quarta-feira, 21 de dezembro de 2016


Natal 25/12/2016


NATAL DO SENHOR E SUA MENSAGEM


Evangelho: Jo 1,1-18

1No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus; e a Palavra era Deus. 2No princípio estava ela com Deus. 3Tudo foi feito por ela, e sem ela nada se fez de tudo que foi feito. 4Nela estava a vida, e a vida era a luz dos homens. 5E a luz brilha nas trevas, e as trevas não conseguiram dominá-la. 6Surgiu um homem enviado por Deus; seu nome era João. 7Ele veio como testemunha, para dar testemunho da luz, para que todos chegassem à fé por meio dele. 8Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz: 9daquele que era a luz de verdade, que, vindo ao mundo, ilumina todo ser humano. 10A Palavra estava no mundo — e o mundo foi feito por meio dela — mas o mundo não quis conhecê-la. 11Veio para o que era seu, e os seus não a acolheram. 12Mas, a todos que a receberam, deu-lhes capacidade de se tornarem filhos de Deus, isto é, aos que acreditam em seu nome, 13pois estes não nasceram do sangue nem da vontade da carne nem da vontade do varão, mas de Deus mesmo. 14E a Palavra se fez carne e habitou entre nós. E nós contemplamos a sua glória, glória que recebe do Pai como Filho unigênito, cheio de graça e de verdade. 15Dele, João dá testemunho, clamando: “Este é aquele de quem eu disse: O que vem depois de mim passou à minha frente, porque ele existia antes de mim”. 16De sua plenitude todos nós recebemos graça por graça. 17Pois por meio de Moisés foi dada a Lei, mas a graça e a verdade nos chegaram através de Jesus Cristo. 18A Deus, ninguém jamais viu. Mas o Unigênito de Deus, que está na intimidade do Pai, ele no-lo deu a conhecer.
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O prólogo é um hino que condensa a visão joanina de Cristo e sua relação com toda criatura, especialmente com o ser humano. Pode-se dizer que o prólogo é um hino cristológico. Para João, Jesus Cristo é um ser divino (Jo 1,1.14); ele é a luz(Jo 1,5.9).Ele é o Filho único de Deus(Jo 1,14.18). Ele é a razão última do ser da realidade, da minha realidade como ser humano. A minha existência tem uma razão, um porquê, um significado que se encontra em Deus: “Tudo foi feito por meio dele e sem ele nada foi feito” (Jo 1,2-3). Com esta frase entramos na esfera da criação. O prólogo, por isso, é uma nova leitura de Gênesis 1 à luz do acontecimento- Cristo. A palavra divina pela qual Deus criou e se revelou “no princípio” encarnou em Jesus Cristo, por quem a criação e a revelação de Deus chegam à sua plenitude. Todo o criado(criatura) está em íntima relação com a Palavra(Verbo) porque tudo foi criado não somente através dela, mas também nela. Como lemos no hino de Cl 1,16-17: “...porque nele foram criadas todas as coisas...Tudo foi criado por ele e para ele. Ele é antes de tudo e tudo nele subsiste”. A mesma relação íntima que há entre a Palavra e sua criação se aplicará em Jo 15,5 a Jesus e ao cristão: “Sem mim nada podeis fazer”. Toda criatura leva o selo da Palavra de Deus. Em outras palavras em cada criatura tem “carimbo” de Deus.

Por isso, para que a minha existência possa ter sentido, eu devo ficar na dependência de Deus. O homem deve estar consciente sempre de que ele pertence a Deus porque é obra de suas mãos. O homem é propriedade de Deus. Na medida em que é de Deus, é de si mesmo. Por isso, pertencer a Deus não é fator de alienação, mas de afirmação. O homem vale aquilo que vale para Deus. Quem avalia o homem é Deus, pois o homem pertence a Deus e obra de Deus.

E ele vem ao mundo e torna-se carne. Por isso também o Prólogo é uma descrição da história da salvação em forma de hino (cf. Sl 78: uma descrição poética da história de Israel). Ele vem para salvar (cf. Jo 3,16). Consequentemente o que se enfatiza é a relação de Deus com o homem.  Quando se fala da relação o que implica é uma revelação no sentido da comunicação de Deus com o homem. Mas alguns que são seus o rejeitam (Jo 1,11). Enquanto aqueles que o aceitam, recebem o poder de tornarem-se filhos de Deus, de modo que participam da plenitude de Deus (Jo 1,12).

“O Verbo Se Fez Carne e Habitou Entre Nós”

A Verbo se torna carne. Ser carne significa assumir a existência histórica; é experimentar a fragilidade, fraqueza e impermanência. Por isso, João apresenta Jesus cansado e acomodado (Jo 4,6.7; 19,28), chorando (Jo 11,35), perturbado (Jo 12,27;13,21), e no discurso eucarístico Jesus usa os termos “carne” e “sangue” (Jo 6,53). Ser carne também evoca a distância entre o homem e Deus que em Jesus é superada.

1. A encarnação é o mistério do amor apaixonado de Deus por nós

A encarnação do Filho de Deus desafia a lógica humana ou do mundo porque ela só poderá ser aceita a partir da fé no amor de um Deus que ama os homens até o extremo de se tornar igual a eles para que cada ser humano se torne um filho ou uma filha de Deus: “Deus tanto amou o mundo, que entregou seu Filho único, para que quem crer não pereça, mas tenha vida eterna” (Jo 3,16). Fora do amor deste Deus apaixonado pela humanidade não entenderíamos nada da encarnação. A encarnação é uma mensagem forte do amor de Deus por nós todos. E Jesus levará seriamente este amor até aceitará ser crucificado na cruz. O mistério da encarnação é o mistério do amor de Deus que assume a condição humana para salvá-la e divinizá-la. O amor sempre fascina e atrai qualquer ser vivo e o transforma em criatura amigável e amável. O amor dá a segurança, facilita o crescimento humano e cria a harmonia entre as pessoas ou entre os seres vivos.

2. Na encarnação Deus se humaniza

No Natal celebramos a humanização de Deus. Na encarnação Deus introduziu o germe divino em nossa natureza mortal para que não ficássemos entregues à efemeridade e debilidade da natureza humana. Ao se encarnar Deus quer ensinar o ser humano a descobrir sua dignidade divina, pois Deus se torna um deles. O Papa Leão no seu sermão de Natal dizia: “Cristão, reconhece tua dignidade! Tomaste parte na natureza divina, não regresses à velha indigência, e não vivas abaixo de tua dignidade!” Isto nos desafia a viver de acordo com nossa dignidade divina.

A encarnação de Deus também nos ensina a sermos mais humanos. Para podermos servir bem os outros, para podermos trabalhar com muito ardor devemos ser muito humanos. A encarnação nos mostra como podemos se tornar verdadeiramente humanos. Cristo desceu do céu. Por isso, para sermos muito humanos o primeiro passo consiste em ter coragem para descer à nossa humanidade e terrenidade. Nós fomos tirados da terra. Cristo desceu até nós para que, por ele, como por uma escada, possamos subir até Deus. A meta desta descida é a nossa elevação pelo Espírito de Deus. Apenas quem aceita a sua humanidade é pode subir ao céu.

3. Nascimento nosso no Nascimento de Jesus

No Natal celebramos o nascimento da criança divina, Jesus nosso Salvador. No Natal também festejamos no nascimento de Cristo o nascimento de Deus em nosso coração. Se Deus não nascer em nós, permaneceremos alienados de nós mesmos e dos outros. Cristo pode nascer até mil vezes em Belém, mas se nenhuma vez em nós, em nosso coração, em nosso lar, permaneceremos eternamente perdidos e seremos muito desumanos para com os outros. Mas se Cristo nascer em nós, entraremos em contato com o nosso próprio ser, com a imagem intocada e genuína de Deus. Consequentemente, nossa vida ficará verdadeiramente nova, sã e iluminada.

4. Deus se manifesta como uma criança

No Natal Deus vem ao nosso mundo como uma criança e não como um adulto. Ninguém resiste diante de uma criança. A criança é uma criatura frágil, desamparada, indefesa e dependente totalmente dos pais ou dos adultos. Por ser frágil não podemos agarrá-la com força. Ao contrário precisamos nos aproximar dela com carinho e mansidão. Para uma criança não fazemos discursos inteligentes, mas usamos somente palavras que vêm do coração ou alguns gestos carinhosos. A criança quer sempre aprender. Ela confia nos outros e se envolve. Vive o momento presente sem se preocupar o que vem a ser. Está sempre aberta ao novo. Quando duas crianças se brigam, em poucos minutos elas voltam a brincar juntas novamente como se nada acontecesse anteriormente.

Se Deus vem ao nosso encontro como uma criança é porque Ele quer nos libertar de nossa megalomania e de querermos ser sempre fortes, autossuficientes e independentes. A nossa força tem limites, por isso nenhum ser humano pode ter pretensão de se sentir forte, dispensando a ajuda dos outros. O Natal pretende nos lembrar a criança divina em cada um de nós. No fundo do coração cada um carrega uma criança divina. Quando cada um entrar em contato com a criança dentro de si, sua vida ganha um pouco de leveza e se torna autêntica. O Natal, pela encarnação do Filho de Deus através de uma criança, nos ensina a olhar para dentro de nós. Dentro de nós não encontramos apenas problemas, divisão, confusão, desejos, ilusões frustradas, feridas e mágoas. Dentro de nós há também Cristo (cf. 1Cor 3,16s).

5. O Verbo se fez carne e acampou no meio de nós

“Estar no meio” significa ser centro. Significa ser o ponto de referência. Para que o ser humano não fique perdido, Deus deve estar no meio. A partir do momento em que ele começar a marginalizar Deus (colocar na margem e não no meio), o homem perderá o rumo, pois não haverá mais o ponto de referência nem horizonte para seus atos e seu modo de viver em geral. Mas quando ele deixar que Deus seja o centro de sua vida, o homem se tornará bom para Deus e consequentemente para os outros.

Se quisermos que nos encontremos uns aos outros profundamente, temos que nos encontrar com o Verbo que faz tenda no meio de nós. “No meio de nós” quer dizer que Ele deve ser centro de nossa vida, de nossas decisões; ele deve ser o ponto de referência de nossas atitudes e comportamentos. Se o Verbo se tornar o centro de nossa vida, seremos bons e irmãos. Em segundo lugar, o lugar em que Deus quer morar é o coração que sabe amar como fruto da vivência da palavra de Deus. Mais tarde, neste mesmo evangelho, Jesus nos dirá: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra; meu Pai o amará, e nós viremos e faremos nele a nossa morada” (Jo 14,23).

6. Tenhamos Um Feliz Natal

Para todos tenha Um Feliz Natal.  Através do seu Natal Deus vem nos ensinar a viver.

Viver não é doar um pouco. É doar sempre como Jesus se doou totalmente à humanidade (Jo 3,16;13,1).

Viver não é simplesmente sorrir. É mais do que isto, é fazer alguém sorrir. Como Deus-criança, Jesus, que nasceu para fazer todos sorrirem (Lc 2,10-11).

Viver não é medir sua ajuda. É ajudar sem medir e sem medida. Como Jesus que ajudou todos até a morte, dando o paraíso ao criminoso convertido (Lc 23,43).

Viver não é ajudar somente quem está perto, mas estar sempre perto para ajudar, como Deus que se faz Deus-Conosco em Jesus Cristo para ajudar a humanidade (Mt 1,23;18,20;28,20).

Quem realmente vive e ama, não faz o que pode... mas faz até o impossível a exemplo de Cristo que amou até aceitar ser crucificado (Jo 13,1).

Quem ama de verdade, vive. E quem vive de verdade, ama. Você vive verdadeiramente não quando você respira, mas quando você é capaz de amar.

P. Vitus Gustama,SVD






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