segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Domingo, 02/10/2016




A FÉ PROFUNDA NOS TORNA SERVIDORES DO SENHOR E DOS DEMAIS


XXVII DOMINGO DO TEMPO COMUM


Evangelho: Lc 17,5-10


Naquele tempo: 5 Os apóstolos disseram ao Senhor: 'Aumenta a nossa fé!' 6 O Senhor respondeu: 'Se vós tivésseis fé, mesmo pequena como um grão de mostarda, poderíeis dizer a esta amoreira: `Arranca-te daqui e planta-te no mar', e ela vos obedeceria. 7 Se algum de vós tem um empregado que trabalha a terra ou cuida dos animais, por acaso vai dizer-lhe, quando ele volta do campo: 'Vem depressa para a mesa?' 8 Pelo contrário, não vai dizer ao empregado: 'Prepara-me o jantar, cinge-te e serve-me, enquanto eu como e bebo; depois disso tu poderás comer e beber?' 9 Será que vai agradecer ao empregado, porque fez o que lhe havia mandado? 10 Assim também vós: quando tiverdes feito tudo o que vos mandaram, dizei: 'Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer'.'
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Continuamos a acompanhar Jesus que saiu da Galileia para caminhar rumo a Jerusalém na sua última caminhada, pois ele será crucificado, morto, mas ressuscitado. Em função disso, Ele dá suas últimas lições para seus discípulos neste caminho. Por isso, esse conjunto é chamado “Lições do Caminho” (Lc 9,51-19,28).


O texto lido neste dia faz parte da seção Lc 17,1-10. Nesta seção, Lucas reúne várias palavras de Jesus, dirigidas a seus discípulos, que têm uma forte vinculação com a vida comunitária. Em primeiro lugar (vv.1-2) pede-se de nós que não sejamos ocasião de tropeço por nossos atos negativos para os pequeninos. Estes são os pobres, os humildes, os que não têm recursos materiais ou espirituais para opor-se aos que provocam o tropeço. Precisamente estes são os eleitos de Deus. São para eles que o Reino de Deus se prepara (Lc 6,20s). E a vontade de Deus é que nenhum deles se perca (Mt 18,14). Depois fala-se da correção fraterna (vv.3-4) para que o irmão, que peca, tome consciência de sua falta e se arrependa (Lv 19,17) e solicita-se de nós o perdão como atitude permanente, imitando o comportamento de Deus (Lc 15,11-32). Desta maneira vivemos o mandamento do amor que perdoa inclusive aos inimigos, seguindo a misericórdia do Pai (Lc 6,36). A comunidade cristão aparece, assim, como uma comunidade de pecadores que experimenta a proximidade e acolhida de Deus no perdão fraterno.


O texto do evangelho deste domingo é a sequência das sentenças de Jesus acima mencionadas. O texto pode ser dividido em duas partes: vv.5-6 falam do pedido dos discípulos que Jesus aumente a fé deles; vv.7-10 falam de serviço despretensioso/ser servo inútil.


Pedido de aumento de fé (vv.5-6)


O Evangelho começa com um pedido dos apóstolos ao Senhor que lhes aumente a fé. Os apóstolos percebem que estão vacilando, sentem-se tentados a rever as próprias escolhas, a voltar atrás, como tinham feito muitos discípulos (cf. Jo 6,60). Eles reconhecem que somente a força da fé os permitirá aceitar, com todas as suas consequências, as exigências do perdão. Eis então que surge espontaneamente nos seus lábios o pedido de socorro: “Aumenta a nossa fé!” Os apóstolos têm certeza que só com a confiança ilimitada em Jesus é que eles podem realizar coisas impossíveis aos olhos humanos. Por isso, eles querem ter o poder de Jesus Cristo.


Os discípulos querem ter mais fé. A resposta de Jesus tira deles o conceito de maior ou menor em termos de fé para o de uma fé genuína. Ao pedir que se aumente a fé, não se busca seu acréscimo quantitativo e sim uma mudança radical para fazê-la mais genuína.  Basta ter uma mínima fé, mas autêntica (como o grão de mostarda, Lc 13,19) para realizar grandes coisas. Se houver fé real, então, os efeitos se segurarão. Não é tanto uma grande fé em Deus que é exigida, quanto a fé num Deus grande. A imagem da amoreira arrancada e transplantada no mar expressa plasticamente a força da confiança plena em Deus. Isto quer dizer que a fé genuína pode realizar aquilo que a experiência, a razão e a probabilidade negariam, se for exercida dentro da vontade de Deus.


Se a fé pode fazer as coisas impossíveis, isto quer nos dizer que a fé é uma participação na vida de Deus e uma experiência da vida divina em nós, que permite vermo-nos a nós próprios e à realidade que nos rodeia como se o fizéssemos com os olhos de Deus. Semelhante participação na vida divina, por meio da fé, transforma-nos em homens novos, permite-nos entender a realidade de uma maneira renovada, proporcionando-nos uma nova visão, tanto de Deus como da realidade terrena que nos cerca e a nossa própria vida e a vida dos outros. É a fé que nos torna capazes de ultrapassarmos as aparências, de distinguirmos a causa prima das causas segundas e de vermos que aquilo que se passa ao nosso redor não é fruto do poder dos homens. A fé nos permite descobrirmos os sinais de Deus na criação, oferece-nos a possibilidade de acolhermos os acontecimentos como expressão da vontade de Deus e de os vermos como uma passagem de Deus na nossa vida. A fé muda a nossa mentalidade, impele-nos a pormos sempre Deus em primeiro lugar, leva-nos a orientar para Ele toda a nossa vida e a interpretar o mundo e nossa vida à luz divina. A fé nos dá a força cheia de confiança de uma filiação divina. Quando a força humana terminar, a fé vai a continuar, pois a fé transforma os nossos limites em forças, pois a fé é a participação na vida divina.


A partir daí todos os nossos juízos, apreciações, desejos e expectativas serão iluminados por essa luz, e desse modo se concretiza aquela comunhão de fé que só há de alcançar a sua plenitude no amor. “A fé não respeita a ordem natural, não se funda na experiência dos sentidos, não se estriba na força da razão humana, senão na virtude e autoridade divina, certíssima de que a suma e eterna verdade, que é Deus, nunca pode enganar-se nem enganar” (S. Pedro Canísio). Baseando-se na fidelidade de Deus para conosco, temos coragem de nos entregar cegamente nas mãos de Deus. Deus é fiel consigo mesmo e é fiel para comigo, por isso, creio nele.


Se a nossa fé for forte, o mundo criado à nossa volta se tornará como que a expressão de uma voz que nos fala. Se a nossa fé for fraca, essa voz produzirá em nós a dispersão, afasta-nos de Deus e nos leva a nos centramos em nós próprios.


A fé nos torna capazes de ultrapassar as aparências e nos permite descobrir os sinais de Deus na nossa vida. Consequentemente faz nascer em nós a paz interior, essa paz que provém da firme certeza de que Aquele que é Poder e Amor infinitos tudo há de conduzir ao fim na sua infinita sabedoria e no seu infinito amor. Esta fé nos dá a convicção de que estamos constantemente envolvidos pelo amor de Deus.


À luz da fé também podemos descobrir a nossa fraqueza e assim esperar tudo de Deus. O poder de Deus será capaz de agir em nós, quando na fé, reconhecermos a nossa fraqueza, tornando-nos, assim, pobres em espírito. O homem pobre no espírito é aquele que vive despojado de toda a segurança, que sabe que as suas forças não lhe bastam.


Segundo S. Tomás de Aquino (cf. Exposição Sobre o Credo), a fé produz quatro bens. O primeiro bem é a união da alma com Deus. Como se fosse uma espécie de matrimônio entre a alma e Deus, como diz o profeta Oséias: “Desposar-te-ei na fé” (Os 2,20). O segundo bem: a fé faz iniciar em nós a vida eterna. E a vida eterna consiste em conhecer Deus (Jo 17,3). O terceiro bem: a fé orienta a vida presente para que o homem possa viver bem segundo os princípios do bem viver. A fé ensina todos os princípios do bem viver.” O justo vive da(pela) fé” (Hb 2,4). O quarto bem: pela fé vencem-se as tentações. Pela fé é que conhecemos um só Deus e que somente a ele devemos obedecer. “Por essas razões fica provado que é muito útil ter fé”, concluiu S. Tomás de Aquino.


Em todos os domingos e em outras ocasiões sempre professamos: “Creio em Deus...”. “A fé não é uma simples formulação doutrinal, dogmática. Não se restringe nem se entende prioritariamente como adesão às verdades reveladas. Ela é a práxis do cristão no conjunto de toda a sua vida. Envolve espiritualidade, liturgia, prática pastoral, luta pela justiça, compromissos sociais, vida moral” (João Batista Libânio em Eu Creio, Nós Cremos). Será que vivemos realmente o que professamos? Será que creio de verdade que Deus é o Pai todo poderoso e Criador do céu e da terra? Você já parou para pensar nisto?


Serviço despretensioso/ser servo inútil (vv.7-10)


A segunda parte do texto começa com a parábola do agricultor que explora sem remorso seu servo. Pode-se entender esta parábola a partir do seu contexto.  No costume da antiguidade não existia contrato de trabalho que determinasse os limites de horário de trabalho ou reconhecesse horas-extra de trabalho. O servo era propriedade do seu senhor, sem direitos à recompensa e ao reconhecimento. Se lêssemos literalmente esta parábola, ela traria um choque para nós ou se justificaria todo tipo de escravidão existente ainda na sociedade. Mas as parábolas de Jesus se servem das experiências reais para falar de outra coisa. É claro que Jesus não aprova a conduta daquele senhor que é abusiva e arbitrária, mas serve-se de uma realidade do seu tempo para ilustrar qual deve ser a atitude da criatura (ser humano) em relação ao Criador (Deus). Tudo de bom procede do Senhor. E temos que ler esta parábola na sequência do texto.


Logo depois de dizer que a fé nos faz realizar grandes obras, Jesus indica que, nem por isso, temos que ficar nos exibindo, vaidosos com o que pudermos realizar. Se fazemos algo, em primeiro lugar, é porque a graça de Deus nos acompanha. Servo inútil, no Evangelho de hoje, é aquele que une com simplicidade fé e serviço sem esperar outra recompensa que não seja a alegria de estar trabalhando por uma boa causa. Com isso, quer-se afirmar firmemente que a fé é antes de tudo um dom. Nossa capacidade de viver a fé, de cumprir o “que lhe havia mandado” (v.10) é também graça. Por isso, Santo Ambrósio comenta: “Não te julgues mais por seres chamado filho de Deus, deves, sim, reconhecer a graça, mas não deves esquecer a tua natureza, nem te envaideças por teres servido fielmente, já que esse era o teu dever. O sol cumpre a sua tarefa, a lua obedece, os anjos também servem”. Se Deus não nos ajudar, seremos incapazes de levar a cabo o que Ele nos encomendou. A graça divina é a única coisa que pode potenciar os nossos talentos humanos para trabalharmos por Cristo. Sem a graça santificante, para nada serviríamos. Santo Agostinho compara a necessidade do auxílio divino à da luz para podermos ver. É o olho que vê, mas não poderia fazê-lo se não houvesse luz. Deus faz o máximo. Nós fazemos apenas o mínimo.


Lucas também quer sublinhar o tema da gratuidade da fé. Quer-se afirmar firmemente que a fé é antes de tudo um dom. Nossa capacidade de viver a fé, de cumprir o “que lhe havia mandado é também graça. Deus nos dá o tempo suficiente para viver nossa fé. Por isso, a afirmação de “inutilidade”, de que somos pobres servidores, é perfeitamente coerente com uma fé profundamente comprometida. A vida de fé é sempre um dom que acolhemos na medida em que amamos Deus e os demais.


Em consequência, paradoxalmente, os servos verdadeiramente úteis são os que se reconhecem “inúteis”. Somente os que vivem e reconhecem esse dom podem ser portadores da gratuidade do amor de Deus aos demais.


A alegria de um cristão consiste em entregar-se sem reservas, à missão recebida, sem nada exigir. Basta-lhe a consciência do dever cumprido. A partir desta humildade na fé, tudo quanto façamos, por mais duro e esgotante que seja, resta-nos somente dizer: “Fiz tudo o que devia fazer”. Tudo mais está entregue à benevolência de Deus.


Todos na comunidade, na verdade, somos pobres e simples servos de Deus. São Paulo diz: “Evangelizar não é glória para mim, senão necessidade. Ai de mim se não evangelizar. Eu que, sendo totalmente livre, fiz-me escravo de todos para ganhar a todos...” (1Cor 9,16.19).  Este texto é convite para vestirmos a humildade pois na verdade, pois fazemos muito pouco para Deus no próximo em comparação às bênçãos de Deus que recebemos diariamente.


Com esta parábola, Jesus também quer dizer aos discípulos que o serviço prestado deve ser desinteressado e gratuito. Assim está sendo desmantelada toda pretensão humana que tenta de alguma maneira servir-se de Deus ou condicioná-lo através de uma relação religiosa de tipo contratual ou contabilizável, segundo o modelo farisaico. E esta crítica à religiosidade mercantil e pretensiosa é tanto mais urgente quanto mais na comunidade a função ou o serviço goza de certo prestígio ou de responsabilidade. Não é por acaso que a parábola do servo sem pretensões é dirigida aos discípulos. Todos na comunidade são pobres e simples servos (cf. 1 Cor 9,16.19-23).


Outro cerne dessa parte diz respeito à atitude da pessoa. A atitude arrogante vê Deus muito feliz pelo fato da pessoa realizar o bom serviço. No entanto, a atitude adequada é a de agradecimento por termos privilégio e a oportunidade de servir a Deus. Seja qual for a recompensa que obtivermos por servir a Deus, na verdade, não a merecemos, mas a ganhamos porque Deus é gracioso. Nenhum cristão pode gabar-se diante de Deus (Rm 3,27). Os servos fiéis entendem isso, pelo que prosseguem em seu trabalho para Deus, motivados pelo amor a Deus e não por um senso de importância própria ou cobiça pela recompensa. Deus nos criou e tudo de bom vem dele.  Não podemos, por isso, nos vangloriar de nenhum bem que tenhamos recebido de Deus (cf. Ef 2,8). Todos os nossos méritos provém de Deus. Evita-se assim qualquer autojustificação farisaica. O que temos que fazer diante de tudo isto é agradecer a Deus. Temos que procurar sempre as razões para agradecer a Deus e não os motivos para reclamar que Deus nos esqueceu.


Para chegar até este ponto, para a fé ser viva e atuante, precisamos alimentá-la de diversas formas, todos os dias, sobretudo com a oração, com a reflexão, com a leitura da Palavra de Deus, com a participação na vida da Igreja e com o serviço ao próximo. Sem alimentarmos a nossa fé com tudo isso, ficaremos frágeis e nos tornamos inconstantes.

P. Vitus Gustama,SVD

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