segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Domingo, 13/11/2016


SER PERSEVERANTE NO TESTEMUNHO CRISTÃO


XXXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM


Evangelho: Lc 21,5-19


Naquele tempo: 5 Algumas pessoas comentavam a respeito do Templo que era enfeitado com belas pedras e com ofertas votivas. Jesus disse: 6'Vós admirais estas coisas? Dias virão em que não ficará pedra sobre pedra. Tudo será destruído.' 7 Mas eles perguntaram: 'Mestre, quando acontecerá isto? E qual vai ser o sinal de que estas coisas estão para acontecer? 8 Jesus respondeu: 'Cuidado para não serdes enganados, porque muitos virão em meu nome, dizendo: 'Sou eu!' e ainda: 'O tempo está próximo.' Não sigais essa gente! 9 Quando ouvirdes falar de guerras e revoluções, não fiqueis apavorados. É preciso que estas coisas aconteçam primeiro, mas não será logo o fim.' 10 E Jesus continuou: 'Um povo se levantará contra outro povo, um país atacará outro país. 11 Haverá grandes terremotos, fomes e pestes em muitos lugares; acontecerão coisas pavorosas e grandes sinais serão vistos no céu. 12 Antes, porém, que estas coisas aconteçam, sereis presos e perseguidos; sereis entregues às sinagogas e postos na prisão; sereis levados diante de reis e governadores por causa do meu nome. 13 Esta será a ocasião em que testemunhareis a vossa fé. 14 Fazei o firme propósito de não planejar com antecedência a própria defesa; 15 porque eu vos darei palavras tão acertadas, que nenhum dos inimigos vos poderá resistir ou rebater. 16 Sereis entregues até mesmo pelos próprios pais, irmãos, parentes e amigos. E eles matarão alguns de vós. 17 Todos vos odiarão por causa do meu nome. 18 Mas vós não perdereis um só fio de cabelo da vossa cabeça. 19 É permanecendo firmes que ireis ganhar a vida!
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Estamos no penúltimo domingo do tempo comum. Normalmente nos dois últimos domingos do tempo comum (e no primeiro domingo do Advento) as leituras da missa só falam das coisas finais (escatologia) como lemos no evangelho deste domingo.


Como os dois outros evangelhos sinóticos (Mt 24-25; Mc 13), também o evangelho de Lucas encerra a atividade de Jesus em Jerusalém (Lc19,29-21,38), antes de sua prisão, com o discurso sobre o fim/escatológico (Lc 21,5-38). Em seu lugar atual na tradição sinótica esse discurso é considerado como um discurso de despedida de Jesus que deixa à sua comunidade os últimos conselhos e advertências. Para Lucas a destruição de Jerusalém era um fato e as perseguições à comunidade primitiva uma realidade. Tanto Mateus como Lucas inspiram seu discurso escatológico do evangelho de Marcos capítulo 13.


Mas Lucas tem seu próprio estilo. No discurso ele projeta a sua visão da história da salvação em três momentos: a destruição de Jerusalém (julgamento sobre Jerusalém), tempo da missão da Igreja e enfim, a vinda do Filho do Homem que trará a plenitude do Reino de Deus (parusia). Ao redimensionar a perspectiva escatológica deste discurso Lucas quer chamar a atenção de dois grupos, seja o dos fanáticos que esperam com impaciência o fim, daqueles que confundem os próprios sonhos com a realidade; Lucas convida os cristãos a refletir sobre o que devem fazer para que o mundo seja mais humano e fraterno; seja o dos decepcionados e resignados que não esperam mais nada, para a necessidade do empenho presente, no Tempo da Igreja. Este é o tempo oportuno do testemunho em meio às perseguições violentas, e a confiança e a esperança perseverante na espera da libertação com a vinda gloriosa do Senhor Ressuscitado, o Filho do Homem (vv.27-28). Os cristãos não podem se entregar a utopia futurista, perdendo o laço com a realidade histórica e cotidiana, a realidade do presente embora ela esteja cheia de mentiras, violências, perturbações absurdas que podem levar a desejar o fim. Se o Senhor havia vencido a morte, pensa Lucas, a comunidade cristã não está caminhando rumo à uma utopia anônima, mas o Filho do Homem, que é garantia e primícia da libertação humana. A nossa esperança, por isso, não será fraudada pois ela tem um nome: Jesus Cristo (cf. Rm 8,31.35.37). Com esse discurso, então, o evangelista deseja fortalecer a esperança de sua comunidade.


O fim de Jerusalém é, para Lucas, uma prefiguração do fim (não podemos esquecer que o evangelho de Lucas foi escrito depois da destruição de Jerusalém que aconteceu em 70 d. C na guerra dos judeus contra Roma em 66-70 d.C). Ele é o fim de toda uma etapa da história salvífica, mas não é o sinal da chegada do fim. Esse não é o fim dos tempos, mas o fim do templo. O que Jesus está dizendo aqui na versão de Lucas desse discurso é que haverá muitos perigos e dificuldades esperando seus seguidores (cf. At 7,54-60;12,1-2).


Segundo Jesus, cada dificuldade ou perseguição deve se tornar uma oportunidade de dar testemunho dele: “Mas isto será para vós uma ocasião de dar testemunho de mim” (v.13). Como no tempo em que aconteceu a guerra entre os Estados Unidos contra Afeganistão, indefeso tecnologicamente, se destaca o islamismo. Nunca vendeu-se tanto no Brasil o Alcorão como nesse tempo. Essa guerra se tornou uma boa propaganda para o islamismo. O islamismo que era pouco conhecido no Brasil, se tornou conhecido. Até a novela global “o Clone” ajudou a população a conhecer um pouco mais sobre o islamismo que não é apenas uma religião mas um sistema.


A palavra “testemunhar/testemunho/testemunha” é uma das palavras preferidas por Lucas, especialmente nos Atos dos Apóstolos (aparece 13 vezes em Atos). Na parte central dos grandes discursos que dão ritmo a Atos, Pedro repete: “Nós somos testemunhas” (cf. At 2,32;3,15;10,41). Ser testemunha era a identidade dos discípulos de Jesus. O anúncio da palavra de Deus e o testemunho de vida são palavras-chaves e inseparáveis na obra de Lucas, de modo especial na segunda obra. Testemunhar significa provar com a própria vida aquilo que se fala, se professa e no que se acredita, assumindo todas as consequências.


Mas testemunhar quem? Não se trata de testemunhar uma ideia, um conjunto de verdades; o conteúdo do anúncio não é teoria nem sistema, mas é o próprio Jesus Cristo Ressuscitado. Por isso, o anúncio pode ser feito por todos e para todos, porque não pressupõe nem culturas nem diplomas. Sendo o próprio Jesus Cristo, é suficiente tê-Lo encontrado como aquele que dá sentido a toda a vida. Para anunciar Jesus Cristo Ressuscitado não se requerem qualidades específicas, mas uma fidelidade. Testemunhar Jesus é provar com a própria vida que é ele o sentido profundo de nossa vida e da vida do mundo.


Na escolha de um caminho de vida, não basta o entusiasmo do primeiro momento nem as afirmações exaltadas de amor a Jesus. A salvação para cada um de nós e para melhorar o mundo, a família, o trabalho, depende da perseverança no caminho da justiça, do amor e da fraternidade. Por isso, Jesus disse: “Com vossa perseverança salvareis vossas vidas” (v.19).


O que significa perseverar?


Perseverar significa a capacidade de resistir diante de cada dificuldade. A capacidade de resistir carece muitas vezes de um elevado grau de força de ânimo. A capacidade de resistir, entendida como perseverança, remete para as nossas forças interiores e para as nossas firmes decisões. Como disse o filósofo romano, Epicteto (55 d.C-135 d.C. Um dos seus discípulos era Marco Aurélio): “Cada dificuldade na vida nos oferece uma oportunidade para nos voltarmos para dentro de nós mesmos e recorrermos aos nossos recursos interiores escondidos ou mesmo desconhecidos. As provações que suportamos podem e devem revelar-nos quais são as nossas forças. As pessoas prudentes enxergam além do incidente em si e procuram criar o hábito de utilizá-lo da maneira mais saudável. Você possui forças que provavelmente desconhece. Encontre a que necessita nesse momento. Use-a” (cf. A Arte de Viver, Editora Sextante).


Esta capacidade não é só para utilizar em casos alarmantes. Ao contrário, só conseguiremos avançar no nosso caminho, se procurarmos aproveitar plenamente as diferentes oportunidades de momento, tendo os olhos sempre postos na meta. Só assim, a nossa capacidade de resistir pode e deve fortalecer-se, mesmo no meio das dificuldades. É aí que ela se torna mais necessária.


A capacidade de resistir precisa haurir a confiança em Deus, confiança que tem que ser sempre renovada na oração. Como cristãos rezamos sem cessar, pedindo a graça da perseverança final. Estamos, todavia, conscientes de que isto leva consigo a disponibilidade para mudar/ se converter, porque estamos conscientes de que a nossa fidelidade é continuamente posta à prova e de que está exposta a contínuas tentações. Podemos ser tentados tanto do exterior(escândalo) como do interior. É precisamente no momento da tentação que entra em ação a capacidade de resistir (lembre-se de que o nosso velho Adão está sempre à espreita/observar ocultamente).


A espera faz com que cada cristão seja capaz de desistir em momentos de provação e de luta contra os sintomas do cansaço humano. Não devemos ignorar que nos finais do século primeiro, a cristandade primitiva teve que operar uma difícil mudança ao passar de uma espera próxima para uma espera constante do Senhor. Só a força muito profunda da sua fé lhe permitiu manter tão grande disponibilidade para essa mudança, expressando assim a sua capacidade de resistir.


Aquele que estiver aberto à capacidade de resistir e rezar com perseverança para a alcançar, poderá dizer com o Apóstolo Paulo: “Tudo posso n´Aquele que me dá força” (Fl 4,13).


Lucas convida, assim, a comunidade cristã a trilhar o caminho da fidelidade e da coragem, o caminho que o próprio Senhor trilhou, mesmo diante da repressão violenta das estruturas do poder, sinagogas, e reis, mesmo perante a morte violenta (Lc 21,12). Lucas não fornece informações sobre o fim, mas refunda a esperança no acontecimento central da morte e ressurreição de Jesus. Se Jesus Cristo venceu a morte, o maior inimigo da humanidade, o cristão não tem mais nenhuma razão de ter medo. Se o mal avançar, a confiança em Deus deve avançar também porque Deus sempre terá a última palavra e não o mundo. Ele convida os cristãos a olharem para a história para decifrar seus sinais, e reconhecer a presença de Deus pois tudo que acontece neste mundo está sempre sob o olhar de Deus. O que importa para uma comunidade cristã é a vivacidade de esperança. É a esperança que arranca o homem de uma existência sem futuro e sem expectativas. A tristeza e o desânimo são um sinal da ausência de uma verdadeira esperança cristã que no fundo provém de uma falta de fé.


Este discurso, portanto, é o discurso sobre o Senhor Ressuscitado, o Homem fiel até a morte para dar a todos um futuro novo e diferente e para afirmar aos cristãos ou para quem quer que seja, que vale a pena lutar pelo que é digno, como o amor, a justiça, a paz etc., pois tudo isto tem a vitória sobre a morte como o ponto final. Os cristão devem sempre tomar cuidado para não relaxar, pervertendo o testemunho e acabando por assumir os vícios provocados pela sociedade injusta. O julgamento está sempre operando na história. Os cristãos devem, portanto, estar sempre de prontidão, vigiando e praticando a justiça. Somente a sua perseverança na prática e no anúncio da justiça lhes permitirá ser considerados justos e inocentes no dia do julgamento: “Com vossa perseverança salvareis vossas vidas” (.19).


Mas Lucas faz também algum alerta. Quando ocorrem perturbações políticas, guerras, quando se alastram a fome, as epidemias, as injustiças, quando a situação de miséria se torna insuportável e quando um século está para terminar, facilmente, se espalham no meio do povo boatos sobre o fim do mundo. Normalmente esses tempos difíceis criam um clima favorável para a atividade dos “visionários” : os devaneios, as supostas “revelações” ou “aparições” se alastram como o fogo nas folhagens secas e há sempre algum cristão simplório que acaba se deixando fisgar pelos fanáticos de alguma seita.


Lucas narra este episódio para alertar as suas comunidades sobre aqueles que confundem os próprios sonhos com a realidade. Ele convida seus cristãos a abandonar estas pessoas e refletir, ao contrário, sobre o que fazer, concretamente, para que o mundo (pelo menos no lugar onde estou) seja melhor, seja um lugar de muito amor e fraternidade. Portanto a verdadeira preocupação dos cristãos não é o fim do mundo mas saber o que se deve fazer hoje para que cada um se torne um sinal da esperança onde há desespero e desânimo, e para que cada um seja a mão de Deus para ajudar aqueles que estão precisando de nossa ajuda ...etc.


Não precisamos ficar esperando nenhum grande sinal ou recado do além. A palavra de Deus já é um grande recado de Deus mais visível. Basta lê-la e traduzi-la na vida cotidiana. Vamos fazer a cada dia melhor do que o dia anterior com tudo que estiver ao nosso alcance; vamos resistir, com oração contínua, ao mal com perseverante firmeza, autocontrole começando com as coisas pequenas de cada dia. É assim que o nosso hoje se torne melhor que o nosso ontem e o nosso amanhã ficará melhor ainda do que o nosso hoje. Cada dia temos que conquistar algo de bom na nossa vida. É só assim que estaremos preparados para qualquer encontro com Deus nos apelos da vida.


Como sabemos muito bem, que o futuro a Deus pertence, do presente temos que cuidar agora. Nos tempos de hoje, podemos captar o recado de São Paulo na segunda leitura de hoje, numa frase de uma canção que maioria de nós sabe: “Quando Jesus passar eu quero estar no meu lugar”.  E “o lugar melhor é o lugar onde Deus quer”, disse são José Freinademetz. O lugar onde Deus mais quer é onde tem mais amor, vida, perdão, fraternidade, partilha, justiça.... Que o Senhor Jesus me encontre nestes lugares. Que o Senhor encontre a minha família no lugar onde Deus quer.


P. Vitus Gustama,svd

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