segunda-feira, 31 de agosto de 2015

04/09/2015
JEJUM QUE MUDA NOSSA MENTALIDADE
É PRECISO RENOVAR-SE PERMANENTEMENTE

Sexta-Feira da XXII Semana Comum

 

Evangelho: Lc 5,33-39

Naquele tempo, 33 os fariseus e os mestres da Lei disseram a Jesus: “Os discípulos de João, e também os discípulos dos fariseus, jejuam com frequência e fazem orações. Mas os teus discípulos comem e bebem”. 34 Jesus, porém, lhes disse: “Os convidados de um casamento podem fazer jejum enquanto o noivo está com eles? 35 Dias virão em que o noivo será tirado do meio deles. Então, naqueles dias, eles jejuarão”. 36 Jesus contou-lhes ainda uma parábola: “Ninguém tira retalho de roupa nova para fazer remendo em roupa velha; senão vai rasgar a roupa nova, e o retalho novo não combinará com a roupa velha. 37 Ninguém põe vinho novo em odres velhos; porque, senão, o vinho novo arrebenta os odres velhos e se derrama; e os odres se perdem. 38 Vinho novo deve ser posto em odres novos. 39 E ninguém, depois de beber vinho velho, deseja vinho novo; porque diz: o velho é melhor”.
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Pela terceira vez em Lc 5 Jesus entra em controvérsias com os fariseus (cf. Lc 5,12-16; 5,27-32; 5,33-39). O tema da controvérsia desta vez é o do jejum.


O jejum é algo antigo escrito na Lei de Moisés (Lv 23,26-32; Nm 29,7-11). O jejum era praticado dentro do contexto de expectativa ou de preparação. Isto significa que o jejum revela um tempo de expectativa ou de preparação. Os fariseus e os discípulos de João Batista necessitavam fazer jejuns, pois estavam no tempo de espera. Os discípulos de Jesus não precisam fazer o jejum, nesta perspectiva, pois o Messias esperado está com eles: Jesus Cristo. Nesse sentido perdeu a razão de fazer o jejum. Com a chegada de Jesus, o Messias esperado, termina o tempo de espera ou de preparação. Agora é o tempo de festa. Os convidados de um casamento podem fazer jejum enquanto o noivo está com eles? Dias virão em que o noivo será tirado do meio deles. Então, naqueles dias, eles jejuarão”, afirmou Jesus.


Em qualquer controvérsia, Jesus sempre se apresenta como um independente diante das regras e das observâncias legais conforme as tradições. A independência de Jesus choca os que estão apegados ao pé da letra todas as leis. Jesus entra no espírito da lei, naquilo que possa edificar o ser humano, pois a pessoa humana é o foco de todo trabalho de Jesus (cf. Jo 3,16; 10,10). Por isso, em outra ocasião ele diz: “O sábado existe para o homem e não o contrário”.


O jejum sempre tem sentido de “privação” ou de “renúncia”. Jejuar consiste essencialmente em nos privar de alimento pelo sentido da palavra, mas em geral é referido a qualquer tipo de privação. Ao se controlar diante de um alimento ou da bebida, o homem é disciplinado para se controlar diante de outras provações ou desafios da vida. através do jejum o homem faz uma passagem significativa do autocontrole físico para o autocontrole psicológico, mental e espiritual. Pode-se também fazer uma passagem contrária: a força espiritual faz com que o homem seja capaz de se controlar diante do alimento ou bebida ou as demais coisas. O verdadeiro jejum sempre beneficia ao homem para seu bem (físico e espiritual simultaneamente: Mens sana in corpore sano- Mente sã em corpo são).


A prática do jejum está ligada, no AT, à espera da vinda do Messias. A prática do jejum aceleraria a chegada do Messias. Os fariseus e os discípulos de João Batista praticam o jejum. Por isso, questionam o comportamento dos discípulos de Jesus que não o praticam. A resposta de Jesus aqui é bem clara: se seus discípulos não praticam o jejum é porque não tem nada que esperar porque o Messias já chegou e está com eles. Eles estão vivendo esta intimidade. Esta intimidade será rompida no momento da paixão e da morte de seu Mestre.


Estamos em outro contexto. Por isso, o jejum ganha seu novo significado. Quando soubermos dar ou preparar o espaço para Deus na nossa vida, este espaço não será ocupado por outra coisa. Ao darmos esse espaço para Deus o resto ganha seu justo valor e sua justa perspectiva. Por isso, ao praticarmos o jejum estamos manifestando nossa vontade de não deixar nenhuma coisa material dominar nossa vida ou mandar na nossa vida. Podemos possuir as coisas, mas as coisas jamais podem nos possuir para não perdermos nossa liberdade. Mesmo não querendo, um dia largaremos tudo. É preciso que aprendamos a ser livres todos os dias, desde já. Sou livre quando a graça pesa mais do que as regras e não o contrario. Sou livre quando o amor e a humanidade pesam mais do que a religião. Sou livre quando eu estou no coração de Deus de Amor (1Jo 4,8.16) para eu ser capaz de amar com total liberdade e amar para libertar o outro da escravidão de uma vida sem sentido apesar de tratar-se de uma crença.


Tanto cristã como humanamente o jejum faz bem a todos. Fazer jejum significa saber renunciar a algo e dá-lo aos demais; é saber controlar nossas apetências; é saber nos defender com liberdade interior das contínuas urgências do mundo de consumismo. Jejuar é purificador. Jejuar não seria privar-se de tudo e sim usar moderação em tudo, isto é, ser sóbrios. Jejum supõe um grande domínio de si, de disciplina de olhos, de mente e da imaginação. A falta de sobriedade é uma das causas pelas quais se obscurecem e se debilitam as melhores iniciativas e decisões de um cristão. A sobriedade é certamente uma garantia da capacidade de orar e de apreciar o Espírito Santo. Com a renúncia às coisas Cristo nos chama à alegria, a uma alegria profunda, nascida da paz da alma. Fazer jejum é renunciar a algo para dá-lo aos necessitados. O jejum com uma dimensão de solidariedade nos tira do egoísmo, nos tira de uma vida vazia. Paradoxalmente a vida vazia é pesada para quem a tem. Sou livre quando a graça pesa mais do que as regras e não o contrario.


Por isso, o jejum cristão não consiste apenas em abster-se de alimentos. Consiste, sobretudo, em desejar o encontro com Jesus salvador e o encontro com irmão, especialmente com irmão carente do básico para viver e sobreviver como um ser humano. Jejuamos para nos tornarmos sensíveis à fome e à sede de tantos irmãos e para assumirmos a nossa responsabilidade na resolução dos problemas dos pobres, dos necessitados e dos carentes do essencial e básico.


O profeta Isaias descreve qual é o verdadeiro jejum que agrada a Deus (Is 58,6-9).  Deus não quer o jejum formalista que não tem em conta a vida do outro, e muito menos a justiça. Nada valem as ações que excluem o amor do próximo. O verdadeiro jejum, no pensamento do profeta, remete ao comportamento capaz de renunciar à ganância, à avareza para começar a ser generoso; capaz de renunciar ao tempo pessoal para ir ao encontro do necessitado (doente, prisioneiro, idoso etc.) para estar com ele a fim de aliviar uma parte de sua dor. O jejum verdadeiro consiste em quebrar todas as cadeias injustas, em repartir o pão com o faminto. Segundo o profeta Isaias, o culto deve estar unido à solidariedade com os necessitados. Caso contrário, não agrada a Deus e é estéril. As manifestações exteriores de conversão têm a sua prova real na caridade e na misericórdia para com os necessitados, com os pobres, com os carentes do essencial como um ser humano para viver. O verdadeiro jejum é um verdadeiro compromisso com os irmãos necessitados e empobrecidos ou injustamente são presos.


Por isso, pode-se dizer que o que importa no jejum não é somente a privação de alimento e sim a seriedade da fé nas tarefas da vida para que sejam a expressão mais viva do serviço de Deus e dos homens ao mesmo tempo. O jejum não se concebe sem caridade e sem uma mudança de vida para uma vida mais fraterna. O jejum que Deus quer é o cumprimento dos deveres morais e humanos com o próximo.  


Além disso, no evangelho de hoje Jesus faz uma declaração que tem o mesmo conteúdo: “Ninguém põe o vinho novo em odres velhos” (Lc 5,39). O vinho representa o tempo messiânico, o tempo da graça, o novo tempo. Ficar com o vinho velho significava ficar com as tradições dos antepassados, rejeitando os novos tempos, as renovações necessárias para a salvação. Continuar com o vinho velho significa aceitar a continuidade dos tempos de opressão, de exploração, de exclusão, de desigualdade e de segregação. jesus vem cumprir as profecias (Lc 4,18) ao inaugurar o novo tempo. O apego ao passado com uma postura de fechamento significa bloquear crescimento e avança para uma direção certa. Qualquer instituição ou grupo que não se renovar, antecipa sua morte ou seu fim, pois o código do desenvolvimento e do crescimento é a renovação e a mudança.


Aceitar Jesus em nossa vida comporta mudanças importantes. Não se trata somente de “saber” de quantas verdades a respeito de Jesus, mas trata-se de mudar nosso estilo de vida segundo o estilo de vida de Jesus. Significa viver com alegria interior. Significa também novidade radical. Jesus rompe moldes. É aquilo que São Paulo chama de “revestir-se de Cristo Jesus”. Quais são nossos “odres velhos” que não servem mais para “guardar” os tesouros de Deus? Quais são nossos “odres velhos” que precisamos abandonar?


Uma mentalidade velha, caduca nunca nos aproximará do novo e do avançado. A mentalidade velha é sinônimo  de mediocridade, de estancamento e de pobreza. “A maior descoberta de uma geração é que os seres humanos podem mudar sua vida modificando suas atitudes mentais” (Albert Schweitzer). Precisamos abandonar uma mente de escravo porque ela é nostálgica, isto é, acredita que o passado foi melhor. Um homem com mentalidade de escravo é briguento, gozador, fanfarrão e vive criticando a tudo e a todos. Uma pessoa com uma mente de escravo se conforma com a mediocridade e não se permite aprender. A mente de escravo utiliza mecanismos de defesa que não nos permitem visualizar onde está a falha para saber em que devemos melhorar. Quem for capaz de fazer uma observação inteligente dos fatos, ele alcançará os melhores resultados. Quem tem mente de escravo usa a gentileza e a cortesia com os que estão acima (superiores), mas agride, maltrata e abusa emocionalmente dos que estão abaixo (inferiores).


Todos temos forças para mudar. Basta praticar a vontade de mudar. Dizia Victor Hugo: “A ninguém faltam forças; o que falta a muitos é vontade”. A vida é uma questão de decisão, e você se faz a cada decisão que toma. Decidir supõe sempre escolher, preferir e abandonar. “Quando um homem não sabe para onde navega, nenhum vento lhe é favorável” (Sêneca).


Ninguém põe vinho novo em odres velhos; porque, senão, o vinho novo arrebenta os odres velhos e se derrama; e os odres se perdem “, disse-nos o Senhor hoje. Em que consiste você precisa mudar? Às vezes Deus não muda nossa situação, porque Ele quer mudar, primeiro, nosso coração, nossa mentalidade. O coração aberto é a chave para a mente aberta.
 
P.Vitus Gustama,svd

sábado, 29 de agosto de 2015

03/09/2015
CONFIAR FIRMAMENTE NA PALAVRA DE DEUS
“Senhor, Em Atenção À Tua Palavra, Vou Lançar As Redes”

Quinta-Feira da XXII Semana Comum


Evangelho: Lc 5,1-11

Naquele tempo, 1 Jesus estava na margem do lago de Genesaré, e a multidão apertava-se a seu redor para ouvir a palavra de Deus. 2 Jesus viu duas barcas paradas na margem do lago. Os pescadores haviam desembarcado e lavavam as redes. 3 Subindo numa das barcas, que era de Simão, pediu que se afastasse um pouco da margem. Depois sentou-se e, da barca, ensinava as multidões. 4 Quando acabou de falar, disse a Simão: “Avança para águas mais profundas, e lançai vossas redes para a pesca”. 5 Simão respondeu: “Mestre, nós trabalhamos a noite inteira e nada pescamos. Mas, em atenção à tua palavra, vou lançar as redes”. 6 Assim fizeram, e apanharam tamanha quantidade de peixes que as redes se rompiam. 7 Então fizeram sinal aos companheiros da outra barca, para que viessem ajudá-los. Eles vieram, e encheram as duas barcas, a ponto de quase afundarem. 8 Ao ver aquilo, Simão Pedro atirou-se aos pés de Jesus, dizendo: “Senhor, afasta-te de mim, porque sou um pecador!” 9 É que o espanto se apoderara de Simão e de todos os seus companheiros, por causa da pesca que acabavam de fazer. 10 Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram sócios de Simão, também ficaram espantados. Jesus, porém, disse a Simão: “Não tenhas medo! De hoje em diante tu serás pescador de homens”. 11 Então levaram as barcas para a margem, deixaram tudo e seguiram a Jesus.
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É narrada no evangelho de hoje a história da pesca milagrosa, ressaltando o papel de Jesus e o dos pescadores. Pedro que é especialista na pescaria se torna um pescador frustrado pelo insucesso da noite inteira, pois nada pescou. Por isso, quando Jesus lhe disse: “Avança para águas mais profundas e lança redes para a pesca” (v.4) veio aquela resposta de desconfiança da parte de Pedro: “Mestre, nós trabalhamos a noite inteira e nada pescamos” (v.5). Pedro parece quer dizer: “Se durante a noite não apanhamos nenhum peixe, imagine durante o dia! Por isso, não adiante lançar a rede!”.


Espelhando-nos em Pedro frustrado, podemos também citar muitas das nossas situações frustrantes de cada dia: cansei-me muito, gastei muita energia e tempo, empenhei-me a fundo, rezei muito e não aconteceu nada. É aquela sensação de derrotismo, de desânimo, de desespero. Dá vontade de desistir de tudo, de fugir, de abandonar tudo. O cansaço não somente afeta pessoas individualmente. Existe também cansaço na Igreja, na política, na vida profissional, na vida sacerdotal e religiosa, na vida matrimonial e familiar e assim por diante. É o esgotamento físico, emocional, psíquico etc.. Em outras palavras, quantas vezes experimentamos o cansaço, isto é, aquele estado de esgotamento físico ou emocional que se manifesta como um constante sentimento negativo cujos sintomas são sensação de incapacidade, raiva e aversão, sentimento de culpa, desânimo e indiferença, negativismo, isolamento e retraimento, constante sensação de cansaço e esgotamento.


Apesar dessa sensação negativa, o cansaço nos desafia a perguntarmos a nós mesmos: para onde, na verdade, caminha minha vida? Para onde meu cansaço vai me levar? O que espero da minha vida (de mim mesmo), dos outros e de Deus? Por acaso, tenho humildade de escutar os bons conselhos? Por acaso tenho tempo para escutar a Palavra de Deus mesmo que seja contrária ao bom senso? A partir dessas perguntas e outras perguntas relacionadas à questão, o cansaço nos leva a encontrarmos nosso verdadeiro ser e conseqüentemente, é também um momento transcendente de nossa vida.


Experimentando a frustração e o cansaço físico e mental, Pedro põe em jogo a própria pessoa, a própria vida e o próprio futuro. Ele e seus companheiros haviam trabalhado durante a noite inteira sem conseguir apanhar um só peixe, e agora, em plena luz do dia, Jesus manda-lhes que lancem as redes para a pesca. Eles conhecem Jesus, mas apenas como Mestre: “Mestre nós trabalhamos...”. Apesar de todas as objeções que um profissional poderia levantar contra ela, a palavra de Jesus tem mais força para Simão do que sua longa experiência de pescador: “Avança para águas mais profundas e lança redes para a pesca”, ordenou Jesus. Pedro tenta superar a própria desconfiança: “Na tua palavra lançarei a rede”.


A palavra de Deus é poderosa, mas é preciso que seja posta em prática para que desenvolva sua força. E Pedro cumpre a palavra de Jesus imediatamente: “Na tua palavra lançarei a rede” (v.5). Notemos quanto há de profundo neste “na tua palavra” porque é a expressão que, na Bíblia, especialmente nos Salmos, designa a atitude do homem diante de Deus. “Confio na Tua Palavra, é Tua Palavra que me dá vida, Senhor; Tu me afligiste. Tu permitiste tantos sofrimentos na minha vida, mas na Tua Palavra confio”. Em outra ocasião, no discurso sobre o Pão da vida, Pedro dirá a Jesus: “Senhor, a quem iremos? Tens palavras de vida eterna e nós cremos e reconhecemos que Tu és Santo de Deus” (Jo 6,68-69). Certamente, na força da Palavra de Deus, os apóstolos encontram a vida ali onde tudo parecia morto; messe abundante onde tudo parecia vazio; abertura onde tudo parecia fechado. Quando for colocada em prática, a Palavra de Deus sempre dá fruto.
   

Na tua palavra lançarei a rede”. Aqui Pedro sai dos cálculos e se atira, confiando na Palavra do Senhor. De fato, à fé, à obediência incondicional de Simão Pedro segue-se o milagre, a manifestação do poder da Palavra criadora de Deus.  Deus precisou de apenas uma palavra para criar-nos, mas de seu sangue para redimir-nos. Se às vezes te sentes frustrado por tuas misérias, recorda quanto custaste”, dizia Santo Agostinho (Serm. 36,8). O poder da Palavra de Deus manifestada em Jesus domina toda esta cena. Toda força, todo poder vem de Deus. Nesta perspectiva devemos situar-nos para compreender o que segue. Mas antes disso, vamos tirar alguma lição.
    

Jesus nunca permite o aborrecimento pelo insucesso no nosso trabalho. Não cabe a cada um de nós calcular o último resultado. Cada um deve trabalhar, empenhar-se todo, confiando unicamente na Palavra do Senhor. Empenhar-se significa dar tudo, experimentar tudo, estudar, corrigir, mudar e recomeçar. A eficácia de nossa ação está na obediência à Palavra de Deus. Se agirmos em nome próprio, nossos esforços serão estéreis. A Palavra de Deus é a semente que tem em si uma força criadora, uma potência enorme. Então, por que ainda duvidamos dela? Por que não levamos a sério a Palavra de Deus? Por que não a lemos e meditamos? Com Deus podemos pescar onde parece que não há peixe, podemos plantar justiça ou amor onde outros dizem que não adianta tentar; podemos levar fraternidade onde parece que a competição é a única lei que funciona. “Creio no Sol, mesmo quando não o vejo. Creio no amor, mesmo quando não o sinto. Creio em Deus, mesmo não o vejo” (de um judeu anônimo, escrito num muro de um gueto de Varsóvia)
     

Vendo a pesca milagrosa, Pedro descobre a manifestação do poder de Deus em Jesus e se lança aos pés dele, dizendo: “Afasta-te de mim, Senhor, pois sou um pecador” (v.8). Ele não chama mais Jesus de “Mestre”, mas de “Senhor”. O poder de Jesus faz sobressair a pecaminosidade de Pedro: Pedro não estava entre os maiores pecadores, mas também ele era um homem que, colocado diante do poder, da santidade de Deus, sentia que muitas coisas de sua vida não funcionavam. Com clarividência instantânea, Pedro percebe a distância entre seu pecado e a santidade de Deus, entre sua pequenez e sua fragilidade e a grandeza e poder de Deus. Pedro sente com uma clareza insuportável que não há lugar para ele, pecador, na presença do Deus santo. Esta experiência da sua indignidade diante da manifestação de Deus é o que causa em Pedro e em seus companheiros o “tremendo espanto” de que nos fala o texto. A Palavra de Deus nos ensina a não temer, mesmo que tenhamos medo, e a temer mesmo quando não temos medo. Temamos, pois, para não temer”, dizia Santo Agostinho (Serm. 65, 1,1).


Num fragmento de Votos Irlandês encontram-se as seguintes frases: “Deus está sobre mim para dar-me abrigo. Deus está diante de mim para indicar-me o caminho certo. Deus está junto de mim para proteger-me dos perigos à esquerda e à direita. Deus está à minha retaguarda para defender-me da malícia dos maus. Deus está sob mim para reerguer-me quando caio. Deus está em mim para consolar-me quando eu estou triste”. Basta ter fé e vivê-la em todos os momentos de nossa vida, então nossas forças serão renovadas na graça de Deus.
  

Da experiência percebemos que enquanto vivemos no meio dos outros homens, fracos e frágeis como nós, não nos damos conta do nosso pecado, de nossa fragilidade, de nossas fraquezas; aliás, comparando-nos com os que estão ao nosso lado, podemos até pensar que sejamos justos, honestos, sinceros, caridosos, misericordiosos e irrepreensíveis. Mas ao entrarmos em contato com Deus, as coisas mudam: constatamos de forma dramática a nossa pobreza, a nossa indignidade, a nossa miséria. Só quem fica perto de uma luz percebe a sujeira da própria roupa. Esta experiência é vivida por todos aqueles que entram em contato com a Palavra de Deus, aquela palavra que é “viva e eficaz, mais penetrante do que uma espada de dois gumes” (Hb 4,12). É a experiência vivida por Paulo, quando toma consciência da própria indignidade de pregador do Evangelho: “Nós carregamos este tesouro em vasos de barro” (2Cor 4,7).
             

A palavra de Deus se manifesta em Jesus Cristo como uma palavra que pacifica, que infunde ânimo, que dá segurança; como uma palavra que escolhe, que chama, que fortalece e que transforma a existência daquele que é chamado. A palavra de Jesus vai superar a distância: “Não temas!” São mesmas palavras que ecoam nas manifestações de Deus no AT (cf. Gn 15,1;21,17;26,24;28,13;Jz 6,23;1Sm 4,20).
 

Às palavras de pacificação, de segurança e de coragem, seguem-se as da promessa- missão: “Doravante serás pescador de homens”. A palavra de Jesus tem esse poder de fazer começar uma história nova na vida de um homem.
   

A nova missão de Pedro e de seus companheiros será a de “salvar vidas”: entrar mar adentro para tirar os homens das águas profundas, do abismo da morte; “pegar vivos ou para a vida” os homens, assim como eles mesmos foram colhidos- escolhidos. A resposta de Pedro e de seus companheiros às palavras de Jesus foi a disponibilidade absoluta, a da obediência incondicional: “...e deixando tudo, eles o seguiram” (v.11). A renúncia, o “deixar tudo”, é uma conseqüência, e não uma condição prévia, do chamamento de Jesus. A vocação é a vocação para uma missão.


Aprendemos que percar- salvar sem Jesus é impossível. Todos os saberes e técnicas humanas, horas oportunas (a noite), não são capazes de salvar sem a ajuda de Jesus. O fruto abundante (pesca milagrosa) será constante na atividade missionária se cada cristão seguir as diretrizes de Jesus. Nossas próprias forças não são suficientes para superar tudo. Necessitamos da confiança na Palavra d’Aquele que nos prometeu que nunca nos deixaria sozinhos (cf. Mt 28,20). Quem, como Pedro, aceitar sua limitação, estará em condições de aceitar que os frutos de seu trabalho apostólico não são seus e sim d’Aquele que nos convidou para ser seu instrumento. Jesus chama os apóstolos a serem pescadores de homens, mas o verdadeiro pescador é Ele.
  

Diante da força da Palavra de Deus posta em prática a exemplo de Pedro que resultou na pesca abundante, devemos, por acaso, desistir diante das dificuldades? Devemos recusar o convite do Senhor para ser pescadores de homens, para espalhar a Palavra do Senhor? Temos convicção de que a única força que possuímos é a da Palavra de Deus que nos foi confiada? Não nos sentimos, por vezes, inclinados a confiar em outras forças?


“Meu Senhor e meu Deus, despoja-me de tudo que me afaste de Ti. Meu Senhor e meu Deus, concede-me tudo que me conduz a Ti. Meu Deus e meu Senhor, despoja-me de mim mesmo e faz com que eu pertença totalmente a Ti” (Nicolau de Flüe [1407-1487]).

P. Vitus Gustama,svd
02/09/2015
JESUS NOS LIBERTA PARA SERVIRMOS O PRÓXIMO

Quarta-Feira da XXII Semana Comum

 

Evangelho: Lc 4,38-44


Naquele tempo, 38 Jesus saiu da sinagoga e entrou na casa de Simão. A sogra de Simão estava sofrendo com febre alta, e pediram a Jesus em favor dela. 39 Inclinando-se sobre ela, Jesus ameaçou a febre, e a febre a deixou. Imediatamente, ela se levantou e começou a servi-los. 40 Ao pôr do sol, todos os que tinham doentes atingidos por diversos males, os levaram a Jesus. Jesus punha as mãos em cada um deles e os curava. 41 De muitas pessoas também saíam demônios, gritando: “Tu és o Filho de Deus”. Jesus os ameaçava, e não os deixava falar, porque sabiam que ele era o Messias. 42 Ao raiar do dia, Jesus saiu e foi para um lugar deserto. As multidões o procuravam e, indo até ele, tentavam impedi-lo de as deixar. 43 Mas Jesus disse: “Eu devo anunciar a Boa Nova do Reino de Deus também a outras cidades, porque para isso é que eu fui enviado”. 44 E pregava nas sinagogas da Judéia.
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O que Jesus anunciou na sinagoga de Nazaré, no seu discurso programático (Lc 4,14-30), ele vai o cumprindo. Aplicando para si a profecia de Isaias, Jesus diz que vem anunciar a salvação aos pobres e curar os cegos e dar a liberdade aos oprimidos.


Hoje lemos o programa de uma jornada de Jesus “ao sair da sinagoga”: curar a febre da sogra de Pedro, impor as mãos e curar os enfermos que as pessoas trouxeram para Jesus, libertar os possuídos pelo demônio e não se cansar de ir ao encontro do povo para anunciar o Reino de Deus. Mas, no meio de suas atividades missionárias, Jesus nunca deixa de buscar momentos de paz para rezar pessoalmente num lugar solitário.


Depois de sair da Sinagoga, em Nazaré, Jesus e alguns discípulos foram para a casa de Simão Pedro. Jesus saiu de um lugar oficial (sinagoga é lugar de oração, de ensino e de catequese para os judeus) para um ambiente familiar: casa. Em casa todos tem seu espaço e cada um é chamado pelo nome e não pelo título (se é um doutor, deputado, presidente e assim por diante). Cada um é gente em casa. Em casa um se preocupa com o outro. Basta um membro sofrer, todos sofrerão. Basta um membro ter sucesso, todos experimentarão a felicidade. Ninguém fica feliz sozinho como também ninguém sofre sozinho, pois não somente vivemos, mas convivemos. Nossa vida é cercada por outras vidas. Oxalá possamos viver a espiritualidade familiar também fora de nossa família, como Jesus nos diz hoje: “Eu devo anunciar a Boa Nova do Reino de Deus também a outras cidades, porque para isso é que eu fui enviado” (Lc 4,43). O cristão existe para os outros. Nisto consiste o sentido de sua vida de cristão.


Pedro encontra sua sogra com febre em sua casa. No pensamento daquela época, a febre era causada pelo demônio. Com um gesto familiar, Jesus se aproximou da mulher, tocou-a e a ajudou a se levantar, e a febre desapareceu. A sogra de Pedro começou a servir a todos imediatamente.


A febre representa tudo que nos impede de servirmos aos outros. Cada um pode descobrir que tipo de “febre” que o impede de servir aos outros, “febre” que faz a vida perder seu sentido (ficar deitado todo tempo). O que é que me faz viver uma “vida deitada”, isto é, sem ação, sem ânimo, sem perspectivas. Eu preciso convidar Jesus para entrar na minha casa onde estou “deitado” para que ele se aproxime de mim, me toque e me ajude a me levantar. A palavra “levantar-se” no Novo Testamento, em outros contextos, também significa ressuscitar. Eu preciso me levantar de uma vida estéril (deitar) para uma vida fecunda (servir). Eu preciso me levantar de uma situação que torna “morto” para uma vida cheio de ânimo. Para isso, eu preciso abrir a “casa” de minha vida, deixar a mão de Jesus segurar a minha mão, mão de Jesus que me potencia, mão que me levanta, mão que me cura e liberta, mão que me torna uma mão que ajuda os outros.


No texto do evangelho de hoje o evangelista Lucas revele a identidade de Jesus na boca dos demônios. Jesus é revelado como o Filho de Deus que no entendimento de Lucas significa o Messias de Israel (Lc 4,41). Os homens são incapazes de reconhecer a identidade de Jesus, mas os demônios a captam cuja existência é ameaçada pelo poder messiânico de Jesus. Jesus não deixava os demônios falarem, mas logo os expulsou (Lc 4,41). Nesta marca comum nos antigos exorcismos se descobre que é preciso lutar contra o mal sem deter-se em discutir suas pretensões.


Todos nós sabemos que o mal pode vestir-se de uma aparência boa, enganando os que procuram escutar suas “orações” ou “pedidos”. Jesus não ficou parado nisto. Jesus sabe que tudo que destrói o homem é perverso e Jesus tem o poder para vencê-lo, devolvendo assim a dignidade para as pessoas sofridas.


Outro detalhe que chama bastante nossa atenção é que diante da obra de Jesus surge uma reação bastante egoísta entre as pessoas: querem monopolizar o aspecto mais extenso da atividade de Jesus e utilizá-lo como um simples curandeiro: “As multidões o procuravam e, indo até ele, tentavam impedi-lo de as deixar”. O povo quer reter de Jesus somente a sua força milagrosa. O povo quer se aproveitar de Jesus e de seu poder para i próprio interesse. Mas Jesus foge disso, pois sua missão é fundamentalmente itinerante e Jesus vai ao encontros dos outros sofredores para ajudá-los.


Podemos ter a tentação ou a tendência para este tipo de relacionamento com Jesus no sentido de que nós aceitamos Jesus simplesmente na medida em que ele nos ajuda a resolver nossos problemas para garantir tranqüilidade psicológica ou uma ordem na família, ou uma garantia na vida financeira. Santo Agostinho nos relembra que a razão de nossa existência neste mundo é a vida eterna. Temos que viver e conviver dentro desta dimensão. Conseqüentemente eu sou uma ocasião de salvação para o próximo e o próximo é uma ocasião de salvação para mim. Jesus nos salva na medida em que cada um se torna uma ocasião de salvação para o outro (cf. Mt 25,40.45; veja também Lc 22,31-32). Estando conscientes disso entenderemos que Jesus é muito maior do que um fazedor de milagres. Ele é a nossa Salvação (cf. Jo 6,68-69). Que Jesus Cristo é nosso Salvador é uma das afirmações mais sólidas e repetidas do Novo Testamento. É a primeira noticia do céu à terra através do anjo falando a uns pastores: “Hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós um Salvador que é o Cristo Senhor” (Lc 2,11). A salvação alcança o que foi criado, pessoas humanas em umas condições concretas. Anunciar a salvação é anunciar a vida em todas as suas dimensões, inclusive em algo tão relativo como a saúde (a palavra “salus” [salvar/salvação] exige previamente uma cura. Para um cego, depois da recuperação de vista, Jesus disse: “Tua fé te salvou” [Mc 10,52]). Cada cristão existe para ajudar, proteger e salvar o outro. Se um cristão é egoísta é porque ele deixa de ser cristão. Se um cristão é desonesto, injusto, incoerente, etc., ele não pode mais ser chamado de cristão, como dizia Santo Agostinho: “O nome de cristão traz em si a conotação de justiça, bondade, integridade, paciência, castidade, prudência, amabilidade, inocência e piedade. Como podes explicar a apropriação de tal nome se tua conduta mostra tão poucas dessas muitas virtudes?” (De vit. christ. 6).


A resposta de Jesus, para a tentação de monopólio, é clara: “Eu devo anunciar a Boa Nova do Reino de Deus também a outras cidades, porque para isso é que eu fui enviado” (Lc 4,43). Sua exigência se traduz em um dom que fica aberto para todos os que O esperam. Certamente o Evangelho é um presente que enriquece a existência, porém um presente que não se pode encerrar e sim um presente que nos abre sem cessar para os outros.


Podemos revisar alguns traços significativos do texto do evangelho lido neste dia. Em primeiro lugar, o texto diz que Jesus foi para casa de Pedro ao sair da sinagoga. Trata-se de um bom programa para qualquer cristão. “Ao sair da sinagoga...”. Ou seja, na nossa linguagem “ao sair de nossa missa ou de nossa oração”, nos espera uma jornada de trabalho, de pregação e evangelização, de serviço curativo para os demais traduzindo nossas orações em ações. É colocar a oração na vida e a vida na oração. Em segundo lugar, Jesus, em meio de uma jornada com um horário intensivo de trabalho e dedicação missionária, encontra momentos para rezar sozinho. Um evangelizador sem oração não poder ser um bom evangelizador. “O ORADOR SE PROCURA A SI. O PREGADOR PROCURA DEUS”, dizia são João Crisóstomo. Em terceiro lugar, Jesus não quer “se instalar” num lugar onde ele é bem acolhido: “Eu devo anunciar a Boa Nova do Reino de Deus também a outras cidades, porque para isso é que eu fui enviado”. É preciso que nós evitemos dois perigos: o ativismo exagerado, descuidando da oração (espiritualidade) e a tentação de ficarmos no ambiente em que somos bem recebidos, descuidando da universalidade de nossa missão. É preciso que olhemos para Cristo para saber o que precisamos fazer: Jesus é evangelizador itinerante, libertador, orante.


Uma das atitudes fundamentais de Jesus, que Lucas nos descreveu no seu evangelho, é a sua grande misericórdia. A misericórdia leva Jesus a ser disponível para os demais. Por causa da misericórdia, para Jesus não há momento determinado para ajudar, para curar e para atender aos que O procuram e necessitam dele. Todo tempo de Jesus é para os necessitados, para os quais ele foi enviado (cf. Lc 4,18-19). E todos encontram nele alívio, consolo e força para continuar a seguir adiante na vida. Servir é amar. E amar é viver para sempre, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16).


Que “motor” que nos move a trabalharmos como cristãos tanto na Igreja como na sociedade em geral? Como está nossa disponibilidade como cristãos? Existe algum momento dedicado para os outros no nosso dia-a-dia para ajudar, consolar, aconselhar ou simplesmente para escutar o outro?

P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

01/09/2015
VIVER COM A AUTORIDADE DE JESUS


Terça-Feira da XXII Semana Comum


Evangelho: Lc 4,31-37

Naquele tempo, 31 Jesus desceu a Cafarnaum, cidade da Galileia, e aí os ensinava aos sábados. 32 As pessoas ficavam admiradas com o seu ensinamento, porque Jesus falava com autoridade. 33 Na sinagoga, havia um homem possuído pelo espírito de um demônio impuro, que gritou em alta voz: 34 “Que queres de nós, Jesus Nazareno? Vieste para nos destruir? Eu sei quem tu és: tu és o Santo de Deus!” 35 Jesus o ameaçou, dizendo: “Cala-te, e sai dele!” Então o demônio lançou o homem no chão, saiu dele, e não lhe fez mal nenhum. 36 O espanto se apossou de todos e eles comentavam entre si: “Que palavra é essa? Ele manda nos espíritos impuros, com autoridade e poder, e eles saem”. 37 E a fama de Jesus se espalhava em todos os lugares da redondeza.
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Estamos nos primeiros dias da pregação publica de Jesus segundo o evangelho de Lucas. Recusado pelo seu povo em Nazaré, Jesus vai a Cafarnaum cuja população era uma mistura de várias nacionalidades. Segundo Lucas, em Cafarnaum Jesus inicia oficialmente a sua missão. Jesus inicia a missão oficial com a cura dos enfermos, pois ele foi consagrada “com a unção para anunciar a Boa Nova aos pobres; para proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar um ano da graça do Senhor” (Lc 4,18-19). Em Cafarnaum Ele fala com autoridade para as pessoas e desperta a admiração de todos, pois Ele prega e liberta.


É importante anotar nesse início de sua missão que quem reconhece que Jesus é o Messias (o Ungido) é satã. Satã declara Jesus de Nazaré como o Santo de Deus. Esse satã foi derrotado por Jesus nas tentações (cf. Lc 4,1-13). Enquanto que os seus, no episódio de Nazaré, não o aceitam porque não o conhecem profundamente. É uma ironia do evangelho para os homens.


Todos os evangelhos sinóticos (Mt, Mc, Lc) colocaram em destaque a autoridade extraordinária, o prestigio que emanava da pessoa e da palavra de Jesus (Mt 7,29; Mc 1,22; Lc 4,32). Naquela época tinha bastante “escolas”, grupos de escribas ou de letrados que faziam comentários sobre a Sagrada Escritura. Agora Jesus faz seus próprios comentários que totalmente são novos (sem nenhuma influência de alguma escola). Do fundo de si mesmo surgem pensamentos magistrais revestidos de autoridade que causa a admiração no povo. O evangelista Marcos registrou a admiração do povo diante do ensinamento de Jesus com as seguintes palavras: “Estavam espantados com o seu ensinamento, pois ele os ensinava como quem tem autoridade e não como escribas” (Mc 1,22). No seu ensinamento, Jesus não se apóia nas tradições de escolas rabínicas, pois Ele é enviado de Deus, o Filho de Deus em quem repousa o Espírito de Deus (Mc 1,9-11); Ele a própria Palavra de Deus (Jo 1,1-3.14). Jesus apela diretamente para a consciência de seus interlocutores.


A autoridade de Jesus não está a serviço de uma instituição, mas está a serviço do ser humano para que este reconheça sua própria dignidade, seu valor e sua vocação à vida comunitária de irmãos. A nova forma de Jesus ensinar “com autoridade” apela para valores e atitudes fundamentais do ser humano: apela à capacidade de convivência como irmãos do mesmo Pai do céu, apela ao reconhecimento respeitoso e tolerante do outro, apela ao desenvolvimento da auto-estima como condições para uma autêntica libertação da situação de marginalização em que vive a grande maioria. Onde não houver um mútuo respeito, não haverá espaço para a mútua admiração. O Pai que está no céu nos faz irmãos aqui na terra. Ao aceitar o Espírito de Deus o homem se liberta de suas escravidões e se torna irmão do outro.


Por esta razão, Lucas nos relatou também um homem endemoninhado que se encontrou dentro do templo. Um endemoninhado é um homem possuído por uma ideologia que aliena completamente a liberdade e o faz falar como instrumento de outro. Este personagem representa uma parte do público (ele fala em plural: “Que queres de nós, Jesus Nazareno? Vieste para nos destruir?”), que se alarma diante do messianismo que Jesus pretende expor. Esta parte do público tem medo de que o patriotismo nacionalista perca terreno. Se Jesus continuar falando assim (com autoridade), a libertação de Israel vai fracassar. Assim pensa esse grupo.


Jesus não se deixa instrumentalizar. Ele liberta com conjuração o homem possuído por aquela ideologia de morte e lhe devolve sua condição de um homem livre, que pensa por si próprio. Com a Palavra ungida com o Espírito criador de Deus Jesus humaniza o homem no meio de tantos oportunistas que se arrogam o poder de Deus em beneficio de seus interesses mesquinhos. “Todo aquele que, ocupando uma posição de autoridade, aproveita para divertir-se, para aumentar seu patrimônio, ou para conseguir lucros pessoais, não é um servidor dos demais, mas um escravo de si mesmo”, dizia Santo Agostinho (Serm. 46,2). Jesus não quer que o cérebro desse homem vire um arquivo para pensamentos alheios. Jesus quer que ele tenha coragem de criar os seus próprios pensamentos e não apenas memorizar os pensamentos alheios.


Por isso, o episódio do homem possuído por um espírito impuro, mais do que demonstrar autoridade de Jesus sobre as forças do mal, quer mostrar como Jesus integra ao seio da comunidade aquele que era excluído e recusado como muitos outros em nome de um poder que desumaniza ou em nome de uma instituição desumanizante.


Se você quer saber quanta autoridade tem, não se pergunte a quantos você submete, mas a quantos você ajudou a crescer. O medo que os outros têm de você não mede sua autoridade, mas seu poder autoritário. A autoridade põe respeito, o autoritarismo põe medo nas pessoas. Quando alguém acredita que a força de sua autoridade está em seu poder e não em seu amor, ele desautoriza a si mesmo como pessoa. Se ou quando alguém precisa apelar para a força e para o poder para ser autoritário é porque como pessoa já não tem mais autoridade. Os títulos e os cargos podem até confirmar a autoridade que cada um tem, mas não lhe dão a que não tem.


Jesus fala como quem tem autoridade, assim o evangelista Marcos registrou. O que significa para nós falar com autoridade? Há palavras ou ações que nos aproximam de Jesus. Quais são estas palavras?


Sempre que pronunciarmos uma palavra viva, aquela que não é fingida, aquela que sabe detectar em cada momento aquilo do qual o outro está necessitando, aquela palavra que faz o outro melhorar e crescer, aquela que não semeia a discórdia, a palavra que humaniza, estaremos falando com autoridade. Sempre que pronunciarmos uma palavra compassiva, aquela que consola nos momentos de dificuldade, a palavra que anima quem está desesperado, a palavra sincera de querer ajudar, estaremos falando com autoridade. Sempre que pronunciarmos uma palavra solidária, aquela que coloca as coisas no seu devido lugar, aquela que sai do coração para aliviar a dor do outro, aquela que serena, estaremos falando com autoridade. Sempre que pronunciarmos uma palavra de esperança que diz que nem tudo está perdido, que o melhor está para vir porque Deus está conosco (Mt 28,20) e que “para Deus nada é impossível” (Lc 1,37), estaremos falando com autoridade.


É bom cada um de nós fazer um exame de consciência para saber se fala com autoridade como Jesus ou não? É bom cada um se perguntar se está próximo de Jesus no modo de viver e de tratar os demais ou não? Hoje em dia precisamos muito mais das pessoas com autoridade e carisma do que das pessoas com o poder. Além disso, é preciso levarmos em conta de que Jesus é reconhecido pelo demônio como o Santo de Deus. Será que conhecemos Jesus profundamente? Será que levamos a sério a causa de Jesus que consiste em criar a comunhão de irmãos livre de todo tipo de opressão e de escravidão? De que maneira nós ainda oprimimos e escravizamos nosso próximo que é nosso irmão?

P. Vitus Gustama,svd

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

31/08/2015
VIVER COMO UNGIDOS DE DEUS

Segunda-Feira da XXII Semana Comum


Evangelho: Lc 4,16-30

Naquele tempo, 16 veio Jesus à cidade de Nazaré, onde se tinha criado. Conforme seu costume, entrou na sinagoga no sábado, e levantou-se para fazer a leitura. 17 Deram-lhe o livro do profeta Isaías. Abrindo o livro, Jesus achou a passagem em que está escrito: 18 “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa Nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos 19 e para proclamar um ano da graça do Senhor”. 20 Depois fechou o livro, entregou-o ao ajudante e sentou-se. Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele. 21 Então começou a dizer-lhes: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir”. 22 Todos davam testemunho a seu respeito, admirados com as palavras cheias de encanto que saíam da sua boca. E diziam: “Não é este o filho de José?” 23 Jesus, porém, disse: “Sem dúvida, vós me repetireis o provérbio: Médico, cura-te a ti mesmo. Faze também aqui, em tua terra, tudo o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaum”. 24 E acrescentou: “Em verdade eu vos digo que nenhum profeta é bem recebido em sua pátria. 25 De fato, eu vos digo: no tempo do profeta Elias, quando não choveu durante três anos e seis meses e houve grande fome em toda a região, havia muitas viúvas em Israel. 26 No entanto, a nenhuma delas foi enviado Elias, senão a uma viúva que vivia em Sarepta, na Sidônia. 27 E no tempo do profeta Eliseu, havia muitos leprosos em Israel. Contudo, nenhum deles foi curado, mas sim Naamã, o Sírio”. 28 Quando ouviram estas palavras de Jesus, todos na sinagoga ficaram furiosos. 29 Levantaram-se e o expulsaram da cidade. Levaram-no até o alto do monte sobre o qual a cidade estava construída, com a intenção de lançá-lo no precipício. 30 Jesus, porém, passando pelo meio deles, continuou o seu caminho.
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O texto do evangelho de hoje nos fala do início da pregação pública de Jesus segundo Lucas. A pregação inaugural (discurso programático em Nazaré) tem como lugar numa sinagoga em Nazaré, por ocasião de um culto sinagogal no Sábado. E a leitura que Jesus fez e sobre o qual comentou é o texto do Trito-Isaias (cf. Is 61,1-2) que fala da missão do Messias. E a missão do Messias, do Ungido de Deus, é proclamar a Boa Notícia que consiste na libertação dos prisioneiros do sofrimento, da opressão, da injustiça e proclamar a Boa Notícia, preferencialmente, para os pobres, os escravos, os marginalizados: os leprosos, os doentes, os publicanos, as mulheres. E Jesus se apresenta como o Ungido, o Messias (cf. Lc 3,21-22). Em outras palavras, o que o livro de Isaias anunciava se cumpriu em Jesus: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir”. Jesus veio ao encontro do homem para devolver sua dignidade como pessoa humana e filho (filha) de Deus.


Trata-se de uma cena bem significativa, programática que se pode dizer que dá sentido a todo ministério messiânico de Jesus: sua primeira pregação na sinagoga de seu povo de Nazaré. Trata-se de uma cena densa, muito bem narrada por Lucas com uma série de detalhes significativos: o costume de ir à sinagoga todos os sábados; o convite para que leia a Palavra de Deus; o comentário de Jesus sobre a leitura do Livro de Isaias cujo conteúdo é o programa do ministério de Jesus: “Hoje se cumpriu a Escritura...”; as primeiras reações e aprovação por parte dos seus conterrâneos que ficam bloqueados em seu caminho de fé, pois conhecem demais Jesus: “Não é este o filho de José?”; a queixa de Jesus sobre essa falta de fé; a reação de ira.


A parte central da liturgia do Sábado nas sinagogas consistia na leitura da Palavra de Deus. Normalmente há duas leituras: Lia-se ante um texto do livro da Lei (Pentateuco: os primeiros cinco livros da Bíblia). Depois lia-se algum texto dos livros dos profetas. Qualquer homem adulto podia fazer leitura e comentário sobre o que o texto lido. Quem fazia a segunda leitura podia escolher o texto de sua preferência. E Jesus escolheu um texto do livro do profeta Isaias e fez o comentário sobre o texto.


O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa Nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar um ano da graça do Senhor”, assim o texto que Jesus leu.


O texto se refere a um profeta que, mais ou menos, 400 anos antes de Cristo, foi enviado por Deus para consolar os israelitas que tinham voltado do exílio da Babilônia.  Os israelitas acabaram de ser libertados da opressão dos poderosos da Babilônia. Porém, infelizmente entraram em outro tipo de opressão vinda dos israelitas ricos que exploravam os pobres, dos patrões que não pagavam seus empregados (nova escravidão), dos poderosos políticos e religiosos que oprimiam os mais fracos (cf. Is 56,10-57,2). O profeta se sentiu impulsionado pelo Espirito de Deus para denunciar essas injustiças e todos os tipos de escravidão.


Jesus começou seu comentário sobre o texto dizendo: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir”. Jesus quer dizer aos ouvintes, mesmo que que eles não o entendam, que através d´Ele chegou para a humanidade a hora (kairós) da liberdade, a vitória sobre qualquer opressão, qualquer escravidão. Em Jesus e com Jesus todos serão capacitados a ver o mundo com a clareza divina (os cegos enxergarão), todos poderão andar com leveza e alegria(os coxos andam, os oprimidos libertados). Assim a vida se torna uma festa (Ano da graça). Para que tudo isso possa acontecer é preciso seguir a Jesus e viver seus ensinamentos.


A idéia de libertação, de liberdade, está subjacente em todo o Evangelho de Lucas (e outros evangelhos). Toda vez que Deus visita e se aproxima do homem, Ele o faz para libertá-lo: “Bendito seja o Senhor Deus de Israel, porque visitou e redimiu o seu povo...” (Lc 1,68). E toda vez que o homem se aproxima de Deus, ele ganha a libertação e a liberdade. A aproximação de Deus em Jesus Cristo tem como objetivo libertar o homem: libertar para ser livre.


Jesus vem ao encontro do homem para que este se torne mais humano e mais irmão dos outros, e para fazer que o homem seja capaz de se levantar contra si próprio, isto é, contra àquilo que não é humano dentro de si, penetrando até o intimo de seu ser para destruir o que é caduco e podre dentro de si próprio a fim de fazer florescer o que tem de esplêndido e admirável dentro de si. Jesus vem ao encontro do homem para que este seja capaz de jogar para longe as cadeias de seu egoísmo que prejudica a convivência fraterna. Jesus vem ao encontro do homem para que este seja capaz de sentir-se, com todas as suas conseqüências, filho de Deus e irmão dos demais homens. Jesus vem para libertar o homem em sua totalidade a fim de fazê-lo apto para construir o hoje e o aqui do Reino de Deus que Ele anuncia e quer construir como tarefa prioritária de sua vida e missão. Jesus vem para libertar o homem daquilo que se chama “pecado” e que consiste em subverter a escala de valores e no lugar de buscar o Reino de Deus e sua justiça (cf. Mt 6,33), buscar a própria e direta satisfação acima de qualquer valor. Jesus vem para que, ao libertar o homem, desaparecem da terra o ódio, a guerra, a violência, a extorsão, a exploração, a injustiça, a miséria, a opressão, a intolerância, e assim por diante. Jesus vem para construir o homem novo capaz de colaborar na realização da nova terra e do novo céu (cf. Ap 21,1-8).


Jesus veio como o verdadeiro Libertador dos homens. Convém pensar serenamente na passagem do Evangelho deste dia e saborear a cena num momento no qual vivemos na atualidade com proliferação dos que se dizem “libertadores” ou “os liberais” e que pregam tantas “liberdades” ou “libertinagem”. Estamos rodeados dos libertadores oficiais que nos querem liberar para gozar do sexo, da vida, de cada momento que se escapa de nossas mãos como rapidez. No entanto, nunca o homem está tão prisioneiro de si próprio, prisioneiro, precisamente, daquilo por onde dizem que vem a libertação ou uma simples liberação de tudo. Trata-se de uma liberação ou libertinagem que arranca um sorriso limpo e estimulante de tantos lábios, a violência mortal ao impor os próprios modos de conceber a vida a ponta de uma pistola ou de um revolver, a fome que é possível morrer em nossas civilizadas e estupendas cidades, uma solidão que enche de vazio nossas populosas cidades, a injustiça que se traduz em pobreza institucionalizada. Esses são os frutos da liberação ou da libertinagem que nos anunciam os messias de turno. Diante deles se levanta Jesus, com a Escritura na mão, anunciando que real e verdadeiramente libertação consiste em romper as cadeias pessoais para conseguir ser o que se deve ser: filhos de Deus e irmãos dos demais homens. Para um cristão o que deve ser é ser um sincero e verdadeiro filho de Deus, com toda a amplitude e a exigência que essa realidade traz consigo. É preciso escutar a Palavra anunciada por Jesus, a Palavra do Pai.


Na sinagoga Jesus leu uma passagem da Escritura e fez o comentário sobre ela. Os nazarenos ficaram admirados com a explicação de Jesus, mas, ao mesmo tempo, se escandalizaram porque para eles Jesus é o filho de um simples carpinteiro. Jesus que anuncia é tão “humano” e por isso, ele é uma presença de Deus. O anúncio tão humano de Jesus não se trata de filantropia ou de ação social, mas trata-se, precisamente do projeto de Deus e da ação do Espírito Santo: “O Espírito do Senhor está sobre mim para...”. A presença de Jesus é uma chuva de benefícios para todos: para os pobres, para os cativos, para os cegos, para os oprimidos...   


Quando escutamos a Palavra de Deus, temos que recebê-la não como um discurso humano e sim como uma Palavra que tem um poder transformador em nós, pois tudo o que diz está profundamente cheio de sentido e de amor. Deus não fala para nossos ouvidos e sim para nosso coração. A Palavra de Deus é uma fonte inextinguível de vida. A Palavra de Deus sai do próprio coração de Deus. Desse Coração, do seio da Trindade veio Jesus, a Palavra do Pai, para os homens (cf. Jo 1,1-4.14).


Por isso, cada dia, quando lemos ou escutamos o Evangelho, nós temos que dizer, como Maria: “Faça-se em mim segundo a Tua Palavra” (Lc 1,38). Ao que Deus nos responderá: “Hoje se cumpriu a Escritura que acabastes de ouvir”. Os nazarenos não compreenderam as palavras de Jesus, pois olhavam somente com os olhos humanos: “Não é este o filho de José?” (Lc 4,22). Viam a humanidade de Jesus, mas se escondia a Sua divindade aos olhos dos nazarenos. Toda vez que escutamos a Palavra de Deus, além de seu estilo literário, da beleza das expressões ou da singularidade da situação, temos que saber e estar conscientes de que é Deus Quem nos fala.


O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa Nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar um ano da graça do Senhor”, disse Jesus, citando o profeta Isaias. Jesus se sente ungido pelo Espirito de Deus. Por isso, Ele é chamado “Cristo”, o Ungido. Os seguidores de Cristo serão chamados de “cristãos”, isto é, os ungidos de Deus. Ninguém pode ser chamado de “cristão” sem viver o espirito de Jesus. O espirito de Jesus consiste em libertar os oprimidos de todos os tipos de escravidão, em dar e defender vida, em alegrar e consolar os tristes, em ajudar os pobres e assim por diante. Viver como cristão é viver como ungido de Deus a exemplo do próprio Cristo.


O Senhor “ me enviou para proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos”. A vida de Jesus é nossa vida. A missão de Jesus é nossa missão. Temos missão de libertar as pessoas de suas “ataduras” de vida; de fazer as pessoas enxergarem sua vida e a realidade ao redor para tomar posição como cristão, de viver na alegria do Senhor apesar dos contra-tempos. Mas para podermos libertar os outros temos ser, primeiro, livres, pois somente quem é livre pode libertar. É bom cada um de nós lançar a seguinte pergunta: “Será que eu vivo e convivo com os demais como ungido de Deus?”.
 
P. Vitus Gustama,svd

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Domingo,30/08/2015
 
A PUREZA DO AGIR DEPENDE DA PUREZA DO CORAÇÃO

XXII DOMINGO DO TEMPO COMUM ANO “B”


Evangelho: Mc 7,1-23

Naquele tempo, 7 1 os fariseus e alguns dos escribas vindos de Jerusalém tinham se reunido em torno de Jesus. 2 E perceberam que alguns dos seus discípulos comiam o pão com as mãos impuras, isto é, sem as lavar. 3 Com efeito, os fariseus e todos os judeus, apegando-se à tradição dos antigos, não comem sem lavar cuidadosamente as mãos; 4 e, quando voltam do mercado, não comem sem ter feito abluções. E há muitos outros costumes que observam por tradição, como lavar os copos, os jarros e os pratos de metal. 5 Os fariseus e os escribas perguntaram-lhe: “Por que não andam os teus discípulos conforme a tradição dos antigos, mas comem o pão com as mãos impuras?” 6 Jesus disse-lhes: “Isaías com muita razão profetizou de vós, hipócritas, quando escreveu: ‘Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. 7 Em vão, pois, me cultuam, porque ensinam doutrinas e preceitos humanos’. 8 Deixando o mandamento de Deus, vos apegais à tradição dos homens”. 14 Tendo chamado de novo a turba, dizia-lhes: “Ouvi-me todos, e entendei. 15 Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa manchar; mas o que sai do homem, isso é que mancha o homem. 21 Porque é do interior do coração dos homens que procedem os maus pensamentos: devassidões, roubos, assassinatos, 22 adultérios, cobiças, perversidades, fraudes, desonestidade, inveja, difamação, orgulho e insensatez. 23 Todos estes vícios procedem de dentro e tornam impuro o homem”.        
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ENTRAR NO CONTEXTO DO TEXTO


Depois de termos meditado durante quatro (ou cinco) domingos seguidos sobre o discurso de Jesus sobre o Pão da Vida em Jo 6, voltamos novamente a refletir sobre o Evangelho de Marcos até o fim do Tempo Comum do ano litúrgico “B”.


Mc 7,1-23 faz parte de uma seção de Mc 6,6b-8,30 onde se relata a revelação de Jesus e o reconhecimento inicial de seus discípulos através da profissão petrina (Mc 8,29).
 

O fracasso em Nazaré (cf. Mc 6,1-6ª) não deixa Jesus ficar paralisado em sua missão. Ao contrário, Mc mostra Jesus plenamente mobilizado para a missão. Ele não desiste diante do fracasso por estar consciente da seriedade de sua missão de levar adiante a Palavra de Deus que consiste em salvar a humanidade. Assim que ele foi rejeitado em sua pátria, Jesus começa a percorrer as redondezas e  a ensinar nos povoados “ensinando, percorria as aldeias circunvizinhas” (Mc 6,6b) e não mais em sinagogas (mais tarde somente no Templo de Jerusalém antes de sua morte. Cf. Mc 11,1515ss). Do mesmo modo, os doze serão enviados não para entrar nas sinagogas, e sim nas casas (cf. Mc 6,10). Daqui em diante as sinagogas desaparecerão praticamente do Evangelho de Mc. As sinagogas serão recordadas como lugares em que os discípulos serão torturados por causa de Jesus (cf. Mc 13,9).


Jesus deve seguir adiante para alcançar seu objetivo de ser reconhecido em sua verdadeira identidade. Abre-se, assim, a terceira etapa de seu ministério onde haverá a revelação de Jesus e reconhecimento inicial de seus discípulos (Mc 6,6b-8,30). A missão dos doze (Mc 6,7-12) prepara a missão do próprio Jesus. A tarefa dos doze é a de preparar, embora sejam enviados com alguns poderes de dominar os demônios para libertar os endemoninhados e para pregar a conversão. Como o fruto deste envio, Jesus recebe algumas resposta sobre a sua identidade: um profeta, João Batista ressuscitado (Mc 6,14-16) e outras opiniões relatadas em Mc 8,27.


Esta nova etapa começa de modo similar às etapas anteriores: Mc 6,6b narra Jesus como um Mestre itinerante que se segue de imediato um relato sobre o envio dos doze (Mc 6,7-13). O resto da narração será dominado pela seção que pode ser chamada “Seção dos pães” (Mc 6,30-8,26), que aparece emoldurada em dois relatos interessados em apresentar as opiniões existentes sobre a pessoa de Jesus (Mc 6,14-29 e 8,27-30). A recusa e a incompreensão darão passo a um reconhecimento inicial da pessoa de Jesus por parte de seus discípulos. Apesar de sua cegueira os discípulos acabarão vendo algo com claridade. Pedro confessará Jesus como Messias(Mc 8,29).


REFLEXÃO SOBRE O TEXTO DO EVANGELHO DE HOJE


Podemos dividir o texto em três partes: primeiro (vv.1-13), relata-se o conflito entre Jesus e os dirigentes judeus (fariseus e doutores da Lei); segundo (vv. 14-16), Jesus anuncia a nova moralidade para a multidão; e terceiro(vv. 17-23), relata-se a conversa particular entre Jesus e seus discípulos.


1. Conflito entre Jesus e os dirigentes judeus (fariseus e doutores da Lei): vv.1-13


O similar confronto direto entre Jesus e os oficiais judeus pode-se encontrar em Mc 2,1-28 onde Jesus é desafiado pelos dirigentes a respeito da observância do Sábado; e  em Mc 3,1-6 Jesus faz o contra-ataque.  Aqui, neste relato, Jesus é desafiado pelos dirigentes judeus em Mc 7,1.2.5; e Jesus faz o contra-ataque nos vv.6-13.


A questão levantada do Evangelho deste domingo diz respeito a um elemento central da religião judaica: as purificações ou o que torna profano o homem. E Marcos coloca no centro da seção a crítica que Jesus faz da tradição do judaísmo e, em oposição a ela, Jesus coloca o novo conceito do profano.


Na mentalidade do judaísmo, Israel era o povo consagrado por Deus (Dt 7,6;14,2; Dn 7,23.27); todos os demais povos eram profanos, quer dizer, não estavam vinculados, como Israel, com o verdadeiro Deus. Para os fariseus, a maneira de manter-se no âmbito do sagrado era a observância da Lei tal como eles a interpretavam, porque esta expressava a vontade de Deus. Daí é que, inclusive dentro do povo de Israel, eles estabeleciam a distinção entre “sagrado” e “profano” aplicada a pessoas: pertenciam ao povo “santo/consagrado” os que observavam fielmente a Lei; e eram “profanos”, separados de Deus, os que não se atinham minuciosamente a ela.


Além dessa mentalidade, para um fariseu, o contato com pessoa “profana” punha em perigo a própria consagração a Deus; por conseguinte, devia-se tomar precauções, em particular com os alimentos, manuseados por gente de cuja observância não constava. Como consequência, antes de comer, era preciso lavar ritualmente as mãos que tinham tocado esses alimentos ou qualquer coisa do mundo exterior ou de qualquer contaminação sofrida na praça, pelo contato com os pecadores, publicanos, pagãos ou simplesmente com o povo que não observava a Tradição dos Anciãos. Só assim, para eles se assegurava o próprio caráter sagrado, o vínculo com Deus. Para os fariseus, então, o contato com o mundo criado, profano, contaminava o homem. Caso fosse questionada essa distinção, a religião judaica, segundo eles, ruiria pela base.


No Evangelho de hoje, os fariseus e os escribas parecem vir de Jerusalém só para observar a maneira como os discípulos comem. Escandalizados pela conduta dos discípulos, que romperam com a tradição dos antigos por não terem lavado as mãos antes de comer, os escribas e os fariseus se dirigem a Jesus para censurar ou fiscalizar a atitude desses discípulos através de uma pergunta “por que?”.


Até aqui podemos tirar uma lição. Os fariseus (e os escribas) se preocupam com a observância externa da lei. A preocupação externa da lei sempre constitui um perigo para aqueles se dizem “piedosos”, pois eles podem se achar melhores que os outros. Consequentemente eles se tornam arrogantes diante dos outros, pois falta-lhes a caridade fraterna pela censura que eles fazem. Quando se trata da censura porque aquele que censura se coloca superior aos outros. Quando se trata da correção fraterna, aquele que corrige fica ao lado de quem erra e não se acha superior. Quando houver o legalismo demasiado numa pessoa, a caridade fraterna se torna distante dela, pois ela fica observando a vida alheia para censurá-la. Será que este tipo de pessoa não tem nada para fazer na vida?
 

Na sua resposta, Jesus se coloca na linha dos profetas para atacar a hipocrisia dos fariseus (e os escribas). Ao citar Is 29,13, Jesus denuncia o culto vazio e acusa os fariseus (e os escribas) abertamente de hipócritas, isto é aqueles que, desempenhando o papel de bons atores, fingem uma religião de exterioridade (lábios) sem compromisso com a vida (coração). O apego exagerado às tradições humanas, que foram criadas para facilitar o cumprimento da Lei divina, leva-os a esvaziar os mandamento de Deus. Eles têm apenas o conformismo falso. O conformismo falso vem da pressão externa. E o comportamento que resulta disto é a hipocrisia. E não existe uma hipocrisia mais sutil e perigosa do que aquela que tem sua origem na manipulação religiosa, pois ela usa a vontade de Deus como instrumento para controlar os mecanismos humanos de reação. Fazer tudo por motivo puramente humano o que é divino significa atentar contra a absoluta santidade de Deus.


Para provar ainda mais a hipocrisia dos fariseus (e os escribas), Jesus fala do quarto mandamento onde se acentua o Corbã (oferta). O Corbã é o compromisso que uma pessoa tem para consagrar a Deus os próprios bens (cf. Lv 2,1-15;27,28-29). E quando esses bens forem destinados/consagrados para Deus (para o tesouro do Templo), eles se tornarão intocáveis. Aparentemente é um ato louvável, mas na realidade os pais ficam privados do sustento necessário. Declarando que seu dinheiro é Corbã, um filho é livre da obrigação de ajudar seus pais necessitados e pode continuar desfrutando do seu dinheiro. Por isso, é que Jesus os critica como hipócritas. Por outro lado, a Lei de Moisés é clara ao ordenar “honrar” pai e mãe(cf. Ex 21,17;19,2-3;Lv 20,9;Dt 5,16). Isto queria dizer, concretamente, prestar assistência aos pais, especialmente na doença e na velhice. Em outras palavras, “honrar” significa também sustentar os pais economicamente. A importância deste quarto mandamento podemos encontrar muitíssimos textos bíblicos. Veja, por exemplo, Eclo 3,2-16 onde se acentua a importância de honrar os pais.  Nunca um fiel pode procurar Deus para se livrar das obrigações familiares. Nunca pode entregar os bens para “Deus” deixando a família numa miséria. Nenhum filho de Deus pode tirar o pão da boca dos pais para oferecê-lo a Deus. Este é um dos perigos da metodologia da “teologia da prosperidade” que é bem conhecido atualmente. Se o filho quiser agradar a Deus, deve saber agradar aos pais. Ou se um fiel quiser agradar a Deus, deve saber agradar ao próximo. A Palavra de Deus não pode fica estéril por causa da tradição humana. A Palavra de Deus, ao contrário, deve iluminar a tradição humana. Um culto religioso deve importar-se com a situação dos irmãos necessitados. “Vós abandonais o mandamento de Deus para seguir a tradição dos homens”, é um alerta muito sério para nós, filhos e filhas de Deus.


2. O Anúncio de Jesus sobre a nova moralidade para seus seguidores e a multidão (vv.14-16)


Depois que atacou a hipocrisia dos fariseus(e os escribas), Jesus expõe tanto para os fariseus e os escribas como para a multidão e os discípulos o princípio válido para a humanidade toda: o que separa o homem de Deus não é o que procede de fora dele; portanto, o homem não se torna profano nem sai da esfera de Deus pelo contato com o mundo exterior. O puro e o impuro não devem ser procurados fora do homem, mas no seu coração. O “coração” é o centro do projeto da vida, como princípio do agir humano (cf. Dt 6,5; Sl 24,4;51,12;119,11). Se o coração for bom, os gestos do relacionamento humano obedecem aos imperativos de santificar a convivência. Mas se o coração for mau, a vida é envenenada pela insatisfação, pela inveja, pelo ciúme, pelo sensualismo e pelas más intenções. O coração é a fonte do bem e do mal. Por isso, o homem é puro (consagrado a Deus) não pelas abluções externas, e sim pela sua fidelidade interior à Lei de Deus.  Esse critério suprime toda discriminação entre os seres humanos baseada em preceitos, ritos ou observâncias religiosas. Em princípio, todo homem é sagrado (1Cr 3,16-17) e toda criatura de Deus é boa em si mesma (Gên 1,10.12.18.21.25.31) e pode ser benéfica para o homem. É o próprio homem e só ele que pode romper o vínculo com Deus. Para Jesus, o teste decisivo para saber se o coração está perto de Deus é o comportamento fraterno para com o próximo. Só os ídolos se satisfazem com os louvores e ritualismo estéril e vazio(cf. Am 5,21-27;Is 1;Jr 7). Este apelo é tão importante que até todo o trecho está enquadrado pelo apelo a escutar: “Escutai todos e compreendei...Se alguém tem ouvidos para ouvir, ouça!”(vv.14b.16).


Em segunda lugar, a relação com Deus não depende da observância de normas ou de gestos religiosos, mas da atitude para com os demais seres humanos. Neste Evangelho Jesus mesmo produz uma razoável lista do que seriam as impurezas. Nesta lista encontramos 12 vícios (seis no plural e seis no singular) que causam impureza nas pessoas e indicam quais são os pontos sobre os quais cada pessoa que se julga religiosa deve examinar-se (prostituições, roubos, assassínios, adultérios, ambições desmedidas, maldades; malícia, devassidão, inveja, difamação, arrogância e insensatez). No fundo, o que Jesus rejeita é tudo que fere a qualidade humana da vida e o direito do irmão e o que impede que cresçam a fraternidade, a ternura, a verdade, o respeito mútuo, a solidariedade.


3.  A conversa particular entre Jesus e seus discípulos sobre o puro e impuro(vv. 17-23)


Quando chegaram em casa, os discípulos perguntaram a Jesus sobre o sentido da “parábola”. Os discípulos se encontraram sozinhos com Jesus em casa. Este detalhe nos transmite uma mensagem: quem anda com Jesus ou segui-Lo não somente se distancia da sinagoga, mas também da sua ideologia sobre a questão do puro e do impuro baseados unicamente na observância externa da tradição humana.


O que nos chama atenção deste encontro é que os discípulos não compreendem nem entendem sobre o princípio de Jesus sobre o puro e o impuro. Muitas vezes os discípulos são apresentados como aqueles que não “compreendem” nem “entendem” (cf. Mc 4,9.12;6,52;7,14). Eles continuam a ser pessoas “de fora” (cf. Mc 4,11-12), e continuam sendo dominados pela ideologia dos adversários de Jesus. Por isso, Jesus tem que explicar novamente o sentido de suas palavras.

  
Jesus enfatiza novamente que aquilo que entra na pessoa não vai ao coração para contaminá-lo e sim vai diretamente ao estômago (digestão). O que faz uma pessoa pura ou impura é o seu coração. O coração, aqui, não é o sentimento, e sim consciência e sede das opções. Essa consciência será geradora de pureza ou de impureza de uma pessoa. Ela é a causadora dos projetos bons ou maus, de vida ou de morte.


O que podemos aprender como lição de tudo que foi dito? Pela vida afora encontramos ou nós mesmos, muitas vezes, somos fiscais do comportamento alheio, gente sempre pronta a julgar o próximo a partir de detalhes, muitas vezes, mínimos. Muitos são do tipo semelhante ao nós chamamos de “macaco que não atenta para o tamanho do próprio rabo”. Às vezes são até pessoas boas, que acabam estragando a convivência porque adoram exibir o seu estrito cumprimento de todas as regras, sociais religiosas, com o propósito de diminuir os demais. Muitas vezes também nós andamos a toda hora medindo a piedade alheia pelos padrões das nossas próprias normas, sem perceber que, ao fazermos isso, estamos bloqueando o acolhimento, o testemunho de comunhão tão mais importante na Igreja e na vida cotidiana.
   

Honrar Deus de verdade, para Jesus, não é apenas estar em dia com os regulamentos nem seguir devoções particulares. É fazer prevalecer a caridade, estar ao lado dos que sofrem que nos exigem gestos concretos para com eles.
    

Jesus não nega o valor dos atos exteriores. Ele surge daquilo que está no coração da pessoas que age(vv.20-23). A grande tentação é viver de atos exteriores que podemos controlar. Mas a vida no Espírito é antes uma realidade interior. A partir daí, o exterior é manifestação de uma verdade mais profunda.
    

O Espírito age no interior das pessoas, e faz com que a comunidade também tenha uma comunicação sincera nas coisas. A comunidade não se cria por decreto. Ela nasce quando as pessoas têm um coração que sabe amar e respeitar aos outros e quando fazem circular um espírito novo, de união e de preocupação mútua pelo crescimento dos outros.
     

Em segundo lugar, os cristão não desprezam nenhuma “tradição”, mas todas devem ser submetidas a uma verificação. Devem avaliar para poder saber se representam a expressão de exigências evangélicas ou se produzem costumes derivados de gestos e formas de pensar dos homens de determinado lugar ou de um determinado período histórico.


Se quisermos cumprir a lei de Deus, devemos ter em vista sempre, em primeiríssimo lugar, os objetivos do projeto de Deus. Ele quer mais vida, mais amor, mais compaixão e misericórdia, mais partilha, mais igualdade e mais justiça. Esse é o critério mais evangélico para avaliar a legitimidade do nosso modo de seguir a lei ou a tradição, ainda hoje. Somos Igreja para nos ajudarmos uns aos outros a crescer, não para virarmos fiscais das virtudes e da vida alheias. Somos chamados a construir um mundo mais humano e fraterno, pois Deus é o Pai de todos.
   

A todos nós que queremos nos aproximar de Deus, Jesus pede uma única purificação: purificar o coração antes de purificar a mão para que amemos mais os outros do que os julguemos.  Este é o meio eficaz para convencer o mundo que somos verdadeiros cristãos. Trata-se de um exame de consciência para verificar quais os sentimentos que nós alimentamos em relação aos irmãos.


Portanto, vale a pena cada um de nós se perguntar: “Que atitudes farisaicas que eu detecto na minha vida, nas minhas relações com os demais e com Deus?” E Jesus nos diz: “É de dentro do coração humano que saem as más intenções, imoralidades, roubos, assassínios, adultérios, ambições desmedidas, maldades, fraudes, devassidão, inveja, calúnia, orgulho, falta de juízo. São todas estas coisas que tornam impuro o homem”. Cada um precisa se perguntar: “O que é que sempre sai do meu coração que me torna impuro? E como eu vejo os demais?” Somos fariseus quando aparentamos por fora uma coisa e por dentro pensamos ou fazemos o contrário.
 

P. Vitus Gustama,svd