terça-feira, 3 de janeiro de 2017

 09/01/2017
 

BATISMO DO SENHOR E O NOSSO BATISMO

      

Primeira Leitura: Is 42,1-4.6-7
 
Assim fala o Senhor: 1“Eis o meu servo eu o recebo; eis o meu eleito nele se compraz minh’alma; pus meu espírito sobre ele, ele promoverá o julgamento das nações. 2Ele não clama nem levanta a voz, nem se faz ouvir pelas ruas. 3Não quebra uma cana rachada nem apaga um pavio que ainda fumega; mas promoverá o julgamento para obter a verdade. 4Não esmorecerá nem se deixará abater, enquanto não estabelecer a justiça na terra; os países distantes esperam seus ensinamentos. 6Eu, o Senhor, te chamei para a justiça e te tomei pela mão; eu te formei e te constituí como o centro de aliança do povo, luz das nações, 7para abrires os olhos dos cegos, tirar os cativos da prisão, livrar do cárcere os que vivem nas trevas”.
 
Segunda Leitura : At 10,34-38
Naqueles dias, 34Pedro tomou a palavra e disse: “De fato, estou compreendendo que Deus não faz distinção entre as pessoas. 35Pelo contrário, ele aceita quem o teme e pratica a justiça, qualquer que seja a nação a que pertença. 36Deus enviou sua palavra aos israelitas e lhes anunciou a Boa-Nova da paz, por meio de Jesus Cristo, que é o Senhor de todos. 37Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do batismo pregado por João: 38como Jesus de Nazaré foi ungido por Deus com o Espírito Santo e com poder. Ele andou por toda a parte, fazendo o bem e curando a todos os que estavam dominados pelo demônio; porque Deus estava com ele.
 
Evangelho: Mt 3,13-17
Naquele tempo, 13Jesus veio da Galileia para o rio Jordão, a fim de se encontrar com João e ser batizado por ele. 14Mas João protestou, dizendo: “Eu preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?” 15Jesus, porém, respondeu-lhe: “Por enquanto deixa como está, porque nós devemos cumprir toda a justiça!” E João concordou. 16Depois de ser batizado, Jesus saiu logo da água. Então o céu se abriu e Jesus viu o Espírito de Deus, descendo como pomba e vindo pousar sobre ele. 17E do céu veio uma voz que dizia: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus o meu agrado”.
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1. Batismo De Jesus É A Manifestação De Deus Que Identifica A Pessoa E A Missão De Jesus

O Batismo de Jesus é um momento de tomada de consciência do homem Jesus da missão que o Pai lhe confia. E através desta cena o evangelho quer nos dizer hoje que Jesus é o homem cheio do Espírito Santo e por isso, ele está em plena condição de manifestar e de comunicar o Deus Pai que é Amor, pois Jesus é chamado de “meu Filho muito amado em quem coloco meu amor”. Quando descrevem o Batismo de Jesus, os evangelistas querem deixar bem claro desde o início do seu evangelho que Jesus, o protagonista das páginas que vão seguir, é um homem cheio do Espírito de Deus que lhe faz invocar a Deus como Pai e lhe urge ao serviço dos irmãos necessitados. Aquele menino divino cujo nascimento celebramos durante os dias de Natal-Epifania é um homem que vem revelar e realizar a vontade de Deus que nos ama. Por isso, é ungido com o Espírito de Deus. Durante todos os domingos do ano (pode também diariamente) escutaremos sua Palavra para seguir seu caminho. Ele é o homem cheio do Espírito Santo que nos revela o amor de Deus para a humanidade. Tomada de consciência na qual indubitavelmente influencia a pregação de João Batista e a espera messiânica dos “pobres de Israel”. Esta manifestação acontecerá progressivamente através da Transfiguração, da Paixão com a afirmação diante do Sinédrio.

Também nosso batismo-confirmação tem um aspecto de tomada de consciência do amor gratuito de Deus, da doação do Espírito divino que nos impulsiona a realizar uma missão também messiânica de viver e de comunicar o amor a Deus, continuando o caminho de Jesus. No Antigo Testamento o ungido é o leito de Deus, o enviado, o designado para levar a término uma missão salvadora. Abrir-se ao Espírito de Deus é acolher humildemente a presença criadora e renovadora de Deus em nós. É deixar-se purificar e modelar pelo Espírito que animou toda a atuação de Jesus. É viver da a experiência de um Amor que nos envolve e nos faz invocar a Deus como Pai e nos faz próximos (irmãos) dos demais homens e nos faz viver no amor, na alegria, na paz, na tolerância, no agrado, na generosidade, na lealdade, na simplicidade e no domínio de si mesmo (cf. 1Cor 12,6-11). Pelo Batismo e pela confirmação (que formam a unidade sacramental da vida cristã juntamente com a eucaristia) nos convertem emapóstolos”, enviados. Recebemos de Cristo e com Ele a missão de sair de nós mesmos fazendo o bem por todas as partes. O Batismo, com efeito, não é apenas um sinal de nossa pertença à família de Deus, mas também é a missão de tornar realidade ou de torna carne, através de nós, o amor de Deus para os demais. Por isso, o cristão não se define apenas pelo que se diz, mas principalmente pelo que se faz. Em outras palavras pode-se dizer que o Batismo é o caminho que começa pela iniciativa de Deus através da Sua encarnação em Jesus Cristo, Deus-feito-amor, mas a atuação do homem deve ser resposta coerente com este amor de Deus, amando os demais. Viver o batismo é o desafio de cada dia. O Batismo é o fundamento da chamada à santidade, o fundamento do dever e direito a viver o cultoem espírito e em verdade”.

2. Ser Batizado Em Cristo É Ser Parecido Com Cristo

No Batismo de Jesus a voz de Deus se faz ouvir: “Tu és meu Filho muito amado!” ouTu és meu Filho muito amado!”. O batismo de Jesus prefigura o nosso batismo, no sentido de que, assim como naquele momento o Pai certifica a filiação divina de Jesus ungindo-o com o Espírito antes de iniciar sua missão, também nós, no Batismo, somos consagrados filhos de Deus em Jesus Cristo pelo Espírito Santo. Nós, batizados, devemos manifestar em qualquer circunstância que somos filhos de Deus, ungidos com o Espírito novo, que vence toda covardia e egoísmo. Através do Batismo participamos da filiação divina através de Jesus Cristo em quem acreditamos. Somos filhos no Filho. Nós somos da mesma família de Cristo. Por isso, hoje, como no dia de nosso Batismo, também se faz ouvir a mesma voz de Deus: “Tu és meu filho muito amado!”. Ninguém pode esquecer-se de que é filho amado ou filha amada do Pai independentemente da situação em que se encontra. Saber-se amado do Pai é a maior força contra qualquer dificuldade na vida: solidão, abandono, problemas de vários tipos e assim por diante. Uma das enfermidades descobertas pela psicologia e pela psiquiatria atuais é a crise de identidade pessoal. Esta crise surge da falta de aceitação de si mesmo e das próprias limitações que levam o indivíduo à frustração. O indivíduo é incapaz de encontrar seu lugar na sociedade pela crise da identidade pessoal. Tudo isto cria um desequilíbrio nas relações com os outros, crise na convivência familiar, comunitária e social, comportamento alienado que se expressa na agressividade, violência e evasão por meio da droga, sexo e do álcool e no caso extremo, pode causar o suicídio.

A falta da identidade pessoal também chega ao nível religioso. Muitos batizados não assumem seu compromisso batismal, como se fossem “desempregados” da e da vivência cristã. Eles se tornam cristãos demissionários. Ser batizado vira uma moda. E moda dura para determinada estação da vida.  E o mundo continua esperando algo de bom de um batizado. Enquanto cada indivíduo não souber quem ele é, dificilmente saberá seu lugar adequado na sociedade.

Durante a nossa curta vida, certamente, a questão que guia muitos dos nossos comportamentos é a seguinte: “Quem somos nós ?” Raramente nos fazemos esta pergunta de maneira formal; contudo, a vivemos muito concretamente nas decisões do nosso dia-a-dia.  As três respostas que nós geralmente vivemos, e que não damos necessariamente, são: ” Nós somos o que fazemos; nós somos o que os outros dizem de nós; e nós somos o que temos”.

É importante compreender a fragilidade da vida que depende do sucesso(o que fazemos), da popularidade(o que os outros dizem de nós) e do poder(o que temos). Essa fragilidade provém do fato de esses serem fatores externos sobre os quais temos apenas controle limitado. A perda do nosso emprego, da fama ou dos bens, tem freqüentemente como causa eventos totalmente fora do nosso controle. Mas, quando dependemos deles, é como se nós tivéssemos vendido ao mundo, porque então SOMOS o que o mundo nos dá. E a morte acaba por nos tirar tudo. E a sentença final então será: “Quando se morre, acabou!”, porque quando morremos, mais nada podemos fazer, as pessoas não tornam a falar de nós e nunca mais temos nada. Quando somos o que o mundo faz de nós, não podemos SER depois de termos deixado o mundo.

Jesus veio anunciar-nos que uma identidade baseada no sucesso, na popularidade e no poder é uma falsa identidade, uma ilusão!

A vida espiritual exige que proclamemos constantemente a nossa verdadeira identidade cristã. E a nossa verdadeira identidade é que nós somos filhos de Deus, filhas e filhos amados do nosso Pai celeste pela participação na vida do Filho de Deus por excelência, Jesus Cristo, através do batismo. A vida de Jesus revela-nos esta verdade misteriosa na hora de seu batismo, no Jordão, através duma voz vindo do céu: Tu és o meu filho amado, em ti encontro o meu agrado”.(Mc 1,11). E para o mundo esta voz declara nossa identidade como filhos e filhas amados do Pai: “Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência”. Precisamos morrer com Cristo para nossa condição de pecadores para assumir com Ele a nova vida de filhos e filhas amados de Deus. O batismo se torna, assim, não como um peso, mas como uma predileção de Deus, uma vocação para a que precisamos vivê-la proclamá-la para o mundo.

Jesus revelou-nos que nós, seres humanos pecadores e fracos, somos convidados à mesma comunhão, à filiação divina que ele viveu, que somos os filhos e filhas prediletos de Deus, precisamente como ele é, o seu Filho amado; que somos enviados a este mundo a proclamar a amabilidade de toda a gente, como ele o foi e que finalmente poderemos escapar aos poderes destrutivos da morte, como ele conseguiu.

Toda vez que proclamamos a nós mesmos a certeza da nossa amabilidade, a nossa vida alarga-se e aprofunda-se. E a nossa amabilidade é eterna. Deus diz- nos: ”Eu te amo com o amor eterno”(Jr 31,3).   E este amor existia antes de os nossos pais e as nossas mães nos amarem e continuará a existir muito depois de os nossos amigos se terem interessado por nós. É um amor divino, um amor que dura sempre, um amor eterno.

Precisamente porque a nossa verdadeira identidade está enraizada neste amor incondicional, ilimitado e eterno é que podemos escapar ao perigo de nos tornarmos vítimas de cronômetro. O cronômetro conta o tempo que temos neste mundo.

Precisamos estar conscientes de que através do Batismo cada um, consciente ou inconscientemente, torna-se parecido com Cristo. Jesus se deixou batizar para se identificar com cada um de nós. Ele se deixou batizar também para tornar aquelas águas santas e purificadas pelas quais, um dia, fomos batizados e pelas quais os próximos que optarem por Cristo serão batizados. O sacramento do Batismo influi todo o mistério da vida: o passado do pecado, o presente do homem novo e a esperança do mundo definitivo. O Batismo é regeneração da vida nova, nascimento do alto, participação da ressurreição, revestimento de Cristo, sinal da filiação divina, unção do Espírito. Contemplando e definido desta maneira teologicamente compreendem-se a importância e o valor do Sacramento do Batismo.

Se batizar significa tornar-se parecido com Cristo, hoje é o tempo oportuno para rever nossa maneira de viver se é realmente parecida com a de Jesus. O Batismo é sinal de uma contínua conversão a uma vida de serviço e amor, de justiça e liberdade; é uma luta contínua contra as seduções do poder, do ter do dominar, da imortalidade e dos vícios. Por isso, mais do que nunca, hoje é o dia de renovação no qual somos chamados novamente a nos tornarmos parecidos com Cristo nas palavras, nas obras, na vida e no caminhar. O verdadeiro encontro com Jesus resulta no encontro do outro como irmão.      

3. Jesus Quer Permanentemente Questionar Nossas Idéias, Nossos Comportamentos E Nossa Maneira De Julgar As Pessoas E As Coisas

“Sou eu quem precisa ser batizado por ti, e tu vens a mim?”(Mt 3,14).Deixa estar por enquanto, pois assim nos convém cumprir toda a justiça”(Mt 3,15).

No diálogo entre João Batista e Jesus(Mt 3,14-15)percebe-se a coerência das palavras de João Batista no contexto da passagem anterior em que Jesus é maior que João Batista porque Jesus batiza com o Espírito Santo e com fogo, enquanto o batismo de João é apenas com água para o arrependimento(Mt 3,11): “Sou eu quem precisa ser batizado por ti, e tu vens a mim?”(Mt 3,14). João Batista reconhece sua própria pequenez diante de Jesus e ao mesmo tempo seu reconhecimento da dignidade daquele homem que lhe pede o batismo; o homem que batizará a comunidade messiânica no Espírito Santo e no fogo(Mt 3,11). Por isso, pensa João, ele não precisa de um batismo de água e tenta dissuadi-lo do batismo.

Diante da recusa de João, Jesus dá uma resposta de maneira imperativa:Deixa estar por enquanto, pois assim nos convém cumprir toda a justiça” (Mt 3,15). Esta resposta é a primeira palavra de Jesus no Evangelho de Mateus. Jesus demonstra nesta resposta sua autoridade. Sua palavra inicial é um imperativodeixa estar por enquanto”. Cada imperativo requer uma obediência imediata. As palavras enigmáticas de Jesus expressam a adesão de Jesus ao projeto salvífico do Pai que o conduz até Getsêmani e logo até a cruz numa entrega constante da própria vida. O verbo que se usa é “cumprir(cf. Mt 1,22;2,15.17.23;4,14;5,17;8,17;12,17;13,35;21,4;26,54.56;27,9) para indicar que o ministério de Jesus é conseqüente ou coerente ou está de acordo com a vontade de Deus.

Usa-se também aqui pela primeira vez o termojustiçaque não deve entender-se no sentido que temos hoje i.é, dar a cada um o que é seu. O termojustiçapertence ao vocabulário de Mateus (3,15;5,6.10.20;6,1.33;21,32) cujo significado é a submissão fiel à vontade de Deus ou o cumprimento da vontade de Deus.  A “justiça” de Deus não é outra coisa senão a vontade salvífica de Deus realizada. Deus é justo porque ele age fielmente aos compromissos da aliança de salvar o povo. O homem é justo quando ele é fiel à lei divina. A vontade de Deus neste momento é que Jesus, embora não tendo absolutamente nenhum pecado, seja batizado por João Batista com o batismo de penitência, junto com os outros penitentes, pois Jesus é o Messias na forma do Servo de Deus que carrega os pecados das multidões: “Ele assumiu nossas fraquezas e carregou nossas enfermidades” (Mt 8,17;Is 53,4). A vontade de Deus agora é que Jesus se faça solidário, através do seu batismo, com os pecadores. Ele carrega nossos pecados até a conseqüência última do pecado que é a morte, e a morte na cruz por causa de sua obediência ao Pai. Esta obediência de Jesus ao Pai põe de manifesto sua condição de filho porque naquela cultura a obediência era o que definia a relação entre um filho e seu pai (cf. Cl 3,2; Ef 6,1).  Por este caminho é que a humanidade é libertada do pecado e transformada em humanidade nova. Deus quer que sejamos pessoas justas.

A recusa de João Batista de batizar Jesus e a afirmação de Jesus para que João Batista o batize nos convidam a fazer uma parada para uma contemplação. Vamos, como João, deixar Jesus que questione nossas idéias, nossos comportamentos, nossa maneira de julgar as pessoas e os acontecimentos, nosso jogo de interesse, e assim por diante. É urgente deixarmos a Palavra de Deus nos questionar para voltarmos a ser verdadeiros cristãos, sinal de seu amor e de sua advertência neste mundo, isto é, alertar as pessoas o que é certo e o que é errado, o que é justo e o que é injusto a partir dos critérios de Cristo. Não tenhamos medo da verdade, pois a verdade nos libertará (cf. Jo 8,32). Quantas vezes recusamos alguma correção fraterna e ao recusarmos, nos defendemos atacando. Se alguém questionar nossas idéias ou nossos comportamentos é porque ele tem amor por nós.  E se uma correção fraterna for verdade, por qual motivo a recusamos?

P. Vitus Gustama,svd

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