domingo, 17 de abril de 2016

19/04/2016




ESCUTAR O BOM PASTOR QUE NOS CONHECE


Terça-Feira da IV Semana da Páscoa


Primeira Leitura: At 11,19-26


Naqueles dias, 19aqueles que se haviam espalhado por causa da perseguição que se seguiu à morte de Estêvão chegaram à Fenícia, à ilha de Chipre e à cidade de Antioquia, embora não pregassem a Palavra a ninguém que não fosse judeu. 20Contudo, alguns deles, habitantes de Chipre e da cidade de Cirene, chegaram a Antioquia e começaram a pregar também aos gregos, anunciando-lhes a Boa Nova do Senhor Jesus. 21E a mão do Senhor estava com eles. Muitas pessoas acreditaram no Evangelho e se converteram ao Senhor. 22A notícia chegou aos ouvidos da Igreja que estava em Jerusalém. Então enviaram Barnabé até Antioquia. 23Quando Barnabé chegou e viu a graça que Deus havia concedido, ficou muito alegre e exortou a todos para que permanecessem fiéis ao Senhor, com firmeza de coração. 24É que ele era um homem bom, cheio de Espírito Santo e de fé. E uma grande multidão aderiu ao Senhor. 25Então Barnabé partiu para Tarso, à procura de Saulo. 26Tendo encontrado Saulo, levou-o a Antioquia. Passaram um ano inteiro trabalhando juntos naquela Igreja, e instruíram uma numerosa multidão. Em Antioquia os discípulos foram, pela primeira vez, chamados com o nome de cristãos.


Evangelho: Jo 10,22-30


22 Celebrava-se, em Jerusalém, a festa da Dedicação do Templo. Era inverno. 23 Jesus passeava pelo Templo, no pórtico de Salomão. 24 Os judeus rodeavam-no e disseram: 'Até quando nos deixarás em dúvida? Se tu és o Messias, dize-nos abertamente.' 25 Jesus respondeu: 'Já vo-lo disse, mas vós não acreditais. As obras que eu faço em nome do meu Pai dão testemunho de mim; 26 vós, porém, não acreditais, porque não sois das minhas ovelhas. 27 As minhas ovelhas escutam a minha voz, eu as conheço e elas me seguem. 28 Eu dou-lhes a vida eterna e elas jamais se perderão. E ninguém vai arrancá-las de minha mão. 29 Meu Pai, que me deu estas ovelhas, é maior que todos, e ninguém pode arrebatá-las da mão do Pai. 30 Eu e o Pai somos um.'
--------------------


Escutar A Voz Do Verdadeiro Pastor     


O texto diz: “As minhas ovelhas escutam a minha voz... ”(v.27). Sempre ouvimos, mas será que escutamos? Escutar é uma coisa mais séria, requer uma certa dose de interesse, de preocupação, de atenção. Há que parar-se para detectar o que ouvimos, para clarificá-lo, para assimilá-lo e para respondê-lo. Escutar é um exercício humano para certa categoria. Na vida em geral, muitas vezes acontece que ouvimos, mas não escutamos. Tantas tragédias poderiam ser evitadas se soubéssemos escutar e viver os bons conselhos e orientações. Tantas fatalidades na vida de tantos cristãos poderiam ser afastadas, se vivessem de acordo com os ensinamentos de Cristo.


A escuta é uma palavra-chave que caracteriza toda a tradição do povo hebraico. Escutar é um dos mandamentos na Bíblia: “Escutai, ó Israel” (cf. Dt 6,4; Mc 12,29). Ouvir profundamente significa escutar as palavras, os pensamentos, a tonalidade dos sentimentos, o significado pessoal até mesmo o significado que subjaz às intenções conscientes, até os gritos enterrados muito baixo da superfície do interlocutor. O povo eleito é formado pela escuta da Palavra de Deus. E a maior das tragédias na Bíblia é causada pela falta da escuta da Palavra de Deus. Quando nos abrirmos para o discurso divino, aprenderemos que nós somos escuta, dom e que nos realizamos na gratuidade.


“Minhas ovelhas escutam a minha voz”. Esta é nossa tarefa essencial e permanente. Devemos fechar nossos ouvidos a outras vozes, a outras mensagens para tê-los abertos à Palavra do Senhor, pois só Ele tem palavras de vida eterna (cf. Jo 6,68), somente Ele é a verdade (Jo 14,6), somente Ele é a Luz (Jo 8,12).


A “voz” de Jesus Cristo ressoa toda vez que alguém viver e anunciar a nova humanidade onde todos se sentem irmãos; toda vez que alguém pregar e dar testemunho da justiça, da liberdade, da verdade, do amor, da paz, da fraternidade universal; toda vez que alguém nos fizer descobrir o verdadeiro sentido da vida. Seguidor de Cristo é aquele que reconhece a voz do Senhor nos profetas de hoje.


Para poder escutar é necessário ter silêncio, especialmente dentro de nós mesmos.


O silêncio é uma viagem para a interioridade e para a profundidade de nosso ser. O silêncio é nosso gesto simbólico de reverência diante do Mistério que se celebra.  A atitude de silêncio, exterior e interior, e de escuta é que torna possível a experiência de Deus, a experiência deste Mistério.


O silêncio é a abertura para Deus, para comunidade com que compartilhamos a oração e até o reencontro consigo mesmo. Se você é incapaz de se encontrar, também será incapaz de encontrar Deus e de se encontrar com Deus, pois cada encontro há momento para falar e para calar para escutar.


Para quem sabe calar e sabe fazer silêncio, tudo lhe fala, tudo se demonstra eloquente. O mistério se torna acessível para ele. Por isso, o silêncio é algo conatural à oração. O silêncio favorece o encontro em profundidade com Cristo presente nas nossas celebrações e na nossa vida.


O silêncio interior daquele que sabe escutar é o seio no qual germina e brota para o exterior a palavra cheia de conteúdo e de sentido. Com efeito, só pronuncia palavras plenas de sentido e pode dialogar aquele que sabe calar e escutar. Toda palavra deve ser precedida, acompanhada e seguida da escuta e do silêncio.


Nós vivemos no meio do mundo de muitas vozes. Ouvimos muitos apelos e vozes e nunca faltam mensagens enganosas. Para não cair na armadilha é necessário ter o discernimento e apurar os ouvidos para escutar melhor a voz do verdadeiro Pastor que é Jesus Cristo. Somente Cristo é o pastor que não nos decepciona. É ele quem dá sentido à nossa vida. É preciso ler, escutar meditar a Palavra de Deus freqüentemente para poder identificar a voz do Pastor no meio da multidão de vozes que também querem chamar a nossa atenção.


A Certeza De Sermos Conhecidos E Amados Por Deus


“Eu conheço as minhas ovelhas” (v.27). “Conhecer” biblicamente não se refere a um mero conhecimento intelectual. Conhecer na bíblia ultrapassa o saber intelectual e abstrato. O verbo “conhecer” no vocabulário bíblico e na língua hebraica implica o amar, o desejar o bem da pessoa, o sentir afeto por ela. Isto quer dizer que somente se pode chegar a conhecer uma pessoa no âmbito da relação intima e pessoal. O verbo “conhecer” exprime muito mais a relação de amor. Quando Jesus diz que conhece as suas ovelhas, isto quer dizer que tem para com todos nós uma relação de amor profundo. O mesmo amor que o une ao Pai, Jesus exprime também para com as suas ovelhas, todos nós: um amor fiel, eterno, indestrutível. Deus me ama com os meus ideais e minhas decepções, com os meus sacrifícios e alegrias, com os meus sucessos e fracassos.


“Eu conheço as minhas ovelhas”. Esta frase é uma mensagem de ternura. Ternura é amor respeitoso, delicado, concreto, atento e alegre; é amor sensível, aberto à reciprocidade, não ávido nem ganancioso nem pretensioso nem possessivo, mas forte na sua fraqueza, eficaz e vitorioso, desarmado e desarmante. Eu não sou anônimo para Deus. Ele conhece minhas vitórias e derrotas, minhas decepções e minhas alegrias, minhas preocupações e minhas felicidades. Apesar das minhas fraquezas ele me ama. O amor do Senhor me capacita para me levantar novamente e continuar minhas lutas pela vida vivida da sua dignidade.


Na nossa vida facilmente desvalorizamos a dimensão afetiva. Dedicamos muito mais atenção à dimensão do fazer, do produzir, do ter, esquecendo-nos das outras dimensões ligadas às afetivas. Isto pode acontecer dentro de família, pois cada um acaba correndo atrás de seus compromissos, de sua carreira, descuidando de cultivar os relacionamentos afetivos entre as pessoas.


Seguir Jesus, Nosso Bom Pastor


“E elas me seguem”, diz Jesus. A fé consiste em seguir Jesus por amor, vivendo como Ele viveu (cf.1Jo 2,6). Nosso cristianismo não pode consistir somente em cumprimento de umas normas. Não há fé cristã sem uma relação interior, pessoal e livre com Jesus. O nosso caminhar atrás das pegadas do Bom Pastor é paz, sossego, segurança, gozo inefável e glorioso. A fé é o seguimento: “Eles me seguem”. É preciso deixar Jesus na frente para que não fiquemos perdidos neste mundo, pois o nosso destino é a Casa do Pai onde se encontra Jesus. No seguimento nunca é tarde para retificar, corrigir e melhorar nossa vida cristã.


Jesus continua a ser o Bom Pastor no mundo inteiro, para todos os seres humanos. Mas todos nós, cristãos, por nosso testemunho, participamos do pastoreio universal de Jesus Cristo. Ao mesmo tempo em que somos conduzidos, ouvindo a sua voz, sendo ovelhas, devemos exercer também a missão de pastores, conduzindo os outros até as fontes da vida: Cristo.


“Não basta apenas falar de Jesus, é preciso obras, é necessária a vivência dos valores evangélicos, o amor precisa ser concretizado. Mas acima de tudo, é necessária a consciência de que somos participantes da divina missão de salvação dos homens e que quem realiza esta obra não somos nós, mas sim o próprio Deus, é ele quem pastoreia através de nós. Somos na verdade canais de graça para que os homens ouçam a voz de Jesus, sintam-se integrantes do seu rebanho e o sigam rumo à vida eterna” (Comentário do site da CNBB).


O silêncio- calar e escutar- é um dos gestos simbólicos menos atendidos e praticados de nossa liturgia ou nas nossas celebrações. Escutar é uma das chamadas constantes dos Evangelhos. A escuta é a primeira forma de fé e de oração, antes que dizer palavras ou entoar cantos. A fraseAs minhas ovelhas escutam a minha voz, eu as conheço e elas me seguem. Eu dou-lhes a vida eterna e elas jamais se perderão. E ninguém vai arrancá-las de minha mão” deve ser lida e relida, meditada e remeditada para que possamos seguir adiante com a força do Senhor. Que assim seja!


P. Vitus Gustama,svd

Nenhum comentário: