segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Domingo, 28/08/2016




SOMOS CHAMADOS A SER HUMILDES E GENEROSOS


XXII DOMINGO DO TEMPO COMUM


Evangelho:  Lc 14,1.7-14


1 Aconteceu que, num dia de sábado, Jesus foi comer na casa de um dos chefes dos fariseus. E eles o observavam. 7 Jesus notou como os convidados escolhiam os primeiros lugares. Então contou-lhes uma parábola: 8 “Quando tu fores convidado para uma festa de casamento, não ocupes o primeiro lugar. Pode ser que tenha sido convidado alguém mais importante do que tu, 9 e o dono da casa, que convidou os dois, venha te dizer: ‘Dá o lugar a ele’. Então tu ficarás envergonhado e irás ocupar o último lugar. 10 Mas, quando tu fores convidado, vai sentar-te no último lugar. Assim, quando chegar quem te convidou, te dirá: ‘Amigo, vem mais para cima’. E isto vai ser uma honra para ti diante de todos os convidados. 11 Porque quem se eleva, será humilhado e quem se humilha, será elevado”. 12 E disse também a quem o tinha convidado: “Quando tu deres um almoço ou um jantar, não convides teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem teus vizinhos ricos. Pois estes poderiam também convidar-te e isto já seria a tua recompensa. 13 Pelo contrário, quando deres uma festa, convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos. 14 Então tu serás feliz! Porque eles não te podem retribuir. Tu receberás a recompensa na ressurreição dos justos”.
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Continuamos a acompanhar Jesus no seu último caminho para Jerusalém, pois ele será crucificado, morto e ressuscitado. Durante este caminho ele vai dando suas últimas lições para seus discípulos. Por isso, essa seção é chamada “Lições do Caminho” (Lc 9,51-19,28).


O texto lido neste Domingo é tirado do conjunto literário Lc 7,14-24. Encontram-se nele três parábolas (7-11.12-14.15-24). Todas as três parábolas falam de um banquete e de seus convidados. O evangelho deste domingo fala apenas das duas primeiras parábolas. E o comportamento dos convidados aos banquetes (nas duas primeiras parábolas) dá a Jesus a oportunidade para dar uma lição sobre a humildade e a generosidade que servem para falar do Reino de Deus.


Sobre A Humildade


Conforme o costume de tempo mais antigo, os lugares não são ocupados pelos convidados por ordem de idade, mas segundo a dignidade e o prestígio (talvez não haja nenhuma diferença com o tempo atual). Cada qual escolhe o lugar que julga poder ocupar pela ordem de importância (cf. Lc 11,43;20,46;Mt 23,6;Mc 12,38). Jesus observa como os convidados disputam os primeiros lugares.


A observação é o motivo para Jesus falar da “conduta à mesa” (vv.8-11) Na verdade, os escribas conhecem uma norma de prudência da época: “Mantém-te distante, dois ou três assentos, de teu lugar (que te convém) e espera até que te seja dito: Sobe mais! Sobe mais, em vez de que te seja dito: Desce mais! Desce mais!” (Levítico Rabbah I.5). Para os escribas essas palavras não são apenas uma regra de prudência para não passar vergonha, mas prescrevem um procedimento que é fruto da mentalidade moral deles. O livro dos Provérbios também fala do mesmo tom: “Não te faças pretensioso diante do rei, não te ponhas no lugar dos grandes. É melhor que te digam: ‘Sobe aqui!’ do que seres humilhado diante de um personagem” (Pr 25,6-7).  Jesus não está dando uma porção de conselhos humanos; está ensinando os homens a serem genuinamente humildes. O homem verdadeiramente humilde acabará ficando onde deve estar e que receberá a honra que lhe é devida. O caminho à verdadeira exaltação é a humildade(v.11).


A humildade, que constitui o alicerce de outras virtudes, é uma virtude tão importante que Jesus sempre aproveita qualquer circunstância para pô-la em destaque. A humildade é o comportamento que atrai a simpatia dos homens e as bênçãos de Deus: “Filho, na medida em que fores grande, deverás praticar a humildade, e assim, encontrarás graça diante do Senhor...pois é aos humildes que Ele revela seus mistérios e.... é glorificado pelos humildes” (Eclo 3,20s).


A humildade não é a virtude do inferior em relação ao superior, mas ao contrário: é a virtude do superior em relação aos inferiores. A humildade é a virtude do superior que se abaixa e tem respeito pelos que se encontram em condição de inferioridade. Por esse motivo, a humildade é eminentemente virtude de Deus no seu respeito, atenção, zelo pelas suas criaturas especialmente pelos homens. E gesto supremo da humildade de Deus é a encarnação: “O Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). Em Jesus Cristo, então, toma forma a humildade de Deus. Por isso, Cristo é Deus feito humildade, que vive em condição de humildade, que ama a humildade, que aprecia e exalta os pobres e os humildes. E a humildade é o fundamento sobre o qual Cristo construiu a salvação dos homens e a via que Ele indicou aos que querem entrar no Reino do Céu.


Por isso, a humildade em seu grau mais perfeito, não está em ser pequeno, nem sentir-se pequeno, mas em fazer-se pequeno, não por qualquer exigência ou utilidade pessoal, mas por amor, para engrandecer os outros. Assim foi a humildade de Jesus Cristo. De fato, como sabemos, Deus não é pequeno, mas faz-se pequeno por amor só para nos engrandecer. Porque, na verdade, Deus na posição em que se encontra, não pode elevar-se, pois nada existe acima d´Ele. Se Deus sai de si mesmo, isto só poderá ser abaixar-se e tornar-se pequeno; em outras palavras, só poderá ser humildade. E o homem, como sabemos também, não pode cair mais para o nível mais baixo porque ele está no chão. Ele é necessariamente humilde: do latin, humus-humilis que quer dizer chão, pó. E só pode ser elevado para o nível de filho de Deus pela graça da encarnação. Assim ele se torna pó vivente porque Deus sopra nele a vida e a dignidade de filho de Deus. Por isso, tudo que somos, nós recebemos de Deus, é um presente d´Ele. É d´Ele que procedem a vida, a força, a inteligência, o bom temperamento que temos. Nada nos pertence. E de nada podemos nos vangloriar.


A “conduta à mesa” que Jesus propõe certamente não é apenas uma prudente regra de boas maneiras nem somente uma comum exortação à modéstia, mas é uma narração parabólica que aponta para o segundo plano da escolha ávida dos primeiros lugares. Expressa uma verdade que diz respeito ao Reino de Deus: Quem quiser entrar no Reino de Deus deve ser pequeno (veja a reflexão domingo anterior), deve fazer-se pequeno, como foi dito acima; e não deve ter falsas pretensões. Faz entrar no Reino de Deus o pequeno que não se julga digno dos divinos: “Deus revela seu mistério aos pequenos” (Eclo 3,20). Ser pequeno é a primeira condição para alguém entrar no Reino de Deus (Lc 6,20).


Sobre a generosidade (vv.12-14)


Para ser humilde e andar na verdade de nossa própria condição, precisamos ser pobres de espírito diante de Deus, isto é, vazios de nós mesmos para podermos ser plenos de Deus, sabendo que tudo em nossa vida é graça e dom, efeito da misericórdia e do amor que Deus nos tem. Consequência disto, quem é humilde, não tem medo de ser generoso, pois é capaz de receber, não só de Deus mas também dos outros. Temos que aprender a receber e não só dar, em todos os sentidos, não só no seu pequeno segmento material; e de receber para poder repartir. Porém, repartirá não para chamar a atenção para si, e sim, porque agradecido, gosta de tornar seus irmãos partícipes dos dons que recebeu.


Por isso, humilde é aquele que, tendo consciência das próprias qualidades, se coloca a serviço de todos. E, na verdade, a pessoa humilde é que estabelece relações que trazem a felicidade, que acabam com o egoísmo, com a competição, com a ostentação, e fazem reinar no mundo as atitudes de intercâmbio generoso dos dons de Deus.


Humildade, portanto, não é mesquinhez nem timidez, mas pelo contrário, o primeiro passo da magnanimidade, generosidade.


Por isso, Jesus faz uma proposta estranha para nós: quando deres uma festa, não convides os amigos ou quem pode retribuir a gentileza, mas convides os pobres, os que não têm onde cair mortos, os que não têm o que oferecer em troca. Dificilmente seria necessário indicar que Jesus não está enfatizando que não há generosidade em dar para pessoas que retribuirão. A festa de que Jesus fala é a partilha do que há de bom na vida, pois a partilha é a alma do projeto de Deus. Ele nos convida a uma atitude de gratuidade ou generosidade, uma atitude que é o exato contrário do cálculo interesseiro de quem vive se perguntando: “Quanto é que eu levo nisso? Que vantagem isso me dá? Será que tem retorno em fazer isso?”


A generosidade é um sinal de gratidão e de liberdade interior. Tudo o que somos, tudo o que podemos e temos é precioso e libertador, se o reconhecermos e apreciarmos como um dom do amor de Deus. Se percebermos e apreciarmos realmente que o esplendor daquilo que temos e daquilo que possuímos vem de Deus, o Doador de todos os bens, então não nos agarremos às nossas riquezas e capacidades, nem as utilizaremos para nos ensoberbecermos, apoiando-nos em falsas seguranças, mas procuraremos ser cada vez mais generosos e livres, quer dando, quer recebendo.


Ser generoso significa dar-se a si próprio por amor de Deus e do próximo, graças à intima liberdade que possuímos. Esta virtude é libertadora para ambas as partes: para o generoso e para o que, com pleno respeito pela sua liberdade, é favorecido. O generoso é livre na medida em que não procura o seu próprio proveito mas o daqueles a quem favorece. Acreditamos que todos nós já fizemos alguma coisa por alguém por pura generosidade e sabemos a alegria que isso traz ao nosso coração. Quem de nós, ao prestar gratuitamente um favor ou uma ajuda, já não ouviu a frase: “Deus lhe pague; Deus lhe abençoe?”. A alegria que brota da generosidade de um doador nobre é um dos mais preciosos e permanentes dons.


A generosidade com que servimos e socorremos os outros, nas suas necessidades, é um aferidor da nossa liberdade em relação a Deus. Sem generosidade, nem sequer pode existir a liberdade como virtude.


Para o generoso, todos os seus bens, todas as suas capacidades e dons se transformam num tesouro que se acumula no céu e que, entretanto, vai aliviando e tornando felizes os outros. E o próprio Jesus anuncia que tudo que aqui gratuitamente fazemos, nos será devolvido, certamente purificado e ampliado por Deus, na vida eterna(v.14). Nossa fé alimenta essa esperança. Porém, não é difícil ver que há também recompensas imediatas nesta vida: uma vida mais tranquila com segurança para todos, protegidos no meio dos irmãos. Para ser feliz é necessário fazer algo de bom pelos outros, gratuitamente, sem esperar uma troca. E para ser infeliz, basta ser egoísta ou ser avaro. O avaro é o protótipo dos sem- coração e dos de espírito mesquinho. O avaro é a pessoa mais pobre que existe.


Será que há ainda alguém, na nossa comunidade, que por ser mais inteligente e mais preparado quer dominar sobre os outros? Será que há alguém, também, que tenta esconder as próprias qualidades para não ser chamado a servir? Humilde é aquele que, tendo consciência das próprias qualidades, se coloca a serviço de todos. A humildade e a generosidade são comportamento que atrai a simpatia dos homens e as bênçãos de Deus.


Será que sabemos atrair a simpatia dos homens e as bênçãos de Deus?


P. Vitus Gustama,SVD

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