sábado, 31 de dezembro de 2016

04/01/2017
 

 


ESTAR COM JESUS E BUSCAR O ESSENCIAL COM JESUS

O4 de Janeiro

Primeira Leitura: 1Jo 3,7-10

7 Filhinhos, que ninguém vos desencaminhe. O que pratica a justiça é justo, assim como ele é justo. 8 Aquele que comete o pecado é do diabo, porque o diabo é pecador desde o princípio. Para isto é que o Filho de Deus se manifestou: para destruir as obras do diabo. 9 Todo aquele que nasceu de Deus não comete pecado, porque a semente de Deus fica nele; ele não pode pecar, pois nasceu de Deus. 10 Nisto se revela quem é filho de Deus e quem é filho do diabo: todo o que não pratica a justiça não é de Deus, nem aquele que não ama seu irmão.

Evangelho: Jo 1,35-42

Naquele tempo, 35João estava de novo com dois de seus discípulos 36e, vendo Jesus passar, disse: “Eis o Cordeiro de Deus!” 37Ouvindo essas palavras, os dois discípulos seguiram Jesus. 38Voltando-se para eles e vendo que o estavam seguindo, Jesus perguntou: “Que estais procurando?” Eles disseram: “Rabi (que quer dizer: Mestre), onde moras?” 39Jesus respondeu: “Vinde ver”. Foram pois ver onde ele morava e, nesse dia, permaneceram com ele. Era por volta das quatro da tarde. 40André, irmão de Simão Pedro, era um dos dois que ouviram as palavras de João e seguiram Jesus. 41Ele foi logo encontrar seu irmão Simão e lhe disse: “Encontramos o Messias (que quer dizer: Cristo)”. 42Então André conduziu Simão a Jesus. Jesus olhou bem para ele e disse: “Tu és Simão, filho de João; tu serás chamado Cefas” (que quer dizer: Pedra).
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1. Amor: Ensinamento Central de Jesus

A primeira leitura tirada da Primeira Carta de João repete o que João escreveu previamente, intentando dizer novamente que o central nos ensinamentos de Jesus é amor. É um amor revelado em ações e não simplesmente em palavras ou profissões de fé. Nossas ações e obras revelam se realmente somos filhos de Deus e santos ou se somos gerados pelo diabo (aquele que desune) e pelos pecadores. Não temos que nos deixar enganar pelas palavras ou por qualquer coisa que não atue de acordo com o amor de Deus: “Todo aquele que nasceu de Deus não comete pecado, porque a semente de Deus fica nele; ele não pode pecar, pois nasceu de Deus. Nisto se revela quem é filho de Deus e quem é filho do diabo: todo o que não pratica a justiça não é de Deus, nem aquele que não ama seu irmão”.

Aquele que comete o pecado é do diabo, porque o diabo é pecador desde o princípio”. ”Todo aquele que nasceu de Deus não comete pecado, porque a semente de Deus fica nele; ele não pode pecar”.

O pecado é a marca do maligno, já desde o princípio. Em quanto que aquele que nasce de Deus não comete pecado. É totalmente compatível o pecado com a fé e a comunhão com Jesus. Pecar, dentro do texto de hoje, consiste em não praticar a justiça nem o amor. Mas não quer dizer que nunca mais pecaremos e sim que nossa atitude não pode ser de conformidade com o pecado. Não nos acostumemos em viver no pecado. Quando em nossas opções prevalecer o pecado, não estaremos sendo filhos de Deus.

Pecar, dentro do texto de hoje, consiste em não praticar a justiça nem o amor: Quem é filho do diabo: todo o que não pratica a justiça não é de Deus, nem aquele que não ama seu irmão”.

Segundo São João há dois critérios que nos fazem pertencer a Deus ou ao diabo: a Justiça e o amor. Eu tenho que me avaliar a partir da justiça e do amor. Onde há justiça e amor, ai está Deus. Quem pratica a justiça e o amor, ele pertence a Deus mesmo que se diga ateu. Quem não pratica a justiça e o amor pertence ao diabo mesmo que se diga cristão ou religioso.

Para João, do mesmo modo que se pode viver em comunhão com Deus, pode-se também viver com o diabo. Podemos estar unidos a Deus como também podemos estar presos nos braços do mal. A fronteira que separa os filhos de Deus dos filhos do diabo passa por nosso próprio coração.

Para João a linha divisória entre os que são de Deus e não o são é o amor fraterno, pois o amor vem ou nasce de Deus. O amor fraterno nos revela nossa pertence a Deus, mesmo que a pessoa não tenha consciência disso.

A partir de tudo isso nós ficamos nos perguntando: Será que realmente amamos nossos irmão e irmãs para mostrar que Deus em quem acreditamos é amor (cf. 1Jo 4,8.16)? Que tipo de Deus que revelamos para os outros através de nossas ações?                     

2. João Batista: Apresentar o Cordeiro Que Tira o Pecado e Aceitar Desaparecer da cena

O texto do Evangelho deste dia é a continuação do texto do evangelho do dia anterior.

No evangelho deste dia João Batista é apresentado como uma figura estática. Está no mesmo lugar do dia anterior: “... estava lá de novo”. Isto significa que ele permanece no seu posto enquanto dura sua missão, o que indica a fidelidade, compromisso e responsabilidade até o fim. Só se retira quando começa a missão de Jesus no momento em que ele dirá: “É necessário que Ele cresça e eu diminua” (Jo 3,30).

A palavra “compromisso” é cada vez mais cara hoje em dia. O prazer, o hedonismo, o materialismo, o interesse individual e a liberdade sem freio fazem com que muitas pessoas vivem apenas na superficialidade. Elas se esquecem que a liberdade humana é sempre um cultivo e um crescimento interior. A liberdade implica o desenvolvimento pleno do fazer e do ser. A liberdade nos leva para a vigilância permanente. A verdadeira liberdade sempre supõe a existência de regras e disciplina. Por isso, a verdadeira liberdade nos leva ao crescimento. A libertinagem nos destrói.

A verdadeira liberdade também supõe a existência da responsabilidade. Responsabilizar-se é elevar a própria existência para uma dimensão superior. Ter responsabilidade significa ser coerente com os próprios atos, com os valores reconhecidos universalmente e, por extensão, ser solidários com outras pessoas, tendo em vista os mesmos valores.

Se João Batista se mostra como uma figura estática, Jesus é, pelo contrário, apresentado em movimento. O próprio Caminho caminha (cf. Jo 14,6). Não se sabe de onde vem nem é dito para onde vai. Mas João Batista, que sabe da origem de Jesus, volta a olhá-lo e repete seu testemunho: “Eis o Cordeiro de Deus”.

João Batista “fixa o olhar em Jesus” e diz: “Eis o Cordeiro de Deus”. Saber olhar faz parte da fé. O olhar do coração ou o olhar da fé ultrapassa a realidade sensível em que penetra. O olhar superficial, ao contrário, jamais enxerga alguém, pois ele somente quer se olhar e quer ser olhado. Quem se olha somente para si, jamais percebe a presença do outro nem a de Deus. O olhar superficial reflete, na verdade, a nossa pobreza espiritual. João Batista que vê Jesus que vem não guarda para si como propriedade privada o que viu. Ele quer que os outros vejam o que ele vê. Ele indica aos outros o Messias e aceita desaparecer, pois João Batista é apenas uma “voz” que prepara o caminho do Messias (Jo 1,23). “Essa é a minha alegria e ela é completa. É necessário que Ele cresça e eu diminua” (Jo 3,29-30), afirma João Batista com toda a humildade e com a plena consciência.

Toda vez que participamos da Eucaristia ouvimos ou contemplamos a frase de João Batista: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. Quem comunga o Cordeiro de Deus deve estar consciente da missão de se identificar com o Cordeiro que se doa por amor para salvar os irmãos. Quando a missa era celebrada em latim ouvia-se esta frase, certamente, no fim da mesma: “Ite, missa est!”, “Ide, sois enviados!”. Enfatiza-se, assim, o compromisso de cada participante como enviado de Deus ao sair da igreja ou templo depois que comungou o Cordeiro de Deus. Em cada Eucaristia da qual participamos ouvindo a Palavra do Senhor, nós sempre recebemos alguma missão a ser cumprida. A pergunta é a seguinte: “O que é que a Palavra de Deus, proclamada em cada Eucaristia da qual eu participo, quer que eu cumpra?”. Cada Palavra de Deus proclamada sempre tem uma palavra para mim para que eu leve adiante.

3. Buscar o Essencial Com Jesus

O testemunho de João Batista provoca uma inversão no rumo da vida dos seus dois discípulos. Eles começam a seguir Jesus. “Seguir” Jesus é uma maneira bíblica de dizer “tornar-se discípulo”; e Jesus será chamado de Rabi, Mestre.

Ao perceber que os dois estão O seguindo, Jesus os interroga: “O que estais buscando?”. “O que esperais de mim?”. São as primeiras palavras de Jesus no quarto Evangelho. É uma pergunta ao mesmo tempo existencial e essencial. Esta pergunta é dirigida a pessoas que estão em busca, que andam inquietas, que se interrogam sobre o essencial nesta vida tanto para os religiosos como para os leigos, tanto para os jovens como para os adultos. Afinal, o que você está procurando nesta vida? Que sentido tem sua vida? Para onde a vida vai levá-lo? O homem, enquanto estiver vivo, permanecerá um perguntador. Ninguém pode dar sentido à própria vida a não ser interrogando-se sobre o seu estar no mundo e ser interrogado pelos outros sobre o modo de viver, pois o homem não somente vive, mas convive. Nossa vida está cercada por outras vidas. Viver significa completar-se, desenvolver-se e crescer por meio de “algo outro”. Mas paradoxalmente na hora de buscar respostas para suas perguntas, o homem acaba encontrando novas perguntas. Nascer é vir ao mundo, ver o mundo; é manifestar-se e abrir-se. Cada porta aberta somos acompanhados por uma serie de perguntas e o desejo de ter respostas, embora, no fim, acabemos encontrando novas perguntas.

Diante da pergunta de Jesus “O que estais procurando”, em vez de responder, os dois discípulos lançaram uma pergunta: “Mestre, onde moras?”. Onde vives, Rabi? Qual é o segredo de Tua vida? De onde vens? O que é para Ti viver, Mestre?

“Vinde e o vereis” é a resposta de Jesus para a pergunta dos dois discípulos de João. Fazei vós mesmos a experiência da minha vida. Não busqueis outra informação. Vinde conviver comigo para saber quem sou e o que estou fazendo e querendo alcançar e vós descobrireis que comigo vossas vidas serão transformadas. O importante não é buscar algo e sim buscar Alguém que dá sentido para nossa vida e para nossas lutas de cada dia apesar de tudo.

 O que estais buscando verdadeiramente?”. “O que estais fazendo neste mundo?” “O que estais buscando no prazer, no materialismo, no hedonismo, e para onde eles vão vos levar?”. No fundo, todos nós estamos sempre em busca de algo mais e por isso sempre insatisfeitos. Consciente ou conscientemente somos todos garimpeiros à procura do diamante da felicidade, andarilhos à procura da pérola preciosa, pela qual estamos dispostos a “vender”, com alegria, tudo o que possuímos (cf. Mt 13,44.46). Jesus conhece nossos desejos mais profundos e sabe muito melhor das nossas necessidades fundamentais mais do que nós mesmos sabemos. Quando nos interpela com a pergunta essencial, “o que estais procurando?”, é para obrigar-nos a expressá-lo. Jesus quer que seus seguidores explicitem, diante dele, os motivos da sua busca e do seu seguimento. Esta explicitação é necessária porque as motivações nossas podem ser equivocadas, precipitadas, imaturas ou ilusórias.

A busca pela vida mais significativa e satisfatória é um dos temas mais antigos do homem e de qualquer religião. Ela continua válida para qualquer tempo e tempo e para qualquer pessoa que vive profundamente seu ser. No fundo percebemos que nossa vida não está sedenta de fama, de conforto, de propriedades ou de poder. Estes supostos valores criarão muitos problemas assim que os alcançarmos. Nossa vida tem fome do significado da vida: o que é vida ou a vida? Por que e para que estamos vivos. Que sentido tem minha vida? O que é essencialmente estou procurando nesta vida? Para onde a vida vai me levar, enfim? O que nos frustra e rouba a alegria de viver é a ausência do significado de nossa vida ou de nossa presença neste mundo. Percebemos, pela experiência, que não passamos a ser felizes perseguindo ou caçando a felicidade. Nós nos tornamos felizes vivendo e partilhando uma vida que signifique alguma coisa. As pessoas mais felizes geralmente são pessoas que se esforçam para ser generosas, prestativas, prontas para ajudar os outros na sua necessidade. A melhor maneira de ser feliz e de conservar a felicidade é partilhá-la. Quem ama, partilha. Creio que os homens que vivem para os outros, chegarão um dia a reconstruir o que os egoístas destruíram (Martin Luther King).

Se neste momento Jesus lhe perguntar: “O que estais procurando nesta vida e por quê?”. “O que estais fazendo neste mundo?” “O que estais buscando no prazer, no materialismo, no hedonismo, e para onde eles vão vos levar?”. Qual será sua resposta?
 
P. Vitus Gustama,svd
03/01/2017
 


SER TESTEMUNHA DE JESUS, CORDEIRO QUE TIRA O PECADO DO MUNDO

03 de Janeiro

Primeira Leitura: 1Jo 2,29–3,6

Caríssimos: 29 que sabeis que ele é justo, sabei também que todo aquele que pratica a justiça nasceu dele. 3,1Vede que grande presente de amor o Pai nos deu: de sermos chamados filhos de Deus! E nós o somos! Se o mundo não nos conhece, é porque não conheceu o Pai. 2Caríssimos, desde já somos filhos de Deus, mas nem sequer se manifestou o que seremos! Sabemos que, quando Jesus se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é. 3Todo o que espera nele, purifica-se a si mesmo, como também ele é puro. 4Todo o que comete pecado, comete também a iniquidade, porque o pecado é a iniquidade. 5Vós sabeis que ele se manifestou para tirar os pecados e que nele não há pecado. 6Todo aquele que peca mostra que não o viu, nem o conheceu.

Evangelho: Jo 1,29-34

29No dia seguinte, João viu Jesus aproximar-se dele e disse: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. 30Dele é que eu disse: Depois de mim vem um homem que passou à minha frente, porque existia antes de mim. 31Também eu não o conhecia, mas se eu vim batizar com água, foi para que ele fosse manifestado a Israel”. 32E João deu testemunho, dizendo: “Eu vi o Espírito descer, como uma pomba do céu, e permanecer sobre ele. 33Também eu não o conhecia, mas aquele que me enviou a batizar com água me disse: ‘Aquele sobre quem vires o Espírito descer e permanecer, este é quem batiza com o Espírito Santo’. 34Eu vi e dou testemunho: Este é o Filho de Deus!”
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O texto do Evangelho deste dia fala do testemunho de João Batista sobre a pessoa de Jesus, O Verbo feito carne (Jo 1,19-36). Um dos temas preferidos do evangelista João é, certamente, testemunho. O evangelista usa o verbo “testemunhar” (martyrein) em 33 ocasiões e o substantivo “testemunho” (martyria) 15 vezes. O testemunho de João Batista ilustra concretamente o que foi dito em Jo 1,6-8.15 de sua missão que era dar testemunho de Jesus para que todos pudessem crer nele. Dar testemunho é muito importante neste evangelho. O testemunho, neste evangelho, tem sempre por objeto a pessoa de Jesus, seu significado profundo para a vida dos homens. Em outras palavras, o testemunho aqui é sempre cristológico. É isto que João Batista faz a respeito de Jesus.

Testemunha é a pessoa que teve a experiência direta de algum fato e que narra o que viu ou ouviu, ou alguém que observou um acontecimento e pode informar a respeito dele para provar, para acusar, ou para inocentar (Lv 5,1; Nm 5,13;Dt 17,6s etc..). O testemunho, neste evangelho, supõe o ver, mas não o simples ver físico, mas o ver que sabe perceber a presença de Deus em Jesus.  Para que uma pessoa possa perceber a presença de Deus em Jesus, na vida ou nos acontecimentos, ela deve limpar o coração do ódio, pois Deus é Amor (1Jo 4,8.16). “Quanto mais amas, mais alto tu sobes” (Santo Agostinho).

Antes de proferir o seu testemunho, João vê Jesus vir na sua direção. João Batista, no Quarto Evangelho, percebe a presença de Deus em Jesus Cristo como Aquele que tira o pecado do mundo. Quando Jesus aparece pela primeira vez no Quarto Evangelho, ele é mostrado no ato de “vir”. Com isso, se realiza o anúncio de Isaías: “O Senhor vem” (Is 40,10). Para nos salvar Jesus vem ao nosso encontro. Ele sai do seu “lugar” para nos encontrar em nosso lugar e para estar conosco (cf. Jo 1,14; Mt 28,20).

Se Jesus vem ao nosso encontro temos que ir ao encontro dele para acolhê-Lo, pois Ele quer nos fazer filhos e filhas de Deus, como disse a Primeira Leitura. Segundo a Primeira Leitura, não basta termos nascido humanamente, pois esse nascimento é apenas um princípio de uma aventura. Por isso, é preciso ser nascido de Deus para sermos chamados de filhos e filhas de Deus: “Vede que grande presente de amor o Pai nos deu: de sermos chamados filhos de Deus! E nós o somos!” (1Jo 3,1). A filiação divina não é um apelido ou um título. Trata-se de nossa radical pertença a Deus, alcançada no Batismo.

Precisamos saborear em silêncio estas palavras: “Sou um filho de Deus e Deus é meu Pai”. Como é bom ter consciência de que Deus é meu Pai e eu sou filho de Deus. Pai é aquele que cuida, faz presente, protege, faz crescer e nos deixa livres. Imagine ter Deus como Pai!

Jesus continua vindo em nossa direção, como aconteceu com João Batista. Somos convidados a olhar para ele com fé e com alegria. É o olhar da fé que descobre a realidade sob as aparências, e confere seu verdadeiro sentido a todo o mundo visível no qual Jesus aparece. João Batista passou pela escola do deserto, onde se exercitou na humilde docilidade interior. A sua figura é, no início do Evangelho, o símbolo de todos os crentes que se põem em seguimento do Verbo encarnado. Ele realiza as condições da busca e da descoberta. Não se deixa enganar por nenhum poder, nem sequer o dos fariseus; procura a Deus só e, livre de todo o preconceito, reconhece-o tal como vem aos homens, na humildade da encarnação.

Diante de Jesus que está vindo em sua direção, João reage em profundidade: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”.  Palavras que se repetem seis vezes na celebração eucarística (2 na Glória, 3 depois da saudação da paz e a sexta vez, imediatamente antes da comunhão). Somente João está disposto a reconhecer Aquele que Deus envia, não obstante afirmar que não o conhecia (v.31.33). Não conhece de vista ou por contato, mas já conhece interiormente, pela ação do Espírito Santo que o envia e que ele não pára de interrogar.

Jesus é o Cordeiro de Deus porque foi enviado pelo Pai para iniciar o êxodo de nossa libertação. Como em outros tempos os israelitas foram libertados da morte e da escravidão por meio do sangue de um cordeiro, razão pela qual celebraram a Páscoa de geração em geração, assim também nós somos libertados em Cristo e pelo sangue de Cristo derramado na Cruz para nos libertar do pecado e da morte eterna. Não é por acaso que segundo a cronologia de João, Jesus Cristo padecerá e morrerá na Cruz precisamente quando os sacerdotes sacrificavam no Templo de Jerusalém os cordeiros pascais.

João Batista vê Jesus que vem. Mas não guarda para si como seu segredo, como propriedade privada, o que viu. Ele quer que todos vejam o que ele vê: “Eis...”, João diz, o que implica um convite a olhar. João Batista não chama a atenção para um messias ausente e vindouro, mas para um messias que está no meio de nós e que não o conhecemos. A primeira condição de toda busca da fé é, certamente, o senso de observação das pessoas, das coisas e da vida em geral.

Eis o Cordeiro que tira o pecado do mundo”! Infelizmente, o pecado é uma realidade onipresente entre nós e dentro de cada um, ontem, hoje e sempre. Em qualquer lugar encontramos a exploração que gera a fome, a pobreza, a violência, marginalização. As pessoas são dominadas pela soberba, avareza, luxúria, inveja, ódio, rivalidade, vingança, rancor, falta de perdão e assim por diante. Apesar de tudo isso, ser cristão hoje é ser testemunha entre os homens que Jesus venceu o pecado em nossa vida, porque ele nos fez filhos de Deus e nós adotamos seus sentimentos e atitudes evangélicas na vida cotidiana, e queremos viver os valores evangélicos do amor, da fraternidade humana, da justiça e da solidariedade com os mais necessitados. Basta alguém aceitar Jesus o poder do mal não tem vez nenhuma, pois Jesus vem para tirar o pecado do mundo.     

Apesar de sabermos que o pecado é a “mercadoria” global cuja produção nunca entra em crise e cuja demanda desconhece limites e que não temos balança em condição de calcular seu peso, nós acreditamos que pecado nenhum consegue esgotar a paciência de Deus em Jesus Cristo, nenhum pecado consegue cansar a misericórdia de Deus e bloquear seu perdão e pôr limites a seu amor infinito. Por isso, Jesus é nossa vitória, nossa libertação e nossa paz. Por ele e com ele somos capazes, e é nosso dever de vencer o pecado cada dia, dentro de nós mesmos, dentro de casa, em nossa vida e no ambiente que nos cerca através da construção do Reino de Deus e Sua justiça na nossa vida.

P. Vitus Gustama,svd
02/01/2017
 
 
 
 
 
 



PERMANECER EM CRISTO PARA SER SUA VOZ E SEU REFLEXO NA VIDA DIÁRIA

02 de Janeiro

Primeira Leitura: 1Jo 2,22-28

Caríssimos: 22Quem é mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? O Anticristo é aquele que nega o Pai e o Filho. 23Todo aquele que nega o Filho também não possui o Pai. Quem confessa o Filho possui também o Pai. 24Permaneça dentro de vós aquilo que ouvistes desde o princípio. Se o que ouvistes desde o princípio permanecer em vós, permanecereis com o Filho e com o Pai. 25E esta é a promessa que ele nos fez: a vida eterna. 26Escrevo isto a respeito dos que procuram desencaminhar-vos. 27Quanto a vós mesmos, a unção que recebestes da parte de Jesus permanece convosco, e não tendes necessidade de que alguém vos ensine. A sua unção vos ensina tudo, e ela é verdadeira e não mentirosa. Por isso, conforme a unção de Jesus vos ensinou, permanecei nele. 28Então, agora, filhinhos, permanecei nele. Assim poderemos ter plena confiança, quando ele se manifestar, e não seremos vergonhosamente afastados dele, quando da sua vinda (1Jo 2,22-28)

Evangelho: Jo 1,19-28

19Este foi o testemunho de João, quando os judeus enviaram de Jerusalém sacerdotes e levitas para perguntar: “Quem és tu?” 20João confessou e não negou. Confessou: “Eu não sou o Messias”. 21Eles perguntaram: “Quem és, então? És Elias?” João respondeu: “Não sou”. Eles perguntaram: “És o Profeta?” Ele respondeu: “Não”. 22Perguntaram então: “Quem és, afinal? Temos de levar uma resposta àqueles que nos enviaram. Que dizes de ti mesmo?” 23João declarou: “Eu sou a voz que grita no deserto: ‘Aplainai o caminho do Senhor’” — conforme disse o profeta Isaías. 24Ora, os que tinham sido enviados pertenciam aos fariseus 25e perguntaram: “Por que então andas batizando, se não és o Messias, nem Elias, nem o Profeta?” 26João respondeu: “Eu batizo com água; mas no meio de vós está aquele que vós não conheceis, 27e que vem depois de mim. Eu não mereço desamarrar a correia de suas sandálias”. 28Isso aconteceu em Betânia além do Jordão, onde João estava batizando (Jo 1,19-28).
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A palavra de Deus na primeira leitura fala da heresia. Heresia é confundir Cristo com o nosso pensar e o nosso querer; é fabricar um Cristo a nossa imagem e semelhança. Este Cristo manipulado e tantas vezes mudado é claro que não pode ser o Cristo Salvador.

O fragmento da primeira leitura revela as linhas essenciais da falsa doutrina divulgada peloanticristoem uma época atormentada do final do século primeiro. Para essa falsa doutrina, Jesus não era considerado como o Messias nem como o Filho de Deus. Essa heresia cristológica considerava impossível que o Verbo Divino se fizesse carne à maneira humana. Mas para o apostolo João, testemunha ocular do Verbo Divino, o Verbo da vida (cf. 1Jo 1,1-4), negar a divindade de Jesus significa não ter comunhão com o Pai e não ter a verdadeira vida (1Jo 2,22-23; cf. Jo 20,30-31); negar a união do divino e do humano em Jesus significa seranticristoporque o humano em Jesus é o reflexo perfeito do divino, é o reflexo do Pai: “Aquele que me viu, viu o Pai” (cf. Jo 14,9). E em outra ocasião Jesus disse: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30).

São João nessa primeira Carta quer orientar nossa sensibilidade. Não se trata de fazer de Jesus um ídolo e sim de abrir nossos ouvidos à sua Palavra, pois Sua Palavra é vida e luz para nós todos: “No Verbo havia vida, e a vida era a luz dos homens” (Jo 1,4) e por isso nos orienta (cf. Jo 8,12). Um Jesus que não nos servir como caminho ao Pai (cf. Jo 14,6) é um Jesus que não nos interessa do ponto de vista da . Jesus é o misterioso laço de união entre a humanidade caída e o Pai pronta para nos salvar: “Todo aquele que nega o Filho também não possui o Pai. Confessa o Filho possui também o Pai” (1Jo 2,23).

São João nos convida a estarmos unidos definitivamente a Cristo. Por isso, o verbo que mais vezes se repete, na Primeira Leitura, é “permanecer”. É um verbo que fala de fidelidade, de perseverança, de manter na verdadeira fé sem se deixar enganar. Permanecer nos ensinamentos de Cristo é permanecer em comunhão com o próprio Cristo e com Deus Pai, ungidos e movidos por Seu Espírito. Permanecer em Jesus Cristo quer dizer morar n’Ele, ficar com Ele, plantar nossa tenda n”Ele como Ele acampou no meio de nós (Jo 1,14), “recomeçar a partir d’Ele.

Estamos tão habituados a mudar, a ir de novidade em novidade. Por isso, a palavra “permanecer” nos soa como não avançar ao ritmo dos tempos e ficar detidos no passado. Porém, nada disso! Permanecer significa não trocar Cristo por nada nem por ninguém, não antepor nada a Cristo. Ao atuar assim notaremos que nossa vida tem raízes profundas. Como toda árvore de raízes profundas, poderemos ser muito flexíveis sem medo de nos quebrarmos: a maior profundidade, a maior permanência, a maior flexibilidade, a maior capacidade de abrirmo-nos ao novo.

Como cristãos somos essencialmente ouvintes da Palavra da Salvação, aceitadores do Filho, e escutando-O nos realizamos como filhos do Pai celeste e irmãos dos demais homens. O que nos é pedido não é essencialmente nosso conhecimento ou nosso saber, e sim nossa fidelidade. Fidelidade é guardar ou observar o que é ouvido da Palavra de Deus (cf. Mt 7,24; Jo 14,23). Por isso, o verbo que mais vezes se repete na primeira leitura, é “permanecer”. É um verbo que fala de fidelidade, de perseverança, de manter na verdadeira sem deixar-se enganar. Permanecer em Jesus significa ter nele.  Há várias maneiras de ser fiel: com o pensamento e o coração, com as palavras de testemunho que damos diante dos demais e com as ações, com os compromissos, com as obras e com as decisões da vida diariamente, de acordo com o mandamento do Senhor resumido no amor fraterno.               

E lemos no Evangelho o testemunho de João Batista acerca de Cristo. Para a perguntaQuem és tu?”, João Batista confessa, evitando qualquer mal-entendido acerca de sua pessoa e de sua própria missão, que não é o Cristo, o Salvador esperado. Este testemunho em forma de afirmação negativa que sai da boca de João Batista é uma autentica confissão de no messianismo de Jesus. João Batista se define apenas com as palavras do profeta Isaias: “Voz que clama no desertoque prepara o caminho de Cristo. Ele não é a luz. Ele é apenas uma lâmpada que tem tempo limitado de duração. Ele é apenas aquele quetestemunha da verdadeira Luz que é o próprio Jesus Cristo (cf. Jo 8,12). Ele não é a Palavra Encarnada, mas somente a voz que prepara o caminho com a purificação dos pecados através de seu batismo: Eu batizo com água; mas no meio de vós está aquele que vós não conheceis”.

O testemunho de João Batista pretende suscitar a em todo mundo para o grande desconhecido, o Portador da salvação, que vive entre os homens (Jo 1,14). Por isso, a de João Batista está orientada ao anúncio de Jesus e não é apenas para o consumo próprio. João Batista é aquele que chama atenção, não para si mesmo e sim para Aquele é o verdadeiro Salvador. João Batista nos ensina que a deve ser transformada em anúncio, o fiel deve se tornar em anunciador da Boa Nova. Todo cristão é um propagador da Palavra de Deus na aridez espiritual de nosso mundo,um propagador que chama os outros ao encontro de Jesus Cristo que é “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6).

João Batista testemunha Jesus Cristo com fidelidade e valentia. Não quer falar de si mesmo, nem contar seus méritos nem suas façanhas. João Batista somente quer que os outros o considerem como “a voz que clama no deserto”, a voz que prepara os caminhos de Deus, a voz que chama todos a preparar o lugar de Deus no mundo, especialmente no coração de cada um. A voz desaparece, mas a mensagem fica.

O cristão é chamado a ser anunciador da Boa Nova, a ser a voz que grita, com a própria vida, a verdade de Cristo apesar da pobreza que experimenta e da fragilidade de suas palavras humanas. O cristão é o homem que se define em função de Cristo, d’Aquele que vem sempre aos seus para comunicar salvação e vida.

Como cristãos e como pessoas do bem devemos ser a voz de Deus sobre o amor neste mundo. Podemos desaparecer, mas a marca de amor que testemunhamos e transmitimos deve ficar para sempre entre as pessoas. Além disso, nós, como João Batista, deveríamos falar menos de nós mesmos, acreditar menos em nós mesmos e nos converter em “a vozquetestemunho de Deus, de seu amor presente em Jesus Cristo.

Santo Agostinho comenta: João era voz, mas o Senhor é a Palavra que no principio existia. João era uma voz provisional; Cristo, do principio, é a Palavra eterna. Ao tirar a palavra, o que será a voz? Se não houver conceito, tudo será nada mais do que ruído vazio. A voz sem palavra chega ao ouvido, mas não edifica o coração. João é a voz que grita no deserto, a voz que rompe o silêncio...”.

Somos chamados a ser voz do Senhor neste mundo. Ser voz é uma vocação muito humilde, mas é maior de todas. Ser voz é ser uma mensagem, é ser uma chamada aos demais para o bem, para a Luz que ilumina. A voz é feita para proclamar, para anunciar e para denunciar. A voz deixará de ser voz, se não gritar, se não proclamar, anunciar e denunciar. A voz se condenará, se deixar de anunciar a mensagem sobre o bem. Uma voz do bem é capaz de renovar o mundo. Se faltarem as vozes do bem para anunciar e denunciar, o mundo perderá sua consciência. Por esta razão, como vale e quanto vale sua voz! Como vale e quanto vale sua palavra! Como vale e quanto vale sua mensagem! Como vale e quanto vale seu grito que rompe o comodismo, que rompe o modo de viver sem vida. É preciso contemplar Jesus Cristo, Luz do mundo para que sejamos reflexos de sua luz para os outros, iluminado suas vidas embora o reflexo dure apenas em pouco tempo.

P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Domingo, 01/01/2017

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MARIA, SANTA MÃE DE DEUS


Primeira Leitura: Nm 6,22-27


22O Senhor falou a Moisés, dizendo: 23'Fala a Aarão e a seus filhos: Ao abençoar os filhos de Israel, dizei-lhes: 24O Senhor te abençoe e te guarde! 25O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face, e se compadeça de ti! 26O Senhor volte para ti o seu rosto e te dê a paz! 27Assim invocarão o meu nome sobre os filhos de Israel, e eu os abençoarei'.


Segunda Leitura: Gl 4,4-7


Irmãos: 4Quando se completou o tempo previsto, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sujeito à Lei, 5a fim de resgatar os que eram sujeitos à Lei e para que todos recebêssemos a filiação adotiva. 6E porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: Abbá - ó Pai! 7Assim já não és mais escravo, mas filho; e se és filho, és também herdeiro: tudo isso, por graça de Deus.


Evangelho: Lc 2,16-21


Naquele tempo: 16 Os pastores foram às pressas a Belém e encontraram Maria e José, e o recém-nascido, deitado na manjedoura. 17Tendo-o visto, contaram o que lhes fora dito sobre o menino. 18E todos os que ou viram os pastores ficaram maravilhados com aquilo que contavam. 19Quanto a Maria, guardava todos estes fatos e meditava sobre eles em seu coração. 20Os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo que tinham visto e ouvido, conforme lhes tinha sido dito. 21Quando se completaram os oito dias para a circuncisão do menino, deram-lhe o nome de Jesus, como fora chamado pelo anjo antes de ser concebido.
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I. Maria, Santa Mãe De Deus


Celebramos no dia 01 de Janeiro a solenidade de Maria, Santa Mãe de Deus. No gozo desta celebração está presente esta mulher singular que saudamos e veneramos como Santa Maria, Mãe de Deus. O Senhor que decidiu fazer-se homem entre os homens quis fazê-lo a nosso estilo, nascendo de uma mulher, como sublinha São Paulo na segunda leitura: “Quando chegou a plenitude do tempo, enviou Deus o seu Filho, nascido de uma mulher a fim de que recebêssemos a adoção filial.... De modo que não és escravo, mas filho. E se és filho, és também herdeiro, graças a Deus” (Gl 4,4-5.7). Por ter nos dado como fruto de seu ventre Jesus, Filho de Deus, somos elevados à categoria de filhos de Deus por Maria. Por isso, ela também é a nossa mãe. Ela é a rainha da Paz porque o Príncipe da paz é o Filho de Deus de suas entranhas e paz é sua maternidade sobre o gênero humano.  A Virgem Maria, modelo e sinal da Igreja, nos indica que também nós temos de ser portadores da paz para o nosso mundo.


O títuloMãe de Deus” (theotókos) dado a Maria foi sancionado solenemente pelo Concílio de Éfeso em 431. Com o títuloMãe de Deus” quer-se declarar o vínculo indissolúvel que une Maria, como mãe, ao Filho de Deus feito homem. Através de sua colaboração com o Pai e o Espírito Santo, Maria adquire uma especial relação com a Trindade. Mãe escolhida para colaborar na encarnação do Filho de Deus, do Verbo do Pai, nós a chamamos de “Mãe de Deusporque Jesus-Deus nasce dela, “nascido de uma mulher” (Gl 4,4). É mãe no sentido físico, psicológico e espiritual, pois ela colabora com Deus, doa seu assentimento livre e gera no amor. Como mãe, Maria exerce sua função, seu papel e sua missão materna para com o filho, Jesus, o Verbo encarnado do Pai, colocando-se totalmente à disposição do filho no silêncio e na humildade. É mãe que faz o Filho crescer na estatura, graça e sabedoria (cf. Lc 2,52). É mãe que vive pelo filho com aflição (cf. Lc 2,48), participando de sua missão até a morte (cf. Jo 19,25) e também depois da morte (cf. At 1,4), e, sem dúvida, aquele que está cheia de graça (cf. Lc 1,28) hoje está ao lado do seu Filho na glória eterna.


Maria é mãe de Jesus não apenas no sentido de Jesus ter nascido dela, mas também porque ela aceitou a vontade de Deus incondicionalmente: “Faça-se em mim segundo a Sua Palavra!” (Lc 1,38). Por isso, o próprio Jesus afirmará mais tarde: “Minha mãe e meus irmãos são estes, que ouvem a Palavra de Deus e a observam” (Lc 8,21). É evidente que Maria foi mãe no sentido comum e corrente da palavra: gerou o afeto, deu a luz a um filho, o amamentou, criou, etc. Porém o evangelista Lc quer ir além dessa questão: gerar Jesus não é um simples processo biológico. É também um processo de , para que o filho seja realmente reconhecido como “Jesus”, o Salvador, tal como o anjo o anunciara, isto é, tal como estava nos desígnios de Deus. Como disse Santo Ambrósio: “Por isso, Maria concebeu duplamente seu Filho: pela em sua alma e pela maternidade em seu seio”.


Mas a maternidade divina de Maria não é graça exclusiva e sim graça eclesial. Também poderemos chegar a serMãe de Deus” se escutarmos e acolhermos a Palavra de Deus, se nos deixarmos penetrar pela Palavra de Deus. Podemos serMãe de Deus” se fazemos crescer a Palavra de Deus e a vivemos e dela produzimos os frutos para a humanidade carente de sentido da vida. Podemos chegar a serMãe de Deus”, se acolhemos o Espírito de Deus e nos deixamos impregnar por ele, se chegamos a sintonizar com seus desejos e moções, se nos comunicamos intimamente com ele. Podemos chegar a serMãe de Deus” se colocamos nossa vontade e todo nosso ser à disposição e ao serviço da vontade de Deus.


Maria sempre foi um veículo da graça de Deus e por isso ela é chamada pelo anjo do Senhor de “Cheia de graça”.  Por estar cheia de graça onde nãonenhum espaço para o pecado e por ser a Mãe do Redentor é que na segunda parte da Ave Maria pedimos: “Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte”. E pedimos a intercessão de Maria todos os dias porque ela é a nossa mãe também pela nossa participação na filiação de Jesus Cristo(cf. Jo 19,26). A mesma maternidade que Maria exercia para com Jesus se amplia em relação aos irmãos dele, para com aqueles que Jesus redimiu, e que desde aquele dia invocam Maria também como sua mãe(cf. LG 61-61). 


Nós chamamos Nossa Senhora de “Mãe”. “Mãe” é uma criatura que, antes de nascermos, conversava e dialogava conosco e pensava em nós. Antes de nascermos éramos alguém no amor e na esperança de nossa mãe. Mãe é aquela que, com seu amor deslumbrante, puro e maternal, continua fortalecendo nosso viver, nossa esperança e nossos ideais. Nós somos, existimos, falamos, amamos e respiramos porque a mãe foi tudo para nós.


Maria é a mãe da Igreja, nossa mãe com todas as características acima mencionadas. Ser mãe da Igreja é um serviço, um papel e uma missão. Maria é uma mãe que sempre dirige seu olhar sereno para nós para dizer aquilo que ela dizia na festa de casamento em Cana da Galiléia: “Fazei tudo o que Jesus vos disser!” (Jo 2,5).


Com Dom Helder Câmara rezemos:


MARIA-MÃE DE DEUS


“Mãe, que tantas vezes remendaste as roupas de Cristo- e teus remendos eram feitos com tanto amor que desapareciam aos olhos dos próprios anjos! – junta os pedaços da túnica de teu Filho e restaura, Senhora, a veste simbólica que um dia tuas mãos teceram...


Pode parecer pretensão para quem começa,
Pode parecer absurdo para quem é inábil,
Mas não me basta tecer...
Ensina-me o segredo das túnicas inconsúteis”.          


II. Santa Maria é uma Mulher da Paz que faz nascer o Príncipe da paz


O Senhor te abençoe e te guarde! O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face, e se compadeça de ti! O Senhor volte para ti o seu rosto e te dê a paz!” (Nm 6,24-26)


 No dia primeiro de Janeiro celebramos também o Dia Mundial da Paz. Maria é a Mãe do Príncipe da Paz, Jesus Cristo. A encarnação do Verbo e a maternidade divina são duas faces do mesmo mistério: querendo fazer-se homem, Deus preparou para si um ventre; um ventre cheio da paz, o ventre de Maria. Foi Maria quem deu à luz o Príncipe da Paz, Jesus Cristo, Verbo Encarnado, porque ela disse sim à vontade de Deus: “Faça-se em mim segundo a Tua palavra” (Lc 1,38). Somente de uma pessoa da paz nasce a paz. Maria é uma mulher da paz e dela nasceu o Príncipe da paz, Jesus Cristo. Ela não guarda para si este Príncipe da Paz, mas ela dá ao mundo, a todos nós para que nossa vida seja reinada pela paz constantemente quando aceitarmos com coração aberto Jesus Cristo porque Jesus entre onde lhe é permitido entrar. Isto quer dizer que “Não basta ser pacífico. É necessário ser ‘promotor’ da paz. A paz entre o homem e Deus é a harmonia da obediência do homem à vontade de Deus. (Por isso) A paz há de ser sempre objeto de nossas aspirações” (Santo Agostinho). A paz é difícil, mas não é impossível porque exige renúncia à ira e às vinganças. A paz é um dever universal e perpétuo. É preciso querer a paz todos os dias e todas as noites, no descanso, na rádio, nas revistas, nos olhos, nas palavras, nas casas, na face dos grandes e no olhar dos pequenos. Juremos a paz em nós. Necessitamos de muitos prêmios para a paz nesta terra.


A maioria das imagens de Nossa Senhora tem um olhar muito sereno. No olhar sereno de tantas imagens de Maria com seu Filho Jesus Cristo temos como um sacramento o olhar de Deus capaz de restaurar nossos corações aflitos. O olhar de Maria dirigido a cada um de nós é um olhar que gera a paz e bem estar, pois ela está sempre com seu Filho, Jesus Cristo, o Príncipe da paz. O olhar de Maria desperta a paz no coração. A paz nasce certamente do coração bom. E no belo olhar de tantas mães dirigido ao filho nos seu colo temos também um sinal da bondade dos homens e da humanidade de nosso Deus.


Um olhar duro e agressivo, ao contrário, só desperta sentimentos de mal-estar, de oposição e de guerra. Precisamos do olhar de Maria logo no começo deste ano para que entre nós haja mais a fraternidade e a paz, para que o lugar onde estamos não se transforme em vale de lágrimas.


Se vis pacem, para bellum”, “se queres a paz, prepara-te para a guerra”. É um ditado baseado numa frase de Vegécio do século IV d.C: “Qui desiderat pacem, praeparet bellum”, “Quem deseja a paz, prepare a guerra” (Tratado da Arte Militar, III, Prólogo). “Deves amar a paz sem odiar os que fazem a guerra”, dizia Santo Agostinho. Será que precisamos preparar a guerra para ter a paz? A guerra que devemos preparar, na verdade, não é a guerra contra os inimigos, mas a guerra contra nós mesmos, contra as tendências violentas dentro de nós, como os sentimentos vingativos, rancorosos, ressentidos e outros sentimentos negativos que são mais contra nós mesmos do que contra os outros, pois ninguém dá aquilo que não tem. A desordem exterior provém da desordem interior.


Para que possamos encontrar o caminho que nos conduz à paz, precisamos entender a linguagem bíblica sobre a paz. Os hebreus quando se cumprimentam, eles mutuamente se desejam SHALOM para que o outro possa ter tudo o que o ser humano precisa para viver: paz, plenitude de vida, bem-estar, felicidade, contentamento. Em outras palavras: shalom é uma harmonia entre os homens e Deus, entre os homens mutuamente e uma harmonia dentro de cada ser humano espiritual e materialmente. E no sentido estrito, a harmonia significa unidade na variedade. Todos nós naturalmente somos atraídos pela unidade porque todas as diferentes criaturas e forças do universo foram criadas por um só Deus. Como uma folha, um galho e um pedaço de casca podem não se assemelhar em nada, mas todos eles fazem parte da mesma árvore. Por isso, a harmonia acontecerá quando cada um estiver consciente da sua origem do ser que é Deus. Sou diferente, mas sou de Deus. O outro é diferente, mas ele é de Deus. Por isso, eu e o outro somos um na origem do ser, somos irmãos e irmãs. O desafio da unidade é reconhecer as forças dos diferentes elementos e juntá-las sem anular a individualidade de cada um deles para evitar qualquer uniformidade no pensar e no agir.


Os gregos traduzem o termo hebraico “shalom” por “eirene” que significa prosperidade, mas também repouso, tranquilidade da alma. E no estado de tranquilidade e paz o ser humano pode criar uma existência segura e alcançar a prosperidade. Por isso, eirene tem a ver com harmonia: tudo combina com tudo. “A paz de todas as coisas é tranquilidade da ordem”, dizia Santo Agostinho. Se tudo está em ordem para o homem, ele pode viver harmoniosamente, em concordância com seu coração, mas também com os irmãos e irmãs. Consequentemente, surge uma consonância dos corações e uma harmonia das condições externas.


Neste começo do Ano Novo precisamos renunciar à discórdia para abraçar a concórdia. Discórdia vem da palavra “dis” que significa separação, divisão, afastamento; e “córdia” (cor, cordis) significa coração. Discórdia, portanto, significa separação dos corações, divisão dos corações. Isolamento. A separação dos corações doe muito mais do que a separação física. E “concórdia” vem da palavra “com” significa união, companhia, estar junto, ser companheiro (comer o mesmo pão ou do mesmo pão). Concórdia significa corações companheiros, juntos, unidos, fraternos, amigos, em aliança, em comunhão, interligados com laços de amor. Duas pessoas podem estar distantes fisicamente, mas se seus corações estiverem em concórdia, elas estão próximas uma da outra. Ao contrário, duas pessoas podem morar na mesma casa, mas se houver a separação dos corações, distantes interiormente, na verdade elas estão muito mais distantes do que a distância física.


Portanto, deixemos de lado a discórdia para tomar partido da concórdia. Discorde da injustiça. Concorde com a paz. Discorde do mal. Concorde com o bem. Discorde da vingança. Concorde com o perdão. Discorde da difamação. Concorde com o respeito mútuo. Discorde da exploração. Concorde com a honestidade. Discorde da mentira. Concorde com a verdade e a sinceridade. Discorde da briga violenta. Concorde com o diálogo amoroso. Discorde da libertinagem. Concorde com a liberdade com responsabilidade, pois a liberdade é um dom concedido pelo sangue do senhor derramado na cruz para nos salvar e o bom uso da liberdade é uma conquista.


E no início deste ano vamos limpar, perfumar o trono de Deus, que é a nossa alma, e Jesus Cristo virá, trazendo a paz. Que seu coração, nosso coração se encontre limpo e perfumado neste início do ano para que a paz do Senhor conduza sua caminhada, nossa caminhada neste ano que se inicia. Que cada participante da celebração possa dizer ao outro: “O Senhor te abençoe e te guarde! O Senhor faça brilhar sobre ti a Sua face, e se compadece de ti! O Senhor volte para ti o Seu rosto e te dê a paz!” Assim seja!


P. Vitus Gustama,svd