quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

27/02/2016




MISERICÓRDIA É O NOME DE NOSSO DEUS


Sábado da II Semana da Quaresma


Primeira Leitura: Mq 7,14-15.18-20


14 Apascenta o teu povo com o cajado da autoridade, o rebanho de tua propriedade, os habitantes dispersos pela mata e pelos campos cultivados; que eles desfrutem a terra de Basã e de Galaad, como nos velhos tempos.15 E, como foi nos dias em que nos fizeste sair do Egito, faze-nos ver novos prodígios. 18 Qual Deus existe, como tu, que apagas a iniquidade e esqueces o pecado daqueles que são resto de tua propriedade? Ele não guarda rancor para sempre, o que ama é a misericórdia. 19 Voltará a compadecer-se de nós, esquecerá nossas iniquidades e lançará ao fundo do mar todos os nossos pecados. 20 Tu manterás fidelidade a Jacó e terás compaixão de Abraão, como juraste a nossos pais, desde tempos remotos.


Evangelho: Lc 15,1-3.11-32


Naquele tempo, 1os publicanos e pecadores aproximavam-se de Jesus para o escutar. 2Os fariseus, porém, e os mestres da Lei criticavam Jesus: “Este homem acolhe os pecadores e faz refeição com eles”. 3Então Jesus contou-lhes esta parábola: 11Um homem tinha dois filhos. 12O filho mais novo disse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte da herança que me cabe’. E o pai dividiu os bens entre eles. 13Poucos dias depois, o filho mais novo juntou o que era seu e partiu para um lugar distante. E ali esbanjou tudo numa vida desenfreada. 14Quando tinha gasto tudo o que possuía, houve uma grande fome naquela região, e ele começou a passar necessidade. 15Então foi pedir trabalho a um homem do lugar, que o mandou para seu campo cuidar dos porcos. 16O rapaz queira matar a fome com a comida que os porcos comiam, mas nem isto lhe davam. 17Então caiu em si e disse: ‘Quantos empregados do meu pai têm pão com fartura, e eu aqui, morrendo de fome’. 18Vou-me embora, vou voltar para meu pai e dizer-lhe: ‘Pai, pequei contra Deus e contra ti; 19 não mereço ser chamado teu filho. Trata-me como a um dos teus empregados’. 20Então ele partiu e voltou para seu pai. Quando ainda estava longe, seu pai o avistou e sentiu compaixão. Correu-lhe ao encontro, abraçou-o e cobriu-o de beijos. 21O filho, então, lhe disse: ‘Pai, pequei contra Deus e contra ti. não mereço ser chamado teu filho’. 22Mas o pai disse aos empregados: ‘Trazei depressa a melhor túnica para vestir meu filho. E colocai um anel no seu dedo e sandálias nos pés. 23Trazei um novilho gordo e matai-o. Vamos fazer um banquete. 24Porque este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado’. E começaram a festa.25O filho mais velho estava no campo. Ao voltar, perto de casa, ouviu música e barulho de dança. 26Então chamou um dos criados e perguntou o que estava acontecendo. 27O criado respondeu: ‘É teu irmão que voltou. Teu pai matou o novilho gordo, porque o recuperou com saúde’. 28Mas ele ficou com raiva e não queria entrar. O pai, saindo, insistia com ele. 29Ele, porém, respondeu ao pai: ‘Eu trabalho para ti há tantos anos, jamais desobedeci a qualquer ordem tua. E tu nunca me deste um cabrito para eu festejar com meus amigos. 30Quando chegou esse teu filho, que esbanjou teus bens com prostitutas, matas para ele o novilho cevado’. 31Então o pai lhe disse: ‘Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. 32Mas era preciso festejar e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido, e foi encontrado”’.
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O texto do Evangelho de hoje será lido e refletido no IV Domingo da Quaresma do Ano C.
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O evangelho de hoje fala da misericórdia de Deus. Misericórdia é um dos temas preferidos do evangelista Lucas. No AT lemos: “Sejam santos porque Deus é santo” (cf. Lv 20,7). O evangelista Mateus diz: “Sejam perfeitos como o Pai celeste é perfeito” (Mt 5,48). E o evangelista Lucas diz: “Sejam misericordiosos como o Pai de vocês é misericordioso” (Lc 6,36). Conforme o evangelista Lucas para ser santo, para ser perfeito só há um caminho: ser misericordioso. Na Bula Misericordiae Vultus, bula de proclamação do jubileu extraordinário da misericórdia, Papa Francisco nos recorda: “Na Sagrada Escritura, como se vê, a misericórdia é a palavra-chave para indicar o agir de Deus para conosco. Ele não Se limita a afirmar o seu amor, mas torna-o visível e palpável. Aliás, o amor nunca poderia ser uma palavra abstrata. Por sua própria natureza, é vida concreta: intenções, atitudes, comportamentos que se verificam na atividade de todos os dias. A misericórdia de Deus é a sua responsabilidade por nós. Ele sente-Se responsável, isto é, deseja o nosso bem e quer ver-nos felizes, cheios de alegria e serenos. E, em sintonia com isto, se deve orientar o amor misericordioso dos cristãos. Tal como ama o Pai, assim também amam os filhos. Tal como Ele é misericordioso, assim somos chamados também nós a ser misericordiosos uns para com os outros” (n.9d). Trata-se de um amor misericordioso que ama até quem não merece ser amado. Mas pelo fato de que todos são filhos e filhas do Pai do céu, Deus jamais ficaria desistente em amar e perdoar cada filho e filha, e por isso, “Esse amor misericordioso é capaz de curvar-se ante o filho pródigo, ante a miséria humana e, sobretudo, ante a miséria moral, ante o pecado. A misericórdia se manifesta em seu aspecto verdadeiro e próprio quando valoriza, promove e explicita o bem em todas as formas de mal existente no mundo e no homem” (João PauloII: Dives in misericordia, no.6). Sobre a importância da misericórdia, São Tiago nos alerta: “O julgamento será sem misericórdia para aquele que não pratica a misericórdia. A misericórdia, porém, desdenha o julgamento” (Tg 2,13).


O Deus que Lucas nos apresenta através do evangelho de hoje é um Deus de bondade e de misericórdia, que detesta o pecado, mas ama o pecador. Ele não pactua com o pecado, mas está ao lado do pecador e manifesta uma misericórdia infinita para com o pecador arrependido. O amor de Deus pelo homem é um amor essencialmente misericordioso, o amor “uterino”, o amor entranhável, pois é dado a alguém que se tornou indigno, pela soberba, pela desobediência, pela ingratidão, pelos pecados, pela maldade, pela rebelião. E Deus ama o homem a ponto de fazer-se homem em Jesus Cristo: ele veio para o nosso meio, viveu como nós e ofereceu sua vida por nós. Ele nasceu nosso nascimento, viveu nossa vida, experimentou nosso medo, morreu nossa morte e ressuscitou nossa ressurreição.


Lucas dedica todo o capítulo 15 de seu evangelho às parábolas da misericórdia. Neste capitulo Jesus nos revela que Deus é o Pai misericordioso.  O insondável amor de Deus se reflete na conduta do pai da parábola. Deus não deixa de buscar e de acolher o que é seu.A parábola contém um ensinamento profundo para cada um de nós. Jesus declara que a misericórdia não é apenas o agir do Pai, mas torna-se o critério para individuar quem são os seus verdadeiros filhos. Em suma, somos chamados a viver de misericórdia, porque, primeiro, foi usada misericórdia para conosco. O perdão das ofensas torna-se a expressão mais evidente do amor misericordioso e, para nós cristãos, é um imperativo de que não podemos prescindir. Tantas vezes, como parece difícil perdoar! E, no entanto, o perdão é o instrumento colocado nas nossas frágeis mãos para alcançar a serenidade do coração. Deixar de lado o ressentimento, a raiva, a violência e a vingança são condições necessárias para se viver feliz. Acolhamos, pois, a exortação do Apóstolo: « Que o sol não se ponha sobre o vosso ressentimento » (Ef 4, 26). E sobretudo escutemos a palavra de Jesus que colocou a misericórdia como um ideal de vida e como critério de credibilidade para a nossa fé: « Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia » (Mt 5, 7) é a bem-aventurança a que devemos inspirar-nos, com particular empenho, neste Ano Santo, escreveu o Papa Francisco (Bula Misericordiae Vultus n.9c).


A parábola do Pai misericordioso nos revela duas coisas: a miséria e a misericórdia; revela-nos o que há no coração do homem e o que há no coração de Deus; revela-nos a imensa escuridão no homem e a infinita luminosidade em Deus.


O filho mais novo e mais velho da parábola, ambos não reconhecem de verdade o próprio Pai cheio de amor. Os dois não têm consciência de suas distorções. Ambos são como dois cegos que vão tropeçar: um cai na desordem; o outro, no excesso de ordem.  Um está seguro de saber o que quer: partir sem rumo. O outro tem certeza de estar no caminho certo: o dever. O mais velho fica em casa sem reconhecer o amor do Pai. O mais novo abandona a casa em busca de uma felicidade deixando a mesma em casa. Por trás desses dois filhos está Jesus Cristo, fiel à vontade de Deus em salvar a humanidade. Ele ama a humanidade até o fim (cf. Jo 13,1).


Deixar a casa é muito mais do que um acontecimento limitado a tempo e lugar. Deixar a casa significa negar a realidade espiritual de que eu pertenço a Deus com todo o meu ser, que Deus me ampara num eterno abraço, que sou realmente moldado nas palmas das mãos de Deus e refugiado nas suas sombras. Deixar a casa significa ignorar a verdade de que Deus me moldou. Deixar a casa é viver como se eu não tivesse um lar e precisasse procurar muito à distância até encontrá-lo. Eu preciso estar consciente de que faço parte da família de Deus e eu devo viver como membro da família de Deus.


A casa é o centro do meu ser, onde posso ouvir a voz de Deus que me diz: “Você é meu filho (a) muito amado (a), sobre você ponho todo o meu carinho” (cf. Mc 1,11). Eu tenho que ouvir esta voz diariamente, pois é a voz do amor que é eterno, perdura para sempre e se transforma em afeto quando é ouvida. Quando eu ouço essa voz amorosa de Deus, sei que estou em casa com Deus e por isso, nada tenho a temer, pois Deus é por mim (cf. Rm 8,31-39).


O filho mais novo voltou para casa porque reconheceu o tamanho do amor do pai diante do tamanho da própria miséria. É ele próprio quem descobre o seu caos, a sua desordem. Através de um doloroso caminho, ele sai da ilusão sobre si mesmo e descobre sua verdade. No silêncio, ele escuta a voz do Pai e descobre o tesouro: o amor sem limite do Pai por ele, a fonte de sua existência. Pela primeira vez, ele toma conhecimento de um amor seguro, estável e sólido. Nesse momento iluminado, ele reconhece que pecou. Ele se arrependeu e por isso decidiu voltar para a casa: “Quantos empregados do meu pai têm pão com fartura, e eu aqui, morrendo de fome. Vou-me embora, vou voltar para meu pai e dizer-lhe: ‘Pai, pequei contra Deus e contra ti; não mereço ser chamado teu filho. Trata-me como a um dos teus empregados’”.


Na graça de Deus, cada um é capaz de se colocar a caminho de volta. Na graça de Deus, cada um é capaz de reencontrar o movimento da vida. Na graça de Deus ninguém fica trancado no passado. Em qualquer estado em que se encontre, há sempre a possibilidade de dar um passo em direção à vida. A graça de Deus nos devolve a alegria de viver dignamente. “Pela graça de Deus, sou o que sou, e a graça que ele me deu não tem sido inútil”, escreveu São Paulo (1Cor 15,10).


Muitas vezes procuramos a felicidade fora de casa, nas nossas aventuras. Por isso, em vez de encontrarmos a felicidade, ganhamos a solidão, a desordem total ou caos total. Ninguém está tão do que aquele que vive sem Deus (Santo Agostinho). No momento em que o filho mais novo recebeu o perdão, ele começou a conhecer, de modo muito íntimo, o seu pai. A experiência de perdão de Deus cria, com efeito, um vínculo todo particular entre Deus e aquele que recebe o perdão. Tão grande é a força do amor curativo de Deus, que o mal se transfigura em bem.


Se Deus é misericordioso, cada um deve ser misericordioso para com os outros. O amor vivido é o único modo de convencer os outros que somos cristãos. Sempre que celebramos a festa da eucaristia, celebramos também o encontro do amor misericordioso de Deus com todos nós, seus filhos e filhas arrependidos de tudo que cometemos na vida. Façamos que cada eucaristia seja uma festa de nossa reconciliação com Deus.


O filho mais velho está cheio de si mesmo e se engana. Por estar cheio de si não tem lugar no seu coração nem para seu pai nem para seu irmão. Ele se crê justo, e conseqüentemente, possui um coração de justiceiro, um coração duro e insensível. Ele simboliza nossa cegueira diante de nossa mais profunda distorção, nossa resistência para viver na luz, na graça de Deus. que mora o perigo. Muitas vezes a tentação é denunciar o pecado alheio para fazer brilhar a sua própria virtude. Muitas vezestanto ressentimento entre os que se consideram justos e corretos; há tanto julgamento, condenação e preconceito entre os que se consideram santos e praticantes de religião!


A parábola do filho pródigo ou do Pai misericordioso é o grande canto ao imenso amor divino que se mostra indulgente com o pecador, lição oportuníssima da quaresma. Por isso, Santo Agostinho dizia: “Imite aquele filho mais novo, porque talvez você seja como ele, que depois de mal gastar e perder todos os seus bens vivendo prodigamente, sentiu necessidade, apascentou porcos e, esgotado pela fome, suspirou e se lembrou de seu pai. E o que diz dele o Evangelho?: ‘Ele caiu em si’ (voltou a si mesmo). Quem se tinha perdido para si mesmo, voltou a si mesmo: ‘Vou-me embora, vou voltar para meu pai...’”.  “Para chegar à ressurreição da graça do Senhor temos de passar primeiro pela crucifixão de nossos pecados na penitência. O pecado é o motivo de tua tristeza. Deixa que a santidade seja motivo de tua alegria”, acrescentou Santo Agostinho.


Na sua reflexão sobre a parábola do filho pródigo Madre Teresa de Calcutá nos disse que o filho pródigo nos ensina que não devemos:


·        Pensar egoisticamente em nós mesmos.
·        Alimentar a fome de prazeres desenfreados.
·        Abusar do dom da liberdade
·        Tomar e consumir sem cautela bens efêmeros.
·        Presumir da própria figura como se fosse imperecível.
·        Confundir sonhos agradáveis com realidades.


O Deus que Jesus quer nos transmitir nessa parábola é um Deus misericordioso, generoso em perdoar, paciente em esperar a volta de qualquer filho, próximo com um amor infinito para quem volta e para quem está com Ele.


Não podemos professar seriamente a nossa fé no Deus do amor e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, sem praticarmos, ao mesmo tempo, a sua misericórdia. Amor é misericordioso. Esta é uma afirmação central e o cume da fé e de toda a doutrina cristã acerca de virtudes. É através da misericórdia ativa e efetiva que provamos que estamos no bom caminho e que adoramos e honramos verdadeiramente a Deus misericordioso. Toda a experiência profunda de Deus, toda a consolação espiritual autêntica nos leva à prática eficaz da misericórdia. As nossas pequenas mortificações e exercícios ascéticos só têm valor na medida em que servirem de treino para o exercício da misericórdia e para a conseqüente prática da auto-renúncia.


Para nós fica a pergunta: Será que tenho consciência deste Deus que é um Pai com um amor infinito? Será que eu percebo esse Deus como o filho mais velho O percebia: sem esperança nem alegria? Ou eu O percebo como o filho mais novo O percebia: quer uma liberdade sem ordem? Será que eu sou intransigente e intolerante como o filho mais velho? A rigidez e a arrogância não deixaram o filho mais velho alegrar-se pela volta de seu irmão perdido. Será que eu tenho a mesma rigidez e a mesma arrogância que me tiram a alegria de viver e de conviver na fraternidade com os demais irmãos? quem pensa no outro se engrandece. Na experiência do filho mais novo percebemos que o pecado sempre se apresenta, primeiro, como agradável, atraente e sedutor. O Maligno é suficientemente hábil para dissimular seu jogo. Estejamos atentos e vigilantes!


O Papa Francisco deu o seguinte recado para todos os confessores: “Não me cansarei jamais de insistir com os confessores para que sejam um verdadeiro sinal da misericórdia do Pai. Ser confessor não se improvisa. Tornamo-nos tal quando começamos, nós mesmos, por nos fazer penitentes em busca do perdão. Nunca esqueçamos que ser confessor significa participar da mesma missão de Jesus e ser sinal concreto da continuidade de um amor divino que perdoa e salva. Cada um de nós recebeu o dom do Espírito Santo para o perdão dos pecados; disto somos responsáveis. Nenhum de nós é senhor do sacramento, mas apenas servo fiel do perdão de Deus. Cada confessor deverá acolher os fiéis como o pai na parábola do filho pródigo: um pai que corre ao encontro do filho, apesar de lhe ter dissipado os bens. Os confessores são chamados a estreitar a si aquele filho arrependido que volta a casa e a exprimir a alegria por o ter reencontrado. Não nos cansemos de ir também ao encontro do outro filho, que ficou fora incapaz de se alegrar, para lhe explicar que o seu juízo severo é injusto e sem sentido diante da misericórdia do Pai que não tem limites. Não hão-de fazer perguntas impertinentes, mas como o pai da parábola interromperão o discurso preparado pelo filho pródigo, porque saberão individuar, no coração de cada penitente, a invocação de ajuda e o pedido de perdão. Em suma, os confessores são chamados a ser sempre e por todo o lado, em cada situação e apesar de tudo, o sinal do primado da misericórdia.


P. Vitus Gustama,svd


  •  “O pecado é o motivo de tua tristeza. Deixa que a santidade seja motivo de tua alegria”. (Santo Agostinho: In ps. 42,3)

  • Para chegar à ressurreição da graça do Senhor temos de passar primeiro pela crucifixão de nossos pecados na penitência”. (Idem: De Trin. 4,3,6)

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