sábado, 6 de fevereiro de 2016

11/02/2016


CRISTO E SEUS ENSINAMENTOS SÃO O CAMINHO QUE NOS LEVA À VIDA
Quinta-Feira Depois Das Cinzas


Primeira Leitura: Dt 30,15-20;


Moisés falou ao povo dizendo: 15 “Vê que eu hoje te proponho a vida e a felicidade, a morte e a desgraça. 16 Se obede­cerdes aos preceitos do Senhor teu Deus, que eu hoje te ordeno, amando ao Senhor teu Deus, seguindo seus caminhos e guardando seus mandamentos, suas leis e seus decretos, viverás e te multiplicarás, e o Senhor teu Deus te abençoará na terra em que vais entrar, para possuí-la. 17 Se, porém, o teu coração se desviar e não quiseres escutar, e se, deixando-te levar pelo erro, adorares deuses estranhos e os servires, 18 eu vos anuncio hoje que certamente perecereis. Não vivereis muito tempo na terra onde ides entrar, depois de atravessar o Jordão, para ocupá-la. 19 Tomo hoje o céu e a terra como testemunhas contra vós, de que vos propus a vida e a morte, a bênção e a maldição. Escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e teus descendentes, 20 amando ao Senhor teu Deus, obedecendo à sua voz e apegando-te a ele, pois ele é a tua vida e prolonga os teus dias a fim de que habites na terra que o Senhor jurou dar aos teus pais Abraão, Isaac e Jacó”.


Evangelho: Lc 9, 22-25


Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 22 “O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e doutores da Lei, deve ser morto e ressuscitar no terceiro dia”. 23 Depois, Jesus disse a todos: “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia e siga-me. 24 Pois quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, esse a salvará. 25 Com efeito, de que adianta a um homem ganhar o mundo inteiro, se se perde e se destrói a si mesmo?”
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Caminho Do Bem e Do Mal, Do Amor e Do Ódio, Da Vida e Da Morte


Na vida nos encontramos com duas realidades bem definidas. O caminho da vida, pelo qual todos nós aspiramos; e o caminho da morte, contra tudo que lutamos. O caminho do amor que nos leva até Deus e até o próximo, e o caminho do ódio que nos leva à vida sem sentido e por isso, não nos leva à comunhão com Deus e com os irmãos. Há duas palavras usadas: SIM ou NÃO diante dos dois caminhos cada qual tem consequências diferentes. É tão importante o valor do Sim e Não a ponto de Jesus nos dizer no Sermão da Montanha: “Seja o vosso SIM, SIM, e vosso NÃO, NÃO. O que passa disso vem do Maligno” (Mt 5,37). No SIM  ou no NÃO estabelecemos o sentido e a meta de nossa vida. Quem tem uma razão de viver é capaz de suportar qualquer coisa na caminhada desta vida. Quando nossa vida estiver plena de sentido, todos os passos de nossa vida não se tornarão cansativos, e sim passos necessários em direção à meta que estabelecemos, pois nisso encontramos o sentido de nossa vida ou de nossa passagem neste mundo.


O tema dos dois caminhos, o caminho da vida e o caminho da morte, é muito típico das literaturas religiosas da antiguidade como encontramos no terceiro discurso que o Deuteronômio põe na boca de Moisés que lemos na primeira leitura de hoje (Dt 30,15-20) . O autor do Deuteronômio não se cansa de insistir na escolha que cada pessoa (judeu) deve fazer entre dois caminhos. E cada judeu é convidado insistentemente a escolher o primeiro caminho: o caminho da bênção e da felicidade.


Moisés apresenta a Israel dois caminhos incompatíveis: vida ou morte, bênção ou maldição de acordo com a escolha feita entre servir a Deus ou optar pela idolatria. A vida e a felicidade, segundo as Sagradas Escrituras, dependem da obediência aos mandamentos do Senhor. A felicidade é uma benção  por ser efeito da própria vida de Deus comunicada ao seu povo fiel. E a infelicidade é uma maldição pelas razoes inversas. O caminho da morte e da desgraça parte do coração desviado, dividido, e da idolatria. A chamada de Deus é uma opção que coloca o homem diante do dilema da bênção ou da maldição divinas. É óbvio que o Senhor exorta amavelmente a cada pessoa a escolher a senda boa e certa.


Todos os dias nós estamos diante de dois caminhos: do bem ou do mal, da vida ou da morte, da concórdia ou da discórdia, da união ou da divisão, da fartura ou da fome, do louvor ou da condenação, e assim por diante. No intercâmbio da vida que vivemos é possível projetar uma atitude de satisfação ou aborrecimento. Podemos oferecer ou partilhar amor com as pessoas com as quais convivemos ou trabalhamos ou abrigar o ódio, o ciúme ou a inveja no nosso coração. Como vai ser o andamento da minha vida para frente depende da escolha que eu faço em cada momento, para o bem ou para o mal. “A maturidade emocional segue nos calcanhares das escolhas responsáveis. Nunca mais esperarei que outra pessoa venha a me fazer feliz. Hoje posso usar meu poder para ser feliz” (Karen Casey e Martha Vancenburg). A maturidade emocional jamais culparia ou elogiaria outras pessoas pelo meu bem-estar ou meu mal-estar. Quando estamos insatisfeitos, podemos optar por mudar. Esperar resultado diferente enquanto continuamos fazendo as mesmas coisas e seguimos os mesmos ritmos da vida é uma verdadeira insanidade.  É necessário fazermos uma reforma estrutural de nossa vida, pois não somos pessoas acabadas do ponto de vista da perfeição. Cada momento da minha vida é meu agora. E agora é o momento de dever decidir por mim mesmo quem sou, aonde estou indo e por quê, o que estou querendo para o meu bem e através de mim para o bem dos outros. O meu momento é agora. Aquele que não valorizar o tempo, vai enterrar muitas oportunidades na vida. E quando chegar a velhice, ele vai virar uma pessoa frustrada e vai perder o sabor da convivência fraterna. Confúcio, sábio chinês, dizia: “Qual seria sua idade se não soubesse quantos anos você tem?”.


Trata-se de duas opções possíveis, sempre oferecidas para nossa livre escolha de cada dia, porém suas conseqüências são totalmente diferentes. Ninguém pode tomar o veneno mortal sem aceitar sua conseqüência fatal. Diariamente cada pessoa deve perguntar-se: que escolha que vou fazer hoje e quais são conseqüências desta escolha? Será que vale a pena falar determinada coisas e fazer determinada opção? Tudo que for feito por precipitação, na maioria das vezes, causa estrago para nossa vida e a vida dos outros. Quando começarmos a levar a sério o nosso ser, não viveremos mais na superficialidade. Para quem sabe o que quer e ama seu propósito e seus sonhos e não descansa até vê-los realizados, tudo o que espera chegará. O propósito é um estilo de vida, uma atitude, uma convicção e uma posição que cada pessoa deve assumir assim que o novo dia começar. Um provérbio japonês diz: “Não diga que é impossível. Diga, simplesmente, ainda não fiz”. O filósofo Epicteto dizia: “Se tu procuras algo bom, procura-o em ti mesmo até que o encontres”. Tudo parte de nosso coração.


Contemplando nossa realidade, percebemos que há alguns ou muitos lados escuros de nossa vida como fruto do egoísmo do ser humano. Muitos confundiram a felicidade com o possuir o passageiro. Os homens dessa classe se tornam, muitas vezes, compradores compulsivos de coisas que finalmente lhes continua deixando o coração vazio, pois, mais uma vez, os bens materiais continuam sendo alheios a nós. Precisamos de alguém, e não de algo, com quem possamos nos abafar e contar nossos sucessos e fracassos.


Jesus É O Caminho Que Nos Leva À Vida e Ao Pleno Sentido De Nossa Vida


No Evangelho de João, Jesus se define como o Caminho, por excelência: “Eu sou o CAMINHO, a Verdade e a Vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14,6). No AT, o caminho tem três sentidos. Primeiro, é o plano divino sobre o mundo ancorado na vontade insondável de Deus (cf. Is 55,8-9). Essa vontade se encontram nos mandamentos de Deus. O segundo sentido é o de caminho da vida. A vida inteira do homem é caminho (Pr 20,24). Enfim, “caminho” significa a condução da vida, o comportamento do homem com referência aos mandamentos de Deus (cf. Gn 18,19). A expressão “caminho de Deus” designa o modo humano de conduzir a vida mandada por Deus (cf. Mc 12,44). Jesus Cristo, porém, não precisa de nenhum caminho para o Pai, pois Ele mesmo é o caminho. Mas não somente o caminho e sim a meta do caminho, ou seja, a vida (cf. Hb 10,20).


Jesus Cristo nos ensina, não somente com palavras, e sim com seu próprio exemplo que o caminho da felicidade, o caminho da vida se encontra na capacidade de nos relacionarmos com os demais e de vivermos fraternalmente unidos pelo amor. Por isso, temos de ir atrás das pegadas de Cristo, carregando nossa cruz de cada dia. Quem andar por um caminho diferente ao de amor que Cristo nos mostrou, em lugar de dar vida, dará morte, e ele próprio se converterá em destruidor da vida alheia e da própria vida.


A glória de Cristo passa, primeiro, pela cruz. E passa pela cruz como conseqüência de sua maneira de viver a missão cuja alma é o amor, a partilha, a igualdade, a fraternidade, a compaixão... Por isso, a cruz de Jesus não é um acidente, tampouco uma equivocação. Quando Jesus anuncia sua morte, não está dizendo outra coisa que assumirá conseqüentemente sua vida justa e solidária. Mas não somente anuncia sua morte, anuncia também sua ressurreição. É a ressurreição que somente virá como conseqüência de sua morte na cruz pela vida justa e solidaria que ele viveu. O ressuscitado é o crucificado. Jesus realmente vive com o propósito claro: sabe o que quer e sabe o que vai alcançar. Jesus não pára no meio do caminho sabendo das conseqüências de sua missão, porém sabe muito mais o bom resultado.


Por isso, podemos ter metas, projetos, propósitos, mas sem autoestima, os resultados que esperamos continuarão sem aparecer. Na verdade, todos nós nascemos gênios, mas infelizmente muitos morrem na mediocridade, pois não sabem o que querem e não lutam para alcançar o que querem. Sêneca dizia: “Nenhum vento é bom para o barco que não sabe aonde vai”.


“Tomar a cruz”, por isso, não é outra coisa que assumir o projeto de vida que Jesus nos mostrou. A cruz é o resultado de decisões voluntárias e compromissos escolhidos ao querer seguir a Jesus e assumir seu projeto. Carregar a cruz é um estilo de vida cotidiano como resultado da ênfase sobre os valores do Reino, de escolher uma ética de justiça e de solidariedade e de comprometer-se com o projeto de Deus na transformação de um mundo mais fraterno.


Portanto, as leituras de hoje nos falam, por um lado, de um coração resistente diante de Deus, e por outro lado, de um coração que se adere a Deus. Meu coração é resistente diante de Deus quando não quero ver Sua graça, quando não quero ver Sua obra na minha vida, quando não quero ver Seu caminho sobre a minha existência. Meu coração se adere a Deus, quando em meio de mil inquietudes e vicissitudes, em meio de mil circunstancias, eu vou sendo capaz de descobrir, de encontrar, de amar, de pôr-me diante d’Ele e Lhe dizer: “Aqui estou, Senhor! Pode contar comigo!”. Escutar Deus será o esforço de toda minha quaresma, será a minha escolha da vida e da felicidade. O céu e a terra são testemunhas da minha opção de cada dia: “«Tomo hoje por testemunhas contra vós o céu e a terra; ponho diante de vós a vida e a morte, a bênção e a maldição. Escolhe a vida para viveres, tu e a tua descendência, amando o SENHOR, teu Deus, escutando a sua voz e apegando-te a Ele, porque Ele é a tua vida e prolongará os teus dias para habitares na terra, que o SENHOR jurou que havia de dar a teus pais, Abraão, Isaac e Jacob.»


Um dia Brahma (Deus criador do universo no hinduísmo) na reunião com outros deuses se pronunciou solenemente: “Já tomei uma decisão. Vamos guardar nosso segredo (de felicidade) num lugar no qual os mortais (homens) jamais procurariam. Nós o esconderemos dentro deles mesmos (no seu coração)”.


Nossa felicidade está dentro de nosso coração. O caminho para lá é bem longe e duro, pois temos que ter coragem de nos encarar e de admitir o que não está funcionando em nós e a honestidade e a força para procurar a solução. Tudo na nossa vida parte de nosso coração. Quando vivemos de acordo com nossa integridade e a desenvolvemos, em vez de estarmos em constante conflitos internos devido às nossas flutuações sem colocar os pés na realidade, descobriremos uma passagem mais fácil na travessia dos obstáculos que todos encontram na vida. A força e a evolução vem do conhecimento de nós mesmos, de sabermos o que é importante para nós. O fundamental na vida é saber o que tem importância para nós. O importante na vida é saber qual é o foco que nos leva à vida frutífera. “Eu ponho diante de vós a vida e a morte, a bênção e a maldição... Escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e teus descendentes”, diz-nos a Palavra de Deus hoje.


Inspirai, ó Deus, as nossas ações e ajudai-nos a realizá-las, para que em vós comece e termine tudo aquilo que fizemos. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, na unidade do Espírito Santo” (Oração da Coleta do dia).

P. Vitus Gustama,svd

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