sábado, 30 de maio de 2015

02/06/2015
 
 
O HOMEM É A IMAGEM DO DEUS ABSOLUTO


Terça-Feira do IX Semana Comum 


Evangelho: Mc 12,13-17

Naquele tempo, 13as autoridades mandaram alguns fariseus e alguns partidários de Herodes, para apanharem Jesus em alguma palavra. 14Quando chegaram, disseram a Jesus: “Mestre, sabemos que tu és verdadeiro, e não dás preferência a ninguém. Com efeito, tu não olhas para as aparências do homem, mas ensinas, com verdade, o caminho de Deus. Dize-nos: É lícito ou não pagar o imposto a César? Devemos pagar ou não?” 15Jesus percebeu a hipocrisia deles, e respondeu: “Por que me tentais? Trazei-me uma moeda para que eu a veja”. 16Eles levaram a moeda, e Jesus perguntou: “De quem é a figura e inscrição que estão nessa moeda?” Eles responderam: “De César”. 17Então Jesus disse: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. E eles ficaram admirados com Jesus.
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Estamos no segundo episódio de choque entre as autoridades e Jesus (veja o primeiro em Mc 11,27-33). Estes dois choques têm a mesma idéia de fundo: indagar sobre a consciência que Jesus tem de si mesmo e de sua missão. Na resposta precedente, dada em forma de parábola (Mc 12,1-12), aparece sua consciência messiânica e, portanto, sua missão de libertador do povo. Mas como, de quem e de que Jesus liberta o povo?
                  

No episodio do evangelho lido neste dia entram em ação alguns fariseus e herodianos (do partido de Herodes) enviados pelo Sinédrio que não pode pegar Jesus por causa do povo (medo do povo. O povo apesar de não ter cargo e de ser pobre causa medo nas autoridades por se tratar de uma maioria na sociedade). Na prática esses dois grupos não se encontram em nome do interesse. Os fariseus são formalistas supersticiosos que somente se importam com as cerimônias externas da sua religião. Os herodianos são apenas homens do mundo, que desprezam toda e qualquer religião. Mas quando surge o interesse para os dois, eles se tornam unidos. Trata-se de promiscuidade política. Eles  se esforçam para calar Jesus, pois Jesus ataca os dois grupos.


Esses dois grupos (fariseus e herodianos) já decidiram há muito tempo em eliminar Jesus (Mc 3,6). Agora querem apanhá-Lo “em alguma palavra”. A armadilha é essencialmente política, mas se disfarça, hipocritamente, de religiosidade e de adulação. Eles chamam Jesus de “Mestre”, algo insólito entre os fariseus e O definem como “verdadeiro” e que Jesus ensina o caminho de Deus. Mas anteriormente, eles mesmos questionaram a sabedoria de Jesus (cf. Mc 6,1-6). Agora eles chamam Jesus de “Mestre”.


Os fariseus e os herodianos apresentam a Jesus um problema ou um dilema aparentemente insolúvel: “Mestre, sabemos que tu és verdadeiro, e não dás preferência a ninguém. Com efeito, tu não olhas para as aparências do homem, mas ensinas, com verdade, o caminho de Deus. Dize-nos: É lícito ou não pagar o imposto a César? Devemos pagar ou não?”. Se respondesse “sim”, na cabeça dos fariseus, Jesus estaria contra o próprio povo que odeia a pagar o imposto para o governo estrangeiro (=governo pagão). Se Jesus respondesse “não”, os herodianos poderiam acusá-Lo diante do Pilatos, representante do governo romano, como uma pessoa rebelde contra o governo romano. Na linguagem popular: “Se ficar, o bicho come; se correr, o bicho pega”.


Mas Jesus relativiza o insolúvel problema introduzindo Deus no horizonte do problema. Quando o ser humano conta com Deus, tudo tem sua solução. O surpreendente de Jesus é que quando introduz Deus Ele não faz discursos sobre Deus. Jesus simplesmente vive de Deus, fala com Ele, O apresenta e O sente. Para Jesus Deus é Alguém, e não algo. É Alguém com quem conta em quaisquer momentos. É Alguém com quem Jesus convive. “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30).


Jesus lhes pede a moeda que tem a imagem incisa na moeda. Na moeda estava incisa a imagem de Tibério com a coroa de laurel para indicar sua dignidade divina, e a inscrição: Tibério César, filho do divino Augusto. Os fariseus e os herodianos tinham a moeda e a levavam ao Templo. Isto significa que eles profanaram o Templo com uma imagem de um pagão. Mas o que interessa ao evangelista Marcos é outra coisa: o ensinamento de Jesus é o único que tem valor para a comunidade cristã. Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”.


Dai, pois, a César o que é de César”. Jesus ordena-lhes que paguem tributo ao governo romano, quanto às coisas temporais, pois ao usarem o dinheiro romano, eles mesmos são obrigados à tributação. “Devolva a Cesar o que é do César”, diz Jesus. Mas somente devolver o que é do César e não tudo o que o poder pretende com todo seu aparato coercitivo.


Por isso, Jesus acrescenta: “Devolva a Deus o que é de Deus”. Isto significa que nem tudo é do César, ou seja, que o poder do Estado não é absoluto. Na linguagem política os limites do poder político radicam na soberania popular, no reconhecimento e na declaração dos direitos humanos. Na linguagem espiritual ou religiosa o que se enfatiza é que os poderes do Estado ou qualquer poder estão limitados pela soberania de Deus, pois Deus criou o homem a sua imagem e semelhança. Assim expressa o profeta Isaias do seguinte modo: “Eu sou Deus. Não há outro Deus fora de mim” (cf. Is 45,20-25). A existência de Deus, o Absoluto, é a negação de qualquer outro que se apresente como absoluto. Só há um Deus, o resto não é Deus. Podem ser propriedade uma moeda e um território, mas cada homem é propriedade de Deus, feito à imagem de Deus.


Com sua resposta, Jesus ordena que os fariseus orgulhosos não se neguem a cumprir as suas obrigações civis para com César (governo romano) e que os herodianos não se recusem a cumprir as suas obrigações para com Deus, Criador de todas as coisas visíveis e invisíveis.  
Na verdade, aqui não há uma verdadeira oposição, baseada no Evangelho, entre o que é do César e o que é Deus. Dar ou devolver a Deus o que é lhe devido implica que seja dado a César o que somente lhe pertence. O Reino de Deus não se situa fora dos reinos terrestres que são assumidos por Deus em Jesus Cristo. Por isso, não se pode ser cristão autêntico à margem das realidades. O cristão é chamado e enviado para ser o sal e a luz do mundo (cf. Mt 5,13-16) para que ninguém explore ninguém, pois todos são filhos do mesmo Pai. O cristão na vida política deve ser justo. A obediência cívica não pode estar em contradição com deveres com Deus. Jesus respeita a autonomia do poder político, mas ao mesmo tempo afirma implicitamente que as estruturas políticas, representadas neste caso pelo imperador romano, não podem nunca ser divinizadas. Somente Deus é Deus. o resto é criatura.


Às vezes podemos cair na tentação de pensar que o evangelho e a vida cristã se reduzem à mera vida espiritual. O evangelho de hoje nos mostra que não é assim. A vida do evangelho toca todas as áreas da vida, e entre elas a vida econômica e a da justiça. “Devolva a César o que é do César e a Deus o que é de Deus” é o principio da justiça equitativa, que, todavia, está longe da justiça cristã. Pagar o que se deve são deveres elementares de justiça. A injustiça não cabe na vida do cristão. Devolvamos a cada um o que lhe é próprio e nossa vida se encherá de paz e de alegria. Podemos até ganhar na justiça humana. Mas precisamos estar conscientes de que ainda resta a justiça divina, como diz São Paulo: “Todos nós teremos de comparecer manifestamente perante o tribunal de Cristo, a fim de que cada um receba a retribuição do que tiver feito durante sua vida no corpo, seja para o bem, seja para o mal” (2Cor 5,10).

P. Vitus Gustama,svd
01/06/2015
DEUS ME AMA ATÉ AS ÚLTIMAS CONSEQUÊNCIAS

Segunda-Feira da IX Semana Comum 


Evangelho: Mc 12,1-12

Naquele tempo, 1Jesus começou a falar aos sumos sacerdotes, mestres da Lei e anciãos, usando parábolas: “Um homem plantou uma vinha, cercou-a, fez um lagar e construiu uma torre de guarda. Depois arrendou a vinha a alguns agricultores, e viajou para longe. 2Na época da colheita, ele mandou um empregado aos agricultores para receber a sua parte dos frutos da vinha. 3Mas os agricultores pegaram o empregado, bateram nele, e o mandaram de volta sem nada. 4Então o dono mandou de novo mais um empregado. Os agricultores bateram na cabeça dele e o insultaram. 5Então o dono mandou ainda mais outro, e eles o mataram. Trataram da mesma maneira muitos outros, batendo em uns e matando outros. 6Restava-lhe ainda alguém: seu filho querido. Por último, ele mandou o filho até os agricultores, pensando: ‘Eles respeitarão meu filho’. 7Mas aqueles agricultores disseram uns aos outros: ‘Esse é o herdeiro. Vamos matá-lo, e a herança será nossa’. 8Então agarraram o filho, o mataram, e o jogaram fora da vinha. 9Que fará o dono da vinha? Ele virá, destruirá os agricultores, e entregará a vinha a outros. 10Por acaso, não lestes na Escritura: ‘A pedra que os construtores deixaram de lado tornou-se a pedra mais importante; 11isso foi feito pelo Senhor e é admirável aos nossos olhos’?” 12Então os chefes dos judeus procuraram prender Jesus, pois compreenderam que havia contado a parábola para eles. Porém, ficaram com medo da multidão e, por isso, deixaram Jesus e foram-se embora.
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O profeta Jeremias, Ezequiel, Isaias (especialmente Is 5,1-7) e os Salmos chamam Israel “a vinha do Senhor”. A parábola que Jesus conta é introduzida perfeitamente nessa linha profética e serve para contestar às duas perguntas que as autoridades judeus fizeram a Jesus: Com que autoridade fazes tudo isso? Quem te deu essa autoridade?”. Jesus contesta relatando com imagens toda a história de Seu povo e oferece também aos seus discípulos e, portanto, para todos os cristãos, a possibilidade de saber quem somos nós para Ele. Através desta parábola Jesus respondeu à primeira pergunta: “Com a autoridade do Servo de Deus, com a autoridade do Filho de Deus”. E para a segunda pergunta, Jesus respondeu através desta parábola: “Quem deu essa autoridade é o Dono da vinha, o Deus de Israel, que é meu Pai”.


O texto do evangelho deste dia nos diz: “Agora restava ainda alguém: o filho amado. Por último, então, enviou o filho aos agricultores, pensando: ‘A meu filho respeitarão’. Mas aqueles agricultores disseram uns aos outros: ‘Este é o herdeiro. Vamos matá-lo, e a herança será nossa’. Agarraram o filho, mataram e o lançaram fora da vinha” (Mc 12,6-8). 


Restava ainda alguém: o filho amado”. É uma expressão que nos desconcerta toda vez que a lemos e sobre a qual refletimos e meditamos. Deus usa todos os meios e recursos para despertar os homens a fim de salvá-los. Agora, parece que Deus fica à margem da pobreza. Resta apenas o próprio Filho. Mais nada! Por causa dos homens e por causa do Seu amor sem limites pelos homens Deus usa todos os recursos e todas as possibilidades. Os recursos, aparentemente, se esgotaram. Agora resta apenas seu Filho. Deus é verdadeiramente o “pobre” por excelência, porque nos deu tudo; não restou nada! Até seu próprio Filho, o ultimo que restou. Significa que Deus nos toma a sério e deixa o campo livre para que atuemos com plena responsabilidade. Mas Deus é impotente diante da liberdade do homem. O homem é responsável pela sua própria escolha. No momento em que o homem não respeitar as regras e as placas da vida que apontam para sua plena realização e para a eternidade, ele perderá sua liberdade e cairá em uma série de prisões e escravidões.


Não há pai que entregue seu filho amado para os criminosos a fim de resgatar algo ou alguém. Deus é diferente, o Diferente por excelência. Ele entrega seu Filho amado como resgate a fim de o homem ficar livre do cativeiro da perdição e da maldição (cf. Mt 20,28; Mc 10,45; Gl 3,13; 1Tm 2,6). É muito difícil entender e compreender a atuação de Deus. Até o salmista faz esta pergunta retórica: “Quando olho para o teu céu, obra de tuas mãos, vejo a lua e as estrelas que criaste: Quem é o homem, para dele te lembrares, quem é o ser humano, para o visitares? Ó SENHOR, Senhor nosso, como é glorioso o teu nome em toda a terra!” (Sl 8, 4-5.10). Somente quando calarmos nossa mente, o nosso coração vai começar a compreender tudo que Deus faz por nós e vai haver uma adequada correspondência de nossa parte.


Jesus é verdadeiramente o ultimo, o “eskatos”, da perspectiva de Deus.  Não é o ultimo em relação ao tempo, não o ultimo de uma serie de intentos. O último quer dizer o definitivo, tudo. Depois do qual não fica mais nada. Agora Deus é verdadeiramente o “pobre” por excelência. Pobre porque deu tudo. Em sua incurável paixão pelos homens não ficou com nada, nem com o seu próprio Filho. Só o amor apaixonado e incondicional pode explicar tudo isso. Cristo morreu perdoando o homem.


A conduta dos lavradores se julga durante a ausência do patrão. O patrão confia tudo nos lavradores e por isso, não precisa estar presente. O Deus da confiança é também o Deus da ausência. Mas há que compreender exatamente esta ausência. Não se trata nem de abandono, nem de evasão nem de deserção. É um sinal de amor. É um grande sinal de uma grande confiança nos homens. É um Deus que pretende atuar exclusivamente através do amor, através da confiança, pois este caminho é que leva o homem à sua plenitude, à eternidade.


’Este é o herdeiro. Vamos matá-lo, e a herança será nossa’. Agarraram o filho, mataram e o lançaram fora da vinha”. Deus não manda Seu Filho para a morte: Ele o ama incondicionalmente. Por outro lado, a morte é um mal e o Deus da vida não pode querê-la. Por isso, quem mata ou assassina comete pecado; vai contra a vontade de Deus que é a Vida (cf. Jo 11,25; 14,6). O castigo não cai sobre a vinha e sim sobre os guardiões. A vinha do Senhor seguirá, mas será um novo Israel, um novo Povo de Deus, o verdadeiro templo de Deus (cf. 1Cor 3,16-17) que tem como centro Jesus Cristo. Jesus morto e recusado pelos sumos sacerdotes, os escribas, e os anciãos, e ressuscitado pelo Pai, se converte em fundamento de um novo povo que é, ao mesmo tempo, continuação do antigo: a vinha passa a outros. Antigo e novo coexistem. As primeiras comunidades cristãs estavam compostas principalmente por judeus, isto é, pelo resto fiel de Israel que acolheu Jesus como Messias e Filho de Deus e por muitos que provinham do mundo pagãos e formavam com, como o resto de Israel, o novo e definitivo povo de Deus. O novo é realmente, com Jesus, a casa do Pai para todos os povos. É uma das mensagens do evangelho deste dia.


 O texto do evangelho de hoje quer nos recordar sobre a paciência e a longanimidade de Deus para todos nós. A longanimidade e a bondade de Deus permanecem conosco. Porém, tenhamos cuidado para não abusar da bondade de Deus! Ao contrário, devemos escutar atentamente para a voz misericordiosa de Deus que nos chama a produzirmos bons frutos durante a nossa passagem por este mundo. A voz de Deus continua ressoando para nós todos através de tantos profetas atuais, dos bons conselhos, das advertências vindas das pessoas que nos amam, através dos próprios acontecimentos de cada dia. Não há dia que não tenha algum recado de Deus para cada um de nós. Deus mesmo se manifestou em carne, habitando entre os homens (cf. Jo 1,14) para nos amar (cf. Jo 3,16).  A consciência humana pode ser despertada, mas continua o perigo da impenitência. Precisamos de uma mudança no coração e na vontade. Sem essa mudança, poderemos viver toda a nossa vida, como os contemporâneos de Jesus, mas se perseverarmos em nosso próprio caminho, morreremos em nossa cegueira espiritual ou em nossos pecados.


Cada um precisa entrar no silêncio sagrado para meditar sobre o amor de Deus por cada um e a resposta de cada um diante desse amor. Será que sou ingrato diante do amor de Deus? Será que sou irresponsável na minha atuação como pessoa amada de Deus? Será que eu vivo de acordo com o amor com que Deus me ama? Será que sou capaz de dar tudo por amor?

P. Vitus Gustama,svd
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SÃO JUSTINO
(+ cerca 165)
01 de junho
Há pessoas ignorantes e bárbaras quanto à linguagem, mas sapientes e fieis no espírito... e é evidente que isto não seja obra da sabedoria humana, mas do poder divino.
(São Justino)
No dia 01 de junho celebramos a memória obrigatória de São Justino, mártir. São Justino é o mais célebre e o maior de todos os filósofos cristãos do século II. Era um homem que tinha nobreza de caráter e o gosto pela exatidão histórica. Justino foi um leigo intelectual que buscava a verdade: “Atos e não palavras!”, dizia ele. Ele procurava a verdade para vivê-la. Tendo ingressado no cristianismo por volta do ano 130, afirmou ter encontrado no cristianismo a única filosofia segura que satisfazia todos os seus anseios. Em outras palavras, ele encontrou a verdade no cristianismo, a verdade que o libertou de outras filosofias. Cumpriu-se aquilo que Jesus tinha dito: “Se permanecerdes na minha palavra, sereis meus verdadeiros discípulos; conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8,32).
Para Justino, o cristianismo não é, antes de tudo, uma doutrina e sim uma pessoa: O Verbo de Deus encarnado e crucificado em Jesus Cristo. Por isso, Justino dizia: “A nossa doutrina (cristã) supera qualquer doutrina humana, porque nela temos o inteiro Verbo (de Deus)”. Por isso, “toda verdade, afirmada em qualquer povo, pertence a nós cristãos”, acrescentou Justino.
Um dia, retirando-se à solidão, Justino passeava pela areia à beira mar para meditar sobre a visão de Deus. Na sua meditação, ele disse que a alma humana não podia atingir a Deus com seus próprios recursos; somente o cristianismo era a filosofia verdadeira que apresentava conclusões para todas a verdades parciais.
Por ser um famoso filósofo com nobre caráter, ele era respeitado. Mas um filosofo invejoso e cínico chamado Crescêncio denunciou Justino covardemente diante do imperador Marco Aurélio. “A inveja é a tristeza pelo bem alheio”, dizia Santo Thomas de Aquino. Diante do imperador, para Justino foi lançada a seguinte pergunta: “A que ciência te dedicas tu?”. Justino respondeu: “Estudei sucessivamente todas as ciências. Acabei por apegar-me à doutrina verdadeira dos cristãos”. Por causa disso, ele foi flagelado e sofreu a pena capital.   Ele morreu em torno do ano 165 como mártir.
Justino foi uma mistura perfeita da intelectualidade com a espiritualidade. Meditava profundamente a doutrina cristã e se apegava a ela até a morte.  Ele nos ensina a vivermos e praticarmos nossa intelectualidade sempre dentro do Espírito de Deus. É a intelectualidade conduzida para a salvação. A intelectualidade dentro da espiritualidade nos faz viver na sabedoria. Todo sábio é inteligente, pois para ser sábio tem que ser inteligente, mas nem sempre todo inteligente é sábio. O sábio não solta qualquer palavra sem pensar. Como diz a sabedoria indiana: “Quando falares, cuida para que tuas palavras sejam melhores que o silêncio”. E "O sábio estima todos porque sabe ver o bom de cada um e sabe o que custa fazer bem as coisas. O tolo despreza todos porque não conhece o bom e escolhe o pior”, dizia um escritor (Baltasar Gracián).
P. Vitus Gustama, SVD

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Domingo, 31/05/2015
 
SANTÍSSIMA TRINDADE

Ano “B”

Evangelho: Mt 28,16-20


Naquele tempo: 16 Os onze discípulos foram para a Galiléia, ao monte que Jesus lhes tinha indicado. 17 Quando viram Jesus, prostraram-se diante dele. Ainda assim alguns duvidaram. 18 Então Jesus aproximou-se e falou: ‘Toda a autoridade me foi dada no céu e sobre a terra. 19 Portanto, ide e fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, 20 e ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei! Eis que eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo’.
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Este relato solene é a conclusão e o ápice do Evangelho de Mateus. Este relato final, exclusivo de Mateus, é chamado de a chave para entender todo o evangelho de Mateus porque nele encontra-se a rica afirmação sobre Cristo, Igreja, e história da salvação acompanhada pela fé e dúvida; batismo e moralidade; Judeu passado e futuro Gentio. Se no seu ministério público Jesus enviou seus Apóstolos somente para a terra e o povo de Israel (Mt 10,5-6), agora ele envia os Onze para todas as nações, com batismo e não com circuncisão como rito de iniciação; com a sua ordem e não a Lei de Moisés, como a norma final de moralidade. Por isso, essa perícope final reflete a teologia de Mateus.


1. O encontro na Galiléia (v.16a)


A Galiléia (a “Galiléia dos pagãos” segundo Mt 4,15) é a terra onde Jesus começou seu ministério e chamou seus primeiros discípulos (Mt 4,18-22). No começo da Paixão Jesus prometeu que depois de sua ressurreição, ele iria preceder os discípulos para a Galiléia (Mt 26,32). A direção da Galiléia foi repetida no sepulcro tanto pelo anjo do Senhor como por Jesus ressuscitado (Mt 28,7-10), com a promessa adicional de que lá os discípulos (que agora se tornam seus “irmãos” cf. Mt 12,50) o veriam. A partir de agora a “Galiléia dos pagãos” se torna um lugar que tem um sentido salvífico, pois a Galiléia vai se tornar como o ponto de partida para a missão universal. Este detalhe já indica a universalidade da mensagem do Evangelho de Mateus.


2. O encontro numa montanha (v.16b)


O encontro acontece numa montanha. Mateus não pensa em uma específica montanha geográfica, mas indica a revelação divina (teofania), a esfera divina. O monte é o lugar e símbolo do encontro do céu e da terra, da ascensão humana e da teofania. Em quase todas as culturas a montanha representa uma ligação entre a terra e o céu. A ligação entre o céu e a terra é concebida simbolicamente, à semelhança de uma escada (p. ex. São João da Cruz, Subida ao monte Carmelo), como possibilidade da ascensão espiritual e o desenvolvimento superior a ser penosamente conquistado: vista dessa forma a montanha é para os seres terrestres o caminho da subida, para a proximidade de Deus e para os seres não terrestres o caminho da descida para o terrestre, quando querem interferir na realidade terrena. Quase todos os povos têm seus montes sagrados considerados como morada dos deuses e onde tiveram sua origem importantes acontecimentos espirituais (veja também outros textos: Is 2,2ss;Jr 5,25;Mq 4,1;Gn 22,2;1Rs 18,42 etc.).
  

Em relação a Jesus, numa “montanha” aconteceram coisas importantes: Jesus se sentou na montanha quando fez aos discípulos o Sermão da Montanha(Mt 5,1). Na montanha Jesus se transfigurou diante de Pedro, Tiago e João(Mt 17,1), na montanha Jesus reza ( Mt 14,23 cf. também Mt 8,1;15,29). Assim como no monte Sinai ou Horeb, Moisés encontrou Deus e dele recebeu a Lei, do mesmo modo em uma montanha, durante o ministério, os discípulos tinham visto a glória de Deus em Jesus transfigurado, dele recebendo uma interpretação da Lei: “Vós ouvistes dizer, mas agora eu vos digo” (Mt 5,21-22.27-28.31-32.33-34.38-39.43-44). Quando se trata de coisas importantes na vida de Jesus, Mt coloca Jesus sobre a montanha. Ao dizer que “os Onze foram ao monte” Mt quer nos dizer que a missão dos Apóstolos enviados para o mundo inteiro é um acontecimento de extrema importância. Os discípulos são convocados não para reconhecê-lo, mas para escutar sua revelação definitiva(pelo fato de ocorrer no monte).


3. Adoração (v.17)
   

A adoração (proskynesis, proskynein, adorar) é, no NT, palavra predileta de Mateus e do Apocalipse. Além de se encontrar três vezes em Mt 2,2.8.11 (sobre os magos), reaparece o mesmo termo outras dez vezes: na tentação (Mt 4,9.10); uma no contexto parabólico (Mt18,26) descrevendo a prostração do servo(pecador) diante do rei(Deus, Pai e Juiz) e outras sete descrevem uma instantânea: a adoração do enfermo ou aflito/sofredor (Mt 8,2;9,18;15,25) e a do discípulo (Mt 14,33;20,20;28,9.17) em atitude de “proskynesis” (prostrar-se/adorar) diante de Jesus.
  

Nesse encontro os discípulos reconheceram Cristo imediatamente e prostraram-se diante de Jesus para adorá-lo, demonstrando sua fé nele como Filho de Deus. Anteriormente eles já o tinham feito uma vez quando Jesus caminhava sobre as águas e professaram sua fé em Jesus como Filho de Deus (Mt 14,33). A palavra “adoração”, de origem extrabíblica, indica o gesto de submissão dos discípulos que se dispõem a escutar as ordens do Ressuscitado. Ao nascer Jesus foi adorado pelos magos (Mt 2,11), no ministério público ele foi adorado pelos próprios discípulos e enfermos, e na ascensão Jesus recebeu a mesma adoração dos discípulos (Mt 28,17). Para a teologia de Mateus, o Senhor da Glória já estava na humanidade de Belém e no ministério público. Ao prostrarem-se diante de Jesus, agora eles o adoram não somente como o Senhor dos elementos, mas também o Senhor deles e o Senhor do mundo (A adoração presta-se somente a uma divindade). Jesus, a quem se adora, é “Senhor” que tem poder sobre a lepra (Mt 8,2ss), o demônio (Mt 15,22ss), a morte (Mt 9,18ss), a natureza (Mt 14,25ss), o universo (Mt 28,18ss). Será que esse mesmo Jesus continua sendo o Senhor de nossa vida e de nossas decisões e o ponto de referência de nossos atos? Ou adoramos outros deuses?


4. A apresentação de Jesus como Filho do Homem, Senhor, Filho de Deus e Emanuel
  

A narrativa sublinha também a apresentação de Jesus como Filho do Homem, Senhor, Filho de Deus e Emanuel(Deus- conosco), que percorre todo o Evangelho. Jesus aparece como “Filho do Homem” glorioso, que recebe de Deus todo o poder, e todas as nações o adoram e o seu Reino não terá fim(compare-se a visão de Daniel 7,14). Ao longo de toda a história, Jesus é o Filho do Homem glorioso, mas este papel culminará na manifestação como Juiz definitivo (Mt 13,41-43;16,27;19,28;24,30s;25,31-46;26,64). Jesus também é o Senhor glorioso que recebe a adoração dos seus e que domina sobre todo o criado (cf. Fl 2,9-11). Ele também é o Filho de Deus, a ele tudo lhe foi entregue pelo Pai(Mt 11,27) e em seu nome, junto aos do Pai e do Espírito, terão que batizar todos os povos. Este mesmo Jesus garante sua presença permanente com seu povo: “Eu estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos”. Em outras palavras, ele é o Emanuel, “Deus conosco”.
    

Jesus recebeu todo o poder no céu e sobre a terra. Ao falar do poder de Jesus que ele recebeu, devemos estar conscientes de que a verdadeira natureza do poder de Cristo, não é um exercício de dominação sobre os homens, mas como uma capacidade operativa de proclamar as exigências da vontade de Deus, de libertar os pecadores da escravidão do seu passado de culpa, de romper os grilhões dos prisioneiros das forças diabólicas da morte e da destruição, de denunciar as religiões feitas de hipocrisia e de interesse. Em outras palavras, é um poder de realizar o Reino de Deus no mundo.
 

Existe um poder que destrói e existe também um poder que cria. O poder que cria dá vida, gozo e paz. É liberdade e não escravidão, vida e não morte, transformação e não coerção. O poder que cria restaura relacionamentos e concede dom da integridade a todos. O poder que cria é o poder que procede de Deus cuja marca é o amor. E o amor exige que o poder seja usado para o bem de todos. Em Cristo, o poder é usado para destruir o mal de forma que o amor possa redimir o bem. O poder que cria produz união. Para criar essa união é preciso ouvir juntos à voz do Senhor em nossos lares, em nossas igrejas,  em nossos negócios, em nossas comunidades, em nossos encontros etc..
   

Ao contrário disso, nada é mais perigoso do que o poder a serviço da arrogância. A arrogância  nos faz pensar que estamos certos e os outros estão errados. O único que está certo é Jesus Cristo. O restante de nós precisa reconhecer suas próprias fraquezas e fragilidades e buscar aprender através da correção dos outros. Se não o fizermos, o poder pode conduzir pelo caminho de destruição. O poder destrutivo destrói relacionamentos, a confiança, o diálogo e a integridade.


5. A ordem de missão


A ordem de missão dada aos Onze é significativa, pois a missão se amplia: fazer discípulos todos os povos. No começo Jesus falou somente aos judeus(Mt 15,24) e os discípulos foram enviados somente para o povo de Israel (Mt 10,5-6). Agora o Jesus ressuscitado, com pleno poder escatológico(“toda a autoridade”), envia-os a todas as nações. Israel não está excluída (Mt 23,34); mas o progresso destas duas ordens, uma durante o ministério e outra depois da ressurreição, incorpora a experiência da cristandade em Mateus. No começo do Evangelho, Mt assinala a grande extensão desse plano ao escrever sobre os magos pagãos vindos a Jerusalém(cumprimento de um sonho do AT em Is 2,2-4). Agora fica claro que os discípulos não podem simplesmente esperar que os pagãos venham a ele, mas eles precisam ir até os pagãos.
 

A missão dada aos discípulos é expressa através de um verbo principal no imperativo (fazer discípulos/mathêteusate) e dois verbos no particípio (batizando...ensinando).


Para Mt “fazer discípulos” é um processo educativo. Fazer discípulos é ajudar as pessoas a aprenderem as coisas que Jesus lhes ensinou. Na missão universal, os discípulos tornam-se claramente mestres. Como Jesus antes deles, eles agora vão “fazer discípulos”. Ser cristão é ser discípulo de Jesus. E ser verdadeiro discípulo para Mt equivale a pertencer à família de Jesus (Mt 12,49-50). Neste sentido, fazer discípulo é fazer comunidade cristã, fazer Igreja. Para ser salvo, é preciso pôr-se no seguimento de Cristo, entrar em relação com a sua pessoa. Não existe outra possibilidade.


Mas não se trata de uma relação individual. Os homens são chamados a fazer parte da comunidade dos seus discípulos. Isto é indicado claramente pelas duas instruções: batizar e ensinar tudo o que Jesus mandou. “Batizando” e ”ensinando” marcam as duas atividades fundamentais no exercício da missão de “fazer discípulos”.


Em outras passagens do NT, o batismo é feito em nome de Jesus (At 2,38;10,48;8,16;19,5;1Cor 6,11 etc.); mas aqui o batismo é realizado “Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. Com certeza, esta fórmula era usada na comunidade de Mt quando ele escreveu o evangelho. Para Mt, o batismo, e não circuncisão, é o meio para uma incorporação na vida de Deus e de sua Igreja. “Em nome” sugere uma dedicação e compromisso, uma consagração. Entre os hebreus, o nome designa a realidade profunda do ser, incluindo a pessoa e sua respectiva dignidade. Em Seu nome (poder) começou a Igreja, e nele ela vive hoje ainda, pois onde “o nome de Deus é pronunciado sobre nós, ele mesmo está no nosso meio” (cf. Jr 14,9). Os que acreditaram em Jesus compreenderam que Deus Pai era a fonte e o objetivo de tudo o que Jesus dizia e fazia. O Espírito Santo foi rapidamente relacionado à continuação do trabalho de Jesus, tanto entre os fiéis quanto dentro da Igreja.


O batismo deve ser acompanhado pelos ensinamentos a respeito de tudo o que Jesus recomendou. Os ensinamentos não devem ser novos ou próprios dos discípulos, mas “tudo o que vos prescrevi” (cf. também Ex 7,2;23,22 etc.). Jesus ressuscitado não ensina nada de novo, mas declara a permanente validez do que ensinou no transcorrer da vida terrena(“ensinando-os a observar tudo quanto vos ordenei”).


Estas palavras descrevem com precisão a Igreja. Ela não é somente comunidade de santificados pelo sacramento, mas também de praticantes duma nova obediência. O discípulo se qualifica pela tradução na prática do ensinamento de Jesus (Mt 7,24-27). Sua palavra é um mandato a ser obedecido e praticado. Concretamente, sua revelação se resume no mandato do amor (Mt 22,40). Isto quer dizer que a fé cristã não pode ser restrita a aclamações litúrgicas e a celebrações rituais, ou reduzida ao entusiasmo do espírito, mas Jesus nos chama a mergulharmos no presente, colocando-nos perante a exigência de um empenho concreto de obediência e de amor.


Esta missão é difícil. O evangelho fala continuamente das perseguições, dos elementos adversos e das dúvidas dos discípulos. Mas a Igreja não foi nem será deixada sozinha no seu longo e cansativo caminho histórico: “Eis que estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28,20). Jesus a acompanha, sustenta, encoraja, e purifica. Ele continua presente entre nós, onde dois ou mais se reúnem em seu nome(Mt 18,20), pela fé, pela palavra proclamada, pelos sacramentos etc. As últimas palavras solenes de Jesus em Mt 28,20 lembram as primeiras palavras ditas sobre ele no começo do Evangelho em Mt 1,23. O Deus- Conosco que abre o evangelho de Mt, também o fecha. A ressurreição para Mt é a evidência não somente de que Deus estava com Jesus, que venceu a morte, mas também de que a presença permanente de Deus em Jesus está com todos aqueles batizados em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. E que observam tudo o que Jesus recomendou, como foi ensinado pelos discípulos. A partir dessa promessa, cada cristão não é mais solitário, mas solidário pois Deus está sempre com ele e ele está sempre com Deus. O cristão, ao mesmo tempo é chamado a ser solidário com os outros, a sair do isolamento, pois Deus chama cada cristão a viver numa solidariedade, numa comunidade.


6. Festa da Santíssima Trindade e sua importância na vida de um cristão


Celebramos hoje a festa da Santíssima Trindade. Por ordem do Senhor Jesus em Mt 28,19, cada um de nós foi batizado e consagrado a Deus “ em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”. Ainda nos braços da mãe, mal podendo balbuciar, talvez sem então entendermos o sentido do gesto ou o alcance das palavras, ensaiados e ensinados pela mãe, aprendemos a fazer o sinal da cruz e nossa primeira oração: “Em nome do pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém”.
 

Este “amém”, vocábulo hebraico, e explica nosso Catecismo (no.1026), ligado à mesma raiz da palavra “crer”, exprime a solidez, a confiabilidade e a fidelidade de nossa fé. Pode proclamar tanto a lealdade de Deus para conosco, como a nossa confiança nele. Com o “amém” ,que pronunciamos, anunciamos ter encontrado a Deus e depositamos nele nossa inteira e total confiança. Este piedoso sinal da cruz, pelo qual se benze o cristão invocando as Três Pessoas, prática já comprovada no segundo século, é um costume de sentido profundo e completo: significa consagração, profissão de fé e oração.


Em cada oração que fazemos todos os dias sempre começamos e terminamos com o sinal da cruz e nele invocamos a presença da Santíssima Trindade. É uma louvação às três divinas Pessoas, porque elas se revelaram na história e nos convida a participar de sua comunhão divina. A resposta humana à revelação da Santíssima Trindade é o agradecimento e a glorificação. Depois, decoramos a doxologia (a louvação): “Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo”.


E não demorou, aprendemos, sempre crianças, muitas vezes antes da primeira comunhão, a professar com ortodoxa precisão, mesmo sem então entender o que haveríamos de compreender, pouco a pouco, mais e melhor, ensinados através de nossa catequista, com solenes palavras: “Creio em um só Deus, Pai Todo Poderoso, criador do céu e da terra...Creio em um só Senhor, Jesus Cristo...Deus verdadeiro de Deus verdadeiro...Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida, e procede do Pai e do Filho e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado”.  Este nosso Credo é ,em sua estrutura íntima, uma confissão da Trindade.


Na verdade, a atenção e a devoção às Três divinas Pessoas continuam centrais em nossa vida e tirá-las de nossa fé causaria não só um irreparável vácuo, mas acabaria com o próprio fundamento de nossa existência cristã. Por isso crer na Santíssima Trindade e amá-la com todo nosso ser tem conseqüências imensas para toda a vida (cf. o Novo Catecismo nos n. 223-227):

·        “Significa reconhecer a grandeza e a majestade de Deus. Deus é tão grande que supera nossa ciência (Jó 36,26).

·        Significa viver em ação de graças: Se Deus é o Único, tudo que somos e tudo o que possuímos vem dele: “Que é que possuis que não tenhas recebido?” (1Cor 4,7).

·        Significa reconhecer a unidade e a verdadeira dignidade de todos os homens: Todos foram feitos “ à imagem e à semelhança de Deus” (Gên 1,27).

·        Significa usar corretamente das coisas criadas: A fé no Deus Único nos leva a usar de tudo o que não é ele na medida em que isto nos aproxima dele, e a desapegar-nos das coisas na medida em que nos desviam dele, como rezava São Nicolau de Flüe: “Meu Senhor e meu Deus, tirai-me tudo o que me afasta de vós. Meu Senhor e meu Deus, dai-me tudo o que me aproxima de vós. Meu Senhor e meu Deus, desprendei-me de mim mesmo para doar-me por inteiro a vós”.

·        Crer na Santíssima Trindade também significa confiar em Deus em qualquer circunstância, mesmo na adversidade. Uma oração de Santa Teresa de Jesus exprime-o de maneira admirável: “Nada te perturbe, nada te espante. Tudo passa, Deus não muda. A paciência tudo alcança. Quem a Deus tem nada lhe falta. Só Deus basta”.


Crer no Deus bíblico, a partir de Jesus, é necessariamente crer na Santíssima Trindade. O Deus de Jesus, o Deus cristão, é o Pai e o Filho e o Espírito Santo, a Santíssima Trindade. Pai, Filho e Espírito Santo sempre estão juntos: criam juntos, salvam juntos e juntos nos introduzem em sua comunhão de vida e de amor.


Na piedade de muitos fiéis há uma desintegração da vivência do Deus trino. Alguns só ficam com o Pai, outros só com o Filho e outros só com o Espírito Santo.
 

A religião só do Pai é o patriarcalismo. Todos dependem dele, sem qualquer criatividade. A religião só do Filho é o vanguardismo. Jesus é considerado o “companheiro”, “o mestre” e “nosso chefe”, irmão de todos. É um Jesus com apenas relações para os lados, sem uma dimensão vertical, em direção ao Pai. Esta religião cria cristãos vanguardistas. A religião só do Espírito Santo que só se concentra na figura do Espírito Santo é espiritualismo. Eles só cultivam suas emoções interiores e pessoais. Eles esquecem que o Espírito Santo é sempre o Espírito do Filho, enviado pelo Pai para continuar a obra libertadora de Jesus. Não basta a relação interior (o ES) nem somente para os lados(Filho) nem só a vertical (Pai). Importa integrar os três. Que seria de nós, se não tivéssemos um Pai que nos aconchegasse? Que seria de nós, se esse Pai não nos desse seu Filho para fazer-nos também filhos de Deus? Que seria de nós, se não tivéssemos recebido o Espírito Santo, enviado pelo Pai a pedido do Filho, para morar em nossa interioridade e completar a nossa salvação? Vivamos a fé completa, numa experiência completa da imagem completa de Deus como Trindade de Pessoas.


Quando o cristão é batizado no nome da Santíssima Trindade, o modo de ser de Deus lhe é apresentado como modelo de vida. A perfeita comunhão entre as pessoas da Trindade deve tornar-se o ideal de comunhão dos cristãos e das famílias cristãs. Igualmente, a capacidade de agir de forma integrada, sem concorrências nem sobreposição de um sobre o outro. A comunhão se faz a partir do diferente, na acolhida e no respeito pelo outro. Este é o caminho que a comunidade cristã ou família cristã terá de tomar, se quiser deixar-se modelar pela Santíssima Trindade. Assim seja.
 
P. Vitus Gustama,svd

terça-feira, 26 de maio de 2015

30/05/2015
SER LÍDER É SER RESPONSÁVEL MESMO SEM CARGO

Sábado da VIII Semana Comum


Evangelho: Mc 11,27-33

27Naquele tempo, Jesus e os discípulos foram de novo a Jerusalém. Enquanto Jesus estava andando no Templo, os sumos sacerdotes, os mestres da Lei e os anciãos aproximaram-se dele e perguntaram: 28“Com que autoridade fazes essas coisas? Quem te deu autoridade para fazer isso?” 29Jesus respondeu: “Vou fazer-vos uma só pergunta. Se me responderdes, eu vos direi com que autoridade faço isso. 30O batismo de João vinha do céu ou dos homens? Respondei-me”. 31Eles discutiam entre si: “Se respondermos que vinha do céu, ele vai dizer: ‘Por que não acreditastes em João?’ 32Devemos então dizer que vinha dos homens?” Mas eles tinham medo da multidão, porque todos, de fato, tinham João na qualidade de profeta. 33Então eles responderam a Jesus: “Não sabemos”. E Jesus disse: “Pois eu também, não vos digo com que autoridade faço essas coisas”.
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Estamos na seção onde se fala de Jesus e do poder constituído (Mc 11,27-12,37). Em Mc 11,18 o evangelista Marcos nos informou que “Os chefes dos sacerdotes e os escribas procuravam alguma maneira para matar Jesus”. Nesta seção vemos todos eles em ação. O que vem em seguida é a continuação do choque frontal entre eles e Jesus e será cumprido o que Jesus disse no primeiro anúncio da paixão: “O Filho do homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos chefes dos sacerdotes e pelos escribas” (Mc 8,31). Agora eles estão intentando surpreender Jesus em algum erro para acabar com a vida dele. Podem ser lidas cinco controvérsias  como o ponto de ataque contra Jesus em Mc 2,1-3,6.


Os que formam o poder constituído são em primeiro lugar, os sumos sacerdotes, os mais afetados (medo de perder seus bens através da arrecadação no Templo) pelo que Jesus fez no templo (cf. Mc 11,15-18) e os que podem, facilmente, acusar Jesus de ter atuado contra o lugar santo (Templo). Entre os sacerdotes predominam os saduceus, grupo político-religioso de tendência conservadora.  Em segundo lugar, os escribas ou doutores da lei, pessoas especializadas nos problemas jurídicos e religiosos e, portanto, únicos e verdadeiros intérpretes e defensores da Lei. Para eles, o homem é feito para a lei, enquanto que para Jesus, a lei é feita para o homem (Mc 2,27). Sua oposição já começou no inicio do evangelho de Marcos (Cf. Mc 2,6.16; 3,22; 7,1). Em terceiro lugar, os anciãos, os membros laicos do Sinédrio, a suprema corte judia legislativa e judicial de Jerusalém, os representantes civis e religiosos do povo. Entre os escribas e os anciãos predominam os fariseus, verdadeiros representantes da piedade popular. Finalmente, o partido de Herodes, o braço civil do poder romano em Palestina.


O evangelho lido neste dia nos relata que Jesus e seus discípulos se encontram em Jerusalém. Por isso, a cena do evangelho de hoje tem como local Jerusalém. O texto está carregado de tensão. É o confronto direito entre Jesus e os dirigentes do povo.


A fama de Jesus pela sua preocupação em lutar pela igualdade, pela convivência na fraternidade universal, pela verdadeira vivência da religião, pelo bem de todos, provoca o desconforto para os dirigentes que querem manter seus privilégios e seu domínio. Os dirigentes queriam desmoralizar Jesus e suas atividades em favor do povo através das seguintes perguntas: “Com que autoridade tu fazes essas coisas? Quem te deu autoridade para fazer isso?”. Essa pergunta só pode sair da boca de quem adora o poder e a desigualdade. Ama menos quem se preocupa demasiadamente com a regra e o poder na convivência em vez de se preocupar com o bem que deve ser feito para todos. Para fazer o bem em favor do povo necessitado nenhuma pessoa precisa de nenhum poder; basta ter amor no coração e sentir na pele o sofrimento dos outros para se compadecer e oferecer a ajuda naquilo que se pode para aliviar uma parte do sofrimento alheio. Precisamente só aquele que é capaz de ser solidário com os necessitados é que tem mais autoridade. Esse tipo de pessoa quando fala desperta qualquer coração, pois fala a partir da vida vivida na solidariedade e na compaixão, como por exemplo, Madre Teresa de Calcutá.


“Quem te deu autoridade para fazer isso?”. O que os dirigentes querem dizer é o poder. “Quem te deu esse poder?”. A autoridade não é dada para ninguém, pois ela vem de dentro da pessoa. A autoridade é a capacidade de fazer o outro crescer. A palavra “autoridade” provem do latim “augere” que significa “crescer”. Toda palavra, toda atividade, toda ajuda, todo conselho que faz o outro crescer é uma autoridade. A autoridade é respeitada e é amada. O poder é temido, mas não é amado nem respeitado. Para ser chefe você precisa de um cargo. Mas para ser líder você não precisa de cargo. Qualquer líder tem senso agudo de responsabilidade. Somente tem senso de responsabilidade aquele que vive de acordo com os valores reconhecidos universalmente. A responsabilidade e a vivência dos valores sempre estão unidas. Ninguém precisa mais de autoridade formal para liderar. Todos nós temos um poder natural de liderar que nada tem a ver com cargos, idade ou com o lugar em que moramos. Liderar tem muito mais a ver com a maneira brilhante como cada um de nós trabalha e a destreza de nosso comportamento. Cada um de nós tem o reservatório interno de potencial para liderança. E cada um de nós tem o poder de se mostrar líder no que faz e responsável para assumir as conseqüências. Somente precisamos nos conscientizar de tudo isso e assumi-lo. Um líder que ama é um líder que é respeitado. Um líder que adora o poder é temido, mas não é amado e por isso, não é respeitado. Etimologicamente a palavra “respeitar” (em latim) significa tomar em consideração. “Respeito” é sentimento que leva alguém a tratar outrem ou alguma coisa com grande atenção, profunda deferência; consideração, reverência.


Em vez de desqualificarem Jesus, os dirigentes são desqualificados a partir da pergunta de Jesus: “O batismo de João vinha do céu ou dos homens?”. Eles mesmos sabem do peso da pergunta: “Se respondermos que vinha do céu, ele vai dizer: ‘Por que não acreditastes em João?’ Devemos então dizer que vinha dos homens?”  O evangelista Marcos comenta: “Mas eles tinham medo da multidão, porque todos, de fato, tinham João na qualidade de profeta”. Percebemos aqui a verdade de que quem realmente tem poder é o povo, a multidão. Tanto que na época da eleição todos que querem ter poder vão ao encontro da multidão para depois abandoná-la como ovelha sem pastor (cf. Mc 6,34).  


Diante da pergunta pesada, pois toca e desmascara profundamente sua maneira de viver, esses dirigentes fingem não saber respondê-la: “Não sabemos”. Temos lido em jornais, revistas, entrevistas e temos ouvido nas rádios e televisão este tipo de resposta que saiu da boca daqueles que têm poder: “Eu não sabia!”, “Não sabíamos”, mesmo que as provas sejam contundentes e evidentes. Fingir não saber sobre aquilo que é óbvio e praticado é uma forma discreta de confessar aquilo que sabe. Ninguém se engana. Ninguém tem poder de eliminar a verdade do coração. “Deus faz o diário de nossa vida: a mão divina escreve o que fizemos e o que omitimos, história que um dia será apresentada a todo o universo. Procuremos, pois, fazê-la bela!” (Bossuet; cf. Mt 25,31-46). E “o homem que nunca se entregou a uma causa superior não atingiu o cimo da vida” (Richard Nixon).


A advertência de Jesus através do texto do evangelho de hoje é profunda: quanta cegueira espiritual pode haver nos corações daqueles que ocupam cargos ou elevados cargos políticos ou eclesiásticos. Além disso, percebemos como a inveja, o ódio e a incredulidade podem levar os homens a ficar cegos diante da evidência e da verdade em nome dos interesses e sede pelo poder. Todos os que são encarregados de alguma tarefa ou função tanto na sociedade em geral como na Igreja devem levar a sério aquilo que o autor da Carta ao hebreus escreveu: “Ninguém pode se atribua esta honra, senão o que foi chamado por Deus, como Aarão” (Hb 5,4).

P. Vitus Gustama,svd
29/05/2015
FÉ VERDADEIRA EM DEUS NOS FAZ PRODUZIRMOS BONS FRUTOS NA CONVIVÊNCIA

Sexta-Feira da VIII Semana Comum


Evangelho: Mc 11, 11-26

Tendo sido aclamado pela multidão, 11Jesus entrou, no Templo, em Jerusalém, e observou tudo. Mas, como já era tarde, saiu para Betânia com os doze. 12No dia seguinte, quando saíam de Betânia, Jesus teve fome. 13De longe, ele viu uma figueira coberta de folhas e foi até lá ver se encontrava algum fruto. Quando chegou perto, encontrou somente folhas, pois não era tempo de figos. 14Então Jesus disse à figueira: “Que ninguém mais coma de teus frutos”. E os discípulos escutaram o que ele disse. 15Chegaram a Jerusalém. Jesus entrou no Templo e começou a expulsar os que vendiam e os que compravam no Templo. Derrubou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos vendedores de pombas. 16Ele não deixava ninguém carregar nada através do Templo. 17E ensinava o povo, dizendo: “Não está escrito: ‘Minha casa será chamada casa de oração para todos os povos’? No entanto, vós fizestes dela uma toca de ladrões”. 18Os sumos sacerdotes e os mestres da Lei ouviram isso e começaram a procurar uma maneira de o matar. Mas tinham medo de Jesus, porque a multidão estava maravilhada com o ensinamento dele. 19Ao entardecer, Jesus e os discípulos saíram da cidade. 20Na manhã seguinte, quando passavam, Jesus e os discípulos viram que a figueira tinha secado até a raiz. 21Pedro lembrou-se e disse a Jesus: “Olha, Mestre: a figueira que amaldiçoaste secou”. 22Jesus lhes disse: “Tende fé em Deus. 23Em verdade vos digo, se alguém disser a esta montanha: ‘Levanta-te e atira-te no mar’, e não duvidar no seu coração, mas acreditar que isso vai acontecer, assim acontecerá. 24Por isso vos digo, tudo o que pedirdes na oração, acreditai que já o recebestes, e assim será. 25Quando estiverdes rezando, perdoai tudo o que tiverdes contra alguém, 26para que vosso Pai que está nos céus também perdoe os vossos pecados”.
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O texto do evangelho deste dia nos conta que Jesus já se encontra em Jerusalém. Marcos nos relata hoje a ação simbólica de Jesus em torno da figueira estéril e a expulsão dos vendedores de animais do Templo. E no fim Jesus pede que colaboremos com Deus através da vivência da fé.


1. Sejamos “Figueiras” Frutuosas


De longe Jesus viu uma figueira cheia de folhas. Mas quando se aproximou da figueira, não encontrou nenhum fruto (figo). Jesus se queixa da esterilidade da figueira. Jesus pronuncia, então, algumas palavras duras contra a figueira: “Que ninguém mais coma de teus frutos”.  E no dia seguinte a figueira fica seca.


Este gesto de Jesus aponta para outro tipo de esterilidade. Ele aponta para seus contemporâneos, especialmente para os dirigentes do povo, pois eles são iguais a uma árvore estéril que não dá frutos que Deus quer. Eles se exibem como árvore cheia de folhas, mas sua vida não produz nada que possa dar vida (fruto) para os demais. Eles se preocupam com o exterior (folhas) e abandonam seu interior (frutos). quem se exibe é porque está faltando algo importante no seu interior.


Mas a atualidade da mensagem de Jesus sobre a figueira estéril vale para qualquer tempo e lugar. Naquela figueira estéril há uma advertência para todos os cristãos em qualquer lugar e tempo. Trata-se de uma advertência contra uma profissão de fé cristã desacompanhada da vivência dos ensinamentos de Cristo (cf. M7 7,24-27). Aquela figueira cheia de folhas sem nenhum fruto e que acabou ficando seco fala para todos os hipócritas, para todos os cristãos falsos de coração, para todos os exibicionistas, para todos os que vivem apenas na aparência. Nenhum cristão se contenta com o nome cristão, enquanto na realidade está morto, sem dar nenhum fruto bom para a convivência. Dizia Santo Agostinho: “O nome cristão traz em si a conotação de justiça, bondade, integridade, paciência, castidade, prudência, amabilidade, inocência e piedade. Como podes explicar a apropriação de tal nome se tua conduta mostra tão poucas dessas muitas virtudes? (De. vit. christ. 6)”. “De que vale ter o nome de cristão se tua vida não é cristã?” (In epist. Joan. 4,4). 


2. Fé Que Se Traduz No Amor Fraterno


Marcos também coloca outra cena: a expulsão dos vendedores de animais do Templo. Trata-se também de um gesto simbólico. Com esse gesto Jesus denuncia os dirigentes na hipocrisia do culto feito de coisas externas, mas sem obras coerentes na vida. O culto tem que ser traduzido na vivência de valores do Reino como a fraternidade, a igualdade, o amor, o mútuo respeito, solidariedade e assim por diante.  Jesus critica e denuncia o uso de culto para explorar os demais em nome do próprio interesse. Deus não é um comerciante, mas é o Pai de todos. Um irmão não pode explorar outro irmão, muito menos em nome da religião, usando, assim, o nome de Deus em vão. Segundo Jesus, o Templo é “casa de oração para todos os povos; é o lugar de oração autêntica e não é um lugar para explorar os demais. 


Logo em seguida Jesus fala da fé: “Tende fé em Deus. Em verdade vos digo, se alguém disser a esta montanha: ‘Levanta-te e atira-te no mar’, e não duvidar no seu coração, mas acreditar que isso vai acontecer, assim acontecerá”.


"Fé é o pássaro que sente a luz e canta quando a madrugada é ainda escura." (Rabindranath Tagore). Fé é esperar de Deus aquilo que ele quer nos dar, pois Deus nos dá aquilo que nos salva mesmo que peçamos a Ele qualquer coisa erradamente. Mas ao pedir queremos manter nossa conversa com o Pai e através de oração queremos manter nossa ligação profunda com Deus. É preciso conversar com nosso Pai celeste mesmo que não tenhamos nada para pedir a Ele, pois Deus é o nosso Pai, e não dá para imaginar que morando na mesma casa o filho não conversa com o pai. Qualquer pai ou mãe sempre dá ao filho aquilo que é digno para sua vida. Por isso, Deus é a medida de cada dom, e nossa salvação é o objetivo de cada dom. A fé é a atitude daquele que “não duvida no seu coração, mas acredita que isso vai acontecer” (Mc 11,23), pois Deus quer nos salvar. Quem tem fé,  precisa orar e quem ora precisa acreditar. A fé nos faz disponíveis para que a graça de Deus possa operar na nossa vida a fim de que sejamos reflexos de Deus para os demais.


Mas o evangelho de hoje não termina apenas com o convite de Jesus para nossa oração seja cheia de fé e sim termina com o convite à caridade fraterna, sobretudo, o perdoa das ofensas: “Quando estiverdes rezando, perdoai tudo o que tiverdes contra alguém, para que vosso Pai que está nos céus também perdoe os vossos pecados”.  Uma das petições no Pai Nosso que rezamos diariamente é o pedido do perdão ao Pai porque nós perdoamos aos outros que nos ofenderam.


3. A partir do texto do evangelho de hoje é preciso que nos perguntemos:


1). Será que nossa vida igual à figueira no evangelho de hoje: cheia de filhas (exterioridade), mas não produzimos algo de bom para a convivência? Será que por fora ou para fora aparentemente estamos bem (cheios de “folhas”), mas por dentro somente há podridão (esterilidade total)?


2). Muitos dirigentes exploram o templo para se enriquecer materialmente. O que nos motiva a procurarmos a Igreja? Esperamos algo da Igreja ou a Igreja espera algo de nós? O que contribuímos para a Igreja de Cristo a qual pertencemos?


3). Será que na nossa oração diária, a pedido de Jesus Cristo, oferecemos o perdão aos que nos ofenderam e pedimos o perdão aos que ofendemos? “Quando estiverdes rezando, perdoai tudo o que tiverdes contra alguém, para que vosso Pai que está nos céus também perdoe os vossos pecados”.

P. Vitus Gustama,svd

segunda-feira, 25 de maio de 2015

28/05/2015
DEUS CONTINUA PASSANDO NA NOSSA VIDA PARA NOS SALVAR DE NOSSA SITUAÇAO


Quinta-Feira Da VIII Semana Comum


Evangelho: Mc 10,46-52

Naquele tempo, 46 Jesus saiu de Jericó, junto com seus discípulos e uma grande multidão. O filho de Timeu, Bartimeu, cego e mendigo, estava sentado à beira do caminho. 47 Quando ouviu dizer que Jesus, o Nazareno, estava passando, começou a gritar: “Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!”. 48 Muitos o repreendiam para que se calasse. Mas ele gritava mais ainda: “Filho de Davi, tem piedade de mim!” 49 Então Jesus parou e disse: “Chamai-o”. Eles o chamaram e disseram: “Coragem, levanta-te, Jesus te chama!” 50 O cego jogou o manto, deu um pulo e foi até Jesus. 51 Então Jesus lhe perguntou: “Que queres que eu te faça?” O cego respondeu: “Mestre, que eu veja!” 52 Jesus disse: “Vai, a tua fé te curou”. No mesmo instante, ele recuperou a vista e seguia Jesus pelo caminho.
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O evangelho deste dia nos relatou que o cego, chamado Bartimeu estava sentado à beira do caminho e pedia a esmola. O estar sentado significa acomodação, instalação, conformismo. Ele está privado da luz e da liberdade. E o pedir esmola indica a situação de escravidão e de dependência em que o homem se encontra.


Bartimeu percebe o sem sentido da sua situação e sente a vontade de sair dela. A sua percepção de Sua vida sem-sentido se torna mais aguda ainda pela passagem de Jesus de Nazaré. Diante de sua vida sem sentido, Bartimeu grita para pedir socorro de Quem é capaz de solucionar seu problema: Jesus.


Primeiramente Bartimeu chama Jesus pelo nome: Jesus. A palavra “Jesus” significa “Deus salva”. O livro dos Atos dos Apóstolos nos recorda que o nome de Jesus é o único “em baixo do céu pelo qual podemos ser salvos” (At 4,12. “E todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (At 2,21; Rm 10,13). A história de Bartimeu confirma a verdade destas palavras. Não é por acaso que o nome de Jesus é repetido seis vezes no relato. Invocando o nome de Jesus nós seremos também curados de nossas cegueiras, de nossa carência, de nossa imobilização, de nosso isolamento, e de nossa vida sem sentido.


Em segundo lugar, Bartimeu chama Jesus pelo título: “Filho de Davi”. É um título messiânico que somente aparece neste relato em todo o evangelho de Macos. Bartimeu vê em Jesus esse Messias libertador que, segundo a mentalidade judaica, havia de vir, no fim dos tempos, não só para salvar Israel dos opressores, mas também para dar vida em plenitude a cada membro do Povo de Deus.
    

Diante do grito do cego Jesus pára e manda chamar o cego: "Chamai-o!". Em resposta, o cego jogou fora o manto e foi ao encontro de Jesus. O manto é tudo o que um mendigo possui, a única coisa de que ele pode abandonar (outros deixaram o barco, as redes ou a banca onde recolhiam impostos). O ato de jogar fora o manto significa, portanto, deixar tudo o que se possui para ir ao encontro de Jesus. É um corte radical com o passado, com a vida velha, com a anterior situação, com tudo aquilo em que se apostou anteriormente, a fim de começar uma vida nova ao lado de Jesus que salva.


Marcos termina a sua história dizendo que o cego recuperou a vista e seguiu Jesus – isto é, fez-se discípulo de Jesus. Ao seguir Jesus no caminho do amor e do dom da vida, Bartimeu encontrou a salvação: deixou a vida da escuridão, da escravidão, da dependência em que estava e nasceu para essa vida verdadeira e eterna que, através de Jesus, Deus oferece aos homens.
 

Diante de Jesus e com Jesus não há situação por difícil que seja que não haja solução. É preciso, no entanto, que não nos fechemos no nosso egoísmo e na nossa auto-suficiência, surdos e cegos aos apelos de Deus; é preciso que fiquemos atentos diante de Deus que está passando para salvar nossa situação; é preciso que gritemos (orar) sem cessar para que Deus nos chame e nos cure de nossa escuridão; é preciso que não tenhamos medo diante das dificuldade que os outros colocam na nossa caminhada para que possamos ter o encontro com Deus que vem nos salvar de nossa situação; é preciso que as nossas preocupações com os valores efêmeros não nos distraiam do essencial; é preciso que aprendamos a reconhecer os desafios de Deus nesses acontecimentos banais com que, tantas vezes, Deus nos interpela e questiona.


Não tenha medo de abandonar “seu manto”, como Bartimeu, para se vestir de uma vida mais plena e feliz, seguindo os passos de Jesus. Fisicamente Bartimeu era cego, mas seu coração enxergava Deus que passava na sua vida. A pior cegueira acontece quando nosso coração não sente nem percebe Deus que passa na nossa vida, Deus que passa no meio da multidão, Deus que passa na vida dos outros, nos acontecimentos cotidianos. Apesar de sua cegueira, a fé de Bartimeu era firme. Vamos nos esforçar sempre e rezemos sem cessar para que tenhamos a fé tão preciosa de Bartimeu. Somente com a fé profunda é que somos capazes de enxergar além dos olhos físicos para captar Deus que passa na nossa vida e neste mundo em que habitamos.


“Jesus, Mestre, que eu veja!” deve ser também nossa oraçao diária para que enxerguemos o sentido de nossa vida e de todos os acontecimentos durante a nossa vida neste mundo e para que tenhamos coragem de abandonar “nossos mantos” que nos fazem cegos diante de Deus que passa.

    
P. Vitus Gustama, SVD