sábado, 23 de abril de 2016



26/04/2016
CRISTO QUER NOS DAR A PAZ


Terça-Feira da V Semana da Páscoa


Primeira Leitura: At 14,19-28


Naqueles dias, 19 de Antioquia e Icônio chegaram judeus que convenceram as multidões. Então apedrejaram Paulo e arrastaram-no para fora da cidade, pensando que ele estivesse morto. 20 Mas, enquanto os discípulos o rodeavam, Paulo levantou-se e entrou na cidade. No dia seguinte, partiu para Derbe com Barnabé. 21 Depois de terem pregado o Evangelho naquela cidade e feito muitos discípulos, voltaram para Listra, Icônio e Antioquia. 22 Encorajando os discípulos, eles os exortavam a permanecer firmes na fé, dizendo-lhes: “É preciso que passemos por muitos sofrimentos para entrar no Reino de Deus”. 23 Os apóstolos designaram presbíteros para cada Comunidade. Com orações e jejuns, eles os confiavam ao Senhor, em quem haviam acreditado. 24 Em seguida, atravessando a Pisídia, chegaram à Panfília. 25 Anunciaram a palavra em Perge, e depois desceram para Atália. 26 Dali embarcaram para Antioquia, de onde tinham saído, entregues à graça de Deus, para o trabalho que haviam realizado. 27 Chegando ali, reuniram a Comunidade. Contaram-lhe tudo o que Deus fizera por meio deles e como havia aberto a porta da fé para os pagãos. 28 E passaram então algum tempo com os discípulos.


Evangelho: Jo 14,27-31ª


Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 27“Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; mas não a dou como o mundo. Não se perturbe nem se intimide o vosso coração. 28 Ouvistes que eu vos disse: ‘Vou, mas voltarei a vós’. Se me amásseis, ficaríeis alegres porque vou para o Pai, pois o Pai é maior do que eu. 29Disse-vos isto, agora, antes que aconteça, para que, quando acontecer, vós acrediteis. 30Já não falarei muito convosco, pois o chefe deste mundo vem. Ele não tem poder sobre mim, 31amas, para que o mundo reconheça que eu amo o Pai, eu procedo conforme o Pai me ordenou”.
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Continuamos a acompanhar o “discurso” de despedida de Jesus de seus discípulos (Jo 13-17). Ao se despedir de seus discípulos, Jesus lhes dá a sua paz: “Eu vos deixo a paz, eu vos dou a minha paz; não vo-la dou como o faz o mundo. Que o vosso coração não se perturbe nem se intimide” (v.27).


A paz de Jesus é uma paz diferente. A saudação da paz encontramos também nos evangelhos sinóticos (Mt, Mc e Lc). A paz pronunciado por Jesus nos sinóticos tem sentido de salvação (cura e perdão de pecados). Esta paz pronunciado por Jesus nos sinóticos vai até a raiz do problema a fim de salvar a pessoa em questão. Quando Jesus disse à mulher que sofre de a hemorragia: “Vai em paz”, ele quer declarar a cura da mulher (Lc 8,48). Com a mesma palavra, Jesus perdoa os pecados da mulher pecadora: “Tua fé te salvou. Vai em paz” (Lc 7,50). A paz de Jesus nasce da vitória sobre os pecados e suas consequências.


O evangelista João também fala da paz, porém no contexto da Paixão e da ressurreição. Jesus fala da paz duas vezes no discurso de despedida (Jo 14,27 e Jo 16,33) e duas vezes também na sua aparição aos discípulos  depois da ressurreição (Jo 20,19-21.26). Porém, não se trata de uma simples saudação da paz e sim trata-se de um verdadeiro dom da paz: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou”. Jesus não deseja a paz para os discípulos. Ele dá-lhes a paz como dom. Com dom, a paz vem do alto. Consequentemente, no evangelho de João a paz não é o fruto da decisão do homem. A paz é um dom do céu.


Em João a paz de Jesus é diferente da paz do mundo:  Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; mas não a dou como o mundo”. A paz de Jesus não consiste na ausência  da cruz, mas na certeza da vitória de Jesus: “Eu venci o mundo” (Jo 16,33). Estando com Jesus o cristão vencerá também o mundo. A certeza da vitória final, apesar dos sofrimentos, dá força para o cristão lutar até o fim, como aquele que tem coragem de atravessar a noite, pois acredita que o sol vai aparecer para iluminar seu caminho.


Eu vos deixo a paz, eu vos dou a minha paz; não vo-la dou como o faz o mundo. Que o vosso coração não se perturbe nem se intimide”.


Paz (shalom, em hebraico, ou eirene, em grego) é uma fórmula ancestral e tradicional de saudação e de despedida entre os orientais até o dia de hoje. Os judeus na atualidade se saúdam com “shalom” (paz), ou se perguntam: “mi shelomkha?” (Como está?) que literalmente pode ser traduzido “como está tua paz?”. Ao se despedir se desejam shalom u-berakhah (paz e bênção).


Paz (shalom) que é a saudação habitual entre os judeus tem uma grande densidade de significado, pois este termo não significa apenas a ausência de conflitos ou a tranqüilidade da alma, mas também a saúde, a prosperidade, a felicidade em plenitude. A palavra “Shalom” talvez possa ser traduzida com uma expressão que todos nós desejamos aos outros: “Tudo de bom”. “All the best” para os da língua inglesa. Desejar a paz significa desejar tudo de bom para o próximo. Desejar “shalom” é desejar a alguém uma harmonia com tudo, com todos e com o Todo por excelência que é o próprio Deus. 


Ao se despedir dos discípulos, Jesus não lhes deseja a paz, mas ele lhes a paz: “Eu vos deixo a paz”, e insiste: “Eu vos dou a minha paz”.


Que tipo de paz que Jesus quer oferecer aos discípulos e a todos nós? Não se trata de um simples augúrio de paz, mas de um verdadeiro dom. A paz é um dom, vem do alto: não surge da decisão do homem. Por isso, não pode reduzir-se ao nível de sentimento. Trata-se de uma palavra que salva, que vai à raiz, lá onde está a origem da verdadeira paz (a origem do mal). A paz de Jesus tem como efeito banir/expulsar do coração dos discípulos todo e qualquer resquício/resíduo de perturbação ou de temor que leva ao imobilismo. Possuindo o dom da paz de Jesus, todos os seguidores de Cristo devem manter-se imperturbáveis, sem se deixar intimidar diante das dificuldades. Assim pensada, a paz de Jesus consiste numa força divina que não deixa os discípulos rompam a comunhão com Jesus. É Jesus mesmo, presente na vida dos discípulos, sustentando-lhe a caminhada, sempre disposto a seguir adiante com alegria, rumo à casa do Pai, apesar das adversidades que deverão enfrentar. Dizendo “vai em paz”, Jesus cura a hemorroíssa (Lc 8,48) e perdoa os pecados à pecadora (Lc 7,50). A paz de Jesus nasce da vitória sobre o pecado e suas conseqüências. A paz de Jesus funda-se no amor fraterno e na justiça. A paz de Jesus, por isso, rejeita toda espécie de idolatria que coloca criatura no lugar de Deus e submete o ser humano a um regime de opressão. João enfatiza que Jesus é o mediador da paz; é neste sentido que Jesus a qualifica de “minha”. Os verbos estão no presente, sublinhando, assim, a realidade atual e a duração indefinida do dom. O Filho dispõe a paz que, segundo a Bíblia, só Deus pode conceder. A paz caracteriza os tempos messiânicos (Sl 72,7). O Messias tem por nome “o Príncipe da Paz” (Is 9,5s). A aliança escatológica é uma “aliança de paz” (Is 66,12). Todo o NT se mostra herdeiro dessa tradição para acentuar a reconciliação com Deus (At 10,36; Rm 5,1;Ef 2,14-17;Cl 1,20 etc.).


Mas não dou a paz como o mundo a dá”, disse Jesus. Em que consiste a paz do mundo?


A paz que o mundo oferece prescinde de Deus e se funda num projeto contrário ao dele. Aí, se encontram a injustiça, a concentração de bens à custa da exploração alheia, o desrespeito pelo ser humano. É o império do egoísmo que idolatra pessoas e coisas, e transforma os indivíduos em seus escravos. Por isso, é uma paz que conduz à morte eterna. Segundo o mundo, para ter paz todos tem que se preparar para a guerra. “Si vis pacem, para bellum!” (expressão latina). “Se desejas a paz, prepara-te para a guerra”. “Devemos amar a paz sem odiar os que fazem a guerra”, dizia Santo Agostinho (Serm. 357,1).


Quando o homem esquece o seu destino eterno, e o horizonte de sua vida se limita à existência terrena, contenta-se com uma paz fictícia, com uma tranqüilidade exterior. Jesus qualifica este tipo de paz como a paz que o mundo dá. Recuperar a paz perdida é uma das melhores manifestações de nossa caridade para com os que estão à nossa volta. Onde houver amor também haverá a paz. Com efeito, a verdadeira paz é o fruto do amor a Deus e ao próximo.


Deus em quem acreditamos é um Deus da paz; não quer a desordem, a rebelião ou tumulto. Deus está pela ordem como estada normal das coisas, e esta ordem equivale à paz. É o mesmo Deus que na cena da criação põe ordem no caos inicial (Gn 1,1ss), dando a entender que “criar” é em primeiro término ordenar o caos inicial, separando o céu da terra etc. para evitar a confusão. A paz, entendido neste sentido, se apresenta como estado normal das coisas onde cada uma ocupa seu devido lugar. Quando cada elemento ocupar seu próprio lugar haverá a ordem e conseqüentemente haverá a paz. “A paz é a tranqüilidade da ordem”, dizia Santo Agostinho.


Eu vos deixo a paz, eu vos dou a minha paz; não vo-la dou como o faz o mundo”.


Muitas vez, para não dizer sempre, quando chegamos a um lugar afastado, tranquilo, longe de qualquer barulho a não ser os cantos dos pássaros logo dizemos: “Que paz!”. Mas dizemos anteriormente que a paz de Jesus não consiste na ausência  da cruz, mas na certeza da vitória de Jesus. Isto significa que nós, como cristãos, temos que buscar a paz no meio do barulho e da agitação de cada dia, no meio das preocupações laborais, no meio da família diariamente. A paz e os valores estão de mãos dadas. A paz não é fruto do consenso. A paz é o fruto do Espirito Santo que não nos afastarmos dos problemas, mas nos leva a termos convicção de que somos acompanhados por Cristo na nossa luta de cada dia. Isso nos dá uma serenidade.


Como cristãos temos tarefa de levar a paz para o mundo urgentemente. Transmitir a paz não é dar gritos nem apenas dar abraços durante a celebração, e sim colocar Cristo no centro de nossa vida, pois Jesus é o Príncipe da paz.Depois do Pai-Nosso se dá a paz. Que grande sacramento se esconde nesse rito. Deixa que teu beijo seja a expressão de teu amor. Não sejas Judas, que beijou Cristo com os lábios, mas já o havia traído em seu coração” (Santo Agostinho: Serm. Dennis 6,3).


Para refletir:
  • “A fraternidade é uma dimensão essencial do homem, sendo ele um ser relacional. A consciência viva desta dimensão relacional leva-nos a ver e tratar cada pessoa como uma verdadeira irmã e um verdadeiro irmão; sem tal consciência, torna-se impossível a construção duma sociedade justa, duma paz firme e duradoura. E convém desde já lembrar que a fraternidade se começa a aprender habitualmente no seio da família, graças, sobretudo, às funções responsáveis e complementares de todos os seus membros, mormente do pai e da mãe. A família é a fonte de toda a fraternidade, sendo por isso mesmo também o fundamento e o caminho primário para a paz, já que, por vocação, deveria contagiar o mundo com o seu amor” (Papa Francisco: Mensagem Para a Celebração Do XLVII Dia Mundial Da Paz De 2014).
     
    P. Vitus Gustama,svd

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