sábado, 3 de dezembro de 2016

DOMINGO,04/12/2016

O NOSSO SALVADOR VEM NOS DAR A ESPERANÇA

                                       Is 2,1-5; Sl 121; Rm 13,11-14; Mt 24,37-44

Os capítulos 24-25 de Mateus, onde se encontra o nosso texto deste dia, constituem o quinto e o último discurso de Jesus no evangelho de Mateus (o 1º Mt 5,1-7,29: o Sermão da Montanha onde Jesus proclama o Reino dos Céus e suas exigências; o 2º Mt 9,35-10,42: o discurso missionário onde se fala da extensão do Reino dos Céus; o 3º Mt 13,3b-52: o discurso sobre a natureza do Reino dos Céus em parábolas; o 4º Mt 18,3-34: o discurso eclesiológico onde se fala de como viver como uma comunidade que aceita o Reino dos Céus). Para compor este último discurso, Mateus elaborou notavelmente o chamado “discurso escatológico” de Marcos (Mc 13) e o ampliou com uma série de três parábolas e uma impressionante descrição do juízo final (Mt 25,31-46) cuja principal intenção é orientar os cristãos sobre como preparar a segunda vinda do Senhor conhecida como Parusia. 

O vocábulo grego parousia (de páreimi: estar presente, estar , chegar) é originalmente referido tanto para a descida ou manifestação de pessoas divinas na terra (por ocasião de uma festa religiosa ou por uma intervenção milagrosa), quanto para as visitas que reis e príncipes fazem às cidades submetidas ao seu império. O sentido principal do termo na cultura grega é de visita, chegada, advento de um soberano ou de uma divindade que se usa tanto no conceito político quanto religioso. O que sempre se destaca para a parousia é o seu caráter triunfal e glorioso. No NT, o conceito é utilizado para descrever a futura vinda de Cristo, Senhor de tudo e de todos (Pantocrátor) no final dos tempos. Por isso, geralmente a expressão parusia está ligada à idéia de fim do mundo e ao juízo final(cf. 1Ts 4,13-18) como se no evangelho deste domingo. Jesus virá com o poder e a glória para derrotar as potestades do inimigo e glorificar os que agora pertencem a Cristo.


Neste discurso, não se trata, como em Mc, dos sinais que precederam à destruição do templo (70 d. C), mas da vinda do Filho do Homem e das atitudes com que os discípulos devem preparar para essa vinda. A intenção de Mateus é responder à situação que vivia sua comunidade. Por um lado, perceberam que a segunda vinda de Jesus estava se atrasando e diante deles aparecia a história como espaço para o compromisso. Por outro lado, o evangelista contempla com preocupação os sinais de abandono, de negligência,  de rotina e de esfriamento que começaram a aparecer na comunidade. Nessa situação Mt descobriu que aquelas palavras de Jesus contém uma exortação dirigida aos cristãos que se fundamenta numa profunda convicção: a vinda do Filho do Homem é um fato certo, no entanto, não se sucederá em seguida. Por isso, é necessário preparar esse grande acontecimento vivendo segundo os ensinamentos de Jesus.

O estilo e as imagens desses capítulos podem provocar temor. Trata-se, porém, de uma forma de falar que era relativamente freqüente entre alguns grupos judios e cristãos da época de Jesus. Esta linguagem se conhece com o nome de apocalíptico, porque seu objetivo é manifestar uma revelação escondida(apocalypsis) com a seguinte idéia básica: o mundo não é eterno, terá fim juntamente com a humanidade à qual Deus oferece a sua salvação em Jesus Cristo cuja finalidade catequética é salientar a urgência da vigilância ativa. Este estilo de discurso quer recordar ao homem a sua condição finita não para levá-lo ao desespero e ao desânimo, mas para convidá-lo a uma conversão pessoal e comunitária. Em muitas ocasiões esta revelação está dirigida a grupos e comunidades que vivem uma situação de perseguição, com o objetivo de animá-los em suas tribulações. Por isso, não tem que ver neste texto uma ameaça, mas sim uma mensagem de esperança.

Aprofundemos nossa meditação sobre alguns pontos do texto! Mt 24,37-44

1. A vinda certa de Deus, porém imprevisível é a grande mensagem do Natal para o qual nos preparamos

Este Primeiro Domingo do Advento quer nos recordar o horizonte último da história, que se identifica com a vinda do Filho do Homem, Jesus Cristo. O texto reflete sobre uma concepção da história queresposta a uma pergunta existencial. A pergunta existencial indaga pelo sentido da história humana: “Para onde caminha o ser humano?”. O texto responde a esta pergunta afirmando que a história humana termina em uma peripécia (para um previsto), cujo protagonista é Deus. O texto quer nos dizer que tudo termina em Jesus Cristo, Deus-Conosco. Por esta razão, a história para o cristão continua sendo, desde o princípio ao fim, uma história de salvação. A vida do mundo, como nossa própria existência se verão expandidas por este encontro definitivo para o qual caminhamos. O ser humano vive sob o pólo de atração de Deus, que em um momento humanamente imprevisível, porém, certo, fará uma mudança repentina da atual situação ou da condição humana. Por isso, o texto quer inculcar a consciência desta peripécia universal, convidando todos a evitarem a atitude inconsciente de que nada muda nem pode mudar.

A vinda deste Deus em Jesus Cristo é imprevisível para nossa história, porém certa. Ele não cessa de estar presente no mundo de um modo muitas vezes impalpável e discreto, porém, seguro, como nos diz o Evangelho deste dia.  Cremos que Jesus se faz presente no mundo com uma presença real, ainda que seja discreta e misteriosa. Ele vem como ladrão, mas não para roubar e sim para nos resgatar. Pode-se dizer que trata-se de “ladrão” de corações. No fim dos tempos esta presença aparecerá no grande dia e não teremos que crer nele, pois O veremos. Neste dia estaremos inundados pela felicidade completa. Deus é aquele que logo nos mostra o final da história a partir daquilo que vivemos.

2. Advento é uma grande celebração da esperança crista        

Por tudo que foi dito acima, o Advento é a celebração da esperança cristã. Esperar é situar-se em estado de receptividade que é acompanhada pela esperança. A vinda salvadora de Deus, embora imprevisível, é a grande mensagem do Natal ao que nos preparamos. Deus, em Jesus Cristo, é a raiz da verdadeira esperança humana. A esperança cristã é segura, pois Deus sempre faz possível nossa vida de amor e de paz. Não sabemos o que passará amanhã ou com que mundo as próximas gerações se encontrarão, ou como encararemos problemas terríveis e insolúveis, mas nós cremos que Deus continua sendo fiel e hoje, amanhã e para sempre move ao amor e à paz. É a força do Advento cristão em nosso mundo. A Palavra de Deus não é uma ameaça e sim um anúncio alegre e uma promessa. Deus vem não para nos ameaçar, mas para nos dar promessa. Cada visita de Deus é uma libertação. E a esperança cristã deve ser resposta à promessa e à visita de Deus.

Por isso, essa segunda vinda do Senhor não é para criar o medo em cada um de nós porque sabemos que Deus nos ama e cremos firmemente no Seu amor. E o encontro de duas pessoas que se amam traz a alegria, a felicidade e a paz. E quando duas pessoas se amam profundamente o tempo aparentemente fica parado. Quando perdemos a noção de tempo, por causa deste amor, isto pode se chamar de eternidade ou Paraíso. O encontro com o Senhor é sempre o encontro de amor que nos deixa a paz, a felicidade e a libertação.

Mas quando convertermos o processo religioso da espera em algo comercial que logo pode converter-se em qualquer coisa, passamos, em verdade, a nada esperar, pois transformamos a esperança cristã em uma palavra vazia que, precisamente por isso, segue a lei do vazio de deixar-se preencher por outras esperanças caducas.

O Advento celebra o “Deus da esperança” (Rm 15,13) e vive a alegre esperança. O homem de esperança sempre acredita que tudo pode. Nesse “poder” há força. A esperança sempre repousa num poder que possibilita a transformação da existência. O canto que caracteriza o Advento é o do Salmo 25(24),1-3: “A ti, Senhor, eu me elevo, ó meu deus. Eu confio em Ti....pois os que esperam em Ti não ficam envergonhados” (Antífona da Entrada). Somente uma atitude de nos pode descobrir o sentido da história, e somente uma atitude de vigilância nos pode ajudar a viver, conseqüentemente, em um clima de espera e esperança. A esperança é vigilante e austera.

3. A vinda salvadora de Deus que é imprevisível nos leva a estarmos preparados e vigilantes

         “Ficai atentos! Porque não sabeis em que dia o Senhor virá” (Mt 24,42)


A imprevisão intencionada da vinda de Deus provoca a vigilância de nossa parte. Por esta razão toda a dinâmica do texto está em caminhada para o fator de surpresa. Daí o convite a estarmos vigilantes e estar preparados, duas expressões equivalentes, pertencentes ao campo da atenção e cujo oposto é a despreocupação. Entre ambos convites em imperativo: “ficai atentos” (M 24,42) há uma constatação em indicativo: “compreendei bem isso...” (Mt 24,43). Sublinha-se, então, a importância do que está em jogo: a nossa salvação e, por isso, constitui uma chamada à seriedade de vivermos sempre reconciliados com Deus e com o próximo. O cristão é um homem atento, desperto e lutador.

Vigiar significa escutar Deus e os demais sem viver com demasiadas seguranças humanas; olhar para os que sofrem sem passar adiante; trabalhar para levar o diálogo e a paz. O cristão, filho da luz (1Ts 5,4-8) não pode se alienar. Sua , sua esperança e sua caridade têm de ser vivas e dar seus frutos: bondade, justiça e verdade: “... sois luz no Senhor: andai como filhos da luz, pois o fruto da luz consiste em toda bondade e justiça e verdade” (Ef 5,8-9). As obras das trevas têm de ser denunciadas: “Procurai discernir o que é agradável ao Senhor e não sejais participantes das obras infrutuosas das trevas, antes denuncia-as...” (Ef 5,10-11; leia o resto do texto). Sua arma será sempre a Palavra de Deus: “Tomai o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a Palavra de Deus” (Ef 6,17).  A verdade e a justiça necessitam ser defendidas em cada instante; o amor e a solidariedade não podem descansar. Estar vigilante equivale a não pôr limite ao amor; a não deixar que nos distraiamos de nosso objetivo como cristãos; a estar sempre atentos para descobrir e lutar contra o que impede a fraternidade e apoiar com todas as nossas forças o que a favorece. Quem vive gloriosamente a vida, a possui e é possuído pro ela. Estar vigilante significa mover-se, manter-se ocupados em realizar o bem comum. A vigilância é o caminho de doação e não o da conservação:Aquele que acha a sua vida, vai perdê-la, mas quem perde a sua vida por causa de mim, vai achá-la”, diz o Senhor (Mt 10,39). Vigiar é preparar a casa e os caminhos para o homem novo; é descobrir a tarefa a realizar; é descobrir onde o Senhor está nascendo; é caminhar para Belém, onde uma família busca lugar para descansar, onde um imigrante pede trabalho, onde um esquecido necessita de uma presença, onde um pobre quer comer, onde todos os homens urgem amor. Vigiar é escutar a Palavra, ler em profundidade os acontecimentos, penetrar no mistério da pessoa e da história, captar a noção do Espírito de Deus. vigiar é crer, é comprometer-se. A Palavra de Deus sempre nos sacode, pois em todos os acontecimentosanúncios de salvação que temos que descobrir. A vigilância consiste em discernir os sinais dos tempos para reconhecer a presença de Deus e do seu reino nos acontecimentos. Cada cristão precisa estar vigilante não para esconder-se, mas para sair ao encontro do seu Salvador, Jesus Cristo.   

Vigiar é uma postura ativa, alerta para continuar com as tarefas cotidianas dentro da vontade de Deus, pois o julgamento de Deus acontece no cotidiano sem sinais espetaculares. A este julgamento ninguém pode escapar. A vigilância nos leva a reconhecermos a nossa condição de mortal. A consciência de mortalidade nos impede que supervalorizemos os bens terrenos, julgando encontrar neles segurança e salvação. A supervalorização dos bens terrenos é uma atitude indigna de um cristão. A vigilância exige desapego, partilha, relativização dos bens terrenos, de modo que o nosso coração fique totalmente disponível para Deus. A vigilância é a disponibilidade para a vinda do Senhor diariamente nos acontecimentos cotidianos dos homens. A vigilância nos leva a colocarmos em segundo lugar o quando, o como e o onde do dia do Senhor. O que importa é estarmos preparados. A chamada de Cristo ao seu seguimento requer uma disponibilidade total, vivendo desinstalados e desprendidos de tudo que se possui e usa. Vigiamos porque a não é um estado ou situação dada de uma vez por todas, mas uma vida e um processo de permanente evolução para responder, em cada instante, à Palavra de Deus que nos anuncia sua vinda. A Palavra de Deus nos recomenda que vivamos alertados para poder responder adequadamente aos sinais dos tempos através dos quais Deus nos fala. A Palavra de Deus permanecerá como luz segura para instruir os caminhos dos homens. Será como fogueira para aquecer os corações dos homens. Será um livro para saciar as mentes dos homens.

É preciso esperar a chegada do Senhor com humildade. Ser humilde significa aceitar a parte terrena que todos temos; significa descer, buscar e encontrar tudo o que somos, aceitando-nos tal e como somos. Quando o coração se faz humilde, ele é capaz de amar em abundância. Ser humilde é deixar a luz de Deus entrar no nosso coração para fazer desaparecer os maus sentimentos que produzem nossas misérias. Nunca serei compassivo, se eu não admitir minha dureza interior. Nunca chegarei a ser criativo, se eu não for capaz de reconhecer toda a minha mesquinhez que se esconde no meu coração. “Humildade é a honesta confissão do ser pecador. É melhor um pecador humilde que um beato orgulhoso” (Sto. Agostinho).

        “Eu amo a Jesus que nos diz: Céu e terra passarão.
         Quando céu e terra passarem, minha palavra ficará.
         Qual foi, Jesus, Tua palavra?
         Amor? Perdão? Caridade?
        Todas Tuas palavras foram uma palavra: Vigiai”. (Machado de Assis)

O cristão ideal não vive mergulhado nos prazeres que alienam, nem se deixa sufocar pelo trabalho excessivo, nem adormece numa passividade que lhe rouba as oportunidades. O cristão ideal está, em cada minuto que passa, atento e vigilante, acolhendo o Senhor que vem de várias maneiras em sua vida, respondendo aos desafios, cumprindo sua missão, empenhando-se na construção de um mundo mais fraterno.
 

4. A pessoa do meu lado, como eu, permanece misteriosa antes do julgamento final


 Dois homens estarão trabalhando no campo: um será levado e o outro será deixado. Duas mulheres estarão moendo no moinho: uma será levada e a outra será deixada. Assim acontecerá na vinda do Filho do Homem” (Mt 24,40-41.39b).

Relata-se aqui, neste texto, que um será tomado, o outro será deixado. Há dois verbos usados aqui: “tomar” e “deixar”. Os dois verbos são os verbos que se referem ao julgamento final. O verbotomar” (cf. Mt 2,13.14.20.21) indica salvação do perigo. Em Mt 20,17; 26,37 o sujeito do verbotomar” é o próprio Jesus e os discípulos são seu objeto. O verbodeixar” indica julgamento ou a exclusão da salvação (cf. Mt 23,38; 24,2). O texto quer nos dizer que o julgamento divino nos detém no ponto em que nos encontramos no relacionamento com Deus e com os homens: ódio e amor, bondade e malícia, egoísmo e generosidade ficam imobilizados no instante em que cessa a nossa vida. O encontro derradeiro com Deus será de alegria (será tomado) ou de infinito desespero (será deixado) conforme o sentido que cada um tiver dado à própria existência.

Quem será tomado? É o justo que vive e pratica o amor fraterno (cf. Mt 25,34-40). Quem será deixado? É o injusto que não tem a vivência do amor fraterno (cf. Mt 25,41-46).


Dois homens estarão trabalhando no campo: um será levado e o outro será deixado. Duas mulheres estarão moendo no moinho: uma será levada e a outra será deixada” (vv.40-41). Esta imagem nos apresenta como uma grande interrogação para a consciência cristã. Primeiramente, porque o texto da Bíblia mostra que o juízo de Deus tem em si uma real dimensão de surpresa. Existe em mim o que será tomado e eternamente conservado por Deus? Ou toda a minha vida será deixada e dolorosamente destruída? O homem ou a mulher ao meu lado, a mulher ou o homem que passa à minha frente, quem são eles? Quem poderá afirmar com segurança que será levado/eleito ou deixado/abandonado? A palavra de Jesus é tão grave, tão franca, que nos coloca perante a real possibilidade duma perdição eterna. Ninguém sabe quem é no pensamento de Deus, o seu próximo, que está ao seu lado. A vigilância é, por isso, tão importante que é dela que depende de a sorte, de perdição ou de salvação que vai tocar a cada indivíduo.

 

P. Vitus Gustama,svd




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