domingo, 1 de janeiro de 2017

05/01/2017
 

FAZER EXPERIÊNCIA PESSOAL COM JESUS PARA VIVER NO VERDADEIRO AMOR FRATERNO

05 de Janeiro

Primeira Leitura: 1Jo 3,11-21

11Caríssimos: Esta é a mensagem que ouvistes desde o início: que nos amemos uns aos outros, 12não como Caim, que, sendo do Maligno, matou o seu irmão. E por que o matou? Porque as suas obras eram más, ao passo que as do seu irmão eram justas. 13Não vos admireis, irmãos, se o mundo vos odeia. 14Nós sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos. Quem não ama permanece na morte. 15Todo aquele que odeia o seu irmão é um homicida. E vós sabeis que nenhum homicida conserva a vida eterna dentro de si. 16Nisto conhecemos o amor: Jesus deu a sua vida por nós. Portanto, também nós devemos dar a vida pelos irmãos. 17Se alguém possui riquezas neste mundo e vê o seu irmão passar necessidade, mas, diante dele fecha o seu coração, como pode o amor de Deus permanecer nele? 18Filhinhos, não amemos só com palavras e de boca, mas com ações e de verdade! 19Aí está o critério para saber que somos da verdade e para sossegar diante dele o nosso coração, 20pois se o nosso coração nos acusa, Deus é maior que o nosso coração e conhece todas as coisas. 21Caríssimos, se o nosso coração não nos acusa, temos confiança diante de Deus.

Evangelho: Jo 1,43-51

Naquele tempo, 43Jesus decidiu partir para a Galileia. Encontrou Filipe e disse: “Segue-me”. 44Filipe era de Betsaida, cidade de André e de Pedro. 45Filipe encontrou-se com Natanael e lhe disse: “Encontramos aquele de quem Moisés escreveu na Lei, e também os profetas: Jesus de Nazaré, o filho de José”. 46Natanael disse: “De Nazaré pode sair coisa boa?” Filipe respondeu: “Vem ver!” 47Jesus viu Natanael que vinha para ele e comentou: “Aí vem um israelita de verdade, um homem sem falsidade”. 48Natanael perguntou: “De onde me conheces?” Jesus respondeu: “Antes que Filipe te chamasse, enquanto estavas debaixo da figueira, eu te vi”. 49Natanael respondeu: “Rabi, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel”. 50Jesus disse: “Tu crês porque te disse: Eu te vi debaixo da figueira? Coisas maiores que esta verás!” 51E Jesus continuou: “Em verdade, em verdade, eu vos digo: Vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem”. (Jo 1,43-51)

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A Primeira Leitura está dentro do tema da Primeira Leitura do dia anterior onde se sublinha a condição de ser filho/filha de Deus. Segundo São João, o mundo ou a humanidade se divide entre filhos de Deus e filhos do diabo ou do pecado. Os filhos de Deus vivem ou devem viver no amor mútuo (amor fraterno). Os filhos do diabo ou do pecado vivem no ódio.

Para São João, a caridade é o critério dos cristãos; é o mandamento que conhecem desde o começo de sua conversão: “Caríssimos: Esta é a mensagem que ouvistes desde o início: que nos amemos uns aos outros”. É o amor que nos levanta de nossa condição de uma simples criatura para sermos filhos e filhas amados de Deus que é o Próprio Amor (1Jo 4,8.16). É o amor que nos capacita para vencermos os nossos limites. É o amor que nos capaz de vivermos no mundo apesar de seus contratempos. É o amor que nos leva à comunhão plena com Deus e com os irmãos: “Nós sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos. Quem não ama permanece na morte”. O amor não se encontra no diabo, pois ele causa a desunião entre as pessoas. Em quanto que o amor tem capacidade de criar a comunhão entre as pessoas.

Em contraposição à caridade é o ódio: “Filhinhos, não amemos só com palavras e de boca, mas com ações e de verdade!”. Esta oposição assinala o ritmo da vida do mundo desde as origens do homem: Abel era o justo e Caim era o ímpio que odiava o próprio irmão, Abel e o matou: “Que nos amemos uns aos outros, não como Caim, que, sendo do Maligno, matou o seu irmão. E por que o matou? Porque as suas obras eram más, ao passo que as do seu irmão eram justas”. Jesus Cristo era justo e foi odiado pelo mundo até a morte. Não há nenhuma diferença na vida dos cristãos! Na medida em que somos sinais do amor, o mundo vai nos odiar: “Não vos admireis, irmãos, se o mundo vos odeia”. O ódio pode terminar na morte do cristão ou de quem quer que seja do bem.

Portanto, para conhecer seu estado espiritual e para saber se possui a vida, o cristão deve perguntar-se se no seu coração e em tudo que fizer há amor. Não há vida plena em Deus sem amor, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8). O amor não é uma teoria e sim um exemplo de vida vivida na fraternidade.

O sacrifício da Cruz foi a vitoria do amor sobre o ódio. A partilha do Pão e da Palavra na Eucaristia estabelece a cada participante na obediência ao amor incondicional que constitui o mistério da Cruz. A Cruz de Jesus é uma recordação muito forte do amor de Deus por nós. Cada Eucaristia permite ao cristão sair vitorioso do ódio pelo laço de amor com Cristo e irmãos.

E a passagem do evangelho lido neste dia descreve a vocação de Felipe e Natanael, modelo de discipulado e de seguimento (veja também a analogia dessa vocação nos evangelhos sinóticos: Mc 2,14; Mt 8,22; 9,9; 19,21; Lc 9,59). É uma vocação para levar adiante o mandamento de amor para que o mundo possa viver na fraternidade universal, pois todos são filhos e filhas do mesmo Deus.

No desenvolvimento da narração acontece um intercâmbio de olhares e de encontros. Jesus chama Filipe para segui-Lo. “Segue-me”. Logo depois, Filipe convida Natanael a encontrar-se com Jesus. “Encontramos aquele de quem Moisés escreveu na Lei, e também os profetas: Jesus de Nazaré, o filho de José”. Ao ouvir a palavra “Nazaré” da boca de Filipe, Natanael pergunta: “De Nazaré pode sair coisa boa?”. Filipe não quer nem pretende resolver a dúvida inicial de Natanael, mas prefere convidá-lo para uma experiência pessoal com o próprio Jesus: “Vem e vê!”. Filipe viveu a experiência pessoal com Jesus anteriormente e mudou totalmente sua vida. Para esta mesma experiência é que Filipe convida Natanael a fazer.

Filipe convida Natanael a não ficar parado nem paralisado onde se encontra: “Vem e vê!”.  É preciso sair do próprio ângulo de sempre para ver a vida de outros ângulos e para perceber como é rica a vida que temos e como é vasta sua dimensão! “Vir” é uma ação, é uma caminhada, é um sair do próprio esconderijo e do próprio comodismo. É preciso desamarrar os pés de tantos apegos para começar a fazer um êxodo rumo à “terra prometida” por Deus. Quem caminha, vê muita coisa e vê muito mais longe. “Vem e vê” é o convite para caminhar e contemplar tudo no caminho. Diante da vitória eu preciso continuar minha luta, pois para mim é dirigido o convite: “Vem e vê!”. Diante da queda, eu preciso me levantar, pois diante de mim há um convite: “Vem e vê!”. Diante do fracasso, eu preciso reaprender, pois na minha frente está escrito: “Vem e vê!”. Diante do presente, eu preciso vibrar, pois trata-se de uma dádiva e continua soando o convite para mim: “Vem e vê!”. “Vem e vê!” é um convite para a novidade capaz de renovar toda nossa vida como aconteceu com Filipe. Quem fica no quarto, somente vê as quatro paredes. “Vem e vê!” é o convite dirigido a cada um de nós se quiser crescer na vida e ampliar sua visão sobre a vida e seus acontecimentos. O isolamento é a autodestruição. “Eu prefiro na chuva caminhar, que em dias tristes em casa me esconder” (Martin Luther King). O céu (Deus) é uma comunhão plena. Ao superar o isolamento vou tendo, aos poucos, o rosto mais parecido com Deus, pois Deus é comunhão plena. “Vem e vê” é o convite de fé, pois trata-se de uma chamada para o encontro pessoal com Jesus. Somente a fé ajuda a superar os motivos de escândalo (“De Nazaré pode sair coisa boa?”) e de auto-suficiência humana.

“Vem e vê” é o convite de Filipe a Natanael. Trata-se realmente de um chamamento à conversão. Jo 1 é dominado pela idéia de “ver” (cf. Jo 1,39). A palavra “ver” não designa, para o evangelista João, tão somente um olhar simplesmente material sobre a humanidade de Jesus Cristo e sim uma contemplação de Sua glória e de Sua divindade. É como João Batista que viu o Espírito Santo descer sobre Jesus Cristo (Jo 1,33-34).

Logo no início da experiência pessoal com Jesus, Natanael ouviu as seguintes palavras da boca de Jesus: “Aí vem um israelita de verdade, um homem sem falsidade. (...) Antes que Filipe te chamasse, enquanto estavas debaixo da figueira, eu te vi”.  Jesus chama, precisamente, Natanael para realizar essa “conversão” da vista (“ver”). Jesus convida Natanael a passar de um olhar sobre a humanidade de Jesus para a contemplação de Sua glória. A “conversão” de Natanael se realiza gradualmente. Na primeira etapa viu Jesus como filho de José (Jo 1,45). Na segundo etapa, este “ver” leva Natanael para a messianidade de Jesus: “Rabi, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel” (Jo 1,49). E na terceira etapa, Natanael reconhecerá, de uma vez, a divindade de Jesus: “Vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem” e sua humilhação (Filho do Homem: Jo 1,51. cf. Jo 3,14; 8,28; 12,22-34; 13,31). Em outras palavras, a conversão de Natanael é progressiva: da humanidade de Cristo para sua messianidade; da messianidade para o mistério pascal da humilhação e da exaltação.

Jesus suscita em Natanael a vontade de acolher o mistério do Filho do Homem: “Rabi, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel”.  Jesus revela ao futuro discípulo seu conhecimento pessoal porque em Natanael não há falsidade (fraude): Natanael é o verdadeiro israelita piedoso e reto, apaixonado pela Escritura e que sabe confessar sua própria pobreza diante de Deus. Natanael questiona, mas tem humildade de aceitar a novidade.

O homem, tocado no íntimo de seu ser pelo louvor do Mestre e pelo profundo conhecimento que o Senhor tem do homem (representado por Natanael), se rende à evidencia e reconhece em Jesus o Messias e confessa: “Rabi, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel”.  Natanael, como os outros discípulos que o precederam no encontro pessoal com Jesus Cristo, se encontra no nível da fé autentica e aberto para as revelações posteriores que Jesus fará imediatamente: “Tu crês porque te disse: Eu te vi debaixo da figueira? Coisas maiores que esta verás! Em verdade, em verdade, eu vos digo: Vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem”. A fé sempre nos leva a “vermos” coisas maiores do que as que vemos sem fé. “A fé é um grau de conhecimento. O conhecimento é o auge da fé” (Santo Agostinho: Epist. 136,4).

Jesus convida o homem a buscá-Lo porque somente Ele se deixa encontrar pelos que o buscam com aconteceu com Natanael. Uma serie de experiências dos discípulos (cf. Jo 1,35-51) permite o homem penetrar no mistério de Jesus. Quem fizer o encontro profundo com Jesus pessoalmente, sairá mais alegre, entusiasmado e será testemunha de Jesus para os demais. E no testemunho de fé dos discípulos o céu também participa: “Vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem”.

P. Vitus Gustama,svd

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