quinta-feira, 29 de dezembro de 2016




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SAGRADA FAMÍLIA


                                       Texto: Mt 2,13-15.19-23


I. O relato da fuga da sagrada família para o Egito é histórico ou teológico?


A maioria dos exegetas atuais (como Raymond. E. Brown, veja El Nacimiento Del Mesias: Comentario a los Relatos de la Infancia. É um excelente comentário. Veja também C. Perrot: As Narrativas da Infância de Jesus Mt 1-2- Lc 1-2 Ed. Paulus) concorda que o relato da fuga da Sagrada Família ao Egito não é histórico no sentido moderno da palavra, mas é um relato teológico. Há dois argumentos principais:


1). A fuga para o Egito e a volta para Nazaré seriam incompatíveis com a cronologia do relato de Lucas (cf. Lc 2,22-40), segundo o qual quarenta dias depois do nascimento, da circuncisão e da apresentação do menino Jesus no templo, a Sagrada Família voltou para Nazaré de maneira absolutamente normal, sem nenhuma perseguição de ninguém.


2). Se o massacre das crianças de Belém tivesse de fato ocorrido, Flávio Josefo, que documentou os últimos anos do reinado de Herodes destacando particularmente sua crueldade, tê-lo-ia mencionado.


Os relatos têm uma clara intenção teológica, como mostra o fato de que cada um deles termina com o tema da realização das promessas do AT na vida de Jesus. Em cada um deles termina com o mesmo refrão: “...para se cumprir o que foi dito pelo profeta...”(Mt 2,15.18.23). Mt quer nos mostrar que Jesus é o cumpridor de toda a promessa do AT.


II. Mensagem do texto


1). Libertação do menino Jesus fugindo para o Egito tem como objetivo acentuar a soberania de Deus


Perante o nascimento de Jesus ou da revelação cristológica de Jesus há uma dupla reação.  A aceitação dessa revelação pelos gentios representados pelos magos que renderam a homenagem ao rei recém-nascido e o chamam de “o rei dos judeus”. A segunda reação é a de rejeição a essa revelação pelas autoridades judeus e sua perseguição de Jesus. Tudo isto é uma consequência tão real da Encarnação. Ao se tornar um de nós, o Filho de Deus se esvaziou totalmente de sua glória e assumiu nossa condição humana (menos o pecado): pobreza e impotência, trabalhos e fadigas, perseguições e ameaças de morte.


Mas mesmo tentando, os adversários não conseguem acabar com a vida de Jesus na infância(pois Jesus se escapa ao fugir para o Egito por orientação divina) nem são capazes de destruir Jesus na Paixão(pois Jesus ressuscitará). Isto quer nos dizer que quem realmente dirige o curso da história da salvação é o próprio Deus, pois ele é o Senhor da história. No fim ele terá a última palavra, e não o homem. Nenhuma força ou poder humano por maior que seja é capaz de bloquear o plano de salvação. Deus liberta seu Filho ao levá-lo para o Egito e depois o traz de volta para a terra de Israel. E o instrumento humano dessa libertação é José que obedece cegamente às ordens divinas, um homem que é descrito como “homem honrado/justo” (Mt 1,19), pois ele é um judeu exemplar que é fiel totalmente à lei. Se formos realmente fiéis à Lei divina, seremos usados também por Deus como seus instrumentos eficazes para libertar os outros de qualquer tipo de escravidão, mas ao mesmo tempo estejamos preparados para todo tipo de perseguição seja interna, da própria comunidade, seja externa, vem de fora da comunidade.


 2). José é o exemplo da obediência à voz de Deus.


Mesmo a maior atenção neste relato sendo Jesus, destaca-se também o lugar de José. Ele obedece à voz de Deus imediata e incondicionalmente: “José levantou-se de noite, pegou o menino e sua mãe, e partiu para o Egito” (Mt 2,14). Aqui encontramos três verbos de ação: levantar-se, pegar e partir/fugir. Sabemos muito bem o que significa acordar no meio da noite para fazer uma coisa importante ou para fugir de um perigo ou de um tiroteio. Se durante o dia temos tanta dificuldade, imagine à noite. O caminho da Sagrada Família para o Egito não foi uma viagem triunfal, mas cheia de sacrifícios.


Em Maria e José podemos ver o rosto de todas as mães e pais que cuidam e criam os filhos com muito sacrifício, muito dedicação por causa do amor que eles têm por eles.  Tudo isso nos faz lembrar de tantas mães que muitas vezes não dormem à noite inteira para estar com o filho doente ou ficam impotentes perante a doença incurável de um(a) filho(a) que está na beira da morte ou as mães que enfrentam uma fila enorme nos hospitais para evitar o(a) filho(a) da ameaça da morte. O Natal certamente é um momento oportuno para ver o nosso natal(nascimento) pelo qual podemos olhar para os nossos pais e seus sofrimentos ao nos criarem e a dívida que temos por eles.  


Mas quem está nos braços de José é Jesus, o Salvador. José aparentemente estava salvando o menino Jesus. Mas na verdade, era Jesus que salvou a Sagrada Família. Precisamos abraçar o nosso Salvador, Jesus Cristo para que ele possa salvar as nossas famílias. Não podemos dispensar Jesus Cristo nosso Salvador de nossos braços, de nossa família se quisermos salvá-la.


O que nos chama a atenção também nesta cena é que José não faz nenhuma pergunta do tipo da resistência diante da ordem divina. José simplesmente obedece à ordem divina. A obediência é total e incondicional. Para poder ouvir a voz de Deus e para poder obedecer às suas instruções, só uma coisa é necessária: que estejamos sempre, como Maria e José, como os pastores e os magos, com os ouvidos atentos e com o coração aberto, livre e disponível.


Falar hoje de obediência é quase impossível, pois toda e qualquer limitação da liberdade é anatematizada e rejeitada e gera um fortíssimo senso de repulsa. Isto acontece porque o verdadeiro conceito de obediência e a sua prática foram desvirtuados, sua riqueza de conteúdo esvaziada, sua necessidade para o progresso da vida da comunidade e do indivíduo esquecida, e sua fecundidade esterilizada.


A palavra “obediência” vem do latim “ob-audire” que significa auscultar, prestar atenção, tender o ouvido. Por isso, esta palavra indica um encontro, um relacionamento, um diálogo entre um “eu” e um “tu”. No AT não existe o substantivo “obediência”, e para exprimir esta noção, usam-se os verbos escutar, responder, fazer o que foi mandado. Por isso, a obediência, mais do que um ato, é um estado de espírito, de compreensão prévia, que abre o caminho para ouvir e ser ouvido, no sentido bíblico do termo. Obedecer é perder parte da própria liberdade, sempre que solicitados a solucionar os problemas dos outros. O exemplo da obediência é o próprio Jesus que se entregou totalmente à vontade de Deus. Pela obediência de Cristo todos se tornam salvos(Rm 5,19;Hb 5,8-9).


3). As famílias a partir da Sagrada Família


O texto nos mostra que apesar de a família de Jesus, Maria e José ser uma Família Sagrada, ela está também sujeita a toda espécie de sacrifícios e tribulações. Uma família que, apesar de santa e agradável a Deus, padece, angustia-se, sofre. Mesmo assim ela permanece unida nas dificuldades e nas desgraças, pois Jesus é o centro desta família.


Com facilidade podemos descobrir no Evangelho de hoje alguns dos grandes problemas familiares: a insegurança, a morte, que ronda e nem sempre conduzida só pela mão da natureza, mas pela violência; a necessidade de coragem para enfrentar as situações difíceis; a confiança em Deus; a prudência em tomar decisões sob a orientação divina pela oração contínua. É evidente a lição sobre a necessidade de união para cada família cristã a partir da Sagrada Família. Basta Jesus ser o centro de uma família, ela, com toda certeza, vai adiante apesar de todo tipo de dificuldade encontrada na caminhada, porque Jesus é o nosso Salvador. Quando Jesus Cristo se torna centro de uma família, ela se fortalece e seus membros sabem se amar. Que a Sagrada Família de Nazaré proteja e interceda por nossas famílias. Assim seja!


P. Vitus Gustama,svd

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