sábado, 20 de fevereiro de 2016

22/02/2016




SER MISERICÓRDIOSO COMO O PAI DO CÉU


Segunda-Feira da II Semana da Quaresma


Primeira Leitura: Dn 9,4b-10


4b “Eu te suplico, Senhor, Deus grande e terrível, que preservas a aliança e a benevolência aos que te amam e cumprem teus mandamentos; 5 temos pecado, temos praticado a injustiça e a impiedade, temos sido rebeldes, afastando-nos de teus mandamentos e de tua lei; 6 não temos prestado ouvidos a teus servos, os profetas, que, em teu nome, falaram a nossos reis e príncipes, a nossos antepassados e a todo povo do país. 7 A ti, Senhor, convém a justiça; e a nós, hoje, resta-nos ter vergonha no rosto: seja ao homem de Judá, aos habitantes de Jerusalém e a todo Israel, seja aos que moram perto e aos que moram longe, de todos os países, para onde os escorraçaste por causa das infidelidades cometidas contra ti. 8 A nós, Senhor, resta-nos ter vergonha no rosto: a nossos reis e príncipes, e a nossos antepassados, pois que pecamos contra ti; 9 mas a ti, Senhor, nosso Deus, cabe misericórdia e perdão, pois nos temos rebelado contra ti, 10 e não ouvimos a voz do Senhor, nosso Deus, indicando-nos o caminho de sua lei, que nos propôs mediante seus servos, os profetas”.


Evangelho: Lc 6,36-38


Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 36 "Sede misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso. 37 Não julgueis, e não sereis julgados; não condeneis, e não sereis condenados; perdoai, e sereis perdoados; 38 dai, e dar-se-vos-á. Colocar-vos-ão no regaço medida boa, cheia, recalcada e transbordante, porque, com a mesma medida com que medirdes, sereis medidos vós também".
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O texto do evangelho deste dia faz parte do Sermão de Jesus chamado Sermão da Planície no evangelho de Lucas (Lc 6,20-49). Chamado de Sermão da Planície é para distingui-lo do Sermão da Montanha de Mateus (Mt 5-7). Se em Mateus Jesus faz seu Sermão no topo da montanha, em Lucas Jesus faz o Sermao na planície depois que Jesus na companhia dos discípulos desceram da montanha onde os Doze Apóstolos foram escolhidos (Lc 6,12-16). O Sermão da Planície é muito mais breve do que o Sermão da Montanha.


“Sede misericordiosos como também o vosso Pai é misericordioso”


 A Igreja tem a missão de anunciar a misericórdia de Deus, coração pulsante do Evangelho, que por meio dela deve chegar ao coração e à mente de cada pessoa. A Esposa de Cristo assume o comportamento do Filho de Deus, que vai ao encontro de todos sem excluir ninguém. No nosso tempo, em que a Igreja está comprometida na nova evangelização, o tema da misericórdia exige ser reproposto com novo entusiasmo e uma ação pastoral renovada. É determinante para a Igreja e para a credibilidade do seu anúncio que viva e testemunhe, ela mesma, a misericórdia. A sua linguagem e os seus gestos, para penetrarem no coração das pessoas e desafiá-las a encontrar novamente a estrada para regressar ao Pai, devem irradiar misericórdia” (Papa Francisco: Bula Misericordiae Vultus n.12).


 O texto do evangelho lido e proclamado neste dia fala da moral cristã que se caracteriza pelo fato de que é, habitualmente, uma imitação de Deus, e por isso, não é uma simples moral humana. Na sua primeira Carta são João diz: “Deus é amor” (1Jo 4,8.16), e são Lucas diz no evangelho deste dia: “Deus é misericórdia”.  Em Mateus Jesus diz: “Sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5,48). Em Lucas Jesus diz: “Sede misericordiosos como também o vosso Pai é misericordioso”. Para o evangelista Lucas a perfeição cristã consiste na prática da misericórdia. Ser verdadeiro cristão, segundo Lucas, é imitar o Deus de amor e de misericórdia. Consequentemente, na vivência do amor e da misericórdia não haverá lugar para o julgar e o condenar do próximo.


O cristão deve ser reconhecível e reconhecido pelo amor (e pela misericórdia; cf. Jo 13,35). Jesus concebe este amor não como um sentimento e sim como uma atuação. Não é um simples sentimento humanitário. Este amor do qual fala Jesus tem uma raiz existencial: a realidade do Pai: "Sede misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso”. É o Pai quem dá sentido ao amor vivido na fraternidade. Através do amor misericordioso vivido Deus reconhece o homem como filho Seu e o homem se reconhece como filho de Deus.


Segundo Jesus, ser misericordioso deve ser uma regra para todos os discípulos. Se no Antigo Testamento o ideal da perfeição era ser santo (cf. Lv 19,2; veja também 11,44), o Jesus de Lucas coloca a misericórdia como o ideal da perfeição para um cristão. O ideal da perfeição cristã consiste em estar em conformidade ou em sintonia com a misericórdia de Deus. A imitação e a vivência da misericórdia excluem o cristão de qualquer tipo de julgamento para assumir a atitude de perdão, pois o próprio Deus não usa de justiça contra nós pecadores e sim Ele usa de misericórdia. Sem a misericórdia de Deus ninguém sobreviveria sobre a face da terra.O amor apaixonado de Deus pelo seu povo — pelo homem — é ao mesmo tempo um amor que perdoa. E é tão grande, que chega a virar Deus contra Si próprio, o seu amor contra a sua justiça. Nisto, o cristão vê já esboçar-se veladamente o mistério da Cruz: Deus ama tanto o homem que, tendo-Se feito Ele próprio homem, segue-o até à morte e, deste modo, reconcilia justiça e amor” (Bento XVI: Carta Encíclica: Deus Caritas Est, 10).


A misericórdia não é simplesmente amor: é um amor que não conhece limites, barreiras, obstáculos, fronteiras: é um amor que sabe amar também quem se tornou  indigno do amor. Enquanto o amor diz somente doação, a misericórdia diz super doação. A misericórdia é um especial poder do amor, que prevalece sobre o ódio, a infidelidade, a deslealdade, a ingratidão. Como diz João Paulo II: “Esse amor misericordioso é capaz de curvar-se ante o filho pródigo, ante a miséria humana e, sobretudo, ante a miséria moral, ante o pecado. A misericórdia se manifesta em seu aspecto verdadeiro e próprio quando valoriza, promove e explicita o bem em todas as formas de mal existente no mundo e no homem” (Dives in misericordia, no.6).


O melhor caminho para humanizar cada vez mais um ser humano é o do amor e da misericórdia. Um cristão cheio de amor e de misericórdia é muito humano e educado. Ele é tão humano que se transforma em uma manifestação daquilo que é divino. Naquele que ama tem algo divino, poisDeus é amor”. Jesus Cristo foi tão humano e por isso, foi tão divino. Para sermos divinos temos que ser muito humanos. É o paradoxo de ser cristão.


Na sua Bula MISEROCPRDIAE VULTUS, o Papa Francisco escreveu: “Precisamos sempre contemplar o mistério da misericórdia. É fonte de alegria, serenidade e paz. É condição da nossa salvação. Misericórdia: é a palavra que revela o mistério da Santíssima Trindade. Misericórdia: é o ato último e supremo pelo qual Deus vem ao nosso encontro. Misericórdia: é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida. Misericórdia: é o caminho que une Deus e o homem, porque nos abre o coração à esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado”.


Para Jesus todos os pecados da humanidade têm a mesma origem: a cobiça que é a manifestação clara do próprio egoísmo. O objetivo de todos os atos de um egoísta é apenas seu próprio interesse. Enquanto que o verdadeiro amor é feito de doação, sem cálculos e sem interesses. Quem ama, ama o próprio amor. “O amor não tem mais razoes que o próprio amor” (Santo Agostinho. In epist. Joan. 8,5).


Em muitos momentos não fomos capazes de ser misericordiosos para com o próximo. Naquele momento em que fomos tão duros, impiedosos, inflexíveis até tão cruéis, apagamos a imagem do Deus misericordioso de nossa vida. Com esta atitude esquecemos aquilo que São Paulo nos diz: “Sois uma carta de Cristo escrita não com tinta, mas com o Espírito de Deus vivo, não em tabuas de pedra, mas em tabuas de carne, nos corações” (2Cor 3,3). O Espírito de Deus vivo deve ser manifestado muito claro e muito encarnado na nossa vida para que os outros, até os “analfabetos” na consigam lê-lo.


Reconhecer nossa debilidade é o melhor ponto de partida para a conversão, para a nossa volta aos caminhos de Deus de misericórdia. Quem se acha santo, não se converte. Quem se acha rico, não pede. Quem se acha saber de tudo, não pergunta. Será que reconhecemos pecadores? Será que somos capazes de pedir o perdoa do fundo de nosso ser?


Além de reconhecer nossa debilidade, temos que aceitar outro passo que Jesus nos propõe hoje: ser misericordioso e perdoar os demais como o próprio Deus é misericordioso e perdoa nossos pecados. Perdoar significa crer na capacidade que nós seres humanos temos para começar de novo. O perdão não é uma simples trégua para fazer tolerável a vida sem uma nova criação que nos aproxima do plano de Deus. Nosso grande desafio é chegarmos a entender que precisamos viver toda a existência cristã na dinâmica do perdão que é a dinâmica do começo e do recomeço permanente.


O Papa Francisco nos convida a viver a misericórdia: “Neste Ano Santo, poderemos fazer a experiência de abrir o coração àqueles que vivem nas mais variadas periferias existenciais, que muitas vezes o mundo contemporâneo cria de forma dramática. Quantas situações de precariedade e sofrimento presentes no mundo atual! Quantas feridas gravadas na carne de muitos que já não têm voz, porque o seu grito foi esmorecendo e se apagou por causa da indiferença dos povos ricos. Neste Jubileu, a Igreja sentir-se-á chamada ainda mais a cuidar destas feridas, aliviá-las com o óleo da consolação, enfaixá-las com a misericórdia e tratá-las com a solidariedade e a atenção devidas. Não nos deixemos cair na indiferença que humilha, na habituação que anestesia o espírito e impede de descobrir a novidade, no cinismo que destrói. Abramos os nossos olhos para ver as misérias do mundo, as feridas de tantos irmãos e irmãs privados da própria dignidade e sintamo-nos desafiados a escutar o seu grito de ajuda. As nossas mãos apertem as suas mãos e estreitemo-los a nós para que sintam o calor da nossa presença, da amizade e da fraternidade. Que o seu grito se torne o nosso e, juntos, possamos romper a barreira de indiferença que frequentemente reina soberana para esconder a hipocrisia e o egoísmo” (Misericordiae Vultus n.15). O mesmo Papa faz um convite especial para pessoas especiais: “O meu convite à conversão dirige-se, com insistência ainda maior, àquelas pessoas que estão longe da graça de Deus pela sua conduta de vida. Penso de modo particular nos homens e mulheres que pertencem a um grupo criminoso, seja ele qual for. Para vosso bem, peço-vos que mudeis de vida. Peço-vo-lo em nome do Filho de Deus que, embora combatendo o pecado, nunca rejeitou qualquer pecador. Não caiais na terrível cilada de pensar que a vida depende do dinheiro e que, à vista dele, tudo o mais se torna desprovido de valor e dignidade. Não passa de uma ilusão. Não levamos o dinheiro conosco para o além. O dinheiro não nos dá a verdadeira felicidade. A violência usada para acumular dinheiro que transuda sangue não nos torna poderosos nem imortais. Para todos, mais cedo ou mais tarde, vem o juízo de Deus, do qual ninguém pode escapar” (idem n.19).

Para Refletir Mais:


·       “O julgamento será sem misericórdia para aquele que não pratica a misericórdia. A misericórdia, porém desdenha o julgamento (Tg 2,13).


·       “A Igreja vive vida autêntica quando professa e proclama a misericórdia, o mais admirável atributo do Criador e do Redentor, e quando aproxima os homens das fontes da misericórdia do Salvador, das quais ela é depositária e dispensadora. Neste contexto, assumem grande significado a meditação constante da Palavra de Deus e, sobretudo, a participação consciente e refletida na Eucaristia e no sacramento da Penitência ou Reconciliação” (João Paulo II: Carta Encíclica: Dives In Misericórdia, 13c).

P. Vitus Gustama,svd

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