segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Domingo, 18/09/2016



VIVER NA SAGACIDADE E NO DESPOJAMENTO


XXV DOMINGO DO TEMPO COMUM


Evangelho: Lc 16,1-13


Naquele tempo: 1 Jesus dizia aos discípulos: 'Um homem rico tinha um administrador que foi acusado de esbanjar os seus bens. 2 Ele o chamou e lhe disse: 'Que é isto que ouço a teu respeito? Presta contas da tua administração, pois já não podes mais administrar meus bens'. 3 O administrador então começou a refletir: 'O senhor vai me tirar a administração. Que vou fazer? Para cavar, não tenho forças; de mendigar, tenho vergonha. 4 Ah! Já sei o que fazer, para que alguém me receba em sua casa quando eu for afastado da administração'. 5 Então ele chamou cada um dos que estavam devendo ao seu patrão. E perguntou ao primeiro: 'Quanto deves ao meu patrão?' 6 Ele respondeu: 'Cem barris de óleo!' O administrador disse: 'Pega a tua conta, senta-te, depressa, e escreve cinquenta!' 7 Depois ele perguntou a outro: 'E tu, quanto deves?' Ele respondeu: 'Cem medidas de trigo'. O administrador disse: 'Pega tua conta e escreve oitenta'. 8 E o senhor elogiou o administrador desonesto, porque ele agiu com esperteza. Com efeito, os filhos deste mundo são mais espertos em seus negócios do que os filhos da luz. 9 E eu vos digo: Usai o dinheiro injusto para fazer amigos, pois, quando acabar, eles vos receberão nas moradas eternas. 10 Quem é fiel nas pequenas coisas também é fiel nas grandes, e quem é injusto nas pequenas também é injusto nas grandes. 11 Por isso, se vós não sois fiéis no uso do dinheiro injusto, quem vos confiará o verdadeiro bem? 12 E se não sois fiéis no que é dos outros, quem vos dará aquilo que é vosso? 13 Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou odiará um e amará o outro, ou se apegará a um e desprezará o outro. Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro.'
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O texto do Evangelho lido neste domingo faz parte do conjunto de Lc 9,51-19,28 chamado “Lições do Caminho”, pois neste conjunto Jesus vai dar suas últimas lições para seus seguidores no seu último caminho para Jerusalém onde ele será crucificado, morto e ressuscitado e de onde Jesus vai enviar seus discípulos para o resto do mundo para evangelizar (Lc 24,46-49; At 1,8).        


Por todo o seu evangelho, Lucas revela preocupações quanto a atitude correta no uso dos bens materiais deste mundo, como encontramos em todo capítulo 16 deste evangelho. É a lição que Jesus quer passar para todos os cristãos. Na verdade este tema podemos encontrar já no capítulo 15 implicitamente sobre o filho pródigo que esbanja a riqueza numa vida desenfreada. Há dois pontos importantes deste texto para nossa reflexão: o exemplo de sagacidade/astúcia do administrador injusto e o uso correto dos bens deste mundo.  


Jesus não se dirige mais aos fariseus diretamente, como aconteceu nas parábolas anteriores, mas diretamente a seus discípulos e através deles aos cristãos de todos os tempos.




Convite à sagacidade/astúcia/coragem (vv.1-8)


O Evangelho deste domingo nos mostra um administrador que esbanja os bens do patrão. Faz uma trapaças, rouba o patrão. Ao saber de sua desonestidade, o patrão o demitiu. O administrador perdeu, então, a boa fama e desapareceu a esperança de galgar um posto mais “elevado”. O que fazer para segurar o futuro? Ele não fica com os braços cruzados; o negócio rápido é mandamento do aperto da hora.  Ele busca e recebe o apoio dos devedores. O administrador se protege, criando uma aliança com seus inferiores, os devedores de seu senhor. Ao fazer-lhes um favor, reduzindo as dívidas, faz deles seus clientes, em dívida para com ele. Com isso, ele entra em relações recíprocas com esperança de futuras retribuições. O administrador agiu sabiamente ao entrar no relacionamento de reciprocidade com os devedores de seu senhor. Deu-lhes algo de que precisavam e teve a garantia da retribuição no futuro. É um relacionamento de clientela. Com isso, os devedores estarão em dívida para com o administrador, e portanto, com a forte obrigação de lhe retribuírem o favor (do ut des: dou para que me dê).  Devemos saber que a organização daquela época dava poderes ao administrador de juros até 50%. Quando o administrador do Evangelho combina com os devedores para que paguem 50 barris de óleo e 80 medidas de trigo, está abatendo da parte que ficaria para ele. Os juros eram dele. Mas o desonestidade dele não foi esta; mas foi ter roubado o patrão antes, de outras formas; foi ter ameaçado o patrão ir à falência. Por isso, o patrão o demitiu da sua empresa.


O administrador desonesto não foi elogiado por Jesus por ter roubado, mas pela atitude decidida diante da situação difícil. Jesus louva o fato de o administrador ter sido sagaz diante de uma situação difícil e crítica. Ele é elogiado por causa das providências astuciosas que tomou a fim de garantir seu futuro. Não precisamos ficar confusos, por isso, pois há uma grande diferença entre “aplaudir o administrador desonesto porque agiu com habilidade” e “aplaudir o administrador hábil porque agiu desonestamente”. É a astúcia do administrador que é recomendada e não suas práticas desonestas. Ele não se fecha e não se entrega ao desânimo e desespero, mas busca um novo jeito de sobreviver. Ele não permanece na letargia e passividade. Ele percebe muito bem que tudo está em jogo. Por isso, ele age com lucidez e firmeza, tomando uma atitude decidida e corajosa a fim de superar a crise.


Jesus conclui a parábola dizendo: “Com efeito, os filhos deste mundo são mais espertos em seus negócios do que os filhos da luz” (v.8b). A expressão “filhos da luz” e “filhos do mundo” se encontra frequentemente nos textos de Qumrán que além disso, recomendam uma total separação de uns e outros. Se este administrador que Jesus considera “filho deste mundo” que não acredita em Deus, não fica desanimado diante da situação crítica, os filhos da luz, aqueles que acreditam em Deus (todos nós), devem ser muito mais do que este. Porque a razão do ser de um filho de Deus é o próprio Deus que na sua misericórdia nos amou primeiro (1Jo 4,19) e nos salvou para si. Quem crê em Deus não é um otimista, pois ele não precisa do pensamento positivo. Quem crê em Deus também não é pessimista, pois ele não precisa da lógica da dialética negativa. Quem confia em Deus, sabe que Deus aguarda por ele, que Deus espera por ele, que ele está convidado para o futuro de Deus e tem em suas mãos, com isso, o mais maravilhoso convite de sua vida. Desespero é a doença mortal, doença do espírito, doença do eu (Kierkegaard), porque o desesperado não acredita mais em nada e em ninguém nem em Deus. Mas não adianta fugir; não adianta querer sumir diante da situação de ameaça e angústia. Tentar fugir é fugir da vida; fugir da vida é fugir de Deus porque Deus é a VIDA (Jo 14,6).   


Os cristãos são convidados a não fugir deste mundo mas a viver no meio do mundo com critérios de generosidade e desprendimento diametralmente opostos aos habituais. Jesus nos chama a reconhecermos a nossa força porque a graça de Deus nos basta (2Cor 12,9). Por isso, tudo podemos naquele que nos fortalece (Fl 4,13). Aquele que nos fortalece é Jesus Cristo. Jesus nos convida a termos coragem (Jo 16,33).  Mas devemos ter coragem com previdência, pois a coragem sem previdência é burrice. Mas não basta ter somente previdência sem coragem, pois a previdência sem coragem faz a pessoa ficar escrupulosa. O cristão deve ser uma pessoa de esperança. Na angústia antecipamos o possível perigo, mas na esperança, a possível salvação. A lei do cristão é descobrir o apelo de Deus em cada momento, na confiança inabalável de que tudo tem sentido e tudo é abrigado por um sentido absoluto, acolhido no mistério da plenitude de Deus. O cristão tem motivos para afastar de si qualquer tentação de desespero. Jesus Cristo é o exemplo mais alto e mais indiscutível. Perante a iminência ameaçadora da morte, Jesus, com toda a serenidade, tomou o caminho para Jerusalém (Lc 9,51). Se Jesus Cristo morreu de braços abertos, nós não podemos ficar com os braços cruzados.


Convite ao uso correto dos bens materiais (vv.9-13)


A segunda parte do Evangelho de hoje é o convite de Jesus a usarmos o dinheiro corretamente. É o tema central de todo capítulo 16 deste Evangelho.


O dinheiro é uma faca de dois gumes, conforme se usa para o bem ou para o mal, isto é para Deus e para os outros, ou apenas para si próprio, excluindo os outros. Para viver como filhos da luz, como filhos de Deus, temos de ser irmãos dos outros, algo impossível para o que idolatra o dinheiro. Um dos nossos maiores economistas dizia: “Capitalismo é um sistema que funciona, porque se baseia no egoísmo humano”. E sabemos que o egoísmo é o contrário do plano de Deus. Com efeito, o Reino de Deus se alicerça no amor que produz a justiça e transborda em fraternidade e partilha para que todos tenham liberdade e vida. O reino do dinheiro, ao contrário, repousa no egoísmo que produz a injustiça e transborda em não-fraternidade e não-partilha, que dá origem ao poder que oprime e que dá origem à riqueza que explora. E normalmente o dinheiro é usado para oprimir os mais fracos.


A advertência de Jesus sobre o perigo do dinheiro não é exclusivamente para os ricos. É para todos pois todos têm o impulso natural que leva cada um a desejar alguma coisa ou dinheiro(apetência). O dinheiro é um deus que tem altar em quase todos os corações, tanto num adulto realista como num jovem idealista, tanto no rico como no pobre, tanto no leigo como no religioso/sacerdote. Até as crianças são educadas para ganhar dinheiro ao escolher bem uma profissão futura. Além disso, muitas vezes as brigas numa comunidade, seja familiar, seja civil, seja eclesial, surgem ou partem desse deus que se chama dinheiro. Por isso, Martinho Lutero observou astutamente: “Três conversões são necessárias: a conversão do coração, a da mente e a da bolsa”.


A segunda parte deste texto começa dizendo: “E eu vos digo: Usai o dinheiro injusto para fazer amigos, pois, quando acabar, eles vos receberão nas moradas eternas” (v.9). À exigência de entrar em relações, de “fazer amigos com o Dinheiro da iniquidade”, segue a promessa da recompensa: “a fim de que, no dia em que faltar, eles vos recebam (dexontai) nas moradas eternas”. Não são, porém, esses amigos que retribuem: dexontai é empregado aqui na forma passiva e refere-se a ato de Deus (veja também Lc 6,32-36; 14,7-14). Os fiéis são exortados a dar e a emprestar sem expectativa de retorno. Usar “o dinheiro da iniquidade” para fazer amigos é metáfora de “dar esmolas”, isto é, dar aos necessitados. O modo como Lucas emprega a expressão “fazer amigos” precisa ser analisada no interior de seu emprego da palavra “amizade” como instituição na sociedade. As amizades diferiam dos relacionamentos de clientela (como entre o administrador com os seus devedores), pois se baseavam muito mais na igualdade (cf. Lc 14,10.12; 15,6.9.29). Era uma relação solidária, de partilha, e por isso mesmo, totalmente diferente da exploração e da desigualdade de poder implícitas no relacionamento entre credor e devedor. “Fazer amigos” com o “dinheiro da iniquidade” era, portanto, o oposto de escravizar os necessitados. “Fazer amigos” dando aos necessitados tinha efeito libertador. Significava colocar as pessoas em pé de igualdade.


Esta segunda parte termina com esta frase: “Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (v.13b; cf. também Mt 6,24). Aqui não há meio-termo: ou servir ao Senhor Deus ou servir ao senhor dinheiro. Um é incompatível com o outro, porque cada um tem as suas próprias regras. E não se diga que o Evangelho é ingênuo, porque ele não está criticando uma cédula de dinheiro mas o capital, o acúmulo de dinheiro. “Servir a Deus” é uma dependência que nos faz livres para servir aos mais necessitados, enquanto que “servir ao dinheiro” é uma escravidão que esmaga à pessoa e perverte/estraga nossas relações com Deus e com os demais, como descreve a parábola do rico e Lázaro (Lc 16,19-31). O dinheiro pode se transformar num ídolo e por seu caráter totalizante impede o serviço autêntico a Deus e ao próximo.


Por isso, Jesus exige para que os cristãos usem o dinheiro para a libertação dos irmãos e para a nossa salvação: “Usai o dinheiro injusto para fazer amigos”. O amigo que devemos ganhar para sempre é Deus através dos seus amigos pequenos a quem devemos dedicar. O dinheiro não merece o nosso respeito. Merece ser conquistado no poder do Espírito. Uma vez derrotado e convertido ao caminho de Cristo, então o dinheiro poderá ser usado sem ser servido. Assim o dinheiro torna-se um instrumento útil de serviço. Se não somos justos em questões de dinheiro, como é que Deus nos dará o “verdadeiro bem” que é a Vida? Se não somos fiéis no que pertence aos outros(justiça), como poderemos ser justos?


Por isso, a grande questão moral em relação ao dinheiro é como passar da cobiça e ganância à generosidade e da vingança e violência por causa de dinheiro à magnanimidade e shalom, paz.


O voto da simplicidade mostra o caminho. A simplicidade é uma retidão de alma, é uma unicidade de coração, modéstia e temperança em todas as coisas, usar o dinheiro sem abusar dele. A simplicidade dá-nos o arcabouço para experimentarmos generosidade, magnanimidade e shalom, paz. São Francisco de Sales disse: “Recomendo-lhes santa simplicidade. Em tudo, amem a simplicidade!”


Se você deprecia o dinheiro dos outros, pergunte-se se não o adoraria caso ele fosse seu. Não admiro o seu desprendimento pelo dinheiro que lhe falta por você não saber ganhá-lo com seu esforço; mas sim o admira se você é generoso com o dinheiro que ganha com seu trabalho. E se você tem dinheiro acumulado, pergunte-se como o ganhou e como o usa. Se você continua acumulando mais dinheiro do que precisa para viver, sabe para que o faz?


O dinheiro não é principal de nossa vida. Os bens um dia nos escapam. Por isso, Jesus nos convida a fazer uma escolha decisiva e definitiva porque o Senhor Deus é incompatível com o senhor dinheiro. Por uma inversão de valores, as pessoas caem na tentação de substituir o Bem absoluto que é Deus pelos bens passageiros. Não podemos jamais esquecer a verdade de que tudo na nossa vida é emprestado. Um dia, quando terminar nossa caminhada neste mundo, tudo será deixado para quem ainda faz sua vida neste mundo. Fica a pergunta para nós: Vale a pena ficar apegado às coisas que serão escapadas de nossas mãos? Como é bom viver fazendo o bem neste mundo a exemplo de Jesus Cristo. A bondade é o investimento nunca falha, pois Deus é o Bem maior para o qual estamos caminhando.


P. Vitus Gustama,SVD

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