sábado, 27 de fevereiro de 2016

29/02/2016


FÉ NO DEUS QUE SE ENCONTRA NO NOSSO COTIDIANO


Segunda-Feira da III Semana da Quaresma


Primeira Leitura: 2Rs 5,1-15


Naqueles dias, 1Naamã, general do exército do rei da Síria, era um homem muito estimado e considerado pelo seu senhor, pois foi por meio dele que o Senhor concedeu a vitória aos arameus. Mas esse homem, valente guerreiro, era leproso. 2Ora, um bando de arameus que tinha saído da Síria, tinha levado cativa uma moça do país de Israel. Ela ficou a serviço da mulher de Naamã. 3Disse ela à sua senhora: “Ah, se meu senhor se apresentasse ao profeta que reside em Samaria, sem dúvida, ele o livraria da lepra de que padece!” 4Naamã foi então informar o seu senhor: “Uma moça do país de Israel disse isto e isto”. 5Disse-lhe o rei Aram: “Vai, que eu enviarei uma carta ao rei de Israel”. Naamã partiu, levando consigo dez talentos de prata, seis mil siclos de ouro e dez mudas de roupa. 6E entregou ao rei de Israel a carta, que dizia: “Quando receberes esta carta, saberás que eu te enviei Naamã, meu servo, para que o cures de sua lepra”. 7O rei de Israel, tendo lido a carta, rasgou suas vestes e disse: “Sou Deus, porventura, que possa dar a morte e a vida, para que este me mande um homem para curá-lo de lepra? Vê-se bem que ele busca pretexto contra mim”. 8Quando Eliseu, o homem de Deus, soube que o rei de Israel havia rasgado as vestes, mandou dizer-lhe: “Por que rasgaste tuas vestes? Que ele venha a mim, para que saibas que há um profeta em Israel”. 9Então Naamã chegou com seus cavalos e carros, e parou à porta da casa de Eliseu. 10Eliseu mandou um mensageiro para lhe dizer: “Vai, lava-te sete vezes no Jordão, e tua carne será curada e ficarás limpo”. 11Naamã, irritado, foi-se embora, dizendo: “Eu pensava que ele sairia para me receber e que, de pé, invocaria o nome do Senhor, seu Deus, e que tocaria com sua mão o lugar da lepra e me curaria. 12Será que os rios de Damasco, o Abana e o Fartar, não são melhores do que todas as águas de Israel, para eu me banhar nelas e ficar limpo?” Deu meia-volta e partiu indignado. 13Mas seus servos aproximaram-se dele e disseram-lhe: “Senhor, se o profeta te mandasse fazer uma coisa difícil, não a terias feito? Quanto mais agora que ele te disse: ‘Lava-te e ficarás limpo”’. 14Então ele desceu e mergulhou sete vezes no Jordão, conforme o homem de Deus tinha mandado, e sua carne tornou-se semelhante à de uma criancinha, e ele ficou purificado. 15aEm seguida, voltou com toda a sua comitiva para junto do homem de Deus. Ao chegar, apresentou-se diante dele e disse: “Agora estou convencido de que não há outro Deus em toda terra, senão o que há em Israel!”


Evangelho: Lc 4,24-30


Jesus, vindo a Nazaré, disse ao povo na sinagoga: 24Em verdade eu vos digo que nenhum profeta é bem recebido em sua pátria. 25De fato, eu vos digo: no tempo do profeta Elias, quando não choveu durante três anos e seis meses e houve grande fome em toda a região, havia muitas viúvas em Israel. 26No entanto, a nenhuma delas foi enviado Elias, senão a uma viúva em Sarepta, na Sidônia. 27E no tempo do profeta Eliseu, havia muitos leprosos em Israel. Contudo, nenhum deles foi curado, mas sim Naamã, o sírio”. 28Quando ouviram estas palavras de Jesus, todos na sinagoga ficaram furiosos. 29Levantaram-se e o expulsaram da cidade. Levaram-no até o alto do monte sobre o qual a cidade estava construída, com a intenção de lançá-lo no precipício. 30Jesus, porém, passando pelo meio deles, continuou o seu caminho.
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Deus Se Encontra No Nosso Cotidiano Com o Aspecto Humano


Estamos nos começos da atividade pública de Jesus na versão de Lucas. O autor nos apresenta Jesus como o Messias no qual se cumprem todas as promessas do Antigo Testamento (Lc 4,21).


O texto do evangelho de hoje nos narra que Jesus se encontra novamente em sua terra, Nazaré, e se apresenta aos seus conterrâneos numa Sinagoga no dia de Sábado. Ele veio a Nazaré para dizer-lhes que com sua vinda ao mundo se inaugurou a salvação que o profeta Isaias profetizava (Is 61,1-2). Mas com isso, o evangelista Lucas adverte que as palavras de Jesus, mesmo que sejam palavras cheias da graça de Deus que causam até a admiração dos próprios nazarenos (Lc 4,22), encontram dificuldade para entrar no coração de seus conterrâneos. A razão dessa recusa é o conhecimento que os nazarenos têm sobre Jesus e sua família em Nazaré. E por isso, é difícil para os nazarenos acreditarem naquilo que Jesus prega na sinagoga: “Não é este o filho de José?” (Lc 4,22). Os nazarenos não podiam compreender que um carpinteiro fosse um enviado de Deus, muito menos o Messias. Os nazarenos pensam que o verdadeiramente grande e divino deve estar bastante distante da vida cotidiana dos homens.


A vida cotidiana não se deixa inquietar pelo extraordinário, inclusive a busca do extraordinário, a caça dos milagres ameaça aquilo que tem o aspecto cotidiano onde Deus se revela e deixa Seu recado para cada pessoa humana. Muitos correm atrás dos famosos e sabem de tudo sobre sua vida até nos seus detalhes. Muitos vão ao encontro dos ídolos e os defendem, até são capazes de morrer por eles. Muitas vezes queremos ver nos famosos ou ídolos aquilo que nós mesmos não conseguimos alcançar ou realizar. Muitos querem se identificar com eles e não querem tirar deles algo positivo para a própria vida. Os que correm atrás dos famosos e dos ídolos acabam não vivendo a própria vida. Se eu não viver minha vida quem é que vai vivê-la? Se eu não melhorar a minha vida, quem é que vai melhorá-la? Se eu não viver o meu hoje na sua profundidade, quando é que vou começar a viver? Os outros podem me ajudar naquilo que são capazes de fazer, mas nunca na minha vida em sua totalidade. O mundo é uma projeção de nossa psique individual coletada numa tela global. O mundo é ferido ou curado em função de cada ato e pensamento que tivermos. Se eu me recusar a encarar os problemas mais profundos que me impedem de fazer as coisas, o mundo também ficará impedido de evoluir. Se eu avançar na melhoria do meu empenho para o bem de todos, será minha ajuda para mudar ou melhorar o mundo.


Devemos estar conscientes de que o essencial para nossa vida, infelizmente, está no aspecto cotidiano da vida que os olhos têm dificuldade para enxergar. A razão desconhece aquilo que o coração sente. Esta é uma das mensagens que Deus quer nos transmitir através de Sua encarnação. Quem diria que o Salvador do mundo pudesse nascer de uma mulher comum e de um lugar desconhecido como Nazaré? Como é bom termos os olhos de Deus para perceber e captar Sua presença na cotidianidade da vida. Como é bom termos o coração de Isabel para sentir a presença do Senhor que está em Maria (Lc 1,41-45). Como é bom termos os olhos de Simeão e da profetiza Ana que enxergam facilmente a presença d’Aquele que traz a salvação para o mundo numa criança recém-nascida (Lc 2,29-32). Como é bom termos a simplicidade dos pastores de Belém que vão com pressa ao encontro do Salvador recém-nascido depois que ouviram a mensagem do Anjo do Senhor (Lc 2,8-18). Como é bom termos a intuição do discípulo amado que logo percebe a presença do Senhor ressuscitado (Jo 21,7). Quem enxerga a presença de Deus na vida cotidiana é uma pessoa feliz e nunca será mais a mesma pessoa. Santo Agostinho dizia: “Cristo se fez temporal para que tu sejas eterno. Tu te fizeste temporal pelo pecado. Ele se fez temporal para perdoar-te o pecado” (In epist. Joan. 2,10). “A Palavra que era Deus antes do tempo, fez-se carne ao chegar o tempo” (Serm. 187,1,1). “Dignou-se partilhar nossa mortalidade para que nós pudéssemos participar de sua divindade” (In ps. 118,19,6).


Em Nazaré os conterrâneos de Jesus exigem que Jesus faça também milagres no meio deles. Mas nenhum milagre acontece. Exigir de Deus um milagre significa querer impor a Deus nossa vontade e nos esquecermos de que o milagre é um dom livre da parte de Deus. A que exige milagres não é a verdadeira . A exige total superação do plano meramente humano (cf. Lc 8,21). Se faltar isso, torna-se difícil a prática da obediência cristã. Se vivermos realmente de acordo com a Palavra de Deus nós vamos encontrar muitas surpresas boas para nossa vida, pois “a é a antecipação daquilo que se espera” (Hb 11,1).


A expressão de Jesus “Nenhum profeta é bem recebido em sua pátrianos lembra quanto somos rebeldes em aceitar que alguém de nosso meio, cujas “virtudes e milagres” cremos conhecer, se torne juiz de nossa ação, mesmo que seja em nome de Deus. É preciso ter sinceridade em distinguir entre quem fala e o que se fala. Se naquilo que se fala contém a verdade, precisamos reconhecer esta verdade independentemente de quem fala. “Observai e fazei tudo o que eles dizem, mas não façais como eles, pois dizem e não fazem”, recorda-nos Jesus (Mt 23,3).


A Verdadeira Fé Nos Purifica e Ilumina Nossos Passos


Se os nazarenos, que fazem parte do Povo eleito, recusam a presença de um profeta na pessoa de Jesus, a primeira leitura nos apresenta um homem pagão, Naamã, que acredita na Palavra de Deus através da boca do profeta Eliseu.


Naamã era chefe do exército do Rei de Síria, guerreiro forte e valente, de um país pagão em constante guerra com Israel. Mas agora está sofrendo de lepra. E sabemos muito bem que quando uma pessoa sofre, não se pergunta por sua religião ou crença. Geralmente, a dor, o sofrimento une as pessoas e desparecem as diferenças religiosas, culturais, política ou ideológicas. O sofrimento clama uma ajuda de quem for. Neste momento pode se saber até que ponto alguém tem compaixão e solidariedade. A dor , o sofrimento nos humaniza e nos torna irmãos para os que sofrem, potencia nossa compaixão, isto é, a capacidade de sentir-se com o outro. Aquele que não sente a dor alheia desumaniza-se, torna-se seco, sem vida. Aquele que não tem sensibilidade humana (a não ser por causa da doença) é uma pessoa mais violenta. A violência parte de quem não tem sensibilidade humana, de quem é incapaz de se colocar no lugar do outro.


Uma jovem judia levada como escrava que não guarda rancor ou mágoa oferece ajuda: “Ah, meu senhor, se se apresentasse ao profeta que reside em Samaria, sem dúvida ele o livraria da lepra de que padece”. Essa jovem representa uma pessoa que ama sem fronteiras e sem exceção. Apesar de ela sofrer a escravidão, seu amor pelo seu patrão Naamã que padece de lepra não diminui. Este verdadeiro amor faz com que ela ofereça ajuda. O amor torna qualquer um mais humano e por isso, mais divino, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16).


A lei do amor abrange e orienta todo comportamento humano. Jesus fez do amor o sinal característico de seus discípulos (cf. Jo 13,35: 15,12). Juntar as mãos para rezar é bom; abri-las para ajudar os outros é melhor. Por isso, todas as manhãs de nossa vida nós devemos nos perguntar: o que posso fazer de bom hoje para os outros?


Naamã é um homem cheio de esperança e aceitou o conselho e foi procurar o profeta Eliseu. A necessidade nos obriga a mudar de vida na sua maneira de vive-la. Geralmente, mudamos, principalmente por duas razoes: ou sofremos demais na vida ou aprendemos muito na vida. Quando sofremos muito na vida acabamos consertando nossa maneira de ver a vida, as pessoas e todos os acontecimentos na vida. Mudamos também porque aprendemos muito. O fruto de nossa aprendizagem é a mudança de mentalidade que leva à mudança de vida (maneira de viver).


Ao obedecer às palavras do profeta para se purificar no rio Jordão Naamã voltou curado. Não é o gesto de ir algumas vezes ao rio Jordão é que conta, e sim a atitude interior de Naamã que se chama fé e a entrega total à vontade de Deus.A fé, que recebemos de Deus como dom sobrenatural, aparece-nos como luz para a estrada orientando os nossos passos no tempo. Por um lado, provém do passado: é a luz duma memória basilar — a da vida de Jesus –, onde o seu amor se manifestou plenamente fiável, capaz de vencer a morte. Mas, por outro lado e ao mesmo tempo, dado que Cristo ressuscitou e nos atrai de além da morte, a fé é luz que vem do futuro, que descerra diante de nós horizontes grandes e nos leva a ultrapassar o nosso ´eu´ isolado abrindo-o à amplitude da comunhão. Deste modo, compreendemos que a fé não mora na escuridão, mas é uma luz para as nossas trevas... Na fé, dom de Deus e virtude sobrenatural por Ele infundida, reconhecemos que um grande Amor nos foi oferecido, que uma Palavra estupenda nos foi dirigida: acolhendo esta Palavra que é Jesus Cristo — Palavra encarnada –, o Espírito Santo transforma-nos, ilumina o caminho do futuro e faz crescer em nós as asas da esperança para o percorrermos com alegria. Fé, esperança e caridade constituem, numa interligação admirável, o dinamismo da vida cristã rumo à plena comunhão com Deus.” (Papa Francisco: carta encíclica Lumen Fidei n.4.7). Com efeito, uma pessoa cuja vida não é sustentada e iluminada pela esperança é uma pessoa desamparada e sem ponto de apoio.


A fé liberta e salva. A fé faz alguém caminhar na direção de Deus e na direção do bem que deve ser feito em favor dos demais homens. Tenhamos fé firme em Deus e saibamos esperar que, nas circunstancias difíceis, Deus nos mostre o que devemos dizer e fazer. “Tenhamos a absoluta confiança de que, sendo fieis, a vontade de Deus se fará, não somente apesar dos obstáculos, mas graças a esses mesmos obstáculos” (Charles de Foucauld). E “deixemos Deus conduzir a nossa pequena embarcação; se ela Lhe for útil, Ele a preservará do naufrágio” (São Vicente de Paula).


Além disso, para quem tem fé precisa ter muita humildade para voltar-se a Deus a fim de receber d’Ele a cura dos males a exemplo do General Naamã. A humildade nos aproxima mais das pessoas e de Deus. A humildade nos faz mais irmãos e mais humanos. Mantenhamos humildes, como General Naamã, pois uma salvação pode ser recebida através de instrumentos simples e insignificantes como a escrava judia que ajudou seu patrão, General Naamã para sair de seu problema. “Observa a arvore. A fim de crescer para cima, primeiro cresce para baixo. Primeiro, finca sua raiz na humildade da terra para depois lançar suas grimpas ao alto do céu” (Santo Agostinho: Serm. 117,17).


A fé, enquanto ligada à conversão, é o contrário da idolatria: é separação dos ídolos para voltar ao Deus vivo, através de um encontro pessoal. Acreditar significa confiar-se a um amor misericordioso que sempre acolhe e perdoa, que sustenta e guia a existência, que se mostra poderoso na sua capacidade de endireitar os desvios da nossa história. A fé consiste na disponibilidade a deixar-se incessantemente transformar pela chamada de Deus. Paradoxalmente, neste voltar-se continuamente para o Senhor, o homem encontra uma estrada segura que o liberta do movimento dispersivo a que o sujeitam os ídolos”, escreveu o Papa Francisco (Lumen Fidei, Carta Enciclica n.13).

P. Vitus Gustama,svd

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