domingo, 31 de janeiro de 2016

02/02/2017


APRESENTAÇÃO DO SENHOR


Primeira Leitura: Ml 3,1-4


Assim diz o Senhor: 1Eis que envio meu anjo, e ele há de preparar o caminho para mim; logo chegará ao seu templo o Dominador, que tentais encontrar, e o anjo da aliança, que desejais. Ei-lo que vem, diz o Senhor dos exércitos; 2e quem poderá fazer-lhe frente, no dia de sua chegada? E quem poderá resistir-lhe, quando ele aparecer? Ele é como o fogo da forja e como a barrela dos lavadeiros; 3e estará a postos, como para fazer derreter e purificar a prata: assim ele purificará os filhos de Levi e os refinará como ouro e como prata, e eles poderão assim fazer oferendas justas ao Senhor. 4Será então aceitável ao Senhor a oblação de Judá e de Jerusalém, como nos primeiros tempos e nos anos antigos.




Evangelho: Lc 2,22-40


22 Quando se completaram os dias para a purificação da mãe e do filho, conforme a lei de Moisés, Maria e José levaram Jesus a Jerusalém, a fim de apresentá-lo ao Senhor. 23 Conforme está escrito na lei do Senhor: “Todo primogênito do sexo masculino deve ser consagrado ao Senhor”. 24 Foram também oferecer o sacrifício — um par de rolas ou dois pombinhos — como está ordenado na Lei do Senhor. 25 Em Jerusalém, havia um homem chamado Simeão, o qual era justo e piedoso, e esperava a consolação do povo de Israel. O Espírito Santo estava com ele 26 e lhe havia anunciado que não morreria antes de ver o Messias que vem do Senhor. 27 Movido pelo Espírito, Simeão veio ao Templo. Quando os pais trouxeram o menino Jesus para cumprir o que a Lei ordenava, 28 Simeão tomou o menino nos braços e bendisse a Deus: 29 “Agora, Senhor, conforme a tua promessa, podes deixar teu servo partir em paz; 30 porque meus olhos viram a tua salvação, 31 que preparaste diante de todos os povos: 32 luz para iluminar as nações e glória do teu povo Israel”. 33 O pai e a mãe de Jesus estavam admirados com o que diziam a respeito dele. 34 Simeão os abençoou e disse a Maria, a mãe de Jesus: “Este menino vai ser causa tanto de queda como de reerguimento para muitos em Israel. Ele será um sinal de contradição. 35 Assim serão revelados os pensamentos de muitos corações. Quanto a ti, uma espada te traspassará a alma”. 36 Havia também uma pro­fe­tisa, chamada Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser. Era de idade muito avançada; quando jovem, tinha sido casada e vivera sete anos com o marido. 37 Depois ficara viúva, e agora já estava com oitenta e quatro anos. Não saía do Templo, dia e noite servindo a Deus com jejuns e orações. 38 Ana chegou nesse momento e pôs-se a louvar a Deus e a falar do menino a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém. 39 Depois de cumprirem tudo, conforme a Lei do Senhor, voltaram à Galileia, para Nazaré, sua cidade. 40 O menino crescia e tornava-se forte, cheio de sabedoria; e a graça de Deus estava com ele.
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I. A FESTA DA APRESENTAÇÃO DO SENHOR E SEU SENTIDO


1. Jesus Na Apresentação


Ainda que a festa da apresentação caia fora do tempo do Natal, ela faz parte inseparável do relato do Natal do Senhor. Trata-as de outra Epifania do Senhor no quadragésimo dia. Natal, Epifania e Apresentação do Senhor são três aspectos do Natal inseparáveis.


A festa da Apresentação celebra uma chegada e um encontro: a chegada do Senhor desejado, núcleo da vida religiosa do povo e a bem-vindo concedida a ele pelos representantes dignos do povo eleito: Simeão e Ana. Por sua idade avançada os dois personagens simbolizam os séculos de espera e de anseio fervente dos homens e das mulheres devotos da Antiga Aliança (Antigo Testamento). Pode-se dizer que os dois simbolizam a esperança e o anseio da humanidade.


Ao festejar e reviver este mistério na fé, a Igreja dá novamente as boas vindas para Jesus Cristo. Este é o verdadeiro sentido da festa. É a festa do encontro: encontro de Cristo e sua Igreja. Isto vale para qualquer celebração litúrgica, mas especialmente para esta festa. A liturgia nos convida a dar boas vindas a Cristo e à sua Mãe, como fizeram Simeão e Ana. Ao celebrar esta festa a Igreja professa publicamente a fé na Luz do mundo (Jo 8,12), Luz de revelação para a humanidade.


A festa da apresentação é uma festa de Cristo, por excelência. É um mistério da salvação. O nome “apresentação” tem um conteúdo rico. Fala de oferecimento, de sacrifício. Recorda a auto-oblação inicial de Cristo, Palavra Encarnada, quando entrou no mundo: “Eis me aqui que venho para fazer Tua vontade”. Aponta para a vida de sacrifício e para a perfeição final dessa auto-oblação na colina do Calvário. 


2. A Presença de Maria Na Apresentação E Seu Significado


Qual é o papel de Maria e José nessa Apresentação? Eles simplesmente cumprem o ritual prescrito, uma formalidade praticada por muitos outros casais?


Para Maria, a Apresentação e oferenda de seu Filho no Templo não era um simples gesto ritual. Indubitavelmente, Maria não estava consciente de todas as implicações nem da significação profética desse ato. Ela não consegue alcançar todas as consequências de sua Fiat na Anunciação. Mas foi um ato de oferecimento verdadeiro e consciente. Significava que ela oferecia seu Filho para a obra da redenção, renunciando aos seus direitos maternais e toda a pretensão sobre seu Filho. Ela oferecia seu Filho à vontade de Deus Pai. São Bernardo comentou que Santa Virgem ofereceu seu Filho e apresenta ao Senhor o fruto bendito de seu ventre e o oferece para reconciliação de todos os homens.


Existe uma conexão entre esse oferecimento e o que sucederá na Gólgota quando se executam as implicações do ato inicial de obediência de Maria: “Faça-se em mim segundo Tua Palavra” (Lc 1,38b).


Na Apresentação Maria põe seu Filho nos braços do ancião Simeão. Esse gesto é simbólico. Ao atuar dessa maneira, ela oferece seu Filho não somente para Deus Pai, mas também para o mundo representado por aquele ancião. Dessa maneira, Maria desempenha seu papel de Mãe da humanidade e nos é recordado que o dom da vida vem através de Maria.


A festa deste dia não permite apenas revivermos um acontecimento passado. Ela também nos projeta para o futuro. Ela prefigura nosso encontro final com Cristo na sua segunda vinda, na Parusia. A procissão representa a peregrinação da própria vida. O povo peregrino de Deus caminha penosamente através deste mundo, no tempo, guiado pela Luz de Cristo e sustentado pela esperança de encontrar finalmente o Senhor da glória em Seu Reino eterno. Na bênção das velas o sacerdote pronuncia as seguintes palavras: “... Fazei que, levando as velas nas mãos em vossa honra e seguindo o caminho da virtude, cheguemos à luz que não se apaga”. A vela acesa na nossa durante a procissão recorda a vela de nosso batismo.


II. ALGUMAS MENSAGENS A PARTIR DO TEXTO DO EVANGELHO DA FESTA


1.     A importância de Jerusalém para Lucas


Para Lucas, Jerusalém é importante, pois é centro de tudo. Por isso, todos os acontecimentos importantes da vida de Jesus acontecem em Jerusalém. Jerusalém é mencionado no início e no fim do relato (vv.22.25.38). A apresentação do Senhor acontece em Jerusalém. E em Jerusalém acontecerão sua morte e ressurreição. De Jerusalém ele subirá ao céu. E de Jerusalém partirá a missão cristã para o resto do mundo (cf. Lc 2,41-52;4,9-13;9,31.51.53;13,22;17,11;18,31;19,11.28-48;24,47-53;At 1,4.8).


2. A imposição do nome de Jesus


Lucas, neste relato, quer sublinhar a importância da imposição do nome de Jesus que se afirma na frase principal: “Foi-lhe dado o nome de Jesus” (v.21). O nome “Jesus” foi escolhido pelo próprio Deus (Lc 1,31;2,21;cf. Mt 1,21).


Para os judeus, o nome expressava a identidade e o destino pessoal que cada um devia realizar ao longo de sua vida.  E quando uma pessoa é eleita para uma nova missão, recebe um nome novo, em função da etapa de vida que começa (cf. Gn 17,5;17,15;32,29; Mt 16,18; cf. 2Rs 23,34;24,17;Is 62,2;65,15).


Não há nenhum nome que coincidiu tão perfeitamente com o nome como no caso de Jesus. Jesus significa Salvador. Desde o primeiro instante de sua existência até a morte na cruz, ele foi o que significa seu nome: Salvador.


Por isso, o nome de Jesus como Senhor e Salvador é invocado ao longo da história do cristianismo por bilhões de cristãos. O nome de Jesus é invocado, pois ele é o Senhor de tudo. Está acima de todo principado, de todo poder, de toda dominação e potência. Por mais poderoso que seja um político ou um atleta, um dia a morte o vencerá. Por mais rico que seja alguém, um dia a morte levará a melhor. Ao contrário, Jesus venceu a morte, pois ele ressuscitou. Por isso, São Paulo afirma: “Se confessas com tua boca que Jesus é o Senhor, e crês em teu coração, que Deus o ressuscitou dos mortos, tu serás salvo”(Rm 10,9; cf. Rm 8,35-39). Jesus é o Senhor porque vive uma vida sobre a qual a morte não tem poder algum. Ele detém a chave do segredo da vida e ilumina o mistério da vida.


A soberania do Senhor Jesus pode nos dar uma força imensa para combater o mal dentro de nós e o mal ao nosso redor. Jesus é Senhor exprime uma fé libertadora que tira de nossas vidas toda a angústia exagerada. Jesus é Senhor implica que ele é Senhor de nossa vida. Exprime uma entrega, um total abandono nas mãos do Senhor. Implica construir a vida sobre ele(cf. Mt 7,24-25) e não sobre os fundamentos fracos e frágeis(cf. Mt 7,26-27).


3. Jesus é sinal de contradição


Israel tinha murmurado contra Deus na passagem do deserto (Nm 20,1-13;Dt 32,51). Na apresentação do Senhor no templo, Simeão profetiza a nova rebelião de Israel contra Jesus, que será relatada no evangelho da vida pública e da paixão e a rejeição da missão cristã em Israel que será contada no livro de Atos. Tudo isto resulta também no sofrimento de sua mãe, Maria.


Lucas relata ao longo de sua obra que diante de Jesus e sua missão, uns são a favor, outros contra; uns abrem os olhos à luz, outros os fecham; uns encontram força nele e por isso, se levantam, enquanto os outros tropeçam e caem por não crer. Isto quer dizer que ninguém pode ficar indiferente diante de Jesus: ou aceitar Jesus para ser libertado ou rejeitá-lo que significa tropeço na caminhada.


Jesus e seu evangelho continuam sendo em todos os tempos e lugares sinal de divisão e de contradição. Perante Jesus e seu evangelho ninguém pode ficar indiferente: ou aceitar ou rejeitar, com conseqüências para cada opção feita. A salvação é oferecida a todos, mas não é dada automaticamente nem pode ser recebida passivamente. Ela tem que ser recebida conscientemente como um compromisso a ser assumido a vida toda. O Evangelho de Jesus, quando for proclamado e vivido verdadeiramente, sempre incomoda tanto para quem o prega e vive como para quem o escuta, pois ele é como uma luz que brilha na escuridão: revela o verdadeiro ser de pessoas e das coisas. Aquele que quer manter uma vida falsa e dupla ou camuflada, a presença do Evangelho funciona como se fosse um espinho que irrita a carne. Se alguém não tiver medo de ser feliz, a presença incômoda do Evangelho será um momento oportuno de libertação. Para quem vive somente em função do prazer, não tem prazer de viver. O prazer tem que ser fruto de um viver bem.


4. Nós e o ancião Simeão   


Na parte central do relato (vv.25-35) encontramos o ancião Simeão. Ele é apresentado como um homem justo e piedoso, isto é, um homem fiel aos mandamentos de Deus. Ele se deixa guiar pelo Espírito Santo e por isso, compreende o sentido de sua existência. Ele é o símbolo da perseverança. Apesar de ter consciência de sua iminente morte, continua esperando a salvação. Na sua velhice ele é premiado, pela sua fidelidade e perseverança, pela presença do Messias esperado. Ele é uma pessoa que sabe olhar para frente para viver melhor o presente.


A partir de Deus e com Deus nada é perdido no mundo. Simeão é a testemunha e prova disto. Ele nos ensina a conversarmos com Deus permanentemente e a olharmos para a frente. Ele nos ensina a olharmos para Jesus, o nosso Salvador e a irmos ao Seu encontro. No encontro com Jesus, como aconteceu com Simeão, são realizadas nossas esperas e esperanças, encontramos alegria e paz, nossos olhos são iluminados para ver as pessoas e as coisas no seu justo valor, como também a nossa própria vida. Mas para que o nosso encontro com Jesus aconteça, precisamos nos deixar guiar pelo Espírito Santo.


5. O silêncio de Maria e o nosso silêncio


No relato, Maria é descrita como uma personagem que não profetiza nem fala. Em outras palavras, ela está em silêncio total. Ela acolhe na obediência as profecias sobre o futuro de seu Filho silenciosamente.


Maria nos ensina a fazermos o silêncio obrigatório no meio de nossa vida e trabalho para vermos melhor as coisas, os acontecimentos e as pessoas na sua justa perspectiva e no seu justo valor. O silêncio chega quando as nossas energias começam a descansar e nos acolhe quando o nosso ego fica em paz e sossego. Quando não sabemos o que é descansar, não sabemos também o que é viver. O nosso ego não é o nosso centro de gravidade. O ego é o centro de todos os desejos desenfreados, dos lucros, possessões e domínios. Hoje em dia há uma dependência exagerada do trabalho. Quando há dependência, não existe liberdade. Há pessoas que se entregam a tudo desde que não fiquem no vazio. A vida nunca é o que se consegue. Não é o que se tem. A vida é o que se é. Não se pode ignorar que tudo quanto se alcança, se perde. Só o que se é, permanece. O silêncio, por isso, é tão importante, pois ele nos leva a encontrarmos o nosso eixo. As nossas palavras serão boas, se brotarem do silêncio. E Deus nunca cessa de clamar, mas para escutarmos a sua voz é preciso criarmos o silêncio dentro de nós. E a escuta exige uma atenção total e plena. O silêncio é um vazio que faz tornar presente a plenitude. Mas a plenitude não se torna presente de repente. É preciso tempo. Na semente está a qualidade do fruto, mas naturalmente é preciso tempo. Dizia Cícero: “Há três coisas na vida nas quais não pode haver pressa: a natureza, um ancião e a ação dos deuses na tua história”. O silêncio é esvaziar-se para receber. No silêncio diminuem as defesas e fica-se pronto para receber o que vier. O silêncio quando se souber aproveitá-lo melhor, ele será frutificante e benéfico para quem o cria e consequentemente para os que o cercam.


P. Vitus Gustama,svd

domingo, 24 de janeiro de 2016

01/02/2016




O ENCONTRO VERDADEIRO COM JESUS SEMPRE LIBERTA





Segunda-Feira Da IV Semana Do Tempo Comum


Primeira Leitura: 2Sm 15,13-14.30;16,5-13a
Naqueles dias, 13 um mensageiro veio dizer a Davi: “As simpatias de todo o Israel estão com Absalão”. 14 Davi disse aos servos que estavam com ele em Jerusalém: “Depressa, fujamos, porque, de outro modo, não podemos escapar de Absalão! A­pres­­sai-vos em partir, para que não aconteça que ele, chegando, nos apanhe, traga sobre nós a ruína, e passe a cidade ao fio da espada”. 30 Davi caminhava chorando, enquanto subia o monte das Oliveiras, com a cabeça coberta e os pés descalços. E todo o povo que o acompanhava subia também chorando, com a cabeça coberta. 16,5 Quando o rei chegou a Bau­rim, saiu de lá um homem da parentela de Saul, chamado Semei, filho de Gera, que ia proferindo maldições enquanto andava. 6 Atirava pedras contra Davi e contra todos os servos do rei, embora toda a tropa e todos os homens de elite seguissem agrupados à direita e à esquerda do rei Davi. 7 Semei amaldiçoava-o, dizendo: “Vai-te embora! Vai-te embora, homem sanguinário e criminoso! 8 O Senhor fez cair sobre ti todo o sangue da casa de Saul, cujo trono usurpaste, e entregou o trono a teu filho Absalão. Tu estás entregue à tua própria maldade, porque és um homem sanguinário”. 9 Então Abisai, filho de Sarvia, disse ao rei: “Por que há de este cão morto continuar amaldiçoando o senhor, meu rei? Deixa-me passar para lhe cortar a cabeça”. 10 Mas o rei respondeu: “Não te intrometas, filho de Sarvia! Se ele amaldiçoa e se o Senhor o mandou maldizer a Davi, quem poderia dizer-lhe: ‘Por que fazes isto?’”. 11 E Davi disse a Abisai e a todos os seus servos: “Vede: Se meu filho, que saiu das minhas entranhas, atenta contra a minha vida, com mais razão esse filho de Benjamim. Deixai-o amaldiçoar, conforme a permissão do Senhor. 12 Talvez o Senhor leve em conta a minha miséria, restituindo-me a ventura em lugar da maldição de hoje”. 13ª E Davi e seus homens seguiram adiante.


Evangelho: Mc 5,1-20


Naquele tempo, 1Jesus e seus discípulos chegaram à outra margem do mar, na região dos gerasenos. 2Logo que saiu da barca, um homem possuído por um espírito impuro, saindo de um cemitério, foi a seu encontro. 3Esse homem morava no meio dos túmulos e ninguém conseguia amarrá-lo, nem mesmo com correntes. 4Muitas vezes tinha sido amarrado com algemas e correntes, mas ele arrebentava as correntes e quebrava as algemas. E ninguém era capaz de dominá-lo. 5Dia e noite ele vagava entre os túmulos e pelos montes, gritando e ferindo-se com pedras. 6Vendo Jesus de longe, o endemoninhado correu, caiu de joelhos diante dele 7e gritou bem alto: “Que tens a ver comigo, Jesus, Filho do Deus altíssimo? Eu te conjuro por Deus, não me atormentes! 8Com efeito, Jesus lhe dizia: “Espírito impuro, sai desse homem!”  9Então Jesus perguntou: “Qual é o teu nome?” O homem respondeu: “Meu nome é ‘Legião’, porque somos muitos”. 10E pedia com insistência para que Jesus não o expulsasse da região. 11Havia aí perto uma grande manada de porcos, pastando na montanha. 12O espírito impuro suplicou, então: “Manda-nos para os porcos, para que entremos neles”. 13Jesus permitiu. Os espíritos impuros saíram do homem e entraram nos porcos. E toda a manada — mais ou menos uns dois mil porcos — atirou-se monte abaixo para dentro do mar, onde se afogou. 14Os homens que guardavam os porcos saíram correndo e espalharam a notícia na cidade e nos campos. E as pessoas foram ver o que havia acontecido. 15Elas foram até Jesus e viram o endemoninhado sentado, vestido e no seu perfeito juízo, aquele mesmo que antes estava possuído por Legião. E ficaram com medo. 16Os que tinham presenciado o fato explicaram-lhes o que havia acontecido com o endemoninhado e com os porcos. 17Então começaram a pedir que Jesus fosse embora da região deles. 18Enquanto Jesus entrava de novo na barca, o homem que tinha sido endemoninhado pediu-lhe que o deixasse estar com ele. 19Jesus, porém, não permitiu. Entretanto, lhe disse: “Vai para tua casa, para junto dos teus e anuncia-lhes tudo o que o Senhor, em sua misericórdia, fez por ti”. 20E o homem foi embora e começou a pregar na Decápole tudo o que Jesus tinha feito por ele. E todos ficavam admirados.
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1. O Texto Nos Seus Detalhes


Os detalhes do texto do evangelho de hoje merecem nossa atenção. É preciso que procuremos o sentido de cada detalhe para poder tirar mensagem.


Um homem possuído por um espírito impuro, saindo de um cemitério...”. Ele vive com os mortos. Isto significa que este homem está em condições de mortos na vida. Para sua impureza como gentio acrescente a impureza por causa do contato com os túmulos dos mortos.


Esse homem morava no meio dos túmulos e ninguém conseguia amarrá-lo, nem mesmo com correntes. Muitas vezes tinha sido amarrado com algemas e correntes, mas ele arrebentava as correntes e quebrava as algemas. E ninguém era capaz de dominá-lo”. O homem possuído indomável é figura dos escravos (algemas, correntes) e um morto na vida (cemitério), possuído de uma violência fanática (espirito imundo). É um rebelde que a sociedade é incapaz de dominá-lo (arrebentar as correntes). Tudo isso desemboca na sua autodestruição (ferindo-se com pedras).


Mas o homem possuído vê em Jesus uma saída: “Vendo Jesus de longe, o endemoninhado correu, caiu de joelhos diante dele e gritou bem alto: “Que tens a ver comigo, Jesus, Filho do Deus altíssimo? Eu te conjuro por Deus, não me atormentes! Com efeito, Jesus lhe dizia: ´Espírito impuro, sai desse homem!´”. A mensagem de Jesus é libertadora capaz de suscitar uma grande esperança de libertar o homem de sua situação dramática e fatal. Só uma condição: unir as forças com Deus para acabar com o sistema que oprime, aliena e desumaniza. Jesus é a esperança dos que não veem a saída para sua situação. Estar unido a Cristo é voltar a viver dignamente.


Havia aí perto uma grande manada de porcos, pastando na montanha. O espírito impuro suplicou, então: ´Manda-nos para os porcos, para que entremos neles´. Jesus permitiu. Os espíritos impuros saíram do homem e entraram nos porcos”. O porco era no judaísmo figura de um poder estrangeiro opressor de Israel aplicado ao poder de Roma (império romano). Nesta passagem o porco significa qualquer poder que oprime os homens.


A grande manada, de alto valor econômico representa o poder do dinheiro. Como sabemos que o dinheiro é uma faca de dois gumes, conforme se usa para o bem ou para o mal, isto é para Deus e para os outros, ou apenas para si próprio, excluindo os outros. O deus-dinheiro é voraz porque ele pede que se sacrifique tudo no seu altar: princípios morais e honradez pessoal, sentimentos e afetos, sentido religioso, fraternidade e solidariedade a todos os níveis; mais ainda, até a saúde e a vida dos seus adoradores. Com frequência os aliados do deus-dinheiro são a injustiça, a opressão e a exploração dos outros e outras criminalidades. Se a cobiça dos bens for exagerada, se for excessivo o apego aos bens materiais, se ficar doentia a afeição pelas coisas e seu posse não tiver o caráter de meio, então a pessoa não estará exercendo um direito, mas se tornará vítima de um vício hediondo: a avareza. Infelizmente, o avarento não se dá conta disso. Quando você descobrir a alegria de compartilhar o seu pão com seu irmão, você renunciará facilmente ao prazer de comê-lo sozinho. Se você perde os seus bens e é pobre por amar os seus irmãos, você é um santo pelo amor que possui, e não pelo dinheiro que lhe falta” (René Juan Trossero).


2. Jesus Nos Devolve a Autenticidade No Encontro Com Ele


Jesus chega à região dos gerasenos, ou seja, a um território pagão. Isto quer nos dizer que a presença do Reino de Deus não se limita em determinados lugares e povo. O amor de Deus alcança qualquer povo ou pessoa.


Na região dos gerasenos encontra-se um homem que “Dia e noite vagava entre os túmulos e pelos montes, gritando e ferindo-se com pedras” (Mc 5,5). É um homem privado de suas faculdades mentais, que não é dono de si mesmo e se converteu em seu próprio inimigo (“ferindo-se com pedras”). Esse mal é que Jesus vem combater, esse mal misterioso que hoje chamamos de “alienação” que divide o homem no mais profundo de si mesmo e o empurra contra si mesmo. Essa alienação é que nos afasta de nós mesmos e do amor de Deus.


O relato indica que o encontro com Jesus é um encontro de libertação para cada um encontrar-se consigo mesmo. Trata-se de uma conquista da própria autenticidade. O verdadeiro encontro com o Senhor nos torna autênticos. Isso é que aconteceu com o endemoniado: de um ser dividido e antissocial passa a ser um homem dono de si próprio, de um antissocial passa a ser irmão dos outros. Libertação é uma reconquista da própria autenticidade; é um encontrar-se consigo próprio. Este é o resultado de cada encontro verdadeiro com o Senhor: em vez de ser anti-convivência ou antissocial (o homem possuído morava no meio dos túmulos) se torna um irmão dos demais, vira um amigo dos outros (ser social).


3. Para Jesus o Homem Vale Mais Do Que Qualquer Coisa Neste Mundo


Libertação é uma reconquista da própria autenticidade; é um encontrar-se consigo próprio. Ao libertar o homem possuído pelo espírito do mal Jesus transformou o homem em ser “dono” de si próprio. O homem passou de um ser dividido para um irmão dos demais. Este é o resultado de cada encontro verdadeiro com o Senhor: em vez de ser anti-convivência ou antissocial (o homem possuído morava no meio dos túmulos) se torna um irmão dos demais, vira um amigo dos outros (ser social).


Há um detalhe interessante na cena: os habitantes da região demonstram um duplo sentimento: por um lado, Jesus é para eles um ser superior; mas por outro lado, ele é uma espécie que incomoda. Eles intuem que a mensagem, por muito libertadora e benéfica que ela seja, os obrigará a transtornar seus modos rotineiros de vida. Por isso, eles suplicam que Jesus vá se embora daquela região. Eles não aceita a mudança de vida para uma vida de qualidade. O grande problema que temos não é implementar as coisas novas na nossa cabeça e sim tirar as coisas velhas dela que não mais nos ajuda a crescer. Mudança e transformação são, na verdade, o código do mundo que nos cerca. No entanto, nem sempre queremos mudar. Quando estamos felizes, desejamos que o relógio pare de andar, queremos que o tempo pare, queremos imobilizar o instante fugido. Apenas pensamos em mudança por necessidade. Mas ninguém pode parar o crescimento. Ou crescemos com o mundo no seu salto de qualidade, ou ficamos parados no tempo sem que haja nenhum crescimento.


Para os gerasenos a libertação de um homem vale menos do que uma manada de porcos. As coisas (os porcos) são valorizadas mais do que a dignidade do homem. Trata-se de uma inversão de valores. Os negócios lhes interessam mais do que a vida do home libertado. O texto pretende nos dizer que a presença de Jesus, com sua Palavra que opera a libertação das pessoas, questiona todo o sistema de convivência humana, chegando mesmo até a sua base de sustentação. Os gerasenos optam pela solução menos custosa, enquanto que para Jesus conduzir um homem para sua dimensão humana tem um valor muito mais alto do que qualquer outra consideração. Por causa do homem, pelo seu bem, Jesus tinha coragem de “transgredir” qualquer lei por sagrada que ele fosse para o pensamento do homem, pois para ele “o Sábado foi feito para o homem e não o homem para o Sábado”. Por causa de seu amor pelo homem, Jesus aceita ser crucificado inocentemente. Qualquer regra que não edifica o homem para Jesus precisa ser abandonada, pois cada pessoa humana é o filho e a filha de Deus que Jesus ensinou no Pai-Nosso em que todos chamam Deus de Pai (cf. Mt 6,9-15)


Vale a pena cada um perguntar-se: “Quem é o homem para mim? Qual é o valor de um ser humano para mim? Um bom conceito sobre o ser humano leva a pessoa a tratar o outro com dignidade e respeito. Enquanto uma pessoa não tiver um conceito claro sobre quem é o ser humano, não podemos esperar um bom comportamento e um bom tratamento para com os outros dessa pessoa.


4. Ser Enviado Da Misericórdia De Deus


O que nos chama atenção do relato do evangelho de hoje é o seu fim. O homem curado pede que Jesus o deixe estar com ele: “Enquanto Jesus entrava de novo na barca, o homem que tinha sido endemoninhado pediu-lhe que o deixasse estar com ele”. Trata-se de uma oração. Este homem quer estar com o Senhor. Pedir “para estar com Ele” é uma expressão que o evangelista Marcos usa na chamada dos Doze Apóstolos (Mc 3,14). “Estar com Jesus” significa ser discípulo de Jesus. Por isso, a expressão “estar com Ele” descreve a vocação apostólica; é o ir com Jesus itinerante para ser enviados por Ele. Trata-se de uma descrição da chamada dos Doze, daqueles que participam continuamente no mistério do Mestre e estão com Ele em função da Igreja, isto é, os apóstolos.


O homem curado pede a Jesus para fazer parte do grupo, porém recebe uma resposta dura. É a resposta que nos recorda a dura resposta dada para a mulher Cananéia (Mc 7,27; compare Mc 5,37; Mc 1,35). Vai-te para tua casa, para junto dos teus e anuncia-lhes tudo o que o Senhor, em sua misericórdia, fez por ti” é a resposta de Jesus para o homem curado. Jesus que lhe dizer: esta não é para ti; esta não é tua vocação! E este se foi, apesar de sua decepção, obviamente, e começou a proclamar a misericórdia do Senhor “E todos ficavam admirados”.


Este episódio final nos chama para uma meditação sobre a vocação de cada um de nós. Mesmo que não tenha vocação dos Doze, cada um tem uma vocação do verdadeiro seguimento de Cristo e por isso, participa estreitamente de uma chamada. O evangelista Marcos usa uma linguagem bem precisa: “Vai-te para tua casa”. Trata-se de um envio missionário, da ordem para uma missão. Como se o Senhor quisesse dizer a este homem: “Vai salvar primeiro os teus. Eles precisam de tua ajuda!”. “... anuncia-lhes tudo o que o Senhor, em sua misericórdia, fez por ti”, acrescentou o Senhor. “Anunciar” e “proclamar” são termos típicos da atividade evangelizadora da Igreja. Jesus pede ao homem curado, como pede a cada um de nós, a proclamar a misericórdia de Deus. Sejamos misericordiosos nas nossas palavras e ações de cada dia, pois fomos criados por um gesto misericordioso, fomos feitos por mãos misericordiosas, e fomos idealizados por uma mente misericordiosa. Foi o Deus da misericórdia. E por isso, a misericórdia sempre vai além da justiça.


Enquanto Jesus entrava de novo na barca, o homem que tinha sido endemoninhado pediu-lhe que o deixasse estar com ele.Vai-te para tua casa, para junto dos teus e anuncia-lhes tudo o que o Senhor, em sua misericórdia, fez por ti”, pediu Jesus a esse homem. Por quê? Jesus quer enviá-lo a anunciar. O homem deve voltar para os seus para anunciar as maravilhas da misericórdia de Deus. Isto quer nos dizer que cada encontro verdadeiro com Jesus tem como consequência o envio para evangelizar. Os que participam de qualquer atividade religiosa, seja oração, seja missa, seja retiro devem ser transformados em missionários–evangelizadores da misericórdia de Deus.


P. Vitus Gustama,svd

Domingo, 31/01/2016




DEUS ESTÁ NO NOSSO HOJE


IV DOMINGO DO TEMPO COMUM “C”


I Leitura: Jr 1,4-5.17-19


Nos dias de Josias, rei de Judá, 4foi-me dirigida a palavra do Senhor, dizendo: 5“Antes de formar-te no ventre materno, eu te conheci; antes de saíres do seio de tua mãe, eu te consagrei e te fiz profeta das nações. 17Vamos, põe a roupa e o cinto, levanta-te e comunica-lhes tudo que eu te mandar dizer: não tenhas medo, senão eu te farei tremer na presença deles. 18Com efeito, eu te transformarei hoje numa cidade fortificada, numa coluna de ferro, num muro de bronze contra todo o mundo, frente aos reis de Judá e seus príncipes, aos sacerdotes e ao povo da terra; 19eles farão guerra contra ti, mas não prevalecerão, porque eu estou contigo para defender-te”, diz o Senhor.


II Leitura: 1Cor 12,31-13,13


Irmãos: 31Aspirai aos dons mais elevados. Eu vou ainda mostrar-vos um caminho incomparavelmente superior. 13,1Se eu falasse todas as línguas, as dos homens e as dos anjos, mas não tivesse caridade, eu seria como um bronze que soa ou um címbalo que retine. 2Se eu tivesse o dom da profecia, se conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, se tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, mas se não tivesse caridade, eu não seria nada. 3Se eu gastasse todos os meus bens para sustento dos pobres, se entregasse o meu corpo às chamas, mas não tivesse caridade, isso de nada me serviria. 4A caridade é paciente, é benigna; não é invejosa, não é vaidosa, não se ensoberbece; 5não faz nada de inconveniente, não é interesseira, não se encoleriza, não guarda rancor; 6não se alegra com a iniquidade, mas se regozija com a verdade. 7Suporta tudo, crê tudo, espera tudo, desculpa tudo. 8A caridade não acabará nunca. As profecias desaparecerão, as línguas cessarão, a ciência desaparecerá. 9Com efeito, o nosso conhecimento é limitado e a nossa profecia é imperfeita. 10Mas, quando vier o que é perfeito, desaparecerá o que é imperfeito. 11Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Quando me tornei adulto, rejeitei o que era próprio de criança. 12Agora nós vemos num espelho, confusamente, mas, então, veremos face a face. Agora conheço apenas de modo imperfeito, mas, então, conhecerei como sou conhecido. 13Atualmente, permanecem estas três coisas: fé, esperança, caridade. Mas a maior delas é a caridade.


Evangelho: Lc 4,21-30


Naquele tempo, estando Jesus na sinagoga, começou a dizer: 21“Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir”. 22Todos davam testemunho a seu respeito, admirados com as palavras cheias de encanto que saíam da sua boca. E diziam: “Não é este o filho de José?” 23Jesus, porém, disse: “Sem dúvida, vós me repetireis o provérbio: Médico, cura-te a ti mesmo. Faze também aqui, em tua terra, tudo o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaum”. 24E acrescentou: “Em verdade eu vos digo que nenhum profeta é bem recebido em sua pátria. 25De fato, eu vos digo: no tempo do profeta Elias, quando não choveu durante três anos e seis meses e houve grande fome em toda a região, havia muitas viúvas em Israel. 26No entanto, a nenhuma delas foi enviado Elias, senão a uma viúva que vivia em Sarepta, na Sidônia. 27E no tempo do profeta Eliseu, havia muitos leprosos em Israel. Contudo, nenhum deles foi curado, mas sim Naamã, o sírio”. 28 Quando ouviram estas palavras de Jesus, todos na sinagoga ficaram furiosos. 29 Levantaram-se e o expulsaram da cidade. Levaram-no até ao alto do monte sobre o qual a cidade estava construída, com a intenção de lançá-lo no precipício. 30Jesus, porém, passando pelo meio deles, continuou o seu caminho.
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 O Hoje De Deus No Nosso Hoje       


O texto do evangelho deste domingo faz parte do complexo literário Lc 4,16-30, que relata o começo da atividade pública de Jesus na sinagoga de Nazaré. Por isso, este texto ainda é a continuação do evangelho do domingo anterior.


A leitura começa no v.21, onde Jesus resume e aplica a seus ouvintes a promessa de Is 61,1-2: “HOJE se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir”. O advérbio “hoje” (sèmeron) é encontrado também em outras partes do evangelho de Lucas(2,11; 3,22;22,34.61;19,5.9;23,43) que tem significado especial na teologia lucana. No nascimento de Jesus, o anjo diz aos pastores: “...Nasceu-vos hoje um Salvador, que é Cristo- Senhor, na cidade de Davi” (Lc 2,11). Na última etapa da sua subida a Jerusalém, Jesus diz a Zaqueu: “Zaqueu, desce depressa. Hoje eu devo ficar na tua casa” (Lc 19,5). E no fim da visita onde se relata a conversão de Zaqueu, Jesus diz: “Hoje a salvação entrou nesta casa...”(Lc 19,9). E pouco antes de morrer, a penúltima palavra dita por Jesus na cruz foi a que disse a um dos dois criminosos crucificados ao lado de Jesus: “Hoje tu estarás comigo no paraíso” (Lc 23,43).


A Palavra característica da soteriologia lucana “hoje” significa que a profecia de Isaías se torna realidade: aquele de quem falava outrora o profeta chegou. Ele está ai e, com ele, começou o Reino de Deus. Os últimos tempos da história da salvação estão abertos, inaugurados oficialmente pela vinda de Jesus a Nazaré. É um “hoje” de Deus no tempo humano, isto é, um momento excepcional da “graça” no desenrolar-se da história dos homens, um momento decisivo na história da salvação. Por isso, “hoje” não tem dimensão puramente cronológica. Na medida em que Jesus inaugura esse “ano da graça do Senhor” (o “ano da graça é uma referência ao ano do jubileu, celebrado em Israel a cada 50 anos, cf. Lv 24,10-13. Sua finalidade era dar a possibilidade de reiniciar a vida para todos aqueles que, por um ou outro motivo, tinham se endividado a tal ponto que haviam perdido a propriedade da família e até a própria liberdade. Nesse ano de jubileu todos podiam recuperar os direitos perdidos, recomeçando vida nova), as suas palavras não poderão ser senão palavras “portadoras da graça que Deus faz aos homens. A palavra proclamada por Jesus na sinagoga de Nazaré é assim, ao mesmo tempo, a palavra de Deus que realiza o que ela anuncia e a palavra encarnada em Jesus, diante de quem todo homem tem agora de situar-se, se quiser.


Dizer que “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura...” não somente significa que uma antiga promessa se cumpre ou que um texto toma vulto repentinamente, mas sobretudo que a humanidade encontrou Deus em Jesus Cristo no hoje da humanidade. Ele é o Emanuel, Deus- conosco (cf. Mt 1,23;18,20;28,20). Ele é o Messias, Palavra do Deus vivo. Para acolher a Palavra do Deus vivo e deixar-se modelar por ela, importa apenas seguir Jesus, pois ele é “o Caminho, a Verdade e a Vida”(Jo 14,6). Jesus é o único caminho que pode fazer o homem chegar à sua verdadeira dignidade, para chegar ao hoje de sua salvação.


Deus nos vê não como éramos e sim como somos. Deus não nos questiona o que fizemos, e qual pecado cometemos. O importante que hoje voltemos para Deus porque Ele é o Deus da misericórdia. Se quisermos melhorar a qualidade de nossa vida em todos os seus aspectos ou dimensões, temos que começar hoje. Temos que fazer tudo o que é bom e digno no nosso hoje mesmo. O hoje de Deus é nos dado na Sua graça. Meu ontem é importante porque é a base do meu hoje. Não posso desprezar nem condenar o meu passado. Sou fruto do tempo que passou e do que fui neste tempo. Porém, eu preciso viver o meu hoje na graça de Deus, isto é devo ocupar o meu hoje para o bem de todos para que o meu hoje se torne o hoje da salvação.


A aparição de Jesus  é assim para Lucas não somente uma oferta da graça toda especial, mas também uma promessa de vida para todos os que lhe derem a adesão de sua fé.


Cada Cristão É Profeta, Pronto Para Ser Rejeitado        


A presença de Jesus foi rejeitada por motivo da encarnação: Jesus é um deles. Eles esperavam um messias espetacular, capaz de ações mágicas e miraculosas. O segundo motivo da rejeição é a busca de milagres. Os nazarenos querem que Jesus faça milagres em sua terra. Jesus se recusa a ser ídolo de abundância, do prestígio, do poder e da riqueza (cf. Lc 4,1-12 sobre as tentações). Ele não é um exibicionista que esteja querendo se afirmar para ganhar prestígio. Em Nazaré ele não faz milagres porque não reconhecem a pessoa que ele é.


No v.24 Jesus responde a reação de seus ouvintes com uma frase solene: ”Em verdade eu vos digo que nenhum profeta é bem recebido em sua pátria”. As palavras de Jesus aqui e em 13,34 refletem uma tradição judaica segundo a qual Israel de rotina rejeitava e perseguia os profetas (2Cr 36,15-16;Sl 78;105;106;Lm 4,13;At 7,51-53). No AT os profetas se apresentam como guias espirituais suscitados por Deus para levar o povo à fidelidade à aliança. Sua função é além de anunciar a Palavra de Deus, também despertar a consciência do povo de que estão sendo infiéis. Se o profeta se dirige ao povo infiel, sua primeira palavra será de denúncia. Toda pessoa tem a tendência a identificar-se com a própria situação, especialmente quando esta lhe traz vantagens. O profeta se distancia da situação e abre os olhos para a verdade do momento. E sendo extremamente fiel à aliança feita outrora com Deus, o profeta é profundamente inovador, pois transmite a palavra do Deus vivo e exige a transformação. Por isso, ele é mais facilmente aceito por quem está fora do sistema vigente. Ele nunca é um personagem aplaudido e elogiado pelas multidões, e menos ainda pelos que retém em suas mãos o poder, porque o profeta contempla o mundo com os olhos de Deus.


Jesus é o Messias –profeta. O destino dele é o destino do profeta: não ser aceito em sua pátria e ser mesmo levado à morte sobre a qual ele vêm a triunfar.


O profeta é um contemplativo, um homem de oração. Ele reza não apenas para ser escutado por Deus, mas sobretudo, ele reza para escutar Deus a fim de estar nos planos de Deus. Por isso mesmo, o profeta é um homem que sabe calar. Ele não é um charlatão. Seu silêncio é tão inquietante como suas ameaças. Somente fala em determinadas ocasiões, quando é necessário. Mas quando fala, o faz com autoridade, porque é um homem soberanamente livre (sem rabo preso). Ele é um homem livre de todo cálculo oportunista e de todo tipo de interesses egoístas. Por isso, sua palavra escandaliza a quantos aproveitam a oportunidade para se enriquecer ou para defender seus interesses particulares. O profeta é aquele que nos move constantemente para a renovação e a mudança a fim de que não fiquemos satisfeitos com nossas atitudes e obras, pois sempre é possível um passo adiante.


A verdade que sai de sua boca denuncia a mentira de nossas “verdades” interessadas. Consequentemente, ele é perseguido até pode ser morto. João Batista foi decapitado. Jesus será crucificado. Logo qualquer cristão, se viver fielmente ou piedosamente os ensinamentos de Cristo também será perseguido e morto.


Cada cristão é um profeta, uma função que ele recebeu no batismo. A função do profeta é anunciar e denunciar. Anuncia a Palavra de Deus em todos os momentos, anuncia e pratica o bem. Ele também denuncia a injustiça, a desonestidade, a exploração, e assim por diante. Pode através da palavra, mas pode também através dum modo de viver em não compactuar com o mal e a maldade, não ser cúmplice na injustiça e assim por diante. Por isso, um profeta não é bem aceito e pode ser crucificado por aqueles que mantém uma estrutura injusta. Temos consciência desta vocação? Temos coragem de orientar e de corrigir e de aceitar a orientação e a correção dos outros?  Temos medo de dizer a verdade e será que temos coragem de aceitar a verdade?


A Atitude Dos Nazarenos Se Reflete Na Nossa Atitude


Quando ouviram estas palavras de Jesus, todos na sinagoga ficaram furiosos. Levantaram-se e o expulsaram da cidade. Levaram-no até ao alto do monte sobre o qual a cidade estava construída, com a intenção de lançá-lo no precipício. Jesus, porém, passando pelo meio deles, continuou o seu caminho”.


Seria um erro pensar que a atitude dos nazarenos não tem nada a ver com a nossa. Quantos de nós já impedimos nossos semelhantes de realizarem tudo do que são capazes, simplesmente por falta de valorização, por não o levarmos a sério. Quantas vezes também, nós mesmos nos sentimos bloqueados e desencorajados porque não nos dão oportunidade de desenvolver nossas qualidades e colocar nossos dons a serviço para o bem comum. Quantas vezes estamos maravilhados com as palavras cheias de graça que saem da boca de Jesus, mas não entendemos que se realizam hoje para nós. Deixamos assim passar, sem segurá-la, a oferta da salvação. E já que não podemos mais agarrar Jesus e silenciá-lo, tentamos negar as evidências, neutralizar às vezes violentamente os profetas, que hoje ainda, o proclamam. Mas Jesus passa por entre nós e nos escapa; ele vai seguindo o seu caminho longe de nós, para outros homens que o escutam. A única saída para nós é abandonar as falsas seguranças, os medos e as pretensões que nos mantém prisioneiros.


Em segundo lugar, como os nazarenos que dizem “Não é este o filho de José ?”, também o mundo moderno até o mundo eclesial, exige “status”, exige relevância pública, exige título de honraria, capacidade política ou eficiência contestadora. Jesus nem é de descendência nobre, nem de família extraordinária, nem detentor de títulos políticos ou acadêmicos. É um de nós... de nós que somos todos medíocres. Como os nazarenos, já perdemos também a percepção da extraordinária presença do Espírito de Deus nas pessoas tão “normais”, tão “comuns”, como nosso pároco, nosso superior, nosso irmão, nosso pai, nossa mãe, nosso funcionário etc. Nos outros será que enxergamos algo do “hoje se cumpriu este oráculo” ? Será que cremos de fato que Deus pode usar o “fraco” e “insuficiente” para confundir o que se julga “forte”?(1Cor 1,26-31). Como os compatriotas de Jesus, as próprias pessoas de Igreja podem duvidar da ação e da palavra de Jesus. E o que vai acontecer ? Jesus vai procurar quem nele acredita. Se os de dentro não aceitam, Jesus procura os de fora, onde encontra mais fé. Se não reaprendermos a ter um olhar de fé, na verdade, não vivemos ainda na Igreja.


Praticar a Caridade é Um “Milagre” Para Convencer O Mundo Que Somos Cristãos


Ainda hoje, como aconteceu em Nazaré, existe gente que faz questão de milagres e manifestações fora do comum para identificar a presença de Deus. Era assim também na comunidade de Corinto, para a qual Paulo escreveu o trecho que lemos na segunda leitura deste domingo. Mas Paulo diz que há um sinal indispensável, que fala mais alto do que qualquer milagre e maior do que qual milagre e sem o qual nada disso tem valor: é a CARIDADE, o amor que deve circular na convivência e se transformar em serviço para todos, dentro e fora da Igreja. Só uma comunidade ou convivência onde se cultiva a caridade pode ser um sinal da presença do Espírito de Deus que fortalece e une a Igreja ou uma convivência. Todos os outros dons podem ser úteis, desde que estejam a serviço desse sinal maior, sem o qual não podemos ser considerados seguidores de Jesus.


O cristianismo é amor. No cristianismo tudo é amor: Deus é amor (1Jo 4,8.16); Deus envia seu Filho por amor (Jo 3,16; Rm 8,31-34); o Espirito Santo infundiu a caridade em nossos corações (Rm 5,5). O maior de tudo é o amor (1Cor 13,13). O Reino de Deus se manifesta para nós em Jesus Cristo como o Reino de amor.


Somente serve, quem ama, e serve gratuitamente por amor. O Deus de Jesus pensa em nós, se ocupa de nós, se dedica ao cuidado de seus filhos, está sempre nos concedendo seus dons. Concretamente, nos dá seu amor, nos serve. Cristo veio para servir (Lc 22,27). Ao serviço consagrou a vida. Entregou-se à humanidade. O grande milagre que se espera dos cristãos é a caridade, é fazer o bem para todos, especialmente para os mais necessitados. O que enche de sentido nossa vida é amor. Ser profeta é chamar a todos para viver o amor e no amor. Isto é o hoje de Deus.

P. Vitus Gustama,svd

sábado, 23 de janeiro de 2016

30/01/2016



TENHAMOS FÉ NO SENHOR EM TODOS OS MOMENTOS!


Sábado Da III Semana Do Tempo Comum


Primeira Leitura: 2Sm 12,1-7a.10-17


Naqueles dias, 1 o Senhor mandou o profeta Natã a Davi. Ele foi ter com o rei e lhe disse: “Numa cidade havia dois homens, um rico e outro pobre. 2 O rico possuía ovelhas e bois em grande número. 3 O pobre só possuía uma ovelha pequenina, que tinha comprado e criado. Ela crescera em sua casa junto com seus filhos, comendo do seu pão, bebendo do mesmo copo, dormindo no seu regaço. Era para ele como uma filha. 4 Veio um hóspede à casa do homem rico, e este não quis tomar uma das suas ovelhas ou um dos seus bois para preparar um banquete e dar de comer ao hóspede que chegara. Mas foi, apoderou-se da ovelhinha do pobre e preparou-a para o visitante”. 5 Davi ficou indignado contra esse homem e disse a Natã: “Pela vida do Senhor, o homem que fez isso merece a morte! 6 Pagará quatro vezes o valor da ovelha, por ter feito o que fez e não ter tido compaixão”. 7ª Natã disse a Davi: “Esse homem és tu! Assim diz o Senhor, o Deus de Israel: 10 Por isso, a espada jamais se afastará de tua casa, porque me desprezaste e tomaste a mulher do hitita Urias para fazer dela a tua esposa. 11 Assim diz o Senhor: Da tua própria casa farei surgir o mal contra ti e tomarei as tuas mulheres, sob os teus olhos, e as darei a um outro, e ele se aproximará das tuas mulheres à luz deste sol. 12 Tu fizeste tudo às escondidas. Eu, porém, farei o que digo diante de todo o Israel e à luz do sol”. 13 Davi disse a Natã: “Pequei contra o Senhor”. Natã respondeu-lhe: “De sua parte, o Senhor perdoou o teu pecado, de modo que não morrerás! 14 Entretanto, por teres ultrajado o Senhor com teu procedimento o filho que te nasceu morrerá”. 15 E Natã voltou para a sua casa. O Senhor feriu o filho que a mulher de Urias tinha dado a Davi e ele adoeceu gravemente. 16 Davi implorou a Deus pelo menino e fez um grande jejum. E, voltando para casa, passou a noite deitado no chão. 17 Os anciãos do palácio insistiam com ele para que se levantasse do chão; mas ele não o quis fazer nem tomar com eles alimento algum.


Mc 4,35-41


35Naquele dia, ao cair da tarde, Jesus disse a seus discípulos: “Vamos para a outra margem!” 36Eles despediram a multidão e levaram Jesus consigo, assim como estava na barca. Havia ainda outras barcas com ele. 37Começou a soprar uma ventania muito forte e as ondas se lançavam dentro da barca, de modo que a barca já começava a se encher. 38Jesus estava na parte de trás, dormindo sobre um travesseiro. Os discípulos o acordaram e disseram: “Mestre, estamos perecendo e tu não te importas?”  39Ele se levantou e ordenou ao vento e ao mar: “Silêncio! Cala-te!” O vento cessou e houve uma grande calmaria. 40Então Jesus perguntou aos discípulos: “Por que sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?”  41Eles sentiram um grande medo e diziam uns aos outros: “Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?”
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Depois da série de parábolas, Marcos aborda uma série de milagres (Mc 4,35-5,43). Os quatro milagres citados aqui não foram feitos na presença da multidão e sim diante dos discípulos para sua educação.


A imagem de Jesus que contemplamos na leitura dos quatro milagres é esta: Jesus tem um poder supremo sobre as forças da natureza (Mc 4,35-41) e derrota uma legião de demônios (Mc 5,1-20); cura e salva uma mulher e vence a morte (Mc 5,21-43). Os dois últimos milagres se entrecruzam no relato. Ao relatar esses milagres Marcos quer nos transmitir uma certeza: Só Jesus pode salvar. Entram aqui os temas da fé e da salvação. Por isso, Marcos não se limita a contar os milagres. Marcos se sente um evangelista que anuncia, à luz da Páscoa, o que o Senhor fez e O anuncia para suscitar a fé em Jesus Cristo. Ainda hoje esses relatos são anúncios de salvação, pois ao lê-los e ao meditá-los, impõem-nos um exame de nossa fé. Temos fé em Jesus ou nós acreditamos mais na força do mal?


1. É Preciso Sair Ao Encontro Dos Outros


Depois que terminou o discurso das parábolas, Jesus ordena aos discípulos para cruzarem o mar da Galileia com ele: “Vamos para outro lado do mar”. Os discípulos lhe obedecem. Jesus convida os discípulos a ir a “outro lado do mar”. “Do outro lado” estão os pagãos, ou o território não- judeu. Jesus convida os discípulos para esse território para que lá possam semear também entre os pagãos a Boa Notícia do Reino.


Atravessar, ou “ir para outro lado”, então, significa sair de si mesmo, é pensar nos outros e não ficar apenas no nosso lado. Precisamos ir a “outro lado”. "Levar os homens à verdade é o maior benefício que se pode prestar aos outros. O grande mistério da santidade é amar muito" dizia Santo Tomás de Aquino. Quem sabe no “outro lado” em vez de evangelizarmos os outros, seremos evangelizados. Travessia é muitas vezes sinônimo de abertura ao novo e diferente. Para atravessar é preciso encarar os desafios, superar os obstáculos e perseverar no alcance dos objetivos.


As palavras do Papa Francisca sobre a importância de ser uma Igreja em saída, em ir para outro lado:
  • O bem tende sempre a comunicar-se. Toda a experiência autêntica de verdade e de beleza procura, por si mesma, a sua expansão; e qualquer pessoa que viva uma libertação profunda adquire maior sensibilidade face às necessidades dos outros. E, uma vez comunicado, o bem radica-se e desenvolve-se. Por isso, quem deseja viver com dignidade e em plenitude, não tem outro caminho senão reconhecer o outro e buscar o seu bem. Assim, não nos deveriam surpreender frases de São Paulo como estas: «O amor de Cristo nos absorve completamente» [2 Cor 5, 14]; «ai de mim, se eu não evangelizar!» [1 Cor 9, 16] (Papa Francisco: Evangelii Gaudium n.9).
     
  • A Igreja «em saída» é uma Igreja com as portas abertas. Sair em direção aos outros para chegar às periferias humanas não significa correr pelo mundo sem direção nem sentido. Muitas vezes é melhor diminuir o ritmo, pôr de parte a ansiedade para olhar nos olhos e escutar, ou renunciar às urgências para acompanhar quem ficou caído à beira do caminho. Às vezes, é como o pai do filho pródigo, que continua com as portas abertas para, quando este voltar, poder entrar sem dificuldade (idem n.46).
  • Saiamos, saiamos para oferecer a todos a vida de Jesus Cristo! Repito aqui, para toda a Igreja, aquilo que muitas vezes disse aos sacerdotes e aos leigos de Buenos Aires: prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada com ser o centro, e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos. Se alguma coisa nos deve santamente inquietar e preocupar a nossa consciência é que haja tantos irmãos nossos que vivem sem a força, a luz e a consolação da amizade com Jesus Cristo, sem uma comunidade de fé que os acolha, sem um horizonte de sentido e de vida. Mais do que o temor de falhar, espero que nos mova o medo de nos encerrarmos nas estruturas que nos dão uma falsa proteção, nas normas que nos transformam em juízes implacáveis, nos hábitos em que nos sentimos tranquilos, enquanto lá fora há uma multidão faminta e Jesus repete-nos sem cessar: «Dai-lhes vós mesmos de comer» [Mc 6, 37] (idem n.49).
     
    2. Só Jesus Pode Salvar
     
    Na travessia Jesus parece ausente, pois dorme e parece estar completamente alheio à tragédia do mar (v.38a). O sono tranquilo de Jesus simboliza uma confiança total em Deus.
     
    A descrição detalhada de Marcos sobre o que estava acontecendo permite dar-se conta de que não há esperança alguma: “Começou a soprar uma ventania muito forte e as ondas se lançavam dentro da barca, de modo que a barca já começava a se encher”. A barca está se afundando. Somente então é que os discípulos olham para Jesus que dorme e com tom de reprová-lo, o despertam com as seguintes palavras: “Mestre, estamos perecendo e tu não te importas?”. Não conheciam Jesus. Não conseguiram imaginar e acreditar que, com Jesus, jamais podiam afundar-se. E Jesus se levantou e com seu poder acalmou o vento: “Silêncio! Cala-te!”.
     
    Por que Marcos descreve o relato do mar como se fosse um exorcismo? Na Bíblia, o mar e a escuridão são símbolos do caos inicial, mas dominado e vencido pela força criadora de Deus (cf. Gn 1). O mar é a sede de todas as forças hostis a Deus, mas são vencidas para sempre por Deus (cf. Ap 21,1). A vitória sobre as forças maléficas não está no homem e sim em Deus, o Único que “transformou a tempestade em leve brisa e as ondas emudeceram” (Sl 107,29). Marcos quer nos revelar a certeza de que o único Salvador, o único que pode salvar o homem de todas as forças maléficas é Jesus Cristo.
     
    A natureza volta à calma; os discípulos não. Ficam ainda mais assustados e diziam: “Quem é este, a quem até o vento e o mar lhe obedecem?”.  E “eles sentiram um grande medo”, isto é, ficaram sob o efeito do sentimento de grande perturbação e medo: estáticos e reverenciais que sentem diante do divino. Poucos dos milagres encontrados nos evangelhos deixaram os apóstolos tão profundamente impressionantes quanto esse.
     
    Quem é esse homem, a quem até o vento e o mar obedecem?”  Esta pergunta abre caminho para descobrir Jesus como alguém que traz consigo o poder de Deus para preservar a vida diante das forças que ameaçam a vida. O medo dos discípulos cede lugar à fé; o milagre faz progredir os discípulos na descoberta da pessoa de Jesus. A fé dos discípulos começa a crescer embora de maneira ainda vaga e insuficiente.
     
    Quem é este, a quem até o vento e o mar lhe obedecem?”.  Sabemos que o Evangelho de Marcos foi escrito para responder  a seguinte pergunta: “Quem é Jesus?”. E logo no início o próprio evangelista dá a resposta: “ Início da Boa Nova de Jesus Cristo, Filho de Deus” (Mc 1,1). E no fim, na hora de morte de Jesus, um soldado pagão declara: “Verdadeiramente, este homem era Filho de Deus” (Mc 15,39). No início e no fim do Evangelho Jesus é chamado Filho de Deus. Entre o começo e o fim o evangelista coloca outros nomes e títulos mais de 20 para Jesus: Messias, Cristo (Mc 1,1; 8,29; 14,61; 15,32), Senhor (Mc 1,3; 5,19; 11,3), Filho amado (Mc 1,11; 9,7), Santo de Deus (Mc 1,24), Nazareno (Mc 1,24; 10,47; 14,67; 16,6), Filho do Homem (Mc 2,10.28; 8,31.38; 9,9.12.31; 10,33.45; 13,26; 14,21.41.62), Noivo (Mc 2,19), Filho de Deus (Mc 3,11), Filho do Deus altíssimo (Mc 5,7) etc... Cada nome, título ou atributo é uma tentativa de expressar o que Jesus significava para as pessoas. Mesmo tendo esses tantos títulos, jamais podemos entender perfeitamente o mistério da pessoa de Jesus na sua profundidade. A fé sempre ajuda o entendimento, mas a visão é sempre insuficiente para captar o significado profundo do mistério da pessoa de Jesus.
     
    3. É Preciso Ter Fé Em Jesus Em Todos Os Momentos
     
    Depois que acalmou o vento, Jesus faz uma censura aos discípulos sob a forma de dupla pergunta retórica, assim correspondendo e contestando a censura deles que foi também em forma de pergunta retórica: “Por que tendes medo? Ainda não tendes fé?”. O “ainda não” da pergunta de Jesus faz referência tanto para trás (passado) como para frente (futuro). Para trás (passado), refere-se à experiência prévia que os discípulos tiveram da poderosa palavra de Jesus demonstrada em ensinamentos e em milagres, uma experiência que deveria ter despertado a fé deles em Jesus, mas não aconteceu. Mas o “ainda não” também antecipa com expectativa algum momento futuro, quando os discípulos terão a fé. Com esta pergunta, Jesus exorta aos discípulos que confiem nele em todo momento e circunstância. Somente com a fé é possível manter-se firme diante da aparente ausência de Jesus. A falta de fé impede qualquer pessoa de reconhecer a presença atuante de Deus no cotidiano.
           
    Depois destas palavras os discípulos ficam “muito cheios de medo”. É um medo diferente do anterior. Antes eles temiam que as forças ameaçadoras, as forças da morte não pudessem ser vencidas, por isso ficavam paralisadas e impotentes diante delas. Agora o medo os atinge ao perceberem tais forças vencidas. Esse medo é o temor reverencial diante do mistério da força e do poder de Deus em Jesus Cristo. Esse temor de Deus indica a aceitação da impossibilidade humana de vencer forças poderosas de morte e ao mesmo tempo o reconhecimento de que só Deus pode superá-las É preciso adorar a este Deus.  
     
    “Ainda não tendes fé?”, Jesus perguntou retoricamente aos discípulos. Segundo a Carta aos Hebreus: ”A fé é a certeza daquilo que ainda se espera, a demonstração de realidades que não se vêem” (Hb11,1). Trata-se de uma fórmula admirável! A fé é um paradoxo. Ela nos faz “possuir” já o que não temos e nos faz “conhecer” o que está fora da capacidade de nossos sentidos. A fé é Deus no homem que nos leva ao entusiasmo (entusiasmo= Deus está dentro: em + theos); é um início do céu; é a alegria eterna, presente já no seio da monotonia cotidiana. A fé é um dinamismo vital extraordinária; uma aventura em companhia do Invisível; é a familiaridade com um imenso entorno de realidades invisíveis; é um novo modo de conhecimento, uns “olhos novos” para ver tudo com profundidade. A fé é confiar na palavra de alguém; é pôr-se em caminho; é atravessar a noite até a luz; é viver e esperar uma cidade perfeita onde tudo será edificado sobre o amor. A fé é crer na fecundidade de minha vida com a ajuda divina, apesar das aparências contrárias; é trabalhar segundo meus meios e confiar nas promessas de Deus que é muito fiel a Si próprio. “Ainda não tendes fé?” é a pergunta dirigida a cada um de nós que nos chama a verificarmos até que ponto temos realmente fé. "Quanto mais um ser se afasta de Deus, tanto mais ele se aproxima do nada. Quanto mais se aproxima de Deus, tanto mais se distancia do nada" dizia Santo Tomás de Aquino.
     
    “A fé nasce no encontro com o Deus vivo, que nos chama e revela o seu amor: um amor que nos precede e sobre o qual podemos apoiar-nos para construir solidamente a vida. Transformados por este amor, recebemos olhos novos e experimentamos que há nele uma grande promessa de plenitude e se nos abre a visão do futuro. A fé, que recebemos de Deus como dom sobrenatural, aparece-nos como luz para a estrada orientando os nossos passos no tempo... A fé é luz que vem do futuro, que descerra diante de nós horizontes grandes e nos leva a ultrapassar o nosso «eu» isolado abrindo-o à amplitude da comunhão. Deste modo, compreendemos que a fé não mora na escuridão, mas é uma luz para as nossas trevas” (Papa Francisco: Lumen Fidei n.4).
     
    Há momentos durante os quais nos sentimos sós e incapazes de reagir diante da maldade e dos dramas da vida. Isto acontece, por exemplo, quando surgem graves problemas na família(infidelidade do marido ou da mulher, mau comportamento dos filhos, doenças, dificuldades econômicas etc.) ou então, quando nos desentendemos com os irmãos da comunidade, quando se espalham maledicências, calúnias, quando surgem incompreensões. Nessas horas nos perguntamos: Onde está Deus ? Por que não intervém? Por que não mostra o seu poder? Por que não faz justiça? O seu silêncio nos desconcerta e nos incute medo.
No Evangelho de hoje Jesus nos convida a um ato de fé nele. Talvez seja necessário que estejamos numa barquinha agitada pelo vento para que percebamos a presença de Deus. Há cristãos que só pensam em Deus quando ficam doentes, quando atingidos por alguma desdita (falta de sorte). Só então rezam com toda a devoção e pedem a Deus para que ele venha socorrê-los. Quando tudo corre bem o ser humano corre o risco de se tornar autossuficiente. É a pedagogia da provação. Em tudo sairemos vitoriosos por Aquele que nos amou e nada poderá nos separar do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus (cf. Rm 8,31-39).


P. Vitus Gustama,svd