sexta-feira, 31 de julho de 2015

06/08/2015
TRANSFIGURAÇÃO DE JESUS: UMA MENSAGEM DA ESPERANÇA

06 de Agosto
 

Evangelho: Mc 9,2-10

Naquele tempo, 2 Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, e os levou sozinhos a um lugar à parte, sobre uma alta montanha. E transfigurou-se diante deles.  3 Suas roupas ficaram brilhantes e tão brancas como nenhuma lavadeira sobre a terra poderia alvejar. 4 Apareceram-lhe Elias e Moisés, e estavam conversando com Jesus. 5 Então Pedro tomou a palavra e disse a Jesus: “Mestre, é bom ficarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias”. 6 Pedro não sabia o que dizer, pois estavam todos com muito medo. 7 Então desceu uma nuvem e os encobriu com sua sombra. E da nuvem saiu uma voz: “Este é o meu Filho amado. Escutai o que ele diz!” 8 E, de repente, olhando em volta, não viram mais ninguém, a não ser somente Jesus com eles. 9 Ao descerem da montanha, Jesus ordenou que não contassem a ninguém o que tinham visto, até que o Filho do Homem tivesse ressuscitado dos mortos. 10 Eles observaram esta ordem, mas comentavam entre si, o que queria dizer “ressuscitar dos mortos”.
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O relato da transfiguração podemos encontrar também em outros dois evangelhos sinóticos (Mt 17,1-13; Lc 9,28-29) e numa versão independente dos evangelhos, mas somente fragmentária, que se encontra em 2Pd 1,16-18.
   

A transfiguração de Jesus é a resposta de Deus ao escândalo causado nos discípulos, mostrando-lhes antecipadamente, ainda que seja só num momento rápido, a glória de Jesus Cristo e a glória futura dos que seguem pelo caminho da cruz por causa de Jesus Cristo. A transfiguração é a glorificação antecipada de Cristo na presença de seus três mais íntimos (Pedro, Tiago e João). Os discípulos somente superarão o escândalo da “necessidade” da Paixão depois da Páscoa e de Pentecostes: depois de verem Jesus na sua glória de ressuscitado e de serem fortalecidos pelo Espírito Santo(cf. At 2,1-13).
   

Com a transfiguração os discípulos encontram em Jesus as duas faces do mistério da salvação. De um lado, mostra-se a face que causa medo, pois falam-se do sofrimento, da humilhação e da morte. Ninguém quer sofrer. Todos lutam contra sofrimento, pois o sofrimento sempre significa um prenúncio da morte. Por isso, todos fazem qualquer coisa para ficar longe do sofrimento. Não é de admirar que mais tarde Pedro preferirá negar Jesus a confessar-se discípulo do mesmo por medo de ser morto (cf. Mc 14,66-72). Do outro lado, mostra-se a face gloriosa de Jesus: a ressurreição e a glória. Por isto, em cada um dos três Anúncios da Paixão acrescenta-se o anúncio da ressurreição “ao terceiro dia”(cf. Mc 8,31;9,31;10,34). O Deus de Jesus é Aquele que mostra logo no início o fim e mostra logo a vitória final logo no início da luta. Ele mostra logo a vitória final de Jesus. A vitória garantida anima qualquer um a lutar até o fim sem se cansar. A vitória garantida lhe dá força para lutar até o fim.


Algumas mensagens:


I.                  Transfiguração: Uma Mensagem De Ânimo E De Esperança


A transfiguração de Jesus é a resposta de Deus para os discípulos, desanimados diante do anúncio da paixão e morte de Jesus. Deus quer mostrar-lhes antecipadamente, ainda que seja só num momento rápido, a glória de Jesus Cristo e a glória futura dos que vivem fielmente segundo a vontade de Deus ainda que tenham que atravessar o caminho de sofrimento. Através da transfiguração de Jesus, Deus quer nos dizer que a vida plena e definitiva espera, no final do caminho, todos aqueles que, como Jesus, forem capazes de colocar a sua vida ao serviço dos irmãos.


Podemos dizer que a transfiguração é o grito de Deus para não ficarmos desanimados na nossa vida, pois a lógica de Deus não nos conduz ao fracasso, mas à ressurreição, à vida definitiva, à felicidade sem fim. Cada um de nós precisa parar da agitação cotidiana para escutar esse grito de Deus.    


A visão do triunfo, não é para afastar da luta, mas para dar ânimo, a fim de que não desistamos da luta no meio do caminho, pois a vitória está nos esperando. Olhemos sempre para a vitória esperada para podermos ficar animados na nossa luta apesar de tanta dificuldade e obstáculos neste caminho rumo à vitória. A mensagem da transfiguração é de otimismo radical e de esperança firme, e não ilusória. Jesus é nosso companheiro de caminhada até a luz final (Jo 14,6). Com ele somos capazes de superar a prova da fé e experimentar a libertação gratificante da auto-renúncia e da cruz na quaresma de nossa vida, no caminho para a Páscoa com Cristo.


II.              Transfiguração E Escuta

 
Se o plano de Deus jamais desconhece o fracasso, então devemos saber escutar a Sua Palavra permanentemente. No topo da Montanha ressoa a voz divina para os três apóstolos: “Este é o meu Filho amado. Escutai o que ele diz!”


Escutar é a primeira forma de fé e de oração, antes que dizer palavras ou entoar cantos. Escutar significa fazer próprio o que se proclama e o que se escuta. Escutar também significa atender, ir assimilando o que se ouve, reconstruir interiormente o conteúdo da mensagem. Deus sempre quer falar conosco e sobre nós, de todas as maneiras. Mas é preciso ter disposição para escutá-Lo. Deus sempre tem alguma palavra para minha vida, para minha família, para meu casamento, para minha profissão, para minhas preocupações, para minha atual situação etc. toda vez que eu escutar sua Palavra. Por isso, eu preciso escutar essa Palavra, pois diz a respeito da minha vida com seus problemas.


Escutar é uma das atitudes mais cristãs. Somente os que têm a humildade é que são capazes de escutar. O autossuficiente e o orgulhoso não sabem escutar e não querem escutar; eles querem somente ser escutados.


III.            Transfiguração- Montanha Alta

 
A transfiguração acontece em uma alta montanha. A “montanha alta” simboliza o lugar de encontro do céu e da terra, lugar privilegiado para a revelação de Deus e a oração dos homens, recorda igualmente a revelação de Deus no Sinai (cf. Ex 19-20). A montanha, por ser um ponto elevado sobre a parte plana da terra, sempre foi considerada em todas as antigas religiões como um símbolo da “subida” do homem até Deus e como o sinal da manifestação ou epifania de Deus. Deus se manifesta no alto e o homem deve subir até Deus, abandonando uma vida medíocre, pois Deus está acima de nossos esquemas de viver.


Por isso, para o homem, subir a montanha significa superar-se a si mesmo, transcender-se, elevar-se um pouco mais além da rotina. É a transcendência que não será conseguida sem atravessar um caminho sinuoso, longo e escuro. A fé é o caminho da renúncia e da morte de nós mesmos para que Deus possa se manifestar através de nós e para que Deus possa nos transformar ou nos transfigurar. Somente com a morte de nós mesmos é que Deus pode anunciar e prometer uma vida nova para nós. Subir até Deus é morrer de nossos projetos pessoais e egoístas, de tantos planos, esquemas e cálculos puramente humanos e pessoais para dar o lugar para os projetos de Deus. Certamente, nesta morte é que Deus manifesta sua glória salvadora e sua eterna misericórdia.

P.Vitus Gustama,svd
05/08/2015
FÉ SÓLIDA TRANFORMA O IMPOSSIVEL NO POSSÍVEL

Quarta-Feira da XVIII Semana Comum


“Posso afirmar que posso viver sem água nem ar, mas não posso viver sem Deus. Podes arrancar-me os olhos que isso não me mata. Podes arrancar-me o nariz que isso não me mata. Mas basta que destruas minha fé, e estarei morto” (Mahatma Gandhi).


“Esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé” (1Jo 5,4)
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Evangelho: Mt 15,21-28

Naquele tempo, 21 Jesus retirou-se para a região de Tiro e Sidônia. 22 Eis que uma mulher cananeia, vindo daquela região, pôs-se a gritar: “Senhor, filho de Davi, tem piedade de mim: minha filha está cruelmente atormentada por um demônio!” 23 Mas, Jesus não lhe respondeu palavra alguma. Então seus discípulos aproximaram-se e lhe pediram: “Manda embora essa mulher, pois ela vem gritando atrás de nós”. 24 Jesus respondeu: “Eu fui enviado somente às ovelhas perdidas da casa de Israel”. 25 Mas, a mulher, aproximando-se, prostrou-se diante de Jesus, e começou a implorar: “Senhor, socorre-me!” 26 Jesus lhe disse: “Não fica bem tirar o pão dos filhos para jogá-los aos cachorrinhos”. 27 A mulher insistiu: “É verdade, Senhor; mas os cachorrinhos também comem as migalhas que caem da mesa de seus donos!” 28 Diante disso, Jesus lhe disse: “Mulher, grande é a tua fé! Seja feito como tu queres!” E desde aquele momento sua filha ficou curada.
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O evangelista nos apresenta uma mulher que é uma cananéia. Para o evangelista Marcos essa mulher é sírio-fenícia (Mc 7,26). Tiro e Sidônia são cidades da Fenícia (atualmente, Líbano). Os fenícios se designavam a si próprios de cananeus. Para os judeus, os cananeus, por serem estrangeiros, eram um povo amaldiçoado por Deus por ser impuros. Neste sentido, a mulher cananeia seria duplamente escrava por ser uma cananeia e mulher (mulher nenhuma tinha valor. Nenhum testemunho da mulher tinha validade).


Essa mulher cananéia sai ao encontro de Jesus. Ela sai do ambiente em que vive.  Aqui “sair” tem um sentido de querer uma mudança profunda. Sair é uma passagem. É uma busca. É sair de si ao encontro de algo que tem valor. Jesus também sai da Galileia. É assim a salvação. Deus sai ao encontro dos homens e os homens saem ao encontro de Deus, seu Salvador. Não há lugares determinados para a graça e a salvação. Não há lugares mais santos  e outros menos santos. Quando acontecer a saída de Deus ao encontro do homem e o homem sai ao encontro de Deus, o lugar de encontro se transforma em lugar santo. Se não houver esse encontro, um templo ou uma igreja continua sendo um lugar como qualquer, menos como lugar santo. O encontro dos dois (Deus e o homem) sempre resulta no milagre ou numa mudança radical.


A cananéia e sua filha são duas personagens que representam aqui o paganismo. O estado da filha figura a condição dos pagãos, possuídos por ideologia contrária a Deus. O pedido da mãe representa o anseio profundo de encontrar a salvação em Jesus (compare Jo 12,21). A salvação acontece precisamente no encontro da cananeia com Jesus.


1. A Salvação Trazida Por Jesus é Universal


O que tem por trás do relato sobre a cura da filha de uma mulher cananéia é a chegada do Evangelho aos pagãos. Neste relato usam-se os termos “cananéia”, apelativo dado à mulher cuja filha estava doente, e “cachorro”. No Antigo Testamento o apelativo “cananéia”  designa os pagãos. Do mesmo modo o termo “cachorro” (animal impuro), que é para os judeus tem um sentido pejorativo, designa os pagãos (impuros).


O relato nos mostra que, sendo judeu, Jesus abre o diálogo para os pagãos, pois Ele foi enviado para salvar toda a humanidade. Por sua vez, os pagãos, representados pela mulher cananéia, reconhecem a messianidade de Jesus ao chamá-Lo de “Senhor e Filho de Davi” (Mt 15,22.25) e O adoram como Deus: “A mulher, aproximando-se, prostrou-se diante de Jesus, e começou a implorar: “Senhor, socorre-me!”(Mt 15,25).  “Prostrar-se é uma expressão de adoração.


Para enfatizar mais ainda o papel de Jesus como o Salvador da humanidade o texto usa também o termo “pão” que no relato tem um sentido simbólico: “Não fica bem tirar o pão dos filhos para jogá-los aos cachorrinhos”. A mulher insistiu: “É verdade, Senhor; mas os cachorrinhos também comem as migalhas que caem da mesa de seus donos!”.  “Comer as migalhas que caem da mesa dos filhos” significa receber de Jesus o dom da cura para a filha da cananéia. O pão alimenta e sustenta a vida. Jesus é Aquele que sustenta a vida da humanidade, pois Ele é a própria vida e o Pão da vida (Jo 11,25; 14,6; cf. Jo 6,35.41.48.51.55).


2. Uma Pagã Que Nos Ensina a Termos Fé Em Jesus


O grandioso do relato do evangelho deste dia é a forma como uma mulher pagã é colocada como modelo de fé em seu sentido mais genuíno e original. Ela se abandona nos braços d’Aquele que vem da parte de Deus (Jesus Cristo) e se declara fraca e limitada humanamente diante do problema que afeta a vida de sua filha e consequentemente afeta também sua vida como mãe. Em uma família ninguém sofre sozinho. A mãe reconhece a superioridade e poder de Jesus, mostrando ao mesmo tempo a gravidade do problema que afeta sua própria filha. O problema de sua filha é insustentável. Na sua declaração essa mulher quer dizer a Jesus: “Sem Sua ajuda, Jesus, sem Seu poder, é impossível sair do meu problema!”.


Essa mulher era uma Cananéia, uma pagã, uma estrangeira. Jesus põe a prova sua fé usando uma frase que se utilizava para desprezar os estrangeiros ou os pagãos: “cachorro”. Mas ela, confiada na justiça e na misericórdia de Deus, responde sabiamente a Jesus: “Mas os cachorrinhos também comem as migalhas que caem da mesa dos seus donos”. Pela sua fé verdadeira e profunda e pela perseverança na sua oração essa mulher é premiada por Jesus: a cura de sua filha.


O evangelho nos mostra a fé de uma mulher que não pertencia ao povo eleito, não pertencia à uma Igreja ou a uma religião, mas tinha confiança e fé no poder de Jesus. Ela pode não pertencer a uma religião ou a uma Igreja, mas ela pertence a Deus pela fé que tem no poder do Deus-Encarnado, Jesus Cristo. Será que os que estão dentro da Igreja têm mais fé do que os que estão fora da Igreja? Será que os que estão dentro da Igreja são mais cristãos do que os que estão fora da Igreja? Será que os que estão dentro da Igreja são mais humanos, gentis e educados do que os que estão fora da Igreja? Será que os que estão dentro da Igreja são mais perseverantes na fé do que os que estão fora da Igreja? Será que, por causa da fé e do amor, os que são considerados fora da Igreja na verdade estão dentro da Igreja e os que são considerados dentro da Igreja na verdade estão fora da Igreja? Será.....? “Todos somos mais ateus do que acreditamos e mais crentes do que pensamos. Acho que os ateus não se opõem a Deus, mas às criaturas de Deus que os fiéis lhe mostram” (René Juan Trossero).


Ser pagão não depende da pertença ou não a uma religião ou a uma Igreja. Ser pagão se define a partir do modo de viver. Por isso, há cristãos-pagãos como também há pagãos- cristãos. Há cristãos que perdem com facilidade sua fé e vivem sem esperança. São “cristãos” pagãos. Há muitos que são considerados pagãos pelos outros, como a mulher Cananéia, mas acreditam no poder de Deus incondicionalmente. São “pagãos” cristãos.


A mulher Cananéia não perde sua fé, não protesta, não se revolta ainda que encare a humilhação: ser chamada de cachorro. Ela conseguiu o que pedia, pois ela se abandonava totalmente nos braços de Deus e encarava todos os tipos de obstáculos e dificuldades. Santo Agostinho dizia que muitos não conseguem o que pedem porque são maus de coração e por isso, eles têm que ser, primeiramente, bons. Ou muitos não conseguem o que pedem porque pedem malmente, sem insistência no lugar de fazê-lo com paciência, com humildade, com fé e por amor. Há que esforçar-se por pedir o que bom para todos. A mulher Cananéia é boa mãe, pede algo bom e pede bem. Através do evangelho de hoje o Senhor quer nos mover a termos fé e perseverança e a vivermos na esperança porque Deus nos ama. Deus se vence com fé e não com orgulho. De Deus se obtém tudo com confiança. Em Deus sempre encontra uma acolhida quando cada um se aproxima com humildade e não com autossuficiência.


Essa mulher é um modelo acabado de fé e oração unidas. Ela chama Jesus de “Senhor”, um título dado a Jesus pós-pascal. Sua fé é orientada para a libertação do próximo, nesse caso de sua filha. E sua oração cumpre aquilo que Jesus pede: a fé, confiança, perseverança e sem desfalecimento.


Ela nos ensina que a fé e a oração devem andar juntas. Quem tem fé em Deus precisa rezar. E quem reza, precisa ter fé. A fé é a atitude básica de qualquer crente, de qualquer cristão, pois ela é a resposta nossa diante da oferta do amor de Deus para nós. A oração evidencia, por sua vez, a presença e a vitalidade de nossa fé em Deus.

P. Vitus Gustama,svd
04/08/2015
É PRECISO TER FÉ EM TODOS OS MOMENTOS

Terça-Feira Da XVIII Semana Comum


Evangelho: Mt 14,22-36

Depois que a multidão comera até saciar-se, 22 Jesus mandou que os discípulos entrassem no barco e seguissem, à sua frente, para o outro lado do mar, enquanto ele despediria as multidões. 23 Depois de despedi-las, Jesus subiu ao monte, para orar a sós. A noite chegou, e Jesus continuava ali, sozinho. 24 A barca, porém, já longe da terra, era agitada pelas ondas, pois o vento era contrário. 25 Pelas três horas da manhã, Jesus veio até os discípulos, andando sobre o mar. 26 Quando os discípulos o avistaram, andando sobre o mar, ficaram apavorados, e disseram: 'É um fantasma'. E gritaram de medo. 27 Jesus, porém, logo lhes disse: 'Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!' 28 Então Pedro lhe disse: 'Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água.' 29 E Jesus respondeu: 'Vem!' Pedro desceu da barca e começou a andar sobre a água, em direção a Jesus. 30 Mas, quando sentiu o vento, ficou com medo e começando a afundar, gritou: 'Senhor, salva-me!' 31 Jesus logo estendeu a mão, segurou Pedro, e lhe disse: 'Homem fraco na fé, por que duvidaste?' 32 Assim que subiram no barco, o vento se acalmou. 33 Os que estavam no barco, prostraram-se diante dele, dizendo: 'Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!' 34 Após a travessia desembarcaram em Genesaré. 35 Os habitantes daquele lugar, reconheceram Jesus e espalharam a notícia por toda a região. Então levaram a ele todos os doentes; 36 e pediam que pudessem, ao menos, tocar a barra de sua veste. E todos os que a tocaram, ficaram curados.
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1. É Preciso Manter Nossas Conversas Diárias Com Deus, Nosso Pai


Depois que saciou a multidão com a Palavra de Deus e com o alimento, Jesus se afastou da multidão para rezar ou para estar em comunhão plena com Deus: “Jesus subiu ao monte para orar a sós”, assim o evangelista Mateus registrou.


A montanha, por ser um ponto elevado sobre a parte plana da terra, sempre foi considerada em todas as antigas religiões como um símbolo da “subida” do homem até Deus e como o sinal da manifestação ou epifania de Deus. Deus se manifesta no alto e o homem deve subir até Deus, abandonando uma vida medíocre, pois Deus está acima de nossos esquemas de viver e de pensar. Ou na linguagem do Livro dos Reis (1Rs 19,9-13) Deus não se encontra no terremoto, isto é, não tem como ouvir Deus numa vida agitada e barulhenta; também não se encontra no fogo. O fogo queima e transforma tudo em cinzas. Isto quer dizer que não tem como ouvir Deus para uma mente agitada ou comportamento esquentado. Deus se encontra na suavidade de uma brisa, isto é, quando tudo é sereno, a voz de Deus pode ser ouvida com clareza. Somente no silêncio e ao criar o silêncio a eternidade se faz presente para potenciar nossa humanidade. Um cristão sem oração perseverante é como alguém que anda com uma perna apenas: em pouco tempo fica cansado e cai. Quando perdermos a vontade de rezar ou de meditar a Palavra de Deus é sinal de que o espirito mundano está começando a nos dominar. É melhor parar antes que o espirito mundano nos destrua, destrua nossa família e assim por diante. Toda a aptidão que Deus requer de nós é sentirmos a necessidade d´Ele. Somente aquele que consegue perceber e experimentar o invisível, pode fazer o impossível.


2. Deus Está Conosco Diariamente: Tenha Consciência Disso!


“Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!”


Através desta frase Jesus se dá a conhecer ou Jesus se revela aos discípulos quem Ele é. A palavra “Coragem!” dissipa o medo provocado pela aparição de Jesus no meio do lago. Em seguida Jesus lhes disse: “Sou Eu!”. “Sou eu” é uma fórmula de identificação com que Deus se revelava no Antigo Testamento (cf. Ex 3,14; Is 43,1.3.10-11). “Sou Eu” corresponde à exortação “Não tenha medo”. Ao dizer “Sou Eu”, Jesus se revelou como Deus-Conosco (cf. Mt 1,23; 18,20; 28,20), um Deus que nos acompanha com sua providencia em todos os momentos de nossa vida. Através de seu evangelho, Mateus quer nos transmitir a certeza de que Deus jamais nos abandona: “Eis que Estou convosco todos os dias até o fim do mundo” (Mt 28,20).


“Não tenhais medo”, diz-nos o Senhor todos os dias. Quando ouvirmos a voz do Senhor, a paz estará presente no nosso coração, ainda que estejamos rodeados pelas provações ou dificuldades, pois trata-se da Palavra de Quem nos criou e de Quem pode nos salvar. Precisamos nos deixar pelo poder da Palavra de Deus e não pelo aparente poder da situação em que nos encontramos. Em outras palavras, é preciso que Deus continue sendo o Senhor de nossa vida em todos os seus momentos. Para isso precisamos nos manter conectados com o Senhor para que Sua força continue sendo nossa força.


3. É Preciso Manter o Olhar Fixado No Senhor


“’’Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água.’  E Jesus respondeu: ‘Vem!’ Pedro desceu da barca e começou a andar sobre a água, em direção a Jesus. Mas, quando sentiu o vento, ficou com medo e começando a afundar, gritou: ‘Senhor, salva-me!’”.


Pedro desafia Jesus. Ele chama Jesus de “Senhor” e pede para que vá até Jesus. Através desse pedido Pedro quer participar da condição divina de Jesus. Jesus não duvida e convida Pedro para ir ao seu encontro. Mas infelizmente Pedro esperava a condição divina sem obstáculos, de maneira milagrosa. Pedro precisa estar consciente de que o homem se faz filho de Deus em meio da oposição e perseguição do mundo (cf. Mt 5,10-11). O pedido de Pedro (cf. Sl 17(18),5-18; 143(144),5-7) vale uma reprovação, pois mostra sua falta de fé: “Homem fraco na fé, por que duvidaste?”.


Pedro sente medo porque não entendeu o modo como se faz a missão: com a entrega total. Os discípulos ou Pedro apelam a Jesus nos momentos de dificuldade pedindo que Jesus intervenha. Eles têm conceito da salvação expressado nos salmos (cf. Sl 17[18],5-18; 143[144],5-7): uma intervenção milagrosa de Deus a partir do céu para que resolva a situação desesperadora do homem. o conceito de Jesus é diferente: estando com Ele, o homem se basta a si mesmo (cf. Mt 19,26: para Deus tudo é possível) e está salvo: “Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!”


Enquanto Jesus sobe à barca cessa o vento, isto é, a oposição e a resistência dos discípulos. O vento era a busca do triunfo humano. “Os que estão na barca”, que representam a comunidade cristã (barca=Comunidade/Igreja), reconhecem que Jesus é “Filho de Deus”. Jesus é “Filho de Deus”, mas eles têm acreditar no Filho de Deus para que possam chegar a sê-lo.


É preciso manter nosso olhar para Deus e não para as nossas dificuldades ou para as “ondas fortes” de nossa vida. Pedro olhava mais para as ondas e quase se afundou. A partir do momento em que ele voltou a olhar para Jesus a fim de pedir a ajuda e Jesus estendeu a mão para tirá-lo de sua situação, Pedro começou a andar com o Senhor sobre as ondas. Muitos de nossos medos são causados pela nossa maneira de olhar para nossa vida e seus problemas. Se nossa vida pertence a Deus e foi Ele quem nos deus, temos que confiar nossa vida no Senhor.

P. Vitus Gustama,svd
03/08/2015
PODER DA PARTILHA
PARTILHA É O MEIO EFICAZ PARA SOLUCIONAR A FOME DA HUMANIDADE


Segunda-Feira Da XVIII Semana Comum
 

Evangelho: Mt 14,13-21

Naquele tempo, 13 quando soube da morte de João Batista, Jesus partiu e foi de barco para um lugar deserto e afastado. Mas quando as multidões souberam disso, saíram das cidades e o seguiram a pé. 14 Ao sair da barca, Jesus viu uma grande multidão. Encheu-se de compaixão por eles e curou os que estavam doentes. 15 Ao entardecer, os discípulos aproximaram-se de Jesus e disseram: “Este lugar é deserto e a hora já está adiantada. Despede as multidões, para que possam ir aos povoados comprar comida!” 16 Jesus porém lhes disse: “Eles não precisam ir embora. Dai-lhes vós mesmos de comer!” 17 Os discípulos responderam: “Só temos aqui cinco pães e dois peixes”. 18 Jesus disse: “Trazei-os aqui”. 19 Jesus mandou que as multidões se sentassem na grama. Então pegou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos para o céu e pronunciou a bênção. Em seguida partiu os pães, e os deu aos discípulos. Os discípulos os distribuíram às multidões. 20 Todos comeram e ficaram satisfeitos, e dos pedaços que sobraram, recolheram ainda doze cestos cheios. 21 E os que haviam comido eram mais ou menos cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças.
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1. Problema da Humanidade é Também Meu Problema


Este lugar é deserto e a hora já está adiantada. Despede as multidões, para que elas possam ir aos povoados comprar comida!”. Esta foi a sugestão dos discípulos para Jesus para que seja resolvido o problema da fome da multidão. Os discípulos julgam que não tem suficiente para alimentar a multidão.


“Comprar” significa voltar à sociedade de onde vieram para se submeter, outra vez, às leis econômicas que os mantiveram na miséria. Comprar supõe ter o poder aquisitivo. Os que não o tem ficam sem nada para comer e são obrigados a mendigar pela sobrevivência.


“Dai-lhes vós mesmos de comer!” A “comprar” Jesus opõe “dar”. Dar é manifestação da generosidade. E por sua vez, a generosidade é uma expressão clara da riqueza interior e da libertação do poder da ganância. Tudo o que tenho e sou, menos pecado, é de Deus. Eu os recebi de Deus. Eu não posso parar na minha mão o dom de Deus. Eu preciso partilhar os dons de Deus para que sejam multiplicados.


Dai-lhes vós mesmos de comer!” Esta é a ordem de Jesus aos discípulos diante da multidão faminta. Jesus não aceita nossa desculpa do tipo: “Não é meu problema! Já tenho meus problemas na minha vida pessoal, familiar e profissional!”. Às vezes nosso coração fica comovido diante das desgraças de alguns de nossos próximos, mas em geral, pensamos que cada um precisa resolver seus próprios problemas. Algo assim pensaram e disseram os discípulos de Jesus diante do problema da fome da multidão.


Diante de nossos problemas, de nossas dificuldades e também diante de nosso pecado pessoal, jamais Deus nos diz: “Não é meu problema!”. Deus nunca nos manda embora ou nos despede para que nós mesmos resolvamos nossos problemas. Deus sente nossos problemas e os vive como próprios Seus. Deus nunca nos deixa sós nos nossos problemas. Nada pode nos separar do amor de Deus (cf. Rm 8,35-39). A encarnação de Deus é uma grande prova de que Deus quer estar conosco em todas as nossas situações e quer compartilhar nossa vida. Seja qual for nossa situação, seja qual for o tamanho de nossos problemas Pai celeste continua a se interessar por nós. A encarnação de Deus em Jesus Cristo é o máximo modo de nos dizer que Deus se interessa por nós, por cada homem e mulher. Trata-se de um modo que jamais poderíamos imaginar. Através de Sua encarnação em Jesus, Deus quer dizer a cada um de nós: “Estou com você todos os dias até o fim do mundo” (Mt 28,20).


2. Partilhar Enriquece Todos


Mas Deus pede nossa colaboração para resolver os problemas da humanidade, a partir daquilo que temos e podemos, mesmo que quantitativamente seja pouco, como Jesus pediu que os discípulos entregassem a Ele os cinco pães e os dois peixes que eles tinham para saciar a fome da multidão (mais de cinco mil pessoas). É dar a Jesus aquilo que temos. Cinco pães e dois peixes somam sete. “Sete” é o número que indica a totalidade.


O pouco que temos, se nós soubermos partilhá-lo se converterá em muito, suficiente para todos e ainda sobrará. Quando algo for compartilhado será sempre muito. É o paradoxo da lógica de Deus que precisamos colocar em prática. O amor de Deus por nós, por cada um de nós, sem exceção nem exclusão alguma se atualiza, se concretiza e se aproxima de nós toda vez que soubermos partilhar o que temos e somos com os demais irmãos, especialmente com os mais necessitados. O pão que partilhamos generosamente com os necessitados se transforma em pão abençoado por Deus, pois sustenta a vida que é sagrada.


Para Jesus, o eterno problema da vida não é a falta do pão, e sim as causas que geram a falta do mesmo na mesa da grande maioria. O que quer se revelar também não é a ausência do pão, e sim a presença do egoísmo, do individualismo, da ganância e da total ausência do amor fraterno. Não agarre aquilo que não vale a pena a ser agarrado, pois ao agarrá-lo, perde seu valor. É o agarrar em vão, pois um dia cada um será obrigado a largar tudo. Ao partilhá-lo, ao contrário, ganha seu valor. ”A compreensão de outrem somente progredirá com a partilha de alegrias e sofrimentos (Albert Einstein).


O milagre está na partilha. O problema da fome física e de outras fomes somente pode ser resolvido satisfatoriamente quando nós, homens, aprendemos a partilhar o que temos para com aqueles que não têm nada para viver ou sobreviver. O milagre está na partilha, na solidariedade e no amor entranhável. Sem essa solidariedade, sem essa fraternidade, sem comunicação de bens e sem essa comunhão no amor, não é possível a vida e a abundância da vida. Sem o amor a todos os homens, sem o amor e os sentimentos de Cristo, a Eucaristia que celebramos em sua memória careceria de sentido e todo culto se esvaziará de sentido. Seremos julgados a partir das obras de misericórdia (cf. Mt 25,31-46).


3.Tudo Pertence a Deus, Menos o Pecado


“Então, Jesus pegou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos para o céu e pronunciou a bênção. Em seguida partiu os pães, e os deu aos discípulos”.


Jesus dá graças a Deus pelo pão e peixe. Ao fazer isso, Jesus quer desvincular o pão de seus possuidores humanos para considerar o pão e o peixe (alimento) como dom de Deus, expressão de sua generosidade e de seu amor pelos homens. Antes de nascermos já tinha tudo no mundo para nossa vida e sustento: peixes no mar e rio, plantas e animais na terra. Repartir o pão e peixe significa, por isso, prolongar a generosidade de Deus que criou tudo gratuitamente. Uma pessoa que sabe partilhar vive feliz e alegre. O amor fraterno nos torna mais humanos e por isso, mais divinos, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16).


Uma coisa positiva que podemos aprender dos discípulos é a sua atitude de dar-se conta das necessidades dos que estão ao redor, nesse caso da multidão faminta. É uma boa lição para nosso tempo em que existe, evidentemente, uma tendência ao individualismo. Com frequência passamos indiferentes para os que nos rodeiam sem captar a problemática que podem ter. A frase “problema não é meu” é bastante perigosa para uma convivência mais humana e cristã. Do ponto de vista cristão tal postura é absolutamente insustentável e impensável.


Também hoje conserva atualidade do mandamento dado por Jesus: “Vós mesmos deveis de comer para a multidão faminta”. Nós que participamos e partilhamos o pão da Eucaristia devemos estar dispostos também a partilhar o pão material.

P. Vitus Gustama,svd

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Domingo, 02/08/2015
PÃO QUE PERECE E PÃO QUE PERMANECE ETERNAMENTE

XVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM ANO “B”


Evangelho: Jo 6,24-35

Naquele tempo, 24 quando a multidão viu que Jesus não estava ali, nem os seus discípulos, subiram às barcas e foram à procura de Jesus, em Cafarnaum. 25 Quando o encontraram no outro lado do mar, perguntaram-lhe: “Rabi, quando chegaste aqui?” 26 Jesus respondeu: “Em verdade, em verdade, eu vos digo: estais me procurando não porque vistes sinais, mas porque comestes pão e ficastes satisfeitos. 27 Esforçai-vos não pelo alimento que se perde, mas pelo alimento que permanece até a vida eterna, e que o Filho do Homem vos dará. Pois este é quem o Pai marcou com seu selo”. 28 Então perguntaram: “Que devemos fazer para realizar as obras de Deus?” 29 Jesus respondeu: “A obra de Deus é que acrediteis naquele que ele enviou”. 30 Eles perguntaram: “Que sinal realizas, para que possamos ver e crer em ti? Que obra fazes? 31 Nossos pais comeram o maná no deserto, como está na Escritura: ‘Pão do céu deu-lhes a comer’”. 32 Jesus respondeu: “Em verdade, em verdade vos digo, não foi Moisés quem vos deu o pão que veio do céu. É meu Pai que vos dá o verdadeiro pão do céu. 33 Pois o pão de Deus é aquele que desce do céu e dá vida ao mundo”. 34 Então pediram: “Senhor, dá-nos sempre desse pão”. 35 Jesus lhes disse: “Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim não terá mais fome e quem crê em mim nunca mais terá sede”.
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O evangelho do domingo anterior falou da multiplicação dos pães para saciar cinco mil pessoas. É evidente que o interesse do evangelista não está centrado no ato em si e sim no seu significado. Na mente do evangelista o milagre de multiplicação deve ser considerado como sinal que aponta para Outro Pão que pode saciar toda a humanidade. Este pão é o próprio Jesus Cristo daquilo que o evangelho deste domingo fala. A partir do evangelho deste domingo começa-se a falar do discurso sobre o Pão da Vida que é Jesus Cristo. O discurso sobre o Pão da Vida certamente parte da multiplicação dos pães.
   

Para entender a sequência lógica do texto, podemos dividi-lo em três partes. A primeira parte (vv.24-25) faz uma ligação entre os relatos da multiplicação dos pães (vv.1-15) e da caminhada de Jesus sobre as águas (vv16-21), com o discurso sobre o Pão da Vida. A pergunta da multidão a Jesus no v. 25 serve de ponte para a segunda parte do texto (vv.26-30). E a terceira parte (vv.31-35) é central para a compreensão da mensagem do discurso.
  

Terminada a multiplicação dos pães, Jesus despediu a multidão, que queria proclamá-lo rei, e retirou-se para a montanha para orar (Jo 6,14-15). Mas o entusiasmo popular pelo “milagre” dos pães não se apagou facilmente. Os que tinham comido os pães abundantemente partiram para buscar Jesus, desejosos de continuar naquela situação de êxodo que lhes assegurava o sustento sem esforço próprio. Mas Deus nunca concede suas graças para estimular a preguiça dos homens. O homem tem que fazer uso dos dons de Deus e pede que esteja sempre em sintonia  com a vontade do Doador destes dons.
   

Ao encontrar Jesus no dia seguinte em Cafarnaum (v.22), a multidão saciada pelo pão pergunta-lhe: ”Rabi, quando chegaste aqui?” (v.25). Nicodemos se dirigiu a Jesus com o mesmo título “Rabi” (Jo 3,2). O título reflete uma atitude geral com respeito a Jesus como mestre. Jesus não responde à pergunta. Em vez disto, ele começa por comentar o sinal da multiplicação dos pães para revelar o seu significado. Em tom solene Jesus lhe diz: “Em verdade, em verdade vos digo, vós me procurais não porque vistes sinais, mas porque comestes pão até vos saciardes” (v.26). Jesus sofre a incompreensão da multidão, em cujo benefício operou grandes obras. Jesus sabe que a multidão O procura não para escutar mais suas palavras, nem para penetrar mais a fundo na sua mensagem, e nem para ser ajudada a compreender os gestos que Jesus realizou, mas porque comeu pão em abundância gratuitamente e espera continuar tendo o pão garantido sem mais precisar trabalhar. Ao procurar Jesus, a multidão queria um deus de uso e consumo, um deus que sirva seus interesses e necessidades, um deus comercial que oferece e distribui os seus dons ao capricho do pedido. Aparentemente a multidão está procurando Jesus, mas que, na verdade, não passa da busca de si mesma que pretende colocar Jesus e o milagre a serviço do interesse próprio. Este é o deus de uma fé supersticiosa que quer encerrar Deus nos limites dos ritos e das leis cultuais, que procura servir-se de Deus em vez de servi-Lo e adorá-Lo. A multidão não entrou no âmago do sinal que é um convite para a fraternidade, para a participação, para a partilha e para a renúncia a possuir e guardar para si para depois começar a partilhar o que tem para os outros, especialmente aos necessitados. O que a multidão devia ter levado a entregar-se aos outros, como Jesus se entregou a ela, a centrou egoisticamente em sua própria fartura.
 

Apesar disto, Jesus vê nessa procura do pão material uma oportunidade para proclamar uma norma superior: “Trabalhai, não pelo alimento que se perde, mas pelo alimento que permanece para a vida eterna, alimento que o Filho do Homem vos dará, pois Deus, o Pai, o marcou com seu selo” (v.27). Segundo Jesus, este é o ponto central do problema, pois trata-se da proposta profunda e nova. Jesus é aquele que foi firmado com o selo de Deus, isto é, que Deus indicou Jesus como seu representante autêntico e autorizado para dar o alimento que dá vida. O pão transitório mantém a nossa existência terrena. Mas é indispensável o pão que nos proporciona o Autor da vida que quer plenificar a nossa existência. Ao receber este pão que não se esgota, participamos na dimensão eterna da vida, pois participamos da mesma vida daquele que pode nos conceder o alimento permanente, o que dá a vida eterna, o alimento que não se acaba.
 

O alimento que não se acaba é a partilha, pois partilhando sobraram doze cestos cheios (Jo 6,13), isto é, o suficiente para todos sem distinção nenhuma. Jesus quer que os seus seguidores compreendam que Jesus não veio com uma vara  mágica para transformar as pedras em pães de abundância, mas para ensinar que o amor fraterno, que o pão repartido, que a partilha sempre produzem pão em abundância. A multidão precisa entender que aquilo que é solução humana não precisa esperar de Deus, pois o próprio Deus já deu-lhe essa capacidade. O que precisa ser evitado é que não haja a fome e a miséria, pois não pode haver fome ou miséria sem que haja o pecado. A fome, a miséria e a injustiça são irmãs e quem as pratica não está com Deus e seu Reino. O pão que comermos, fruto da injustiça e da exploração do irmão não é pão abençoado por Deus. Este tipo de pão nutre, mas não alimenta a vida humana. Mestre Eckhart disse: “Quem não dá ao outro o que é do outro, não come o seu próprio pão, mas come o seu e também aquele do outro”. Assim o pão se torna amargo pois dentro dele contém muitas lágrimas.
 

Diante da afirmação de Jesus sobre a importância do alimento que permanece para a vida eterna, a multidão lhe pergunta: “Que devemos fazer para realizar as obras de Deus?”. A multidão entendeu erradamente o termo “trabalhai” no v. 27. Por isso, logo pergunta sobre as “obras” que Deus exige do homem.  Deus não pede “obras”: “A obra de Deus é que acrediteis naquele que ele enviou” (vv.28-29). A única obra que Deus exige do homem é a fé no Seu Enviado. Mas o que quer dizer acreditar naquele que Deus enviou? Não basta saber que Jesus existiu, que pregou o amor, que ensinou normas sublimes de vida. Acreditar em Jesus significa unir a própria vida com a vida dele na doação de si aos irmãos. Jesus é o amor que se doa. Quem se achega a ele não o faz para preencher a si próprio, mas para aprender a doar-se e a amar. Não há amor sem dom de si mesmo e não há dom de si sem real comunicação de bens.

        
Diante da resposta de Jesus, a multidão se fecha e exige também “sinal” para provar que Jesus é o enviado do Pai: “Que sinal fazes tu para que acreditemos em ti? Que obra fazes? Nossos pais comeram o maná no deserto, como está escrito: ‘Pão do céu deu-lhes de comer’” (vv. 30-31). Parece a multidão ter esquecido o grande “sinal” da multiplicação dos pães. O maná avalizou Moisés diante do povo como profeta enviado por Deus. Mas o maná não caiu do céu, por isso não podia ser o pão da vida. Quem comeu o maná morreu. O verdadeiro pão do céu é aquele que desce do céu e dá a vida ao mundo (vv.32-33).


O maná, alimento que perece, aponta para o outro superior e mais completo: pão da vida com referência a Cristo: “Em verdade, em verdade vos digo: não foi Moisés quem vos deu o pão do céu, mas é meu Pai que vos dá o verdadeiro pão do céu; porque o pão de Deus é aquele que desce do céu e dá vida ao mundo” (vv.32-33). Mas a multidão interpretou o pão de que Jesus fala materialmente, como a samaritana a respeito da água viva (Jo 4,14): “Senhor dá-nos sempre deste pão” (v.34). Mas este pedido propicia a grande auto-revelação da pessoa de Jesus onde ele se identifica com o pão em questão: “Eu sou o Pão da Vida. Quem vem a mim, nunca mais terá fome, e o que crê em mim nunca mais terá sede” (v.35). Este versículo representa o ápice do discurso. Todo o discurso tende para esta revelação final: “Eu sou o pão da vida”. A expressão “Eu sou” é a fórmula com que Deus se revelou no AT (Ex 3,14). Nesta auto-revelação, Jesus se manifesta como a resposta às necessidades e esperanças do homem. Para que seja assim, a única condição que se exige do homem é a fé. Jesus é o pão da vida que, tal como a água viva, satisfaz para sempre a fome e a sede do que crê nele. Cristo é a vida imortal prometida ao homem desde o princípio e à qual agora pode ter acesso através da fé nele. Quem se alimenta de Cristo vive para sempre.


A expressão “Pão da vida” quer nos transmitir que Jesus é a verdadeira vida imortal. Quem crê em Jesus, no sentido de viver de acordo com seus ensinamentos já está com a vida imortal porque está com Jesus e está nele.


Esforçai-vos, não pelo alimento que perece, mas pelo que dura até a vida eterna, que o Filho do Homem vos dará” (Jo 6,27). 

 
Não somos somente animais de necessidades: comer, beber, dormir, respirar, vestir-nos e assim por diante. Não somos homens unidimensionais que sacrificamos nossa vida aos imperativos de ídolo do consumismo. Somos homens multidimensionais. Somos homens de sentido. Somente encontrando o sentido de sua vida, o porquê e o para quê da vida é que o homem alcançará sua verdadeira felicidade.


O homem de hoje, ainda que não conscientemente, busca felicidade, segurança, vida, verdade e o sentido da vida. Há boa vontade em muita gente. O que essas pessoas necessitam é que alguém lhes ajude. Às vezes tem uma concepção pobre da fé cristã por temor ou por um sentido meramente de preceito ou por interesse. Alguns procuram Deus pelos favores que d’Ele esperam, sem buscar o próprio Deus. Se nós cristãos ajudarmos as pessoas que buscam Deus, com nossas palavras e obras, se formos sinais de Deus nesta terra, creio que muitas pessoas vão procurar não somente alimento que se perde, mas principalmente alimento que perdura para sempre que é Cristo que dá valor para o resto. A partir de Cristo tudo ganha seu próprio valor.


Não basta encontrar solução para a necessidade material; há que aspirar para a plenitude humana e isso requer a colaboração do homem: “Esforçai-vos”. O alimento que se acaba (o pão) dá somente uma vida que perece. O que não se acaba, que é o amor, dá vida definitiva. O pão há de ser expressão do amor. Precisamos ser sinais de amor para os demais. Na ausência desse amor, perderemos nossa autoridade de cristãos e não teremos nada para oferecer às pessoas que buscam o sentido da vida.


Esforçai-vos, não pelo alimento que perece, mas pelo que dura até a vida eterna, que o Filho do Homem vos dará” é a mensagem de Jesus para as pessoas de todos os tempos e lugares.


Em cada Eucaristia comungamos o Corpo do Senhor. A Eucaristia é propriamente comunhão como enfatiza São Paulo: “O Cálice da bênção que abençoamos não é comunhão com o sangue de Cristo? O Pão que partimos não é comunhão com o Corpo de Cristo? Já que há um único Pão, nós, embora muitos, somos um só Corpo, visto que todos participamos desse único Pão” (1Cor 10,16-17).
  

A palavra “comunhão” (latim: communio) é a tradução portuguesa da palavra grega “koinonia”. Na Bíblia “koinonia” indica tanto a Comunhão com o Corpo do Senhor (Eucaristia) como a comunidade dos fiéis que, juntos, formam a Igreja que é o Corpo de Cristo. Para São Paulo comungar significa unir-se ao Corpo pessoal de Jesus. Quanto mais intensa a intimidade com Jesus, mais intima se torna a presença com os outros fieis. Quanto mais unido estiver o fiel a seu Salvador, tanto mais ele se torna ele mesmo e tanto mais ligado a seus irmãos. A nossa íntima com o Pão da Vida nos torna pão partido e repartido para com os irmãos, especial com os necessitados.

P. Vitus Gustama,svd