sexta-feira, 1 de abril de 2016

05/04/2016




VIVER O EVANGELHO DE JESUS CRISTO PARA TER UM SÓ CORAÇÃO E UMA SÓ ALMA


Terça-Feira da II Semana da Páscoa


Primeira Leitura: At 4,32-37


32 A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava como próprias as coisas que possuía, mas tudo entre eles era posto em comum.  33 Com grandes sinais de poder, os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus. E os fiéis eram estimados por todos. 34 Entre eles ninguém passava necessidade, pois aqueles que possuíam terras ou casas, vendiam-nas, levavam o dinheiro, 35 e o colocavam aos pés dos apóstolos. Depois, era distribuído conforme a necessidade de cada um. 36 José, chamado pelos apóstolos de Barnabé, que significa filho da consolação, levita e natural de Chipre, 37 possuía um campo. Vendeu e foi depositar o dinheiro aos pés dos apóstolos.


Evangelho: Jo 3,7b-15


Naquele tempo, disse Jesus a Nicodemos: 7b“Vós deveis nascer do alto. 8O vento sopra onde quer e tu podes ouvir o seu ruído, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim acontece a todo aquele que nasceu do Espírito”. 9Nicodemos perguntou: “Como é que isso pode acontecer?” 10Respondeu-lhe Jesus: “Tu és mestre em Israel, mas não sabes estas coisas? 11Em verdade, em verdade, te digo, nós falamos daquilo que sabemos e damos testemunho daquilo que temos visto, mas vós não aceitais o nosso testemunho. 12Se não acreditais, quando vos falo das coisas da terra, como acreditareis se vos falar das coisas do céu? 13E ninguém subiu ao céu, a não ser aquele que desceu do céu, o Filho do Homem. 14Do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado, 15para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna”.
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Onde Há Partilha, Não Há Carência


A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava como próprias as coisas que possuía, mas tudo entre eles era posto em comum”, assim lemos na Primeira Leitura.


A expressão “um só coração e uma só alma” é uma expressão bíblica. Coração e alma designam juntos a personalidade no seu centro, isto é, forma uma só pessoa que age, pensa, respira, reza como uma pessoa só. Israel é o povo que ama a Deus com todo o coração e toda a alma (Dt 6,5; 10,12; 11,13.18; 13,4; cf. Mc 12,29-30).


Este texto é uma informação e um resumo da vida cristã nas comunidades apostólicas (cf. também At 2,42-47). No centro da comunidade há pregação e testemunho de vida dos apóstolos que reúnem e mantêm os cristãos na concórdia (um só coração, sem divisão) de uma mesma fé. Eles simplesmente compartilham o que têm sem se preocupar demasiadamente pelo dia de amanhã. “Entre amigos tudo é comum”, dizia o filósofo Aristóteles. Da mesma linha o filósofo Pitágoras dizia: “Entre amigos tudo é comum e a amizade exige igualdade”. Por essa despreocupação e a espontaneidade é que os primeiros cristãos são distintos de outras comunidades.  


Tudo isso acontece porque a Palavra de Deus, o Evangelho de Jesus Cristo é o verdadeiro princípio e o fundamento da Igreja. A obediência ao Evangelho une pela raiz todos os cristãos e faz com que todos tenham as mesmas convicções e os mesmos sentimentos em Cristo.  O viver em Cristo Ressuscitado tem repercussão nas relações econômicas entre os cristãos.  Ninguém passa por alguma carência, pois todos se preocupam com todos. A partilha é o modo de conviver de todos eles. E desta comunhão profunda brotam frutos que todos reconhecem: “E os fiéis eram estimados por todos” (At 4,33b).


Percebemos no mundo moderno, até na vida dos próprios cristãos, que o processo moderno de urbanização introduziu um valor diametralmente oposto à mentalidade dos primeiros cristãos, da comunidade apostólica, enquanto nossa Igreja continua a ser chamada Igreja apostólica. Neste processo vê-se a mentalidade do anonimato em virtude da qual cada um protege sua vida privada tão absolutamente como quer; cada um presta numerosos serviços como cidadão, porém de ordem funcional e segmentária, e perde cada vez mais o espaço de intercambio “EU-TU”. Cada um seleciona seus amigos e os demais que saibam também criar seu grupo. Cada um vive a seguinte filosofia de vida: cada um se vire, pois não tenho nada a ver com sua vida ou com seu grupo! Com efeito, a comunidade apostólica parece se torna cada vez mais utópica.


O amor mútuo ordenado como o mandamento novo do Senhor (Jo 15,12) deve ser revivido na vida de cada cristão no seu dia-a-dia, para que o utópico fique mais próximo da vida dos cristãos. Quem sabe todos vão repetir aquilo que acontecia na vida das primeiras comunidades cristãs: “E os cristãos são estimados por todos” (cf. At 4,33b). A Eucaristia da qual os cristãos participam é uma missão para fazer viver em cada participante uma experiência de ternura mútua na diversidade de relações humanas do homem moderno. É ser sal da terra e luz do mundo (cf. Mt 5,13-14). Quando descobrirmos que somos da mesma substância, ninguém vai tratar mal ninguém. Ao contrário, a multidão dos cristãos será um só coração e uma só alma. Para isso, é preciso nascer novamente do alto como enfatiza o Evangelho deste dia.


Deixar-se Soprar Pelo Espírito de Deus


“Vós deveis nascer do alto. O vento sopra onde quer e tu podes ouvir o seu ruído, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim acontece a todo aquele que nasceu do Espírito”, disse Jesus a Nicodemos.


Jo 3 é um capítulo importante para o evangelho de João porque neste capitulo se narra o primeiro discurso do ministério público de Jesus através do diálogo com Nicodemos, que é um dos membros do Sinédrio (trata-se de um homem público importante).


O texto do evangelho deste dia fala do diálogo entre Jesus e Nicodemos. Porém, percebemos através da narração do texto que é muito mais o monólogo de Jesus do que o diálogo com Nicodemos.


Neste monólogo-diálogo Jesus se apresenta como o único capaz de revelar as coisas do Céu: “Se não acreditais, quando vos falo das coisas da terra, como acreditareis se vos falar das coisas do céu? E ninguém subiu ao céu, a não ser aquele que desceu do céu, o Filho do Homem. Jesus veio do Céu, como o Pão da vida (cf. Jo 6,51) e por isso, pode falar seguramente sobre as coisas do céu, pois Ele próprio é o Verbo encarnado (cf. Jo 1,1-3.14). Conseqüentemente é preciso que o homem olhe para Jesus e viva de acordo com Suas palavras que são as Palavras de vida eterna (cf. Jo 6,68) a fim de que o homem tenha vida em seu nome, ou para que o homem seja salvo (cf. Jo 20,30-31). Necessitamos manter nossa conversa íntima com Jesus através da oração e da meditação da Palavra de Deus para que Ele nos revele o essencial para nossa vida neste terra e para nossa salvação. Os mais belos pensamentos são fruto do silêncio e da inspiração divina. Quando o vento soprar não há arvore que não se movimente. Quando o Espírito de Deus nos dominar e nos inspirar, nãopensamento que não seja útil para o bem comum ou para o bem da humanidade.


Através de sua afirmação neste monólogo-diálogo Jesus anuncia antecipadamente que ele será crucificado (será levantado na Cruz) para que todos aqueles que acreditarem em Jesus sejam salvos: “Do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado, para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna”.


A Linguagem Do Amor Nos Leva Ao Horizonte Infinito


As primeiras frases do texto do evangelho de hoje repetem a afirmação de Jesus no texto do evangelho do dia anterior: “Vós deveis nascer do alto. O vento sopra onde quer e tu podes ouvir o seu ruído, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim acontece a todo aquele que nasceu do Espírito”, disse Jesus a Nicodemos.


Esta afirmação torna Nicodemos confuso, pois ele não entende essa nova linguagem: Como é que isso pode acontecer?”. De fato, Nicodemos não possui a linguagem do coração, a linguagem de um amor de horizontes infinitos. O coração sente quilo que os olhos são incapazes de ver. O intelecto desconhece aquilo que o coração conhece.


Jesus compreende a confusão de Nicodemos, e por isso, Ele recorre a uma comparação: vento. Mas o vento é também misterioso. Mesmo sendo misterioso, os efeitos de sua passagem são sentidos por todos. Em hebraico o termovento” (ruah) serve para designar tanto o vento como o espírito. Os efeitos do vento são sentidos, mas o próprio vento não pode ser visto. A força de Deus é sentida por quem acredita em Deus, mas essa força não pode ser vista. A força de Deus tornou muitos cristãos mártires, transforma muitos homens em profetas, leva muitos a se tornarem santos que despertam o mundo da sua sonolência em maldade, atrai muitos para viverem uma vida de doação em função do bem dos outros ou de todos.


Na sua resposta Jesus disse a Nicodemos: “Tu és mestre em Israel, mas não sabes estas coisas?”.  Toda a ciência de Israel é incapaz de saber o que Jesus revela. Conhecer o Espírito de Deus é impossível ao homem, inclusive ao mais inteligente dos homens, pois pela origem da palavra, o verboconhecerquer dizer “com-nascer, nascer com, fazer-se um com outro. Somente conhecemos o outro, entregando-nos a ele e aceitando que ele se entregue a nós. Trata-se de uma relação existencial. Nicodemos representa todos os mestres da terra, dos que têm bastante inteligência. A própria vida vivida profundamente diariamente nossabedoria para saborearmos a vida. Ter conhecimento ou ter inteligência é uma coisa. Ser testemunha é outra coisa. Falar do amor é uma coisa; falar amorosamente é outra coisa. Na vida cotidiana, as pessoas necessitam muito mais das testemunhas do que dos mestres; necessitam do testemunho de vida do que qualquer bela teoria ou belo discurso. A inteligência é faculdade de conhecer ou ação de compreender. Mas para ser completa devemos deixar o Espirito de Deus nos inspirar. Não tem como não acredita na existência de um vento, pois seus efeitos são sentido mesmo que sua existência não é apalpável.


Nicodemos, “mestre de Israel” é convidado a fazer-se pequeno: “nascer de novo”, isto é, tornar-se uma criancinha, um bebê para começar a aprender tudo de novo. Uma criança cresce aprendendo tudo de seus pais. Nicodemos é convidado a largar suas próprias luzes, seus orgulhos ou suas arrogâncias para que o Espírito de Deus possa começar a operar em sua vida. Nãoem mim também algo de orgulho de Nicodemos?


Com Jesus E Nele A Vida Continua A Existir: É Preciso Crer Nele


Além disso, outro tema central do diálogo de Jesus com Nicodemos no evangelho de hoje é sobre a (“crer”). “A nasce no encontro com o Deus vivo, que nos chama e revela o seu amor: um amor que nos precede e sobre o qual podemos apoiar-nos para construir solidamente a vida. Transformados por este amor, recebemos olhos novos e experimentamos que há nele uma grande promessa de plenitude e nos é aberta a visão do futuro. A , que recebemos de Deus como dom sobrenatural, aparece-nos como luz para a estrada orientando os nossos passos no tempo... A está ligada à escuta. Abraão não Deus, mas ouve a sua voz. Deste modo, a assume um caráter pessoal: o Senhor não é o Deus de um lugar, nem mesmo o Deus vinculado a um tempo sagrado específico, mas o Deus de uma pessoa, concretamente o Deus de Abraão, Isaac e Jacob, capaz de entrar em contato com o homem e estabelecer com ele uma aliança. A é a resposta a uma Palavra que interpela pessoalmente, a um Tu que nos chama por nome (Papa Francisco: Carta Encíclica Lumen Fidei).


Em todo o seu evangelho João não usa o substantivo “fé” (ele usará uma vez apenas na primeira carta em 1Jo 5,4). Em vez disso, ele usa o verbo “crer” pelo menos 98 vezes no seu evangelho. Todo verbo sempre se refere ao dinamismo, à ação. E o verbo “crer” aparece com freqüência, no evangelho de João, precisamente nos lugares privilegiados onde há os seguintes elementos: a manifestação de Jesus e a resposta de fé ou de incredulidade dos ouvintes diante desta manifestação. A importância da fé no quarto Evangelho aparece pelo fato de que ela é o escopo da “obra de Deus”. Para João, a fé já é também a vida eterna. Fé é conhecer o Filho que o Pai enviou, e este conhecer é “vida eterna” (Jo 17,3). E no evangelho de João aquilo que significa crer pode ser dado em várias expressões: “receber Jesus”, “vir a Jesus”, “procurá-lo”, “ouvi-lo”, “guardar a palavra”, “permanecer nele”. Todas essas expressões significam “crer”. E o objeto único da fé em João é Jesus.


Para o evangelho de João crer em Jesus Cristo significa não parar de existir; é viver para sempre: “Quem crê em mim, ainda que morra, viverá” (Jo 11,25). Ao acreditar em Jesus, o homem terá a vida eterna em Seu nome (cf. Jo 20,30-31). A morte é incapaz de acabar com a vida de quem acredita em Jesus. Em Jesus e com Ele a vida continua.


Como podemos traduzir na vida cotidiana a fé em Jesus? A leitura dos Atos dos Apóstolos nos mostra algumas pistas. A fé se expressa na escuta atenta à Palavra de Deus. O povo eleito foi formado não por um decreto e sim pela escuta da Palavra de Deus. Todos que escutam a Palavra de Deus formam uma comunidade de fé. A fé que nasce da escuta atenta à Palavra de Deus se transforma também em missão, pois é preciso que a Palavra de Deus seja proclamada para que todos possam ser salvos. A maioria das tragédias na Bíblia surgiu por causa da falta da escuta atenta à Palavra de Deus. Podemos imaginar a vida de um filho ou filha que não quer escutar nada dos bons conselhos dos seus pais.


Além da escuta atenta à Palavra de Deus, a verdadeira fé deve se traduzir ou se concretizar no amor mútuo e pela defesa da vida no seu início, na sua duração e no seu término na história, pois acreditamos no Deus da vida que ressuscitou Jesus da morte. Amor é o maior sinal de nossa pertença a Jesus Cristo (cf. Jo 13,35).


A fé em Jesus se traduz também na comunhão de vida em torno da Eucaristia. A Eucaristia é o verdadeiro alimento para a Igreja peregrina que nós somos todos. A Eucaristia é a fonte e o ponto mais alto da vida comunitária e cultual. A Eucaristia é “sacramento de piedade, sinal de unidade, vínculo de caridade, banquete pascal em que se recebe Cristo, a alma se enche de graça e nos é concedido o penhor da glória futura” (Sacrosanctum Concilium, 47).


A fé em Jesus nos urge a sermos missionários. Ser missionário é um dos traços mais importantes do ser cristão. Mas para ser missionário de Jesus tem que ser primeiro seu discípulo (cf. Mc 3,13-14). Ser discípulo de Jesus supõe abandonar o modo de viver vivido até então para adotar o estilo de vida de Jesus. Tudo isso implica a conversão. Mas ser discípulo de Jesus é apenas um ponto de partida. Como discípulo, o cristão é enviado para fazer os outros discípulos de Jesus (cf. Mt 28,19). Em outras palavras, o cristão é discípulo para ser missionário. Para ser missionário alguém precisa ser discípulo de Jesus. E a conseqüência de ser discípulo de Jesus é ser Seu missionário. O cristão é discípulo-missionário.


P. Vitus Gustama,svd

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