturidade de Cristo.


O texto diz que Maria Madalena não consegue ver o significado daquilo que está acontecendo, por isso corre e vai avisar Pedro e o discípulo amado. Pedro e o discípulo amado também correm. Mas o discípulo amado corre mais rápido e chega primeiro.  Pedro entra no túmulo e Jo não relata a reação de Pedro. O discípulo amado entra e conclui imediatamente que não roubaram o Senhor: “E viu e acreditou”(Jo 20,8).


Na Igreja que vai em busca dos sinais da presença do Senhor há diversos temperamentos, diversas mentalidades: há o afeto de Maria, a intuição de João e a lentidão de Pedro. Portanto, existem na Igreja diversos dons espirituais dos quais se originam diversas disposições: alguns mais velozes, outros mais lentos; mas todos se ajudam mutuamente, respeitando-se reciprocamente, para juntos procurarem os sinais da presença de Deus e comunicá-los entre si, apesar da diversidade de reações diante do mistério. É uma colaboração na diversidade: cada qual comunica ao outro o pouco que viu e encontrou, e juntos reconstroem a orientação da existência cristã, ali onde os sinais da presença do Senhor, diante das dificuldades ou das situações perturbadoras, parecem ter desaparecido. Se na Igreja primitiva Madalena não tivesse agido dessa forma, comunicando o que sabia, e se as pessoas não se tivessem ajudado umas às outras, o túmulo teria ficado ali e ninguém teria ido até lá; teria sido inútil a ressurreição de Jesus. Somente a busca comum e a ajuda uns dos outros levam finalmente a encontrar-se juntos, reunidos no conhecimento dos sinais do Senhor.
   

Celebrar a Páscoa é afirmar: “Não sou mais aquele homem do túmulo, intransigente, morto, insuportável, nervoso. Agora uma nova luz entrou em mim e renasci, por isso. Quero remover aquela pedra que me está impedindo de ser comunicativo, caridoso; a pedra que me impede de pedir e de dar o perdão”.
 
P. Vitus Gustama,svd
VIGÍLIA PASCAL "B"
 
PÁSCOA: ELE RESSUSCITOU

Texto: Mc 16,1-7


1 Quando passou o sábado, Maria Madalena e Maria, a mãe de Tiago, e Salomé, compraram perfumes para ungir o corpo de Jesus. 2 E bem cedo, no primeiro dia da semana, ao nascer do sol, elas foram ao túmulo. 3 E diziam entre si: “Quem rolará para nós a pedra da entrada do túmulo?” 4 Era uma pedra muito grande. Mas, quando olharam, viram que a pedra tinha sido retirada. 5 Entraram, então, no túmulo e viram um jovem, sentado ao lado direito, vestido de branco. 6 Mas o jovem lhes disse: “Não vos assusteis! Vós procurais Jesus de Nazaré, que foi crucificado? Ele ressuscitou. Não está aqui. 7 Vede o lugar onde o puseram. Ide, dizei a seus discípulos e a Pedro que ele irá à vossa frente, na Galileia. vós o vereis, como ele mesmo tinha dito”.
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Os exegetas discutem bastante sobre Mc 16,1-8. Eles perguntam se o evangelho de Mc termina com Mc 16,8 ou se há outro final perdido no qual Mc falaria mais da ressurreição longamente do que neste que nos é conhecido. A maior parte dos exegetas julga que o evangelista terminou o seu Evangelho no v.8; ou seja, que Mc deu uma brevíssima instrução sobre a ressurreição.
    

Tudo isto cabe aos especialistas. Para nós, o mais importante é descobrir, dentro deste relato brevíssimo sobre a ressurreição de Jesus, mensagens para nós cristãos hoje. O que é que este texto fala para mim. Será que Deus tem uma palavra para mim através deste relato? O que é que a na ressurreição implica para mim ou para minha vida diária? O que significa celebrar a ressurreição do Senhor para mim? Mudou alguma coisa em mim durante os quarenta dias de preparação para a Páscoa? Estas perguntas e outras são importantes para nós, especialmente para nós, pregadores, pois temos sempre tentação de tentar descobrir mensagens para o povo ou rebanho e não para o próprio pregador(nós) em primeiro lugar.
     

O relato sobre a ressurreição de Jesus neste texto, como foi dito, é bem breve, mas está cheio de riqueza de traços inesperados e densidade teológica. Tentemos descobrir o sentido do relato passo a passo.

 

1. Jesus é o princípio da nova e definitiva criação
   

As mulheres vão ao túmulono primeiro dia da semana, ao nascer do sol”(v.2). “O primeiro dia da semana”, isto é, no terceiro dia depois de sua morte, o tempo que o próprio Jesus anunciou (cf. Mc 8,31;9,31;10,34) alude ao primeiro dia da criação (cf. Gn 1,5). Mc sublinha assim o começo da nova criação. Para enfatizar mais este sentido, Mc fala também sobre “ao nascer do sol”. “Ao nascer do solnão indica apenas uma nova situação em contraste com as três horas de total escuridão que precederam a morte de Jesus (cf. Mc 15,33), mas simbolicamente indica que também Jesus ressuscitou (Mc 16,2). Isto quer dizer que a ressurreição de Jesus é o princípio da nova e definitiva criação. Ele é o princípio do qual fluem em nossa vida toda, a força de Deus que restaura em nós a semelhança divina. A partir de Jesus ressuscitado tudo ganha seu justo valor. Nada fica sem sentido visto a partir da ressurreição de Jesus. Jesus como o princípio da nova e definitiva criação serve como o ponto de partida para tudo. Sem este ponto de partida que é o princípio, o ser humano perderá seu rumo. Tudo tem que começar nele para terminar nele, pois Jesus é aquele que se define “Eu sou o Alfa e o Ômega, o Começo e o Fim”(Ap 21,6). Com ele tudo se renova: “Eis que faço novas todas as coisas”(Ap 21,5). Por isso, deixemos a luz nova do Cristo ressuscitado iluminar o nosso coração, o nosso ser inteiro para que sejamos novas criaturas e estejamos cheios de toda a plenitude de Deus(cf. Ef 3,18-19).


 2. As surpresas das mulheres e seu emudecimento diante da ressurreição
   

As mulheres que vão ao túmulo de Jesus para ungir o corpo de Jesus (v.1) são realmente mulheres repletas de amor e devoção a Jesus. Elas vão ao túmulo para reverenciar o corpo de Jesus. Elas pensam apenas na morte de Jesus e não na sua ressurreição que ele anunciou antes de sua morte. As mulheres ficam aquém do verdadeiro sentido da cruz de Jesus. Por isso, no caminho rumo ao túmulo elas dizem entre si: “Quem rolará a pedra da entrada do túmulo para nós?”(v.3). Foi fácil fechar o túmulo, porque é fácil pensar que a morte vence a vida. Mas para as mulheres é impossível abri-lo e admitir que a vida vença a morte. Elas se fixam e param na hora da morte de Jesus.
     

Mas o túmulo vazio e a presença do anjo e o anúncio deste que Jesus, o Crucificado, ressuscitou,(v.6) as apanham de surpresa. “...elas viram um jovem sentado à direita, vestido com uma túnica branca...”(v.5). “As roupas brancas” são o sinal do mundo divino, sinal do esplendor da glória divina(cf. Mc 9,3: a transfiguração). E “sentado à direita”(cf. Sl 110,1) é uma posição do poder e a autoridade divinos (cf. Mc 12,36;14,62), posição de dignidade, e uma posição de uma pessoa justa (ser justo biblicamente significa aquele que vive de acordo com a lei divina). No julgamento final, os justos serão chamados a se sentarem à direita do Filho do Homem (cf. Mt 25,31-46). E o próprio Jesus na sua Paixão disse: “E vereis o Filho do Homem sentado à direita do Poderoso e vindo com as nuvens do céu”(Mc 14,62). Todos estes símbolos descrevem a condição divina de Jesus e enfatizam que Jesus é o Vencedor da morte.
   

Tudo isto quer nos dizer, em primeiro lugar, que a prova da ressurreição não é túmulo vazio; a ressurreição não é fruto de uma descoberta ou elaboração humana, mas é revelação divina. E Deus somente pode revelar a quem é disponível a sua ação salvífica e escatológica manifestada em Jesus Cristo. Quem estiver aberto para a vontade de Deus, a ele será revelado muitas coisas. A ressurreição é a ação poderosa de Deus, que se revela vencedor da morte e salvador na pessoa histórica e concreta de Jesus. Ao ressuscitar Jesus da morte, Deus quer dizer à humanidade que Jesus tinha razão, que Jesus fazia tudo que Deus quis: fazer o bem para todos os homens (cf. At 10,38).


Em segundo lugar, ao dizer que Jesus “ressuscitou. Não está aqui”, o texto quer nos dizer que Jesus não é uma memória e sim uma presença. Jesus não é um personagem para ser discutido e sim para ser encontrado. A vida cristã não é uma vida para saber sobre Jesus e sim para conhecer Jesus. E para conhecê-lo o cristão tem que fazer o encontro com Ele. Podemos até saber sobre Jesus, mas este saber tem que terminar no encontro com Ele para que nos tornemos pessoas renovadas no Espírito de Deus. Jesus é o vivente, é uma presença. Por isso, é inútil buscá-lo num túmulo. O encontro com o ressuscitado não se realiza entre os túmulos, no passado, e sim no presente. Com isso, a ressurreição abre o novo futuro para quem acredita no Jesus Ressuscitado.


Em terceiro lugar, temos que estar conscientes de que para onde formos, Jesus vai nos preceder: “Ide, dizei a seus discípulos e a Pedro que Ele irá à vossa frente, na Galileia”. Galileia é o lugar onde Jesus começou sua missão. Os discípulos tem que fazer encontro com Jesus no lugar da missão. Se fizermos tudo que Jesus ensinou, tenhamos certeza de que Ele vai abrir o caminho para s. Nãodificuldade que não seja superada quando Jesus estiver na nossa frente. Onde for feita a evangelização, Jesus é encontrado . Jesus se encontra no lugar das pessoas que ajudamos na sua necessidade.
  

Os leitores deste relato esperam a reação de alegria dessas mulheres ao receberem a notícia da ressurreição de Jesus Cristo. Mas em vez disto, elas emudecem. Elas ficam como que paralisadas e em seguida fala do seu temor, do seu estupor, do seu medo e do seu emudecimento: “Nada contaram a ninguém” (Mc 16,8b). Com isso, o evangelista quer nos dizer que o Evangelho continua aberto para o futuro. Somos convidados para este novo futuro onde encontraremos Jesus ressuscitado e encontraremos também o sentido de nossa vida. Para isso, temos que levar adiante o projeto de Jesus ressuscitado. Além disto, este Evangelho é um convite a abrir os olhos para ver o Senhor na nossa experiência diária.


3. A missão confiada às mulheres sobre o novo encontro com Jesus
   

Apesar do seu emudecimento, essas mulheres são testemunhas privilegiadas dessa revelação divina e são chamadas e enviadas para anunciar aos discípulos e a Pedro sobre a ressurreição de Jesus  e sobre o novo encontro com ele na Galiléia: “Não tenhais medo. Vós estais procurando Jesus de Nazaré, o crucificado: ressuscitou, não está aqui... Mas ide dizer aos seus discípulos e a Pedro que ele vos precede na Galiléia: lá o vereis como vos disse”(v.7).
  

 “Ele não está aqui. Ele ressuscitou! E ele os precedeu na Galiléia”. O lugar do encontro não é num passado, mas num futuro novo. O lugar do encontro não é na contemplação de um morto, mas no seguimento de quem está vivo. Jesus ressuscitado deve ser seguido, vivendo o seu projeto. Jesus não é uma figura num livro, mas uma presença viva e vivificante. Não é suficiente estudar a história de Jesus como qualquer grande figura histórica. Nós podemos começar desta maneira, mas devemos terminá-la com o encontro com ele, pois Jesus não é uma memória, mas uma presença. Ele continua vivo entre nós. Se realmente acreditarmos nesta Presença, encontraremos sempre forças mais que suficientes para encarar qualquer tipo de dificuldade, pois o próprio Jesus venceu a morte.
 

“Ele não está aqui. Ele ressuscitou!”, é a mensagem para todos que queiram mudar de vida para a melhor. Jesus faz uma páscoa, uma passagem da morte para a vida, para Deus. Precisamos fazer essa passagem. “Se não passamos para Deus que permanece”, dizia Santo Agostinho, “passaremos com o mundo que passa. Páscoa é passar para aquilo que não passa. Quão melhor é passar do ‘mundo’, antes que passe ‘junto com o mundo’; passar para o Pai, antes que passe para o inimigo”. Cada vez que acolhemos a inspiração da Palavra de Deus, estamos fazendo uma passagem para Deus. Cada vez que dizemos “não” a uma vontade da carne, estamos fazendo uma passagem para Deus. Não há momento ou ação da vida de um cristão que não possa se transformar em uma passagem, em uma páscoa. A páscoa deve acontecer em todos os momentos da vida de um cristão. Além disto, todo cristão vivo deve ser uma manifestação extraordinária da ressurreição do Senhor.
     

O evangelista Mc certamente quer transmitir, através deste relato, uma mensagem para todos os leitores e cristãos em particular que a ressurreição de Jesus manifesta uma dupla fidelidade: a fidelidade do Pai que não abandona Jesus, mas o ressuscitou, sinal da aprovação; e a fidelidade do Filho que não abandona os discípulos, que fugiram na Paixão, mas os procura e quer reencontrá-los. A primeira preocupação de Jesus Ressuscitado é a de reencontrar os seus discípulos, para retomar, novamente juntos, o seu caminho. A esperança de cada cristão repousa inteiramente nesta dupla fidelidade.


4. Jesus nos precede para onde formos
  

“Ele vós precederá na Galiléia”. Este anúncio é cheio de significado. Os exegetas discutem sobre o significado da Galiléia. A Galiléia para o evangelho de Mc é importante onde se desenvolve a maior parte. Foi na Galiléia que Jesus começou a proclamar a Boa Nova, anunciando a chegada do Reino de Deus(Mc 1,14-15). Foi neste lugar  que Jesus chamou seus primeiros discípulos para ser “pescadores de homens”(Mc 1,16-20). Foi na Galiléia inteira que Jesus pregou o Evangelho, curando e expulsando os espíritos maus(Mc 3,13-19;6,7-13). Foi na Galiléia que Jesus começou a revelar aos discípulos “o mistério” do Reino de Deus(Mc 4,11). Foi da Galiléia que a Boa Nova se espalhou para todas as regiões ao redor(Mc 3,7-12). Na e da Galiléia os discípulos podem continuar sua missão de pregar o Evangelho e curar todos os povos no mundo inteiro(Mc 13,10;14,9). E foi na Galiléia que Jesus ressuscitado precedeu os discípulos(Mc 16,7). A Galiléia é, por isso, o lugar onde com os mesmos gestos, com a sua bondade e disponibilidade, os discípulos reconhecerão a presença viva daquele Senhor que conheceram. A Galiléia é o lugar em que o Senhor Ressuscitado se lhes manifestará visivelmente e onde Jesus começará a reconstrução da comunidade, aquela reconstrução que era anunciada na Paixão em que Jesus disse: “Todos vós vos escandalizareis, porque está escrito: Ferirei o pastor e as ovelhas se dispersarão. Mas depois que eu ressurgir, eu vos precederei na Galiléia”(Mc 14,27-28). E Jesus é fiel às suas promessas. A Galiléia é o lugar onde a comunidade dos Doze será reconstruída. Todo o Evangelho de Mc deve ser meditado na aceitação de que Jesus vive e fala hoje aos seus e os chama, como ele os chamou junto ao lago(Mc 1,14-20), ou junto ao monte(Mc 3,13-19) e continua a estar na Igreja, em cada cristão.
 

“Ele vos precederá na Galiléia”. A palavra “preceder” é usada também em Mc 10,32 quando Jesus está a caminho rumo a Jerusalém. Jesus precedeu os discípulos na Morte e na Nova Vida que o Pai lhe deu. Ele precederá os discípulos na Galiléia. “Jesus vos precederá” é uma promessa para todos nós. Para onde formos, como verdadeiros cristãos, devemos estar conscientes de que Jesus sempre nos precede. Ele sempre chega primeiro que nós. E ele nos guia para onde ele se encontra. Que saibamos reconhecer essa precedência e esta presença. Quando temos esta consciência, nenhuma dificuldade vai nos bloquear, pois Jesus nos precede e com isto, abre o caminho para nós. Mas com uma condição: que sejamos fiéis à Sua Palavra, pois a Sua Palavra nos orienta sobre o que devemos fazer.


5. Algumas das implicações da fé na ressurreição


a). A Páscoa cristã é a festa das festas, e o cristão é aquele que afirma: o Senhor ressuscitou verdadeiramente. O cristianismo nasce e progride desta proclamação fundamental: Jesus Cristo que foi crucificado, ressuscitou verdadeiramente. Da ressurreição de Cristo deriva todo o resto da mensagem cristã. Sem a vitória de Cristo sobre a morte, toda a pregação seria inútil e a nossa fé seria vazia de conteúdo(cf. 1Cor 15,14-17). A ressurreição do Senhor é uma realidade central da fé cristã. A importância deste milagre é tão grande que os Apóstolos são, antes de mais nada, testemunhas da ressurreição de Jesus(cf. At 1,22;2,32;3,15). O núcleo de toda a pregação é este: Cristo vive e vive no meio de nós(cf. Jo 1,14;Mt 28,20). A páscoa da ressurreição é a grande festa cristã. Este mistério é tão importante e central é que o celebramos ao longo de todos os domingos e festas do ano litúrgico e inclusivamente na Eucaristia diária. Certamente cada eucaristia que se celebra, celebra-se e proclama-se ao mesmo tempo a ressurreição do Senhor e a nossa também. A eucaristia dominical é a páscoa semanal. A eucaristia diária é a páscoa diária.
     

Sem dúvida nenhuma, a Páscoa é, por isso, o próprio conteúdo da fé cristã, é o coração da vida da Igreja porque ela nos revela quem é Deus, quem é Jesus Cristo e quem somos nós. A ressurreição nos mostra que o Deus revelado por Cristo é Aquele que ama e quer a vida. A Páscoa nos revela que Jesus, morto e ressuscitado, é Aquele que converge toda a história da humanidade. E ao mesmo tempo revela que a fidelidade é o caminho certo para chegar à Páscoa eterna com Deus. A Páscoa também nos revela que somos chamados a ressuscitar com Jesus, a superar com ele o drama da morte para podermos permanecer com ele na vida que não tem fim.   
      

b). Pela ressurreição do Senhor sabemos que Deus ama a vida. A Páscoa é a gloriosa manifestação de um Deus que ama a vida, que quer a vida e não a morte, de um Deus que, além disso, faz com que da morte surja a vida.
   

Crer na ressurreição implica, por isso, defender a vida, especialmente a dos mais indefesos; implica respeitar a vida alheia como a própria; implica lutar pelo que é certo e justo, pois estes predicados como outros semelhantes é que garantem a vida sem fim; implica estender a mão para levantar quem se encontra sob o peso dos problemas desta vida. Procurar o Senhor ressuscitado implica comprometer-se com aqueles que vêem o seu direito à vida permanentemente violentado e violado. Acreditar na ressurreição significa afirmar a vida contra a morte.
   

c). A ressurreição é o grito festivo da . Com a ressurreição, o grito de Jesus na Sexta-Feira SantaDeus meu, Deus meu, por que me abandonaste?” (Mc 15,34), grito que sintetiza todas as situações de aflição da humanidade se transforma, na noite de Sábado Santo, em grito festivo de e de esperança: Cristo ressuscitou. É um grito de porque anuncia algo que aconteceu em Cristo e permanece para sempre. É o grito de esperança porque a partir de Jesus Cristo ressuscitado a vida humana tem um futuro e que ninguém pode tirá-lo de nós, e que seremos ressuscitados também. A certeza deste grito de alegria e de esperança nos proclama que a bondade soterra a maldade, que a morte tem o seu contrapeso de vida, que toda crise pode ser suplantada, que com Cristo toda tristeza conhecerá a alegria.
     

Infelizmente temos que confessar que a nossa existência humana é muitas vezes dominada por uma tendência de diminuir as esperanças, reduzindo-as cada dia mais por causa das ilusões, e a nossa tristeza nos leva, com freqüência, a recusarmos palavras de conforto, porque nós não temos idéia exata da libertação que nos foi concedida por Jesus ressuscitado. Precisamos estar conscientes de que a Páscoa é uma recriação, é uma nova criação da humanidade, pois Jesus, pela sua ressurreição, inaugurou um mundo novo no meio de nós.
   

d). A ressurreição de Cristo é uma resposta às esperanças de um destino humano aberto para o futuro novo. Quando este futuro novo for negado, a pessoa se fecha a si mesma, fica insatisfeita e chega às margens do desespero. A ressurreição nos leva a certeza de que a vida jamais acabará e de que o triunfo da vida não é mais ameaçado pela morte. O Ressuscitado está conosco, e continua vivo dentro da história e junto com ele nós estamos em condições de vencer o mal com o bem, de tirar do mal o maior dos bens. Esta é força e a novidade da Páscoa. Quem crê na ressurreição não é permitido viver triste. Somos destinados e chamados a viver plenamente com Deus, alegres na esperança com os irmãos da mesma peregrinação.
    

e). Da ressurreição de Jesus nasce, antes de mais nada, uma esperança. Cristo é nossa esperança (1Tm 1,1). Nessa esperança nós, cristãos, aprendemos a acreditar em Deus e a desentranhar o sentido último do homem. Mas a esperança de que se trata não é virtude de um instante ou reação de um momento. É uma atitude permanente, um estilo de vida. É a forma de enfrentar a vida própria do cristão. Se perder essa esperança, perde tudo. Deixa de ser cristão. Aquele que vive animado pela esperança cristã põe seu olhar no futuro. Ele não fica apenas com o presente, nem vive preso ao passado, mas olha sempre para frente. A esperança sempre gera uma perspectiva de futuro. E esta esperançaorigem a uma nova maneira de se posicionar na vida apesar das dificuldades, como diz São Paulo: Somos atribulados por todos os lados, mas não esmagados; postos em extrema dificuldade, mas não vencidos pelos impasses; perseguidos, mas não abandonados; prostrados por terra, mas não aniquilados (2Cor 4,8-9). A esperança vive da confiança em Deus, como o profeta Isaías diz: É ele (Deus) queforças ao cansado, que prodigaliza vigor ao enfraquecido. Mesmo os jovens se cansam e se fatigam; até os moços vivem a tropeçar, mas os que põem a sua esperança em Yahweh(Deus) renovam as suas forças, abrem asas como as águias, correm e não se fatigam, caminhar e não se cansam”(Is 40,29-31). Que cada um de nós seja um pequeno sinal, uma pequena prova desse Deus da esperança! FELIZ PÁSCOA PARA VOCÊ E SUA FAMÍLIA!

P. Vitus Gustama,svd
SEXTA-FEIRA SANTA
 
JESUS CARREGOU NOSSOS PECADOS

 
Gostaríamos de falar de dois temas nesta Sexta-Feira Santa. Primeiro, os sofrimentos de Jesus à luz dos evangelhos. A partir deste tema cada um pode verificar a própria experiência em relação aos sofrimentos. Quem sabe no fim sairá da boca este tipo de frase: “Eu também passei por esse sofrimento, mas Jesus sofreu muito mais do que eu”. Segundo, se falará um pouco sobre a teologia da cruz. Neste tema queremos saber por que Jesus foi crucificado? Será que é necessário falar ainda da cruz enquanto Jesus ressuscitou ? Qual lição podemos tirar deste tema?


1.  Os sofrimentos de Jesus à luz dos evangelhos


Como qualquer ser humano, conseqüência da encarnação, Jesus sente na própria carne todas as dimensões do sofrimento humano. Ele é participante de todos os sofrimentos humanos(cf. Salvifici Doloris de João Paulo II). Sua vida inteira está marcada pelo sofrimento, e todo sofrimento vai apontando para frente, para o seu triunfo final.


Mas para poder falar com profundidade de Jesus como figura de homem sofredor é preciso destacar a atitude da alegria de Jesus. Pois somente tem real capacidade de sofrer muito quem tem a capacidade de gozar profundamente. A presença de uma coisa ou de uma palavra supõe a existência da outra. Não pode se falar da liberdade quando não existe a prisão; não se pode discutir sobre a paz quando não aconteceu a guerra. A saúde existe porque existe a doença. O rico existe por causa da existência do pobre. A fome faz alguém valorizar o pão. A presença da briga faz alguém falar de reconciliação ou de perdão, assim por diante. Tudo isto chama-se o paradoxo da vida. E isso se cumpre em Jesus de maneira privilegiada. Nele se enquadra a imagem de Isaías do Servo sofredor precisamente porque também lhe cai a imagem de libertador, de irmão, de amigo, de semeador da esperança e de consolação e de alegria na existência humana. Jesus é o homem das dores e ao mesmo tempo o libertador de toda dor.


Nosso mundo não sabe combater a dor a não ser com anestesia. Retira da dor sua profundidade humana. Luta contra lucidez na dor. Talvez por causa disso hoje as pessoas sofram menos, mas são menos sensíveis, pois estão adormecidas, cheias de uma morfina ambiental que seca seus corações. Por isso, compreendemos menos a dor e ela nos parece tão absurda e intolerável.


Para Jesus não há necessidade de anestesiar diante da dor a profundidade da consciência humana, pois o nível mais alto de experiência dessa profundidade é a bondosa paternidade de Deus. No mais profundo do nosso ser podemos sentir Deus como Pai querido(Abba).


Jesus sofre a partir de sua experiência de Deus e a partir dessa mesma experiência encontra razões para um extremo otimismo. A alegria de Jesus parte de uma experiência prazerosa de Deus que lhe abre  a capacidade de um compromisso com os sofredores e pecadores. Dessa experiência nasce seu sorriso para o publicano, o pagão ou a prostituta. Ele sabe ver em cada pessoa, apesar das aparências contrárias, o que tem do Pai: suas semelhanças com Deus e o amor que Deus lhe tem. Por isso, Jesus tem sua alegria profunda e extrema.


Jesus participou do sofrimento humano desde o seu nascimento onde ele conheceu a fundo o que eram as provações dos pobres. Compartilhou o doloroso nascimento dos mais pobres do mundo. Ele sofreu a dor dos emigrantes por causa da perseguição de Herodes que viu em Jesus uma ameaça e perigo para seus privilégios. Compartilhou a vida simples e as privações do povo em Nazaré. Sofreu medos, dúvidas e tentações como qualquer ser humano. O libertador do medo soube também o que é o medo(Mt 26,37-39). No entanto, tendo sentido o mesmo medo que nós diante do compromisso, ele não se deixou abater e nem deu jamais um passo para trás. Sempre se manteve fiel à vontade do Pai(Jo 12,27). Ele sofreu a dor de desprezo: os escribas não acreditavam nele porque era um homem sem estudos(Jo 7,15), vindo de uma região má fama(Jo1,46;7,41.52),nem o povo em geral(Lc 4,22-29). Seus próprios parentes o tomaram como louco(Mc 3,21). O povo gritou para pedir a sua morte(Mt 27,16-21). Na cruz sentiu os insultos das pessoas que passavam(Lc 23,35), dos soldados(Lc 23,36-37) e ainda de um dos que foram crucificados junto dele(Lc 23,39). Com razão, no prólogo do seu evangelho, João comentou: “Veio para o que era seu e os seus não o receberam”(Jo 1,11). Sentiu o peso do desânimo e o cansaço pastoral(Lc 9,41; Mc 4,40; Jo 14,9;Mt 23,37-38). Chegou a lamentar-se de que nenhum profeta é bem recebido em sua própria pátria(Mc 6,4). Sofreu calúnias e perseguições: foi acusado como mentiroso(Mt 27,63); como enganador do povo(Jo 7,47); como grande pecador(Jo 9,24), blasfemo(Jo 10,33), que fazia milagre em nome do diabo(Lc 11,15). Sentiu a tensão psicológica de ser vigiado e procurado para ser preso(Jo 7,30-32.44-46;10,39;11,57). Sentiu a solidão(Jo 6,67;Mt 26,40.56) e a traição(Jo 13,18.21; Mt 24,14-16; Jo16,31-32). E sofreu a mais cruel das mortes: ele morreu tragicamente sozinho, traído até pelos seus.


A dor de Jesus não se encerra jamais sobre si mesmo, ao contrário, está totalmente aberta ao próximo. Por isso, o profeta Isaías citado por Mateus, resumiu: “Ele tomou as nossas enfermidades e carregou as nossas doenças”(Mt 8,17). Tão profundamente sentiu a dor humana, que dedicou sua vida para servir a todos, para aliviar suas penas e para ensinar-lhes o caminho da superação e da irmandade(Lc 4,18-19). Sua existência esteve totalmente orientada no sentido de aliviar a dor alheia. Serve a Deus servindo a seu próximo. Não fechava seu coração para ninguém. Ele fazia cada um ver o amor de Deus que Deus lhe tinha e seu próprio valor humano. Enquanto outros encontram razões para condenar, ele as encontra para salvar.


Depois de mergulharmos nos dados bíblicos acima mencionados chegamos à conclusão de que Deus não quer o sofrimento humano. Nem tem como tarefa distribuir prêmios e castigos. Ele é o Pai de todos e quer a felicidade e a realização plena de todo homem e mulher.


Mas por que sofremos, então ? Simplesmente porque essa é condição do ser humano. A vida humana terrena é por si mesma pequena, fraca e frágil. A morte e a dor são companheiras naturais de nossa própria estrutura. O sofrimento chega a todos nós. Não lhe podemos escapar. A lista é familiar: doença, angústia mental, velhice, solidão, dor, desilusões, crueldade, a perda de alguém que se ama, sem dúvida, problema de todos os dias, mas experiências penosas que podem consumir a nossa energia e roubar-nos a alegria de viver. É fácil tornar-nos amargos e infelizes. Não tentamos compreender e a dor é então pior.  As energias desta vida obedecem à lei biológica: elas vão se desgastando progressivamente, ate se consumirem totalmente. Tudo isso não tem nada a ver com nossos valores eternos de semelhança de Deus.


Mas embora a dor em si seja inevitável, durante esta vida muitas dores e muitas mortes podem ser evitadas. Deus não aceita a sociedade na qual uns homens desprezam e atropelam outros. As cruzes que os homens levantam para seus irmãos são abomináveis aos olhos de Deus. É preciso denunciá-las e lutar contra elas, pois Deus as detesta. Por isso, vamos falar um pouco da teologia da cruz.


2.A cruz de Jesus: uma rebeldia contra o sofrimento


A crucificação como pena era muito difundida na antigüidade. Aparece sob várias formas entre numerosos povos do mundo antigo. Para os gregos, ela era e permaneceu uma punição política e militar. Para os persas era imposto basicamente a altos oficiais e comandantes, bem como a rebeldes. Para os romanos, ela era aplicada sobretudo às classes inferiores: escravos, criminosos violentos e elementos refratários em províncias em rebelião. As três penas romanas supremas eram a cruz, o fogo e os animais.  Pela execução publicamente a crucificação representava a mais profunda humilhação.


Popularmente, a cruz, com freqüência, tem sido tomado apenas como símbolo da dor humana. Às vezes se tem usado para induzir os homens a não se rebelarem, mas sim a negociar com a dor; tem sido motivo para justificar o sofrimento e ainda como pretexto para certas formas de repressão. Com esta concepção, a cruz foi afastada grosseiramente de sua referência a Jesus. Quem procura Cristo sem a cruz acaba encontrando a cruz sem o Cristo. Mas quem procura o Cristo com a consciência de encontrar a cruz como conseqüência desta opção, encontrará Cristo ressuscitado e com Cristo ele encontrará a páscoa.


A teologia atual insiste em que o NT foi elaborado com a base na experiência pascal: o Crucificado está vivo. A expressão “o Crucificado está vivo/ ressuscitou” é importante. Na palavra “crucificado” percebemos a crueldade dos homens mundanos que sacrificam os inocentes, que eliminam os justos, que matam os honestos em nome da defesa dos próprios interesses egoístas. Na palavra “está vivoou “ressuscitado” Deus quer nos mostrar que o que triunfará na nossa vida é o bem. O mal ou a maldade não tem a última palavra, por poderosa que pareça ser. Quem tem a última palavra é o próprio Deus.


o Crucificado está vivo ou ressuscitou! Tudo se esclarece a partir da luz da ressurreição. Nunca poderemos olhar para a cruz sem nos lembrarmos da ressurreição. Sexta-Feira Santa não tem qualquer significado sem o Domingo da Páscoa. A morte e a vida estavam entrelaçadas em conflito no Calvário. A vida ganhou, porque o amor era mais forte que a morte. Somente a partir dessa perspectiva se pensa, se corrige e se assume o símbolo da cruz. A redenção é antes de tudo uma vitória. Cristo é o vencedor da morte. Ele não veio para glorificar a dor, mas sim para dar um fim a seu reinado. Deus sempre prepara o melhor para o fim àqueles que estiverem perseverantes no bem.


A vida é uma mistura de alegria, felicidade e esperança, e também de tristeza, mágoa e dor. Cada um de nós carrega sempre esse pequeno fardo. Mas quando nos damos conta do amor que Nosso Senhor tem por nós, quando compreendemos que a sua vida nos revelou o amor que Deus tem por nós, então temos de ficar cheios de esperança, de alegria e de paz. Por isso, sei que a resposta se encontra olhando para Cristo crucificado. Madre Teresa de Calcutá disse: “Se olhamos para a Cruz de Jesus sabemos muito bem como ele nos amou. Quando olhamos para a Eucaristia, sabemos muito bem como ele nos ama”.


Em alguns ambientes tem-se insistido mais em falar exclusivamente da ressurreição. Eles pretendem tirar da cruz o seu aspecto escuro. Falam de ressurreição sem mencionar a crucificação. Assim, acabam se esquecendo do presente trágico da exploração, da injustiça e da dor reinantes em qualquer lugar. Não se pode esquecer de que Jesus morreu porque o ser humano não tolera a defesa do pobre, nem o desvelamento da hipocrisia, nem a denúncia da injustiça, nem a ruptura das convenções e privilégios sociais e religiosos. Jesus ao optar pelos desprezados e deserdados, está acusando quem fundamenta sua prosperidade ou sua superioridade no desprezo e na exploração dos demais. A desumanidade do homem para com o seu semelhante através da história produziu pobreza, fome, sofrimento e morte. Entendida desse modo, a imagem do Crucificado já não é a provação do sofrimento, mas sim a rebeldia contra ele. Tudo isso, se olhamos a partir da perspectiva humana.


Da perspectiva de Deus, a cruz é a revelação do Deus de amor. Ela revela o amor apaixonado de Deus pelos homens. Deus não era outra coisa senão amor. Por isso, o calvário é a revelação de seu amor num mundo de males e sofrimentos. O amor torna apto ao sofrimento e a capacidade de sofrimento se consuma na entrega e na imolação. Na cruz Deus passa diante da humanidade a prova do amor, para que depois possamos também acreditar em seu poder, o poder triunfante de sua ressurreição. Assim, a ressurreição de Jesus pode se transformar para os que sofrem em uma bandeira de esperança. Sem a ressurreição, o amor não seria verdadeiramente poderoso; mas sem a cruz, o poder não seria amor. Da união do amor e do poder divinos surge nossa redenção.


3. Nossas cruzes e a nossa cruz existencial sob a cruz de Cristo: um chamado à conversão contínua
   

Todos nós carregamos alguma cruz na nossa vida. Há cruzes de todos os tipos. Há cruzes em todos os caminhos. Para encará-la cada um tem seu próprio modo. Para alguns, a cruz pode ser vivida como tribulação, para os outros ela pode ser vivida como libertação. Há cruzes com Cristo, mastambém cruzes sem Cristo. Cada cruz, então, tem uma história e cada história tem uma cruz. A cruz sem Cristo é a cruz-condenação. É a cruz de quem deseja ser um deus. É a cruz que não tem finalidade em si mesmo. É a cruz sem , sem amor, sem sentido da vida, sem renúncia por amor. É a cruz de quem deseja viver numa liberdade sem responsabilidade, de quem vive no prazer desenfreado que resulta no sofrimento sem fim. Jesus Cristo, que foi crucificado, transformou a cruz de castigo em bênção.


A mãe de Jesus acompanhava o filho Jesus que estava carregando a cruz silenciosamente. A cruz do filho é a cruz da mãe. Ela também carrega esta cruz silenciosamente. A ressurreição do filho é a ressurreição da mãe. Na Mãe de Jesus podemos ver tantas mães do mundo. Sem dúvida, muitas mães carregam silenciosamente a cruz ao saber que seu filho se droga ou se perde no mundo da criminalidade ou sofre de alguma doença incurável. Crucificadas, essas mães acompanham a cruz de seu(s) filho(s) com o amor incondicional como a Mãe de Jesus que se encontrou ao da cruz com o amor incondicional.


Todos nós somos convidados a refletir tais situações e outros tipos de cruz sob a cruz de Jesus ressuscitado que transformou a cruz em momento de transfiguração cujo ápice é a sua ressurreição. A partir de Cristo e somente com Cristo podemos sofrer, mas nunca sofreremos em vão. Sem Cristo é que sofreremos em vão. Este tipo de sofrimento tortura e angustia e não liberta.


Além das cruzes que encontramos na vida, ou por nossa própria culpa ou como conseqüência de uma opção pelos valores cristãos, carregamos também a cruz existencial. Gostaríamos de viver eternamente nesta terra, e livres de qualquer contratempo, por um lado, mas os nossos limites como criaturas não nos deixam sermos o que gostaríamos de ser, por outro lado. Temos desejo infinito por vida ou pela vida, mas somos obrigados a aceitar um fato brutal de que temos que morrer. A vida em si, em sua estrutura, hospeda a morte. Jesus, o homem verdadeiro e o Deus verdadeiro, participou da estrutura humana. Ele morreu não somente porque os homens O mataram, mas também porque ele é o homem que morreu como todos nós morremos. Mas para que esta estrutura de uma criatura limitada se torne em uma transfiguração, precisamos ser despojados como Cristo para que o Deus da vida, o Absoluto, o Eterno, o Infinito possa hospedar na nossa estrutura mortal para transformá-la em uma estrutura imortal. Somente com isto teremos outra concepção sobre a morte: morrer não é mais um fim de tudo(acabou tudo), e sim uma peregrinação para a fonte da vida, para o Deus vivo que nos espera. Esta consciência e a fé nesta certeza nos leva a dizermos que o homem nunca morre e sim uma criatura que nasce duas vezes: nasce quando deixa o seio materno para entrar num mundo maior onde ele se junta com outros companheiros de viagem rumo para o outro nascimento que é a entrada na vida eterna.


Cristo carregou uma cruz mas nunca foi cruz para os outros nem colocou cruzes nos caminhos dos outros. Quando contrariarmos a vontade de Deus por causa do pecado que faz ninho dentro de nós, nos tornaremos cruzes para os outros e colocaremos cruzes em seus caminhos. Quando os outros contrariarem a vontade de Deus, tornar-se-ão cruzes para nós e colocarão cruzes em nossos caminhos. Assim, os outros são cruzes para nós e nós somos cruzes para os outros. Cristo quer que não sejamos cruzes para ninguém mas imitadores de seu amor apaixonado.


Por isso, pregar a cruz a partir de Cristo significa ter consciência do pecado que faz ninho no nosso coração que causa tantas cruzes na própria vida de quem o comete e na vida dos outros com quem convive. A presença do pecado como uma força destruidora cria muitas cruzes na convivência humana, pois nunca somente vivemos, mas sempre convivemos. Cada ato nosso, seja positivo ou negativo, sempre tem conseqüência direto ou indiretamente para a vida dos outros. Esta consciência de ser nosso coração a hospedagem também do pecado, nos leva a um ato de acabar com as muitas cruzes que criamos através do trabalho contínuo de arrancar o ninho do pecado dentro de nós através da conversão contínua. Não podemos esquecer que a cruz de Jesus é uma revolta contra a dignidade humana violada, contra aquilo que deveria ter evitado para não criar tantos sofrimentos na própria vida e na vida alheia. Pregar a cruz de Cristo significa convocar as pessoas para um amor e para um perdão incondicionais, para a capacidade de não permitir que o ódio e suas múltiplas manifestações reinem o coração humano onde Deus deposita seus segredos. Sem esta atitude não haverá a paz e a ressurreição; não haverá a passagem do homem velho para o homem novo criado para o céu. Que sejamos uma ressurreição e não a cruz para os outros. Que sejamos solução e não problema para os outros.


A partir do amor de Cristo, por nós, que foi levado até o fim percebemos que estávamos no Calvário. Todos nós estávamos na mente e no coração de Cristo. Ele nos conhecia todos, sofria por todos, nos amava e nos redimia a todos. Ele “tomou as nossas enfermidades e sobrecarregou-se dos nossos males” (Is 53,4; Mt 8,17). Estávamos cravados na cruz com Cristo, moremos com ele e ressuscitamos com ele.


Olhando para a Cruz de Cristo, a partir de nós, percebemos que a cruz de Cristo é um produto terrível do pecado. Foi meu pecado que crucificou Jesus. Da cruz sabemos que o preço do pecado é a morte. Jesus morreu porque o ser humano não tolera a defesa do pobre e do inocente, nem o desvelamento da hipocrisia, nem a denúncia da injustiça, nem a ruptura das convenções e privilégios sociais e religiosos. Jesus morreu porque era bom e não compactou com a maldade, com a corrupção, com a desonestidade, com a exploração, com a deslealdade, com a injustiça, mas se colocou, do lado dos oprimidos, dos justos, dos leais, dos honestos, dos inocentes sem retroceder diante das conseqüências. Cristo prefere ser crucificado a trair a verdade, o amor, a justiça, a honestidade. Por isso é que Ele foi ressuscitado por Deus Pai.

P. Vitus Gustama,svd