terça-feira, 31 de maio de 2016

02/06/2016




AMAR A DEUS E AO PRÓXIMO DE CORAÇÃO


Quinta-Feira da IX Semana Comum


Primeira Leitura: 2Tm 2,8-15


Caríssimo, 8 lembra-te de Jesus Cristo, da descendência de Davi, ressuscitado dentre os mortos, segundo o meu evangelho. 9 Por ele eu estou sofrendo até às algemas, como se eu fosse um malfeitor; mas a palavra de Deus não está algemada. 10 Por isso suporto qualquer coisa pelos eleitos, para que eles também alcancem a salvação, que está em Cristo Jesus, com a glória eterna. 11 Merece fé esta palavra: se com ele morremos, com ele viveremos. 12 Se com ele ficamos firmes, com ele reinaremos. Se nós o negamos, também ele nos negará. 13 Se lhe somos infiéis, ele permanece fiel, pois não pode negar-se a si mesmo.  14 Lembra-lhes tais coisas e conjura-os por Deus a evitarem discussões vãs, que de nada servem a não ser para a perdição dos ouvintes. 15 Empenha-te em apresentar-te diante de Deus como homem digno de aprovação, como operário que não tem de que se envergonhar, mas expõe corretamente a palavra da verdade.


Evangelho: Mc 12, 28-34


Naquele tempo, 28b um mestre da Lei aproximou-se de Jesus e perguntou-lhe: “Qual é o primeiro de todos os mandamentos?” 29 Jesus respondeu: “O primeiro é este: Ouve, ó Israel! O Senhor nosso Deus é o único Senhor. 30 Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendi­mento e com toda a tua força! 31 O segundo mandamento é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo! Não existe outro man­damento maior do que estes”. 32 O mestre da Lei disse a Jesus: “Muito bem, Mestre! Na verdade, é como disseste: Ele é o único Deus e não existe outro além dele. 33 Amá-lo de todo o coração, de toda a mente, e com toda a força, e amar o próximo como a si mesmo é melhor do que todos os holocaustos e sacrifícios”. 34 Jesus viu que ele tinha respondido com inteligência, e disse: “Tu não estás longe do Reino de Deus”. E ninguém mais tinha coragem de fazer perguntas a Jesus.
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Jesus Cristo, Verdadeiro Deus e Verdadeiro Homem


Caríssimo, lembra-te de Jesus Cristo, da descendência de Davi, ressuscitado dentre os mortos, segundo o meu evangelho”, escreveu São Paulo ao Timóteo (2Tm 2,8).


“Cristo ressuscitou! Cristo, Filho de Davi!” Este hino que São Paulo considera como “meu evangelho” resume nossa fé. A ressurreição dos mortos testemunha o caráter divino de Jesus. Jesus é o Senhor, pois foi ressuscitado. A ressurreição de Jesus é o ponto de partida e o ponto de chegada de toda a teologia paulina. São Paulo não teve a experiência do Jesus histórico como os apóstolos de Jesus, mas teve o encontro com o ressuscitado no caminho de Damasco (At 9,1-18). “Lembra-te de Jesus Cristo, da descendência de Davi, ressuscitado dentre os mortos”. A ressurreição é a fonte e o ápice da fé cristã. Por causa da fé na ressurreição, suportamos, como São Paulo, todos os tipos de sofrimento, pois eles são passageiros. Para São Paulo, o evangelho é o evangelho de Jesus vivo (ressuscitado), presente e redentor.


A filiação davídica testemunha que Jesus é um verdadeiro homem. Jesus Cristo não é somente um ser celeste e sim é um homem completo enraizado numa linhagem familiar. Jesus é “Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai”, assim rezamos no Símbolo Niceno-Constantinopolitano. Jesus nos mostra que o caminho para ser divino é o caminho humano. Deus entrou no tempo para nos tornar eternos. Deus se fez homem para nos tornar divinos. Toda pessoa com a atitude humana e o espirito humano é uma pessoa de caráter celestial. O caminho de subida para o Céu passa pelo caminho de descida para a humanidade. Pela participação na Filiação divina de Jesus somos cidadãos do céu. Logo, nossa vida deve ser um céu aqui na Terra.


Ser Perseverante Até Nos Sofrimentos


Por ele eu estou sofrendo até às algemas, como se eu fosse um malfeitor; mas a palavra de Deus não está algemada. Por isso suporto qualquer coisa pelos eleitos, para que eles também alcancem a salvação, que está em Cristo Jesus, com a glória eterna” (2Tm 2,9-10).


Perseverar significa a capacidade de resistir diante de cada dificuldade, porque acreditamos que Deus nos sustenta e nos levanta em qualquer situação: “A Palavra de Deus não está algemada. Por isso suporto qualquer coisa...”, escreveu São Paulo. Quando você somente acredita na sua própria força, em pouco tempo você vai cair no desespero, pois sua força tem seu limite. Mas se você se apoiar em Deus, a sua força nunca vai ter o fim, pois Deus o abastece com sua graça: “Quando me sinto fraco, na verdade sou forte pois a graça de Deus me sustenta e me levanta”, dizia São Paulo (cf. 2Cor 12,10).


 A capacidade de resistir precisa ser sempre renovada na oração. Como cristãos rezamos sem cessar, pedindo a graça da perseverança final. Estamos, todavia, conscientes de que isto leva consigo a disponibilidade para mudar/ se converter, porque estamos conscientes de que a nossa fidelidade é continuamente posta à prova e de que está exposta a contínuas tentações: “Empenha-te em apresentar-te diante de Deus como homem digno de aprovação, como operário que não tem de que se envergonhar, mas expõe corretamente a palavra da verdade”.


Amar Para Se Tornar Divino, Pois Deus é Amor


Encontramos no evangelho de hoje um escriba sincero que se aproxima de Jesus não para criticá-lo, mas para dialogar com ele a respeito do maior de todos os mandamentos: “Qual é o primeiro de todos os mandamentos?”, ele pergunta a Jesus. Nas escolas rabínicas se distinguiam entre mandamentos “graves” e “leves”. Tinha 248 preceitos positivos e 365 proibições legais. Por causa de sua grande quantidade, os rabinos investigaram qual de todos estes mandamentos era realmente importante, qual era o primeiro e principal como resumo de todos.


Jesus responde citando ao pé da letra a passagem do Dt 6,4-5 onde se encontra a seguinte afirmação: “Ouve, ó Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração , de toda a tua alma e de todas as tuas forças”. Ao mesmo tempo Jesus cita a passagem do Lv 19,8, também ao pé da letra, onde se encontra o seguinte mandamento: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. E para Jesus ambos os mandamentos são como um só inseparavelmente: “Não existe outro mandamento maior do que estes”. É um só porque não se pode amar a Deus sem amar ao próximo. Por isso, na sua primeira Carta são João nos diz: “Se alguém disser: ‘Amo a Deus’, mas odeia seu irmão, é mentiroso. Porque aquele que não ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus, a quem não vê” (1Jo 4,20). Então, entre o mandamento do amor a Deus e o preceito de amar ao próximo existe uma conexão necessária. Inclusive os rabinos entendiam que o amor ao próximo era como um resumo da lei. Por exemplo, se atribui ao Rabino Hillel esta sentença: “Não faças ao outro o que não desejas para ti. Esta é toda a lei. O resto é interpretação”. Neste mandamento de amor se funda a única piedade verdadeira.


Amar! Este é o mandamento do Senhor. A acumulação dos termos: “coração, alma, mente, força” quer significar uma plenitude de amor que compreende todas as nossas faculdades de amar. É preciso que o amor arda em nossos pés à cabeça, em nosso espírito ao corpo, em nossa manhã até a noite, em nossa infância à velhice.


Amor é a essência para qualquer relacionamento com suas três direções: a Deus, ao próximo e a mim mesmo. Amor é relação, comunicação, encontro. Para eu poder valorizar o outro eu preciso saber me valorizar. Para eu poder amar o outro, eu preciso saber me amar. Para eu poder compreender o outro, eu preciso me compreender. Para eu poder fazer o encontro com o outro, eu preciso fazer o encontro comigo mesmo, reconhecendo tantos minhas capacidades e virtudes como também meus defeitos e limitações. Não basta amar a Deus, alguém tem que amar também o próximo. Não basta amar o outro, mas tem que saber se amar: “Amar a Deus com toda força e o próximo como a ti mesmo”. Não faça do outro como objeto de sua carência de amor. Isto não é amor. É exploração. Para amar tem que ser livre. O amor liberta, dá segurança e possibilita o crescimento. Quando uma pessoa começar a sufocar a outra pessoa é porque está faltando amor.


Por isso é que Jesus não fala de qualquer amor. Ele fala do amor ágape. Ágape é uma palavra grega que significa o amor que se dirige unicamente para o outro, incondicional, e que não espera nada em troca. É uma doação pura de si mesmo. Por isso, Jesus chegou a fazer uma afirmação muito extrema: “Amai vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem” (Mt 5,43-44). A única coisa que se espera dos inimigos é o bem deles. Este é o amor-ágape. É o amor que salva e liberta. Com efeito, a atitude de fé é procurar descobrir o projeto de amor de Deus e corresponder a ele. Amar a Deus significa escutá-Lo, adorá-Lo, encontrar-nos com ele na oração e na vida e amar o que ele ama. Amar o próximo não apenas significa deixar de fazer o mal, e sim estar pronto para ajudá-lo, acolhê-lo e perdoá-lo. Amor é o único meio que em si tem capacidade de convencer o outro, até os ateus de que somos cristãos.


Amor é capacidade de sair de si mesmo, de transferir-se para outro ser, de participar de outro ser e de entregar-se por um outro ser. Aquele que ama está totalmente no outro, conservando sua identidade. O amor não pode realizar-se na esfera de um sujeito isolado. O verdadeiro amor é sempre como uma experiência de derrota que se transforma em vitória; uma experiência de entrega que se transforma em enriquecimento; uma experiência de sair de si que se transforma no mais profundo encontro consigo mesmo; uma experiência de morte que se transforma em vida. O ponto final do amor é a vitória sobre a morte. O ponto final do egoísmo é a morte, e a ausência do amor é a ausência de Deus.


Portanto, hoje Jesus nos oferece a chave fundamental para cumprir a vontade de Deus: o amor íntegro a Deus como único Senhor e o amor ativo e efetivo e desinteressado para próximo. São Paulo nos relembra através da Carta aos romanos: “Não fiqueis devendo nada a ninguém… a não ser o amor que deveis uns aos outros, pois quem ama o próximo cumpre plenamente a Lei. De fato, os mandamentos: ‘Não cometerás adultério’, ‘Não matarás’, ‘Não roubarás’, ‘Não cobiçarás’, e qualquer outro mandamento, se resumem neste: ‘Amarás o próximo como a ti mesmo’. O amor não faz nenhum mal contra o próximo. Portanto, o amor é o cumprimento perfeito da Lei” (Rm 13,8-10).


P.Vitus Gustama,svd

01/06/2016




CREMOS NO DEUS DA VIDA E NO DEUS DOS VIVOS VIVENDO NA FORTALEZA, NA SOBRIEDADE E NO AMOR


Quarta-Feira da IX Semana Comum


Memória de SÃO JUSTINO

Primeira Leitura: 2Tm 1,1-3.6-12


1 Paulo, Apóstolo de Jesus Cristo pelo desígnio de Deus referente à promessa de vida que temos em Cristo Jesus, 2a Timóteo, meu querido filho: Graça, misericórdia e paz da parte de Deus Pai e de Cristo Jesus, nosso Senhor! 3 Dou graças a Deus – a quem sirvo com a consciência pura, como aprendi dos meus antepassados –, quando me lembro de ti, dia e noite, nas minhas orações. 6 Por este motivo, exorto-te a reavivar a chama do dom de Deus que recebeste pela imposição das minhas mãos. 7 Pois Deus não nos deu um espírito de timidez mas de fortaleza, de amor e sobriedade. 8 Não te envergonhes do testemunho de Nosso Senhor nem de mim, seu prisioneiro, mas sofre comigo pelo Evangelho, fortificado pelo poder de Deus. 9 Deus nos salvou e nos chamou com uma vocação santa, não devido às nossas obras, mas em virtude do seu desígnio e da sua graça, que nos foi dada em Cristo Jesus desde toda a eternidade. 10 Esta graça foi revelada agora, pela manifestação de nosso Salvador, Jesus Cristo. Ele não só destruiu a morte, como também fez brilhar a vida e a imortalidade por meio do Evangelho, 11 do qual fui constituído anunciador, apóstolo e mestre. 12 Esta é a causa pela qual estou sofrendo, mas não me envergonho, porque sei em quem pus a minha fé. E tenho a certeza de que ele é capaz de guardar aquilo que me foi confiado até o grande dia.


Evangelho: Mc 12,18-27


Naquele tempo, 18vieram ter com Jesus alguns saduceus, os quais afirmam que não existe ressurreição e lhe propuseram este caso: 19“Mestre, Moisés deu-nos esta prescrição: Se morrer o irmão de alguém, e deixar a esposa sem filhos, o irmão desse homem deve casar-se com a viúva, a fim de garantir a descendência de seu irmão”. 20Ora, havia sete irmãos: o mais velho casou-se, e morreu sem deixar descendência. 21O segundo casou-se com a viúva, e morreu sem deixar descendência. E a mesma coisa aconteceu com o terceiro. 22E nenhum dos sete deixou descendência. Por último, morreu também a mulher. 23Na ressurreição, quando eles ressuscitarem, de quem será ela mulher? Porque os sete se casaram com ela!” 24Jesus respondeu: “Acaso, vós não estais enganados, por não conhecerdes as Escrituras, nem o poder de Deus? 25Com efeito, quando os mortos ressuscitarem, os homens e as mulheres não se casarão, pois serão como os anjos do céu. 26Quanto ao fato da ressurreição dos mortos, não lestes, no livro de Moisés, na passagem da sarça ardente, como Deus lhe falou: ‘Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó’? 27Ora, ele não é Deus de mortos, mas de vivos! Vós estais muito enganados”.
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Viver na Fortaleza, Na Sobriedade e No Amor


Exorto-te a reavivar a chama do dom de Deus que recebeste pela imposição das minhas mãos. Pois Deus não nos deu um espírito de timidez mas de fortaleza, de amor e sobriedade”, escreveu São Paulo na Segunda Carta ao Timóteo que lemos na Primeira Leitura (2Tm 1,7).


Timóteo, para quem São Paulo dirigiu duas Cartas, era filho de mãe judia e pai grego. Desde pequeno ele aprendeu a Sagrada Escritura através da mãe, Eunice, e da avó, Lóide (2Tm 1,5). Ele aprendeu o Evangelho de São Paulo. Uma vez evangelizado, Timóteo cumpre radicalmente a função de discípulo e missionário. Deixando seu pai e mãe, ele parte para a missão, com Paulo, nas terras da Macedônia e da Acaia superando dificuldades e perigos (At 17,13-14; 18,15). Na saudação dessa Segunda Carta, Timóteo é chamado “filho caríssimo” pelo Paulo. Como “filho caríssimo”, Timóteo é representante autorizado de Paulo (1Cor 4,17), e é a garantia de continuidade da missão evangelizadora herdada pelo Paulo.


Entre outras exortações, na Primeira Leitura de hoje, Paulo quer relembrar Timóteo sobre o espirito de fortaleza, de amor e de sobriedade dado por Deus: “Deus não nos deu um espírito de timidez, mas de fortaleza, de amor e sobriedade”.


“Fortaleza, Amor e Sobriedade”, contrapostas ao medo e à preguiça, são três qualidades ligadas ao dom do Espírito, que todo cristão deve ter e Timóteo é o protótipo.


 A fortaleza é o dom que sustentou os mártires nas dificuldades e provações em prol da fidelidade a Cristo. A fortaleza é o dom que nos impele a enfrentarmos corajosamente os obstáculos que se opõem à prática do bem. Quem tem esse dom, vive as palavras de São Paulo: “Tudo posso naquele que me fortalece” (Fl 4,13). A fortaleza apela ao testemunho corajoso que incluem o anúncio corajoso e a perseverança nas provações ou perseguições.


A sobriedade ou a temperança é a moderação pela qual permanecemos senhores de nossos prazeres, em vez de seus escravos. A sobriedade ou a temperança pertence à arte de desfrutar. A sobriedade ou a temperança é a prudência aplicada aos prazeres sem ultrapassar os limites. A sobriedade ou a temperança é um meio para a independência. Ao contrário, o intemperante é um escravo, um prisioneiro de seu corpo, de seus desejos ou de seus hábitos, prisioneiro de sua força ou de sua fraqueza. O sóbrio, o temperante sabe estabelecer limites para os desejos.


O amor não é uma virtude entre as outras virtudes. O amor é a virtude que ilumina, sustenta e dirige as demais virtudes. Sem o amor, todas as outras virtudes ficariam sem sentido: “Põe amor nas coisas e as coisas terão sentido. Retira-lhes o amor e se tornarão vazias” (Santo Agostinho, Serm. 138,2). Não há virtude autentica sem amor, pois somente o amor é capaz de levar alguém a estar em comunhão plena com Deus, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). Mas quando o NT fala de amor é sempre no sentido de ágape, isto é, o amor de benevolência que não espera nada em troca, pois é dom de si mesmo. O amor basta por si mesmo. Dizia Santo Agostinho: “Ama e faze o que queres” (Dilige et quod vis fac). A prática do bem, da bondade, da solidariedade, do perdão, da compaixão faz com que o amor se torne fortalecido e consolidado no coração de cada cristão.


Portanto, “Exorto-te a reavivar a chama do dom de Deus que recebeste pela imposição das minhas mãos. Pois Deus não nos deu um espírito de timidez mas de fortaleza, de amor e sobriedade


A esperança na ressurreição é a força capaz de ordenar as realidades humanas numa escala de valores


A discussão entre Jesus e autoridades passa agora do campo político-religioso para o campo puramente dogmático. Entram em cena os saduceus que Marcos cita somente na passagem do evangelho. O assunto é sobre a ressurreição.


Os saduceus são um grupo formado por pessoas ricas e por isso, são uma “classe separada”: fazendeiros e dominam os comércios da cidade. Eles pertencem às famílias sacerdotais dirigentes. Eles têm uma grande influência na política e na administração da justiça na Palestina. Eles são conservadores em termos da religião. Eles aceitam apenas a Tora (Pentateuco ou cinco primeiros Livros da Bíblia: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio). Eles não acreditam na vida depois da morte (ressurreição), pois não está escrita (explicitamente) no Pentateuco. Por isso, eles aplicam o ditado “Carpe diem” (aproveite o dia ou ser hedonista) ou salve-se quem puder. O divórcio entre eles é comum. Por não acreditar na vida após a morte, eles perguntam a Jesus a partir de um caso especial como conta o evangelho deste dia.


Jesus se baseia nas Escrituras (Mc 12,24) ainda que, depois, se limite a citar uma passagem do Pentateuco para se adaptar a seus interlocutores. A resposta de Jesus está contida nas duas frases praticamente idênticas: ”Vós estais enganados (Mc 12,24) e “Vós estais muito enganados” (Mc 12,27). Por dois motivos: Não conheceis as Escrituras nem o poder de Deus (Mc 12,24). A passagem que Jesus cita é Ex 3,1-12 onde se narra como Deus apareceu a Moisés na sarça. Nessa cena Deus se define como o Deus de Abraão, o Deus de Isaac, o Deus de Jacó, isto é, o Deus qua atua na história e que quer continuar sendo, com o homem, protagonista da história. O Deus de Abraão é o Deus dos vivos, o Deus fonte de vida. O homem que atua com Deus não pode ter como meta o fracasso da morte. A comunidade ou cada pessoa que tem a experiência com Jesus ressuscitado é um povo que vai além da história e é destinado para uma vida sem fim com Deus.


Além disso, Jesus olha para toda a revelação divina, inclusive a que teve lugar depois de Moisés na qual o conceito de ressurreição é evidente. Por exemplo, no Livro de Sabedoria onde se diz: “Deus criou o homem para a imortalidade” (cf. Sb 1,12-3,9; etc.). Para Jesus a vida dos ressuscitados é eterna, é imortal, como a dos anjos e por isso, não necessita perpetuar-se por geração.


Uma das coisas que sempre preocupam o homem é o seu destino final. O que passa depois da morte? Nós nos encontramos hoje diante da Palavra de Deus que toca um dos pontos mais difíceis de entender em nossa vida: a realidade da morte e a proposta cristã da Ressurreição. Ainda não entendemos as propostas cristãs da Ressurreição porque constantemente vivemos aferrados a uma falsa corporalidade pelo medo que nos inculcaram diante da realidade da morte. Cada dia os homens e as mulheres de nosso tempo vivem em um pânico constante diante da morte. Pânico que nos faz viver a vida de forma escrupulosa e de falsos moralismos.


Para o cristão, a resposta de Jesus ilumina este mistério e o faz viver em paz, pois agora sabe que não existe a morte e sim simplesmente uma transformação para quem vive no Senhor e com o Senhor e que se traduz na convivência fraterna com os demais.


A esperança na ressurreição é a força capaz de ordenar as realidades humanas numa escala de valores posta na vida eterna. Por isso, Jesus ensina que a vida eterna será dada na gratuidade e a universalidade na relação entre os homens, não haverá domínio de uns sobre outros, a existência será uma grande festa de vida eterna e plena. A ressurreição não pode ser entendida na perspectiva dos valores temporais. Isso é o que no texto significam os anjos.


Por outro lado, devemos entender no texto que Deus é um Deus dos vivos e não dos mortos. Devemos aprofundar sobre o mistério de um Deus que dá a vida, que transforma nosso ser, que nos ressuscita. Desta forma, o evangelista Marcos antecipa o conteúdo da ressurreição de Jesus como vida depois da morte e nos convida a descobrirmos o verdadeiro poder de Deus que transforma as forças da morte em forças de vida. O Deus que Jesus dá a conhecer é um Deus doador de vida e que deseja que as pessoas voltem a nascer de dentro com novos valores de vida e de justiça.


Diante da morte temos que ter uma atitude de acolhida e uma grande capacidade de tratá-la como fez São Francisco de Assis que chamava a morte de “a irmã Morte”, e diante da Ressurreição nós temos que entender o conteúdo de justiça que ela esconde.


A morte é um mistério, também para nós. Mas fica iluminada pela afirmação de Jesus: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto viverá” (Jo 11,25). Não sabemos como, mas estamos destinados a viver, a viver com Deus, participando da vida pascal de Cristo, nosso irmão. A ressurreição é a morte de nossa morte para vivermos eternamente com Deus. Santo Agostinho nos dá o seguinte conselho: “Confia em Deus; Ele sempre dá o que promete. Sabe o que promete, porque é a verdade. Pode prometer porque é onipotente. Dispõe de tudo porque é a própria vida. Oferece todas as garantias porque é eterno” (In ps. 35,13). “Deus, de quem separar-se é morrer, a quem retornar é ressuscitar, com quem habitar é viver. Deus de quem fugir é cair, a quem voltar é levantar-se, em quem apoiar-se é estar seguro. Deus, a quem esquecer é morrer, a quem buscar é viver, a quem ver é possuir” (Solil. 1,1,3). “A perda (de nossos entes queridos) que sofremos oprime-nos o coração, mas a esperança nos consola; nossa fraqueza natural nos acabrunha, mas a fé nos ergue outra vez; nossa condição mortal nos faz derramarmos copiosas lagrimas, mas as promessas de Deus as enxugam, acrescentou Santo Agostinho.

P. Vitus Gustama,svd
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SÃO JUSTINO
(+ cerca 165)
Há pessoas ignorantes e bárbaras quanto à linguagem, mas sapientes e fieis no espírito... e é evidente que isto não seja obra da sabedoria humana, mas do poder divino.
(São Justino)
No dia 01 de junho celebramos a memória obrigatória de São Justino, mártir. São Justino é o mais célebre e o maior de todos os filósofos cristãos do século II. Era um homem que tinha nobreza de caráter e o gosto pela exatidão histórica. Justino foi um leigo intelectual que buscava a verdade: “Atos e não palavras!”, dizia ele. Ele procurava a verdade para vivê-la. Tendo ingressado no cristianismo por volta do ano 130, afirmou ter encontrado no cristianismo a única filosofia segura que satisfazia todos os seus anseios. Em outras palavras, ele encontrou a verdade no cristianismo, a verdade que o libertou de outras filosofias. Cumpriu-se aquilo que Jesus tinha dito: “Se permanecerdes na minha palavra, sereis meus verdadeiros discípulos; conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8,32).
Para Justino, o cristianismo não é, antes de tudo, uma doutrina e sim uma pessoa: O Verbo de Deus encarnado e crucificado em Jesus Cristo. Por isso, Justino dizia: “A nossa doutrina (cristã) supera qualquer doutrina humana, porque nela temos o inteiro Verbo (de Deus)”. Por isso, “toda verdade, afirmada em qualquer povo, pertence a nós cristãos”, acrescentou Justino.
Um dia, retirando-se à solidão, Justino passeava pela areia à beira mar para meditar sobre a visão de Deus. Na sua meditação, ele disse que a alma humana não podia atingir a Deus com seus próprios recursos; somente o cristianismo era a filosofia verdadeira que apresentava conclusões para todas a verdades parciais.
Por ser um famoso filósofo com nobre caráter, ele era respeitado. Mas um filosofo invejoso e cínico chamado Crescêncio denunciou Justino covardemente diante do imperador Marco Aurélio. “A inveja é a tristeza pelo bem alheio”, dizia Santo Thomas de Aquino. Diante do imperador, para Justino foi lançada a seguinte pergunta: “A que ciência te dedicas tu?”. Justino respondeu: “Estudei sucessivamente todas as ciências. Acabei por apegar-me à doutrina verdadeira dos cristãos”. Por causa disso, ele foi flagelado e sofreu a pena capital.   Ele morreu em torno do ano 165 como mártir.
Justino foi uma mistura perfeita da intelectualidade com a espiritualidade. Meditava profundamente a doutrina cristã e se apegava a ela até a morte.  Ele nos ensina a vivermos e praticarmos nossa intelectualidade sempre dentro do Espírito de Deus. É a intelectualidade conduzida para a salvação. A intelectualidade dentro da espiritualidade nos faz viver na sabedoria. Todo sábio é inteligente, pois para ser sábio tem que ser inteligente, mas nem sempre todo inteligente é sábio. O sábio não solta qualquer palavra sem pensar. Como diz a sabedoria indiana: “Quando falares, cuida para que tuas palavras sejam melhores que o silêncio”. E "O sábio estima todos porque sabe ver o bom de cada um e sabe o que custa fazer bem as coisas. O tolo despreza todos porque não conhece o bom e escolhe o pior”, dizia um escritor (Baltasar Gracián).
P. Vitus Gustama,svd

domingo, 29 de maio de 2016

31/05/2016: VISITAÇÃO DE MARIA




VISITAÇÃO DE MARIA A ISABEL




Primeira Leitura: Sf 3,14-18


14 Canta de alegria, cidade de Sião; rejubila, povo de Israel! Alegra-te e exulta de todo o coração, cidade de Jerusalém! 15 O Senhor revogou a sentença contra ti, afastou teus inimigos; o rei de Israel é o Senhor, ele está no meio de ti, nunca mais temerás o mal. 16Naquele dia, se dirá a Jerusalém: “Não temas, Sião, não te deixes levar pelo desânimo! 17 O Senhor, teu Deus, está no meio de ti, o valente guerreiro que te salva; ele exultará de alegria por ti, movido pelo amor; exultará por ti, entre louvores, 18 como nos dias de festa. Afastarei de ti a desgraça, para que nunca mais te cause humilhação”.


Evangelho: Lc 1, 39-56


39Naqueles dias, Maria partiu para a região montanhosa, dirigindo-se, apressadamente, a uma cidade da Judeia. 40Entrou na casa de Zacarias e cumprimentou Isabel. 41Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança pulou no seu ventre e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. 42Com um grande grito exclamou: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto de teu ventre!” 43Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar? 44Logo que a tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança pulou de alegria no meu ventre. 45Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu”. 46Maria disse: “A minha alma engrandece o Senhor, 47e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, 48porque olhou para a humildade de sua serva. Doravante todas as gerações me chamarão bem-aventurada, 49porque o Todo-poderoso fez grandes coisas em meu favor. O seu nome é santo, 50e sua misericórdia se estende, de geração em geração, a todos os que o temem. 51Ele mostrou a força de seu braço: dispersou os soberbos de coração. 52Derrubou do trono os poderosos e elevou os humildes. 53Encheu de bens os famintos, e despediu os ricos de mãos vazias. 54Socorreu Israel, seu servo, lembrando-se de sua misericórdia, 55conforme prometera aos nossos pais, em favor de Abraão e de sua descendência, para sempre”. 56Maria ficou três meses com Isabel; depois voltou para casa.
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Maria serve com dignidade como uma irmã


Terminamos o mês de maio com a festa da Visitação de Nossa Senhora a Isabel. A festa da Visitação está cheia de encantos e de uma ternura inigualável. Duas mulheres, que se encontram , que se saúdam, estão cheias de Deus e por isso, cheias de alegria para fazer o ambiente mais humano e fraterno e por isso, mais divino.


O evangelista Lucas nos relatou que Maria “se dirigiu apressadamente”. A expressão “apressadamente” aqui tem muitos significados: zelo, diligência, empenho, cuidado, seriedade, dignidade. Santo Ambrósio comentou a expressão “dirigindo-se apressadamente” com as seguintes palavras: “A graça do Espírito Santo não admite demora” (“Nescit tarda molimina Spiritus Sancti gratia”). É preciso fazer ou cumprir aquilo que é importante e essencial, pois, caso contrário, acaba morrendo. Jamais podemos adiar o que é essencial para não nos lamentar mais tarde: uma visita para um doente ou um idoso, um perdão que precisa ser dado ou recebido, uma ajuda oferecida, um trabalho importante que decidimos fazer, e assim por diante. Os adiantamentos, os atrasos podem nos desgastar e nos consomem interiormente. Precisamos trabalhar permanentemente sobre nossa capacidade de intuir o que deve ser feito agora e aqui na graça de Deus.


Maria é uma mulher que se põe em caminho com dignidade, com cuidado, com prontidão. Não o faz para satisfazer uma necessidade pessoal: ela faz para servir sua parenta, Isabel, que está grávida e que necessita de uma ajuda. Ela faz tudo com dignidade como uma irmã. Maria é de Deus e por isso, ela é do povo e para o povo. Maria é mulher de nossa história, aberta a Deus e aos seres humanos. Viveu sempre em atitude de gratuidade e de doação. Será que fazemos tudo, a exemplo de Maria, com dignidade, com cuidado e com prontidão?


Encontro de duas pessoas benditas


Na Anunciação o Anjo do Senhor “entrou” na casa de Maria e a “saudou”. Nessa visita Maria fez a mesma coisa: ela “entrou” na casa de Zacarias e saudou a Isabel. É a saudação da Mãe do Senhor para a mãe do Precursor do Senhor. A saudação de Maria comunica o Espírito a Isabel e ao menino no seu ventre. A presença do Espírito Santo em Isabel se traduz em um grito poderoso e profético: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar? Logo que tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança pulou de alegria no meu ventre. Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu” (Lc 1,42-45). Aqui Isabel fala como profetisa: se sente pequena e indigna diante da visita daquela que leva em seu seio o Senhor do universo. Sobram as palavras e explicações quando alguém entra na sintonia com o Espírito. Maria leva no seu seio o Filho de Deus concebido pela obra do Espírito Santo. E a presença do Espírito Santo em Isabel faz com que Isabel glorifique a Deus. Por isso, o encontro entre Maria e sua prima Isabel é uma espécie de “pequeno Pentecostes”. Onde entra o Espírito Santo, ai entra também paz, alegria e vida divina.


A Mãe de Deus que leva Jesus em seu seio é a causa de alegria. Quando estivermos cheios de Jesus Cristo em nosso coração, a nossa presença traz alegria e a paz para a convivência. A ausência de Cristo em nosso coração produz problemas e discórdias na convivência. O encontro de duas pessoas benditas sempre causa alegria: Maria causa alegria em Isabel e Jesus em pequeno João Batista. Ao contrário, o encontro de duas pessoas não benditas sempre causa angústia e mal-estar na convivência. Cada cristão deve fazer os encontros felizes e alegres com os outros. E isso só pode acontecer se houver lugar para Cristo em nosso coração. Precisamos engravidar Jesus Cristo para fazê-lo nascer para os outros. Por isso, vale a pena cada um se perguntar: Que tipo de encontro que fazemos diariamente: de pessoas benditas ou de pessoas não benditas?


Na narração da visitação, Isabel, “cheio do Espírito Santo” acolhendo Maria em sua casa, exclama: ”Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu”. Esta bem-aventurança, a primeira que se encontra no evangelho de Lucas, apresenta Maria como a mulher que com sua fé precede à Igreja na realização do espírito das bem-aventuranças. Maria, crendo na possibilidade do cumprimento do anúncio, interpela ao Mensageiro divino somente a modalidade de sua realização para corresponder melhor à vontade de Deus a que quer aderir-se e entregar-se com total disponibilidade. “Buscou o modo; não duvidou da onipotência de Deus”, comentou Santo Agostinho (Serm. 291). Maria se adere plenamente ao projeto de Deus sem subordinar seu consentimento à concessão de um sinal visível. É uma entrega total ao projeto de Deus. É uma confiança sem reservas à vontade de Deus: “Faça-se em mim segundo Vossa palavra!”. Maria tem muito a dizer sobre a vivência de nossa fé na nossa vida cotidiana.


Anunciação-Visita a Isabel e Ação Pastoral


Na anunciação Maria faz perguntas para ter certeza sobre sua missão de ser Mãe do Salvador (cf. Lc 1,26-37). Quando tudo se torna certo, Maria diz seu Sim a Deus radicalmente. Maria deixa a Palavra de Deus entrar em sua vida e ela é fecundada pelo Salvador. Jesus, o Salvador, que está no seio de Maria já empurra Maria para a ação pastoral, isto é, ir ao encontro de Isabel que está precisando da presença de Maria. Maria poderia pensar em si mesma, na sua gravidez. Mas ela pensa no outro e vai ao encontro do outro.


Quem permitir e viver o mistério da Anunciação, será fecundado como Maria. Quem não é fecundado, não é feliz. Com a fecundação e a fecundidade na vivência do mistério da Anunciação, eu serei capaz de sair de mim mesmo para a ação pastoral como Maria visitou Isabel na sua necessidade. Se permitirmos a entrada da Palavra de Deus na nossa vida, ficaremos fecundados e seremos capazes de fazer Jesus nascer para o mundo.


É preciso fazer uma ligação entre a Anunciação e a Ação Pastoral. Sem a Anunciação, isto é, sem ser fecundado pela Palavra de Deus, a ação pastoral se torna estéril. A Anunciação sem a Ação Pastoral se torna um isolamento estéril e mortal.


P. Vitus Gustama,svd

sábado, 28 de maio de 2016

30/05/2016



DEUS ME AMA ATÉ AS ÚLTIMAS CONSEQUÊNCIAS


Segunda-Feira da IX Semana Comum


Primeira Leitura: 2Pd 1,2-7


Caríssimos, 2 graça e paz vos sejam concedidas abundantemente, porque conheceis Deus e Jesus, nosso Senhor. 3 O seu divino poder nos deu tudo o que contribui para a vida e para a piedade, mediante o conhecimento daquele que, pela sua própria glória e virtude, nos chamou. 4 Por meio de tudo isso nos foram dadas as preciosas promessas, as maiores que há, a fim de que vos tornásseis participantes da natureza divina, depois de libertos da corrupção, da concupiscência no mundo. 5 Por isso mesmo, dedicai todo o esforço em juntar à vossa fé a virtude, à virtude o conhecimento, 6ª o conhecimento o autodomínio, ao autodomínio a perseverança, à perseverança a piedade, 7 à piedade o amor fraterno e ao amor fraterno, a caridade.


Evangelho: Mc 12,1-12


Naquele tempo, 1Jesus começou a falar aos sumos sacerdotes, mestres da Lei e anciãos, usando parábolas: “Um homem plantou uma vinha, cercou-a, fez um lagar e construiu uma torre de guarda. Depois arrendou a vinha a alguns agricultores, e viajou para longe. 2Na época da colheita, ele mandou um empregado aos agricultores para receber a sua parte dos frutos da vinha. 3Mas os agricultores pegaram o empregado, bateram nele, e o mandaram de volta sem nada. 4Então o dono mandou de novo mais um empregado. Os agricultores bateram na cabeça dele e o insultaram. 5Então o dono mandou ainda mais outro, e eles o mataram. Trataram da mesma maneira muitos outros, batendo em uns e matando outros.6Restava-lhe ainda alguém: seu filho querido. Por último, ele mandou o filho até os agricultores, pensando: ‘Eles respeitarão meu filho’. 7Mas aqueles agricultores disseram uns aos outros: ‘Esse é o herdeiro. Vamos matá-lo, e a herança será nossa’. 8Então agarraram o filho, o mataram, e o jogaram fora da vinha. 9Que fará o dono da vinha? Ele virá, destruirá os agricultores, e entregará a vinha a outros.10Por acaso, não lestes na Escritura: ‘A pedra que os construtores deixaram de lado tornou-se a pedra mais importante; 11isso foi feito pelo Senhor e é admirável aos nossos olhos’?” 12Então os chefes dos judeus procuraram prender Jesus, pois compreenderam que havia contado a parábola para eles. Porém, ficaram com medo da multidão e, por isso, deixaram Jesus e foram-se embora.
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Somos O Que Somos Pela Graça de Deus


Graça e paz vos sejam concedidas abundantemente, porque conheceis Deus e Jesus, nosso Senhor”, assim São Pedro iniciou sua Segunda Carta.


Uma das saudações no início da celebração eucarística é esta: “A graça e a paz de Deus, nosso Pai, e de Jesus Cristo, nosso Senhor, estejam convosco”. A cada participante da celebração são desejadas a graça e a paz.


Graça e paz resumem os bens da salvação que são dadas ao cristão e que são lembradas nas nossas celebrações. O termo “graça” significa benefício absolutamente gratuito, livre e sem motivo (cf. Ex 33,19; 34,6; 33,12). Para cada cristão é desejada a graça, isto é, a benevolência de Deus. Na graça se encontra nossa identidade mais profunda, pois somos salvos pela benevolência de Deus. São Paulo escreveu: “Pela graça de Deus, sou o que sou” (1Cor 15,10). E esta benevolência nos torna novamente agradáveis a Deus: “O seu divino poder nos deu tudo o que contribui para a vida e para a piedade, mediante o conhecimento daquele que, pela sua própria glória e virtude, nos chamou (2Pd 1,3).  O Deus da Bíblia não só nos concede graça, mas Deus é graça (cf. Ex 33,19; 3,14). Deus existe para si e também existe para nós. Deus é graça.


São Pedro também deseja a paz. A palavra “paz” é uma tradução da palavra “Shalom” que é uma harmonia total com Deus, com o próximo, consigo próprio e com a natureza. É tudo de bom de nossa vida. A paz, “Shalom” é concedida para nós por Cristo em nova glória. Esta paz cria a ordem para nossa interioridade e a comunhão entre os homens. Onde há paz, há ordem. A ordem existe quando cada elemento ocupa seu lugar e desempenha seu próprio papel em prol do funcionamento da totalidade.


Esses dons, graça e paz, devem ser aumentados pelo conhecimento e a experiência  que fazemos com Jesus Cristo. O convívio permanente com Jesus Cristo no amor aumenta graça e paz na nossa vida: “Graça e paz vos sejam concedidas abundantemente (se multiplicam), porque conheceis Deus e Jesus, nosso Senhor”. Alcançamos graça e paz pelo conhecimento daquele que nos chamou: Jesus Cristo.


O convívio permanente com Jesus Cristo nos coloca longe da corrupção do mundo: “Por meio de tudo isso nos foram dadas as preciosas promessas, as maiores que há, a fim de que vos tornásseis participantes da natureza divina, depois de libertos da corrupção, da concupiscência no mundo” (2Pd 1,4). Participar da natureza divina é participar da própria vida de Deus. À participação da natureza divina se opõe a corrupção, como à vida eterna se opõe a morte eterna, isto é, exclusão da salvação. Cai  na corrupção quem cede à concupiscência: “Quem pretende ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus” (Tg 4,4). Quem procurar seguir sempre seus desejos, quem desejar bastar-se a si mesmo e ser independente de Deus, cairá na perdição e fica distante de Deus.


São Pedro, na Primeira Leitura de hoje, pede a todos o empenho para poder permanecer na graça e na paz: “Dedicai todo o esforço em juntar à vossa fé a virtude, à virtude o conhecimento, o conhecimento o autodomínio, ao autodomínio a perseverança, à perseverança a piedade, à piedade o amor fraterno e ao amor fraterno, a caridade” (2Pd 1,6-7).


A fé plena é entrega de si mesmo à Palavra e à vontade de Deus. A fé é a raiz da vida cristã. Da fé brota a virtude. Virtude é uma disposição adquirida de fazer o bem. A virtude em si é o próprio bem. Virtude é o esforço para se portar bem. Tem virtude aquele que cumpre a vontade de Deus.


É preciso acrescentar o conhecimento à virtude. Conhecer não é apenas aprender intelectualmente, mas aprofundar-se no amor. O agir correto, o esforço de fazer o bem aumenta nosso conhecimento. Sob a luz divina enxergamos de modo diferente as coisas e os acontecimentos ao nosso redor e o seu sentido.


O conhecimento se alcança através da perseverança, isto é, a capacidade de resistir em função da meta a ser alcançada. Quem aprende a dominar-se, também tem capacidade de lutar até o fim. Os bens elevados somente podem ser alcançados pelo esforço e pela luta sustentados com ânimo forte.


Mas somente conseguirá honrar verdadeiramente Deus aquele que tem piedade, aquele que se mantém filho de Deus, aquele que se conserva firme no combate contra o prazer desordenado e contra as potências que se opõem a Deus.


Mas não basta ter piedade. É preciso acrescentar a caridade fraterna na piedade. A verdadeira caridade se comprova na caridade operosa, como o amor recíproco na comunidade, a solicitude para com os outros, na bondade silenciosa. Se amarmos os outros no espirito de Cristo, chegaremos à plenitude do amor semelhante ao amor que Deus possui. A caridade é o “vínculo da perfeição” (Cl 3,14), pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16).


Deus Nos Ama Incondicionalmente


O profeta Jeremias, Ezequiel, Isaias (especialmente Is 5,1-7) e os Salmos chamam Israel “a vinha do Senhor”. A parábola que Jesus conta é introduzida perfeitamente nessa linha profética e serve para contestar às duas perguntas que as autoridades judeus fizeram a Jesus: “Com que autoridade fazes tudo isso? Quem te deu essa autoridade?”. Jesus contesta relatando com imagens toda a história de Seu povo e oferece também aos seus discípulos e, portanto, para todos os cristãos, a possibilidade de saber quem somos nós para Ele. Através desta parábola Jesus respondeu à primeira pergunta: “Com a autoridade do Servo de Deus, com a autoridade do Filho de Deus”. E para a segunda pergunta, Jesus respondeu através desta parábola: “Quem deu essa autoridade é o Dono da vinha, o Deus de Israel, que é meu Pai”.


O texto do evangelho deste dia nos diz: “Agora restava ainda alguém: o filho amado. Por último, então, enviou o filho aos agricultores, pensando: ‘A meu filho respeitarão’. Mas aqueles agricultores disseram uns aos outros: ‘Este é o herdeiro. Vamos matá-lo, e a herança será nossa’. Agarraram o filho, mataram e o lançaram fora da vinha” (Mc 12,6-8). 


Restava ainda alguém: o filho amado”. É uma expressão que nos desconcerta toda vez que a lemos e sobre a qual refletimos e meditamos. Parece que Deus fica à margem da pobreza. Resta apenas o próprio Filho. Mais nada! Por causa dos homens e por causa do Seu amor sem limites pelos homens Deus usa todos os recursos e todas as possibilidades. Os recursos se esgotaram. Agora resta apenas seu Filho. Deus é verdadeiramente o pobre por excelência, porque nos deu tudo. Até seu próprio Filho, o ultimo que restou. Significa que Deus nos toma a sério e deixa o campo livre para que atuemos com plena responsabilidade. Mas Deus é impotente diante da liberdade do homem. O homem é responsável pela sua própria escolha. No momento em que o homem não respeitar as regras e as placas da vida que apontam para sua plena realização e para a eternidade, ele perderá sua liberdade e cairá em uma série de prisões e escravidões.


Não há pai que entregue seu filho amado para os criminosos a fim de resgatar algo ou alguém. Deus é diferente, o Diferente por excelência. Ele entrega seu Filho amado como resgate a fim de o homem ficar livre do cativeiro da perdição e da maldição (cf. Mt 20,28; Mc 10,45; Gl 3,13; 1Tm 2,6). É muito difícil entender e compreender a atuação de Deus. Até o salmista faz esta pergunta retórica: “Quando olho para o teu céu, obra de tuas mãos, vejo a lua e as estrelas que criaste: Quem é o homem, para dele te lembrares, quem é o ser humano, para o visitares? Ó SENHOR, Senhor nosso, como é glorioso o teu nome em toda a terra!” (Sl 8, 4-5.10). Somente quando calarmos nossa mente, o nosso coração vai começar a compreender tudo que Deus faz por nós e vai haver uma adequada correspondência de nossa parte.


Jesus é verdadeiramente o último, o “eskatos”, da perspectiva de Deus.  Não é o último em relação ao tempo, não o último de uma série de intentos. O último quer dizer o definitivo, tudo. Depois do qual não fica mais nada. Agora Deus é verdadeiramente o pobre por excelência. Pobre porque deu tudo. Em sua incurável paixão pelos homens não ficou com nada, nem com o seu próprio Filho.


A conduta dos lavradores se julga durante a ausência do patrão. O patrão confia tudo nos lavradores e por isso, não precisa estar presente. O Deus da confiança é também o Deus da ausência. Mas há que compreender exatamente esta ausência. Não se trata nem de abandono, nem de evasão nem de deserção. É um sinal de amor. É um Deus que pretende atuar exclusivamente através do amor, pois este caminho é que leva o homem à sua plenitude, à eternidade. Cristo morreu perdoando o homem.


“’Este é o herdeiro. Vamos matá-lo, e a herança será nossa’. Agarraram o filho, mataram e o lançaram fora da vinha”. Deus não manda Seu Filho para a morte: Ele o ama incondicionalmente. Por outro lado, a morte é um mal e o Deus da vida não pode querê-la. Por isso, quem mata ou assassina comete pecado; vai contra a vontade de Deus. O castigo não cai sobre a vinha e sim sobre os guardiões. A vinha do Senhor seguirá, mas será um novo Israel, um novo Povo de Deus, o verdadeiro templo de Deus (cf. 1Cor 3,16-17) que tem como centro Jesus Cristo. Jesus morto e recusado pelos sumos sacerdotes, os escribas, e os anciãos, e ressuscitado pelo Pai, se converte em fundamento de um novo povo que é, ao mesmo tempo, continuação do antigo: a vinha passa a outros. Antigo e novo coexistem. As primeiras comunidades cristãs estavam compostas principalmente por judeus, isto é, pelo resto fiel de Israel que acolheu Jesus como Messias e Filho de Deus e por muitos que provinham do mundo pagãos e formavam com, como o resto de Israel, o novo e definitivo povo de Deus. O novo é realmente, com Jesus, a casa do Pai para todos os povos. É uma das mensagens do evangelho deste dia.


Cada um precisa entrar no silêncio sagrado para meditar sobre o amor de Deus por cada um e a resposta de cada um diante desse amor. Será que sou ingrato diante do amor de Deus? Será que sou irresponsável na minha atuação como pessoa amada de Deus? Será que eu vivo de acordo com o amor com que Deus me ama? Será que sou capaz de dar tudo por amor?


P. Vitus Gustama,svd

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Domingo,29/05/2016










UM “PAGÃO” QUE TEM FÉ NA EFICÁCIA DA PALAVRA DE DEUS E NA BONDADE PRATICADA EM PROL DO NECESSITADO


IX DOMINGO TEMPO COMUM “C”


I Leitura: 1Rs 8,41-43


Naqueles dias, Salomão rezou no Templo, dizendo: 41“Senhor, pode acontecer que até um estrangeiro que não pertence a teu povo, Israel, 42escute falar de teu grande nome, de tua mão poderosa e do poder de teu braço. Se, por esse motivo, ele vier de uma terra distante, para rezar neste templo, 43Senhor, escuta então do céu onde moras e atende a todos os pedidos desse estrangeiro, para que todos os povos da terra conheçam o teu nome e o respeitem, como faz o teu povo Israel, e para que saibam que o teu nome é invocado neste templo que eu construí”.


Segunda Leitura: Gl 1,1-2.6-10


1 Eu, Paulo, apóstolo — não por iniciativa humana, nem por intermédio de nenhum homem, mas por Jesus Cristo e por Deus Pai que o ressuscitou dos mortos — 2 e todos os irmãos que estão comigo, às Igrejas da Galácia. 6 Admiro-me de terdes abandonado tão depressa aquele que vos chamou, na graça de Cristo, e de terdes passado para um outro evangelho. 7 Não que haja outro evangelho, mas algumas pessoas vos estão perturbando e querendo mudar o Evangelho de Cristo. 8 Pois bem, mesmo que nós ou um anjo vindo do céu vos pregasse um evangelho diferente daquele que vos pregamos, seja excomungado. 9 Como já dissemos e agora repito: Se alguém vos pregar um evangelho diferente daquele que recebestes, seja excomungado. 10 Será que eu estou buscando a aprovação dos homens ou a aprovação de Deus? Ou estou procurando agradar aos homens? Se eu ainda estivesse preocupado em agradar aos homens, não seria servo de Cristo.


Evangelho: Lc 7,1-10


Naquele tempo, 1quando acabou de falar ao povo que o escutava, Jesus entrou em Cafarnaum. 2Havia lá um oficial romano que tinha um empregado a quem estimava muito, e que estava doente, à beira da morte. 3O oficial ouviu falar de Jesus e enviou alguns anciãos dos judeus, para pedirem que Jesus viesse salvar seu empregado. 4Chegando onde Jesus estava, pediram-lhe com insistência: “O oficial merece que lhe faças este favor, 5porque ele estima o nosso povo. Ele até nos construiu uma sinagoga”. 6Então Jesus pôs-se a caminho com eles. Porém, quando já estava perto da casa, o oficial mandou alguns amigos dizerem a Jesus: “Senhor, não te incomodes, pois não sou digno de que entres em minha casa. 7Nem mesmo me achei digno de ir pessoalmente ao teu encontro. Mas ordena com a tua palavra, e o meu empregado ficará curado. 8Eu também estou debaixo de autoridade, mas tenho soldados que obedecem às minhas ordens. Se ordeno a um: ‘Vai!’, ele vai; e a outro: ‘Vem!’, ele vem; e ao meu empregado: ‘Faze isto’!, ele o faz”. 9Ouvindo isso, Jesus ficou admirado. Virou-se para a multidão que o seguia, e disse: “Eu vos declaro que nem mesmo em Israel encontrei tamanha fé”. 10Os mensageiros voltaram para a casa do oficial e encontraram o empregado em perfeita saúde. (Lc 7,1-10)
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O texto do evangelho deste dia se encontra na seção de Lc 7,1-8,56 onde se falam dos sinais do Messias e a fé dos discípulos e discípulas de Jesus (nesta seção se encontram oito mulheres): Lc 7,1-50 fala dos sinais do Messias, dos Doze e das discípulos (Em Lc 8,1-3 o evangelista faz um sumário das atividades de Jesus); Lc 8,4-21 fala dos que escutam a Palavra de Deus (Parábola do semeador: Lc 8,4-18 e os que ouvem e praticam a Palavra de Deus formam uma família com Jesus: Lc 8,19-21); Lc 8,22-56 fala de quatro novos sinais de Jesus, o Messias.


A partir deste domingo no espaço de três domingos vamos ler uma série de relatos nos quais os personagens em torno de Jesus são especiais.


A série começa com a cura do servo de um centurião. O título “centurião” era a designação de um oficial de exército romano que tem cem homens (soldados) sob o seu comando. o dado significativo do relato é precisamente a extração não judeu do personagem. Trata-se de um pagão, isto é, de um homem não pertencente ao Povo eleito. Podemos encontrar o mesmo episódio em Mateus (Mt 8,5-10.13) com algumas variantes (leia também Jo 4,46-54).


O texto nos contou um centurião/oficial “pagão” que pediu a Jesus, através de alguns anciãos do povo de Deus, que curasse seu empregado enfermo. Cafarnaum é a cidade onde ocorre o milagre. Era uma cidade que possuía uma guarnição militar com uma tropa de soldados de Herodes Antipas. O centurião era um oficial do exército de Herodes Antipas que não pertencia ao Povo eleito e por isso, era pagão. Por ser considerado “pagão” o centurião não quer se aproximar de Jesus e por isso, ele envia uma delegação de anciãos dos judeus para que Jesus possa curar seu servo. Diante do pedido dos anciãos, Jesus vai com eles para a casa do centurião.


O desenrolo do relato tem no centurião o seu verdadeiro centro de atenção. Primeiro, é a menção da estima que este homem sente pelo escravo. Os escravos na época eram objeto de interesse e não de estima. Segundo, é o apreço que os próprios judeus sentem pelo centurião. Para eles, o centurião merece o favor de Jesus para curar seu escravo, pois ele estima muito o povo judeu e construiu a sinagoga. Em terceiro lugar, são as palavras do próprio centurião: Senhor, não te incomodes, pois não sou digno de que entres em minha casa. Nem mesmo me achei digno de ir pessoalmente ao teu encontro. Mas ordena com a tua palavra, e o meu empregado ficará curado”. Aqui se trata de um reconhecimento de indignidade do centurião diante de Jesus. O centurião se sente pequeno diante de Jesus. É o mesmo tipo de reconhecimento manifestado por Pedro no relato da pesca milagrosa: “Afasta-te de mim, Senhor, pois sou um pecador” (Lc 5,8). O centurião, consciente de sua pequenez, não quer que Jesus entre em sua casa: basta uma só palavra de Jesus. Como conhecedor da eficácia da palavra, o centurião crê também na palavra eficaz de Jesus. Para o centurião, a palavra que Jesus pronunciar, será uma ordem e o escravo dele será curado. O centurião tem consciência do poder da Palavra de Jesus e por isso, ele acredita na Palavra de Jesus apesar de ser pronunciada à distância.


Jesus ficou profundamente admirado pelo tamanho e pela profundidade da fé do centurião “pagão” a ponto de dizer: “Eu vos declaro que nem mesmo em Israel encontrei tamanha fé”. Pelo fato de o centurião ser tão digno, Jesus concede-lhe a cura do seu servo à distância.


Lucas é um evangelista amante dos pequenos, mas cheios de grandes gestos. Mas na escolha de personagem há, sem dúvida, uma carga de intencionalidade. A partir do personagem deste centurião, Lucas oferece ao cristão um modelo gráfico e pedagógico de identificação. Acreditar em Jesus e na eficácia de Sua Palavra é sempre desfazer a identificação que fazemos entre utopia e impossibilidade. Confiar em Jesus é ir expropriando de sentido para a palavra impossível. Confiar na eficácia da Palavra de Jesus significa crer nela apesar da lógica contrária implacável, às vezes, das situações. A Palavra de Deus é sempre quase desconcertante e imprevista, cheia de surpresas. É a Palavra sempre utópica.


1. Pagão Por Não Pertencer Oficialmente Ao Povo De Deus, Mas Membro Do Povo De Deus Por Sua Humanidade Diante Do Necessitado 


Pode ser considerado como pagão, porém o centurião era um daqueles “pagãos” que não encontraram mais a satisfação nos ritos politeístas, cuja fome religiosa não se saciava com a sabedoria dos filósofos e que, por conseguinte, simpatizava com o monoteísmo judaico e com a moral que dele derivava. Era temeroso de Deus, professava a fé no Deus único através do seu modo de viver e de tratar os demais respeitosamente, mas não havia passado definitivamente ao judaísmo. Ele buscava a salvação de Deus. Sua fé no Deus único, seu amor e seu temor de Deus ele manifestava no amor ao povo de Deus e na solicitude pela sinagoga que ele mesmo ajudou a construir. Seus sentimentos se expressavam em obras. E as obras proclamam e revelam quem as pratica. “Cada árvore é conhecida por seus frutos”, disse Jesus (cf. Mt 7, 15-20).


2. Um Centurião Com Ideias Amplas e Abertas


Apesar de ser considerado “pagão” pelo fato de não pertencer oficialmente ao povo de Deus, o centurião tinha ideias amplas e abertas: do próprio bolso ele tirou seu dinheiro para ajudar o Povo de Deus na construção de uma de suas sinagogas.


A verdadeira bondade não tem religião. O bem é universal e por isso, pode ser encontrado em qualquer lugar e em qualquer povo ou crença. Os homens do bem podem ser amados ou odiados, mas sempre despertam nossa admiração. O amor não faz diferença onde é aplicado e sempre traz ótimos rendimentos. A insegurança geralmente não tolera a diferença e o diferente. Se um único homem atinge o tipo mais elevado de amor, como o centurião/oficial, ele será suficiente para neutralizar o ódio de milhões. A única grandeza é amor altruísta, o amor que sempre quer o bem do outro e dos outros. Os próprios anciãos do povo de Deus chegaram a afirmar diante de Jesus sobre a bondade do centurião: “O centurião merece que lhe faças esse favor (curar seu empregado), porque ele ama nosso povo. Ele até nos construiu uma sinagoga” (Lc 7,4-5).


3. A Maior Fé Que Se Encontra Fora Do Povo De Deus


Além de suas amplas e abertas ideias, apesar de ser considerado “pagão” por não pertencer à religião oficial do povo, esse centurião se mostra como uma pessoa com muita fé a ponto de Jesus considerá-lo como pessoa que tem muito mais fé do que qualquer membro do próprio povo de Deus: “Eu vos declaro que nem mesmo em Israel encontrei tamanha fé”. Depois de tantas recusas entre os seus, é confortante Jesus encontrar uma fé assim.


Quando Lucas escreveu o evangelho, na comunidade eclesial já houve a admissão dos pagãos convertidos à fé cristã, por exemplo, na pessoa de outro centurião romano, Cornélio, que se converteu com toda sua família (cf. At 10,24-48), pois “Deus não faz distinção de pessoas, mas em toda nação lhe é agradável aquele que o temer e fizer o que é justo” (At 10,34-35).


A fé como uma condição prévia, como uma atitude que se requer para entrar no Reino de Deus que Jesus prega ou anuncia. A fé está em todas as páginas do Evangelho. A fé está mais próxima do coração e do sentimento do que do entendimento e da inteligência; está mais próxima do que chamamos de confiança do que da certeza, ainda que tenhamos que reconhecer que em toda confiança há sempre algo de certeza: “A fé é a certeza daquilo que não se vê”, disse a Carta ao hebreus (Hb 11,1).


Reconhecemos pela experiência de que há muitas pessoas que possuem a fé do centurião. Há muitos que um dia consagraram sua vida a Jesus, mas que vivem sem muitas consolações. Seus corações, porém, permanecem vigilantes e atentos para cada Palavra do Senhor é o milagre da fidelidade. É o milagre da fé que se tornou amor puro para o Senhor e para os irmãos que necessitam de ajuda. Seus corações são humildes que se tornam a morada de Deus.


Se nosso mundo não crê é porque vive de uma forma que lhe impede de abrir-se e confiar no irmão e dessa atitude tampouco se pode abrir para Deus. São os interesses, o egoísmo, a busca do poder e do prazer. A verdadeira fé leva o fiel a acolher as pessoas acima de sua etnia, ideologia, crença etc.,. Sempre é perigoso crer-se eleito de Deus, mas afasta as pessoas do convívio em nome de sua crença, religião, ideologia etc.,.


O centro da fé cristã é a pessoa de Jesus. Esta fé na pessoa de Jesus e através dele no Pai é a nota mais característica da fé cristã. O centurião manifesta um profundo respeito por Jesus. O centurião não se considera digno de que Jesus visite sua casa e usando uma comparação militar demonstra uma grande confiança no poder de Jesus. As palavras deste centurião repetimos frequentemente e no momento mais sagrado da liturgia: “Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma palavra, serei salvo”. Com uma fé assim são possíveis milagres e até os impossíveis.


Será que Jesus já pode encontrar tamanha fé, igual à fé do centurião, na nossa comunidade, em geral, e em cada um de nós, em particular? Para receber o elogio do Senhor é preciso que cada um de nós tenha a fé do tamanho da fé do centurião. Ou será que “todos nós somos mais ateus do que acreditamos e mais crentes do que pensamos?” (René Juan Trossero).


4. Um Homem Que Respeita o Costume Do Povo e Acredita No Poder da eficácia da Palavra de Jesus


O centurião não deixa Jesus entrar em sua casa, pois um judeu era proibido de entrar na casa de um pagão para não torná-lo impuro o que impediria ele de participar do culto no Templo ou na sinagoga.


Para respeitar a proibição feita aos judeus de entrar na casa de um pagão, Jesus é levado a fazer um milagre a distância, realizado somente pela Palavra. No curso de sua vida de taumaturgo somente realizará dois milagres deste tipo (Lc 7,1-10 e Mt 15,22-28). Normalmente Jesus cura através de um contato físico e silencioso, como se seu corpo possuísse certa força vital especial que Ele nem sempre podia controlar (cf. Mc 5,30; 6,65).


Na cura do empregado do centurião Jesus se contenta com a palavra e elogia a fé do centurião.


O centurião vem dizer a todos nós que lemos a Palavra de Deus e supostamente acreditamos nela: “Vocês precisam acreditar na Palavra de Deus, pois ela é eficaz e poderosa”. É preciso recordar também que ao receber o Pão eucarístico (na comunhão) pronunciamos as mesmas palavras do centurião: “Senhor, eu não sou digno (a) de que entreis em minha morada, mas dizei uma só palavra serei salvo (a)”.


A liturgia cristã é baseada unicamente em “uma só Palavra”: a palavra que ressoou no coração de Jesus em sua Páscoa, a Palavra que nos acompanha durante nossa vida cristã, a Palavra que nos transforma. No entanto, o mundo de hoje nos pergunta se existe uma palavra do Senhor para ele a partir de nós. Será que, depois do fracasso das palavras humanas, o mundo pode recorrer à Igreja que prega Palavra de Deus? será que aquele que se diz cristão acredita no poder da Palavra de Deus a exemplo do centurião “pagão”?


P.Vitus Gustama,svd