segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

03/02/2017
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SER HOSPITALEIRO E SER DEFENSOR E TESTEMUNHA DA VERDADE


Sexta-Feira da IV Semana do Tempo Comum


Primeira Leitura: Hb 13,1-8


Irmãos, 1 perseverai no amor fraterno. 2 Não esqueçais a hospitalidade; pois, graças a ela, alguns hospedaram anjos, sem o perceber. 3 Lembrai-vos dos prisioneiros, como se estivésseis presos com eles, e dos que são maltratados, pois também vós tendes um corpo! 4 O matrimônio seja honrado por todos e o leito conjugal, sem mancha; porque Deus julgará os imorais e adúlteros.  5 Que o amor ao dinheiro não inspire a vossa conduta. Contentai-vos com o que tendes, porque ele próprio disse: “Eu nunca te deixarei, jamais te abandonarei”. 6 De modo que podemos dizer, com ousadia: “O Senhor é meu auxílio, jamais temerei; que poderá fazer-me o homem?” 7 Lembrai-vos de vossos dirigentes, que vos pregaram a palavra de Deus, e considerando o fim de sua vida, imitai-lhes a fé. 8 Jesus Cristo é o mesmo, ontem e hoje e por toda a eternidade.


Evangelho: Mc 6,14-29


Naquele tempo, 14o rei Herodes ouviu falar de Jesus, cujo nome se tinha tornado muito conhecido. Alguns diziam: “João Batista ressuscitou dos mortos. Por isso os poderes agem nesse homem”. 15Outros diziam: “É Elias”. Outros ainda diziam: “É um profeta como um dos profetas”. 16Ouvindo isto, Herodes disse: “Ele é João Batista. Eu mandei cortar a cabeça dele, mas ele ressuscitou!” 17Herodes tinha mandado prender João, e colocá-lo acorrentado na prisão. Fez isso por causa de Herodíades, mulher do seu irmão Filipe, com quem se tinha casado. 18João dizia a Herodes: “Não te é permitido ficar com a mulher do teu irmão”. 19Por isso Herodíades o odiava e queria matá-lo, mas não podia. 20Com efeito, Herodes tinha medo de João, pois sabia que ele era justo e santo, e por isso o protegia. Gostava de ouvi-lo, embora ficasse embaraçado quando o escutava. 21Finalmente, chegou o dia oportuno. Era o aniversário de Herodes, e ele fez um grande banquete para os grandes da corte, os oficiais e os cidadãos importantes da Galileia. 22A filha de Herodíades entrou e dançou, agradando a Herodes e seus convidados. Então o rei disse à moça: “Pede-me o que quiseres e eu te darei”. 23E lhe jurou dizendo: “Eu te darei qualquer coisa que me pedires, ainda que seja a metade do meu reino”. 24Ela saiu e perguntou à mãe: “Que vou pedir?” A mãe respondeu: “A cabeça de João Batista”. 25E, voltando depressa para junto do rei, pediu: “Quero que me dês agora, num prato, a cabeça de João Batista”. 26O rei ficou muito triste, mas não pôde recusar. Ele tinha feito o juramento diante dos convidados. 27Imediatamente, o rei mandou que um soldado fosse buscar a cabeça de João. O soldado saiu, degolou-o na prisão, 28trouxe a cabeça num prato e a deu à moça. Ela a entregou à sua mãe. 29Ao saberem disso, os discípulos de João foram , levaram o cadáver e o sepultaram.
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I.            Exortação Para Viver a Vida Cristã


Esta passagem final da Carta aos hebreus, que lemos na Primeira Leitura, é uma espécie de proscrito parenético (discurso moral), pois o tom é muito diferente dos primeiros capítulos. Porém não se pode pôr em dúvida da autenticidade de Hb 13.


No texto de hoje o autor da Carta coloca as condições de vida cristã na ordem social e comunitária de cada dia. O autor recomenda algumas atitudes morais muito práticas. Para ele a fé tem que ser traduzida em condutas e compromissos concretos.


1.O amor fraterno Que Se Expressa Na Hospitalidade


“Irmãos, perseverai no amor fraterno. Não esqueçais a hospitalidade; pois, graças a ela, alguns hospedaram anjos, sem o perceber. Lembrai-vos dos prisioneiros, como se estivésseis presos com eles, e dos que são maltratados, pois também vós tendes um corpo!”.


O autor da Carta exorta a todos os leitores, inclusive a nós todos, que temos que amar os demais porque participamos da mesma condição humana, e porque o sofrimento dos outros pode ser algum dia o nosso. Em cada ser humano Deus quer nos relembrar que somos seres humanos como aquele ser humano que está na nossa frente. Do jeito que ele é encontrado, pode ser o jeito que alguém nos encontrar um dia, pois a vida é como uma roda que sempre gira enquanto estiver funcionando. Quando o movimento parar, cada parte ficará parada no seu lugar. Há que pôr-se no lugar daquele que sofre e fazer por ele o que desejaríamos que os outros nos fizessem em tal situação (cf. Mt 7,12). Se este princípio elementar fosse vivido por cada cristão, haveria muitas soluções para os problemas sociais.


Este amor fraterno se revela sobretudo na hospitalidade e na atenção para os prisioneiros. A razão desta atitude é muito simples: se todos compartimos a condição de transeuntes deste mundo (ser passageiros), todos temos a probabilidade de ser objeto da perseguição e da política quando estivermos vivendo de acordo com os valores cristãos e humanos (cf. 2Tm 3,12).


A hospitalidade também se concretiza no bom atendimento aos hóspedes. O hóspede era considerado como pessoa sagrada e lhe eram devidas todas as atenções e cuidados: “Não esqueçais a hospitalidade; pois, graças a ela, alguns hospedaram anjos, sem o perceber”. Aqui se faz referência aos relatos do Livro de Gênesis (Gn 18-19) em que Abraão e Ló solicitam aos personagens misteriosos para hospedarem em sua tenda/casa respectivamente, sem eles saberem que são os anjos do Senhor. Assim, pois, que cada cristão cuide dos hóspedes, pois pode ter tentação de fechar a porta para um enviado de Deus, aquele que traz bênção de Deus para aquela família que fechou a porta.


Em tempos de dificuldades e perseguições, a hospitalidade adquiria dimensões novas: equivalia à proteção do indefeso, do perseguido, do buscador por sua fé. Lembremo-nos dos refugiados em qualquer tempo e época, pessoas arrancadas de sua raiz e são obrigadas a apostar no futuro de Deus. Todos os refugiados poderiam ser eu, você, e nós todos.


2. A Castidade Do Matrimônio


O matrimônio seja honrado por todos e o leito conjugal, sem mancha; porque Deus julgará os imorais e adúlteros”.


O adultério e demais relações sexuais ilícitas eram considerados pelos cristãos entre os pecados mais graves, que eram cometidos no mundo pagão. E era uma convicção clara de que o juízo de Deus recairia implacavelmente sobre os que cometiam tais pecados: “Deus julgará os imorais e adúlteros”.


Nesta Carta o leito nupcial é comparado a um verdadeiro templo, pois a expressão “não manchado” era utilizada correntemente pelos judeus para designar a pureza do Templo (2Mc 14,36; 15,34; Cf. Tg 1,27). O matrimônio é, portanto, para os cristãos um autêntico lugar de culto, e a castidade exigida para este testado é substituído nas antigas leis pela pureza legal.


Por isso, o autor da Carta nos exorta que santificados por Cristo e participantes já do Céu, não podemos nos comportar, na sexualidade, como os que não têm esperança, e limitaram sua vida aqui neste mundo (prazer por prazer).


3. Atitude em relação aos bens materiais: Desprendimento das Riquezas Materiais


Que o amor ao dinheiro não inspire a vossa conduta. Contentai-vos com o que tendes, porque ele próprio disse: ´Eu nunca te deixarei, jamais te abandonarei´”.


É condenada a avareza em relação ao dinheiro. O próprio São Paulo escreveu a Timóteo: “A raiz de todos os males é o amor ao dinheiro” (1Tm 6,10). É uma avareza que se manifesta na avidez (cobiça) àquilo que se possui e na busca desenfreada das coisas materiais. Na cobiça o avaro é contado entre as coisas materiais, pois na sua vida ele só conta com as coisas e não com as pessoas. Ao fundamentar nossa vida nas coisas materiais excluímos Deus, o Criador daquilo que buscamos, e Sua providência do horizonte de toda a vida humana. Por isso, Cristo condena radicalmente a avareza.


Deus nos recorda: “Eu nunca te deixarei, jamais te abandonarei”. Trata-se da providência divina na vida dos que creem em Deus. É interessante destacar que o versículo que o autor da Carta cita para fazer alusão à providencia divina (Sl 118/119,6) está tomado de um Salmo litúrgico que o povo cantava desde as portas do Templo até o altar dos holocaustos. Através desta citação o autor da Carta põe em destaque sua intenção de deixar claro que toda atitude ética é realmente litúrgica.


Com esta terceira atitude concreta falamos de nossa vida real de cada dia. Efetivamente, nossos exames de consciência deveriam incluir sempre estes três pontos: meu relacionamento com os demais homens e mulheres; meu relacionamento com minha sexualidade e minha atitude diante do dinheiro e das riquezas materiais.


4. Atitude a Respeito Dos Guias/líderes/Dirigentes Da Comunidade


Lembrai-vos de vossos dirigentes, que vos pregaram a palavra de Deus, e considerando o fim de sua vida, imitai-lhes a fé”.


O termo “guia” que designa aos dirigentes/líderes é o mesmo termo que se utiliza para designar os grandes sacerdotes judeus. Para o autor da Carta aos hebreus, esses guias, mestres espirituais dos quais ele escreveu, são os representantes de Cristo entre nós: sua “palavra” é um reflexo da “Palavra de Deus”. Por isso, deveríamos rezar muito por estes representantes de Cristo para que, inspirados pelos ensinamentos de Cristo, possam nos guiar no caminho do Senhor.


Por fim, o autor quer nos relembrar que os dirigentes mudam, mas o Chefe permanece. Os pastores se sucedem, mas o Pastor dos pastores permanece, pois “Jesus Cristo é o mesmo, ontem e hoje e por toda a eternidade”. A fé nele deve ser imutável. Devemos crescer no conhecimento e no amor a este Jesus que permanece sempre em sua atitude de entrega por nós.


II.       Ser Testemunha e Defensor Da Verdade, Pois Deus É a Verdade


Não te é permitido ficar com a mulher do teu irmão”, disse João Batista a Herodes. Imediatamente, o rei mandou que um soldado fosse buscar a cabeça de João. O soldado saiu, degolou-o na prisão, trouxe a cabeça num prato e a deu à moça. Ela a entregou à sua mãe”.


Estamos numa seção nova do relato de Marcos. Trata-se da seção Jesus e seus discípulos (Mc 6,6b-8,30). Enviados por Jesus (Mc 6,7-13), os discípulos vão Lhe dizer que o povo se converteu e realizaram muitos milagres em Seu nome. Na sua volta da missão, os discípulos são convidados por Jesus para ir com Ele a um lugar solitário, a sós. Nunca chegará a realizar perfeitamente esse convite, mas este convite marca o tom da seção: tem que seguir estando com Jesus (cf. Mc 3,13), aprendendo, refletindo sobre seu ser com Jesus, e, sobretudo, penetrando no mistério de Jesus para educar-se na n’Ele. Não se pode ser discípulos, continuadores de Sua obra sem entregar-se totalmente a Ele, sem crer n’Ele, pois sem a não se consegue dizer quem é Jesus.


A partir da experiência dos discípulos nós também necessitamos refletir sobre nosso estar com Jesus e deixar-nos guiar e ajudar por Ele para alcançar uma enraizada em convicções mais profundas.


1. Jesus Incomoda Os Injustos, e Serena Os Justos


Enquanto os Doze Apóstolos estão em missão (Mc 6,7-13), o evangelista Marcos volta a falar de seu tema principal: Quem é Jesus? Agora Jesus é muito conhecido pela multidão e por isso, sua fama se espalha rapidamente ao redor.


A fama de Jesus chegou também aos ouvidos de Herodes. O texto diz que Herodes ouviu falar de Jesus. E diante dos testemunhos e opiniões do povo simples sobre Jesus, Herodes disse: “Ele é João Batista. Eu mandei cortar a cabeça dele, mas ele ressuscitou!”. O simples incomoda a consciência dos grandes. O simples é a voz de Deus, pois para o simples tudo é divino e para Deus tudo é simples. A simplicidade é a virtude dos sábios e a sabedoria dos santos.


Herodes não está orgulhoso de sua conduta, pois ele mandou matar João Batista injustamente. Esta conduta o faz inquieto. A presença de Jesus desperta sua consciência adormecida de sua culpa. Mas ele não quer aceitar Jesus, o Príncipe da Paz, e por isso, continua inquieto. Agora é que ele escuta sua consciência. E como sua consciência o incomoda!


Será que eu ouço meu coração? Será que a presença de Jesus incomoda meu coração adormecido? Será que aceito a presença de Jesus para serenar meu coração inquieto? O que me incomoda ao lembrar-me dele? Como posso sair dele? “Meu coração continua inquieto enquanto não repousar no Senhor”, dizia Santo Agostinho.


2. João Batista: Firme Na Defesa da Verdade e Valente Na Denúncia Do Mal


Herodes apreciava João Batista apesar da denúncia, pois o Batista era um homem honrado, ético, íntegro, santo e de caráter. Mas a debilidade desse rei volúvel e as intrigas da mulher e de sua filha acabaram com a vida do último profeta do AT, o Precursor do Messias: João Batista.


Herodes é um rei orgulhoso no sentido de prepotente e arrogante. Ele se orgulha de seu poder e pode usá-lo para qualquer fim. Um orgulhoso, como Herodes, possui todos os vícios: egoísta, injusto, imoral. Como egoísta ele coloca sua pessoa no centro de tudo. Ele é a própria lei. Como injusto, ele não respeita os direitos dos outros. E como imoral, ele não respeita moral alguma. Ele quer entender somente seu Ego e “conversacom seu orgulho. Mas ele impõe moral para os demais e para ele próprio está livre de qualquer princípio moral, pois ele se acha o próprio princípio.


Herodes é um misto de fraqueza e arrogância, de vilania e prepotência, de covardia e insolência. Ele é um velhaco. Um velhaco é covarde quando deveria ser corajoso, e torna-se impiedoso e cruel quando deveria ser clemente. Todo orgulhoso é fraco. Herodes, um rei débil, se converte em instrumento de vingança de uma mulher. Ele foi usado por uma mulher cheia de vingança e ódio no seu coração em nome da falsidade e de interesse pessoal. João Batista foi uma vitima de um poder. Herodes abusa da riqueza e do poder. Entregue totalmente aos prazeres, torna-se presunçoso e arrogante. O dominador se deixa enganar por uma bailarina e por sua vingativa mãe.  Age de maneira covarde e cruelmente, transformando-se em assassino de um inocente.


O homem da verdade pode ser eliminado, mas a própria verdade não cabe em qualquer túmulo, pois ela habita na consciência do homem e ressuscita toda vez que for enterrada.


A figura de João Batista é admirável por seu exemplo de interesse na defesa da verdade e sua valentia na denúncia do mal. Ele se torna conhecido pela sua firme defesa da verdade. Por causa da verdade vivida pelo João Batista, nem o rei feroz escapa de ser denunciado. Sua figura frágil não se intimida diante da fúria do rei Herodes e de sua concubina. Ele não teme pagar preço da verdade e de sua liberdade. Ele deve fidelidade a Deus, Suprema Verdade (Jo 14,6; cf. Jo 8,31-32).


3. Ser Cristão Coerente A Exemplo De João Batista


De João Batista aprendemos, sobretudo, seu firme caráter e a coerência de sua vida com o que prega e fala. Ele sempre vive na verdade e pela verdade. Prepara os caminhos do Messias, pregando a conversão. Mostra claramente o Messias quando apareceu. Não quer usurpar nenhum papel que não lhe corresponde: “Que Jesus cresça e eu diminua”, humildemente confessa (Jo 3,30). Aprendemos também de João Batista que o serviço do Reino da verdade e do amor comporta também o testemunho da verdade e do amor capaz de ter risco de “perdernossa vida. O testemunho de João Batista, o profeta da verdade, inspira a quem se torna o homem da verdade.


Haverá ocasiões em que também teremos que denunciar o mal onde existe. Faremos tudo isto com palavras valentes, mas, sobretudo, com uma vida coerente que por si mesma será um sinal profético no meio de um mundo que persegue os valores verdadeiramente humanos e cristãos.


João Batista foi um grande defensor da verdade. A verdade é, às vezes, doce, às vezes, amarga. Porém, quando é amarga, possui propriedades que curam” (Sto. Agostinho. Epist.110). “Quem recusa a verdade é como um cego banhado pelo sol sem beneficiar-se de sua luz. Quem aceita a verdade e depois não a segue padece uma cegueira convencional” (idem. De doc. christ I, 9,9). Estejamos atentos de que como Deus não faz ouvir Sua voz para desmentir ninguém, encontramos muitos porta-vozes que se contradizem. Mas o próprio coração é o Supremo Tribunal para cada um de nós.


Para Refletir


Muitas vezes acontece que os defeitos dos outros são os nossos enxergados nos outros. Será que não existe um pequeno Herodes em nós? Ou, pelo menos, será que ele está adormecido e que pode acordar e se levantar em qualquer hora com sua fúria incontrolável? Estejamos vigilantes! Pare e pense! Reflita e não reaja! Fazer sem pensar pode sacrificar muitos inocentes.


“O homem, no que tem de animal, é violento, mas no que tem de espiritual, é não-violento. No momento em que ele se torna consciente do espírito interior, não pode permanecer violento. Jesus viveria e morreria em vão se não conseguisse nos ensinar a ordenarmos toda a nossa vida pela lei eterna do amor (Mahatma Gandhi).

P. Vitus Gustama,svd

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