sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

24/01/2017
 
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SER MEMBRO E PERMANECER NA FAMÍLIA DE JESUS

Terça-Feira Da III Semana Do Tempo Comum

Primeira Leitura: Hb 10,1-10

Irmãos, 1 a Lei possui apenas o esboço dos bens futuros e não o modelo real das coisas. Também, com os seus sacrifícios sempre iguais e sem desistência repetidos cada ano, ela é totalmente incapaz de levar à perfeição aqueles que se aproximam para oferecê-los. 2 Se não fosse assim, não se teria deixado de oferecê-los, se os que prestam culto, uma vez purificados, não tivessem nenhuma consciência dos pecados? 3 Mas, ao contrário, é por meio desses sacrifícios que, anualmente, se renova a memória dos pecados, 4 pois é impossível eliminar os pecados com o sangue de touros e bodes. 5 Por isso, ao entrar no mundo, Cristo afirma: “Tu não quiseste vítima nem oferenda, mas formaste-me um corpo. 6 Não foram do teu agrado holocaustos nem sacrifícios pelo pecado. 7 Por isso eu disse: Eis que eu venho. No livro está escrito a meu respeito: Eu vim, ó Deus, para fazer a tua vontade”. 8 Depois de dizer: “Tu não quiseste nem te agradaram vítimas, oferendas, holocaustos, sacrifícios pelo pecado” – coisas oferecidas segundo a Lei –, 9 ele acrescenta: “Eu vim para fazer a tua vontade”. Com isso, suprime o primeiro sacrifício, para estabelecer o segundo. 10 É graças a esta vontade que somos santificados pela oferenda do corpo de Jesus Cristo, realizada uma vez por todas.

Evangelho: Mc 3,31-35

Naquele tempo, 31chegaram a mãe de Jesus e seus irmãos. Eles ficaram do lado de fora e mandaram chamá-lo. 32Havia uma multidão sentada ao redor dele. Então lhe disseram: “Tua mãe e teus irmãos estão fora à tua procura”. 33Ele respondeu: “Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos?” 34E olhando para os que estavam sentados ao seu redor, disse: “Aqui estão minha mãe e meus irmãos. 35Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe.
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O Sacrifício Que Deus Quer de Nós É Cumprir Sua Vontade

“Tu não quiseste nem te agradaram vítimas, oferendas, holocaustos, sacrifícios pelo pecado”.

O texto da Primeira Leitura deste dia se encontra na seção central da Carta aos hebreus (Hb 7,28-10,18) onde se desenvolve o tema mais importante da Carta: a função mediadora de Cristo.

Em Hb 10,1-18, onde se encontra o texto de hoje, fala-se da causa de uma salvação eterna. Nestes versículos o autor da Carta explica a substituição dos sacrifícios antigos (animais) pelo único e definitivo de Cristo que consiste na sua fidelidade plena à vontade de Deus incondicionalmente.

O autor da Carta acentua a atitude fiel de Cristo nos primeiros versículos (vv.5-6). O principal é a aceitação do plano do Pai, o cumprimento de seus desígnios. Para Jesus viver é desde princípio cumprir a vontade do Pai. E nisto consiste o verdadeiro caráter sacrifical de sua vida e de sua morte na Cruz. Cristo exerce seu sacerdócio não como membro de uma classe sacerdotal. Cristo oferece sua vida e entrega seu espírito ao Pai não num âmbito sagrado, no templo, e sim em meio da sociedade e fora da cidade santa, elevado na Cruz que é plantada sobre uma colina.  

O autor da Carta põe nos lábios de Jesus o Sl 40,7-9: “Tu não quiseste nem te agradaram vítimas, oferendas, holocaustos, sacrifícios pelo pecado”. No contexto original do Salmo se trata de um homem justo depois de ter experimentado em sua vida a salvação de Deus, dá-Lhe graças e promete cumprir Sua vontade em vez de oferecer-Lhe sacrifícios de animais e holocaustos. Mas na boca de Jesus estas palavras servem como introdução para o sacrifício de sua vida que culmina na Cruz. Jesus entra no mundo sob o sinal da obediência ao Pai e permanece sob este sinal até o cumprimento total da vontade do Pai, até a morte na Cruz. O sacrifício de Jesus consiste em sua doação total, em sua entrega pessoal ao Pai. O sacrifício de Jesus foi toda sua vida porque sua vida estava animada por uma absoluta entrega a Deus levada à perfeição na Cruz.

Concisamente o autor da Carta explica o sentido da citação do Sl 40,7-9: os sacrifícios do AT não agradam a Deus e são abolidos definitivamente. Em seu lugar, Jesus estabelece o único sacrifício que agrada a Deus e que consiste em cumprir sua vontade. E a vontade de Deus se resume no amor fraterno como concretização do amor a Deus. Participar do sacrifício de Cristo é sempre e radicalmente cumprir, como Cristo, a vontade de Deus. Em cada Eucaristia recordamos a vida e a morte e a ressurreição de Cristo que é para nós uma exigência a cumprirmos, como Cristo, a vontade do Pai. O Reino de Deus virá quando os homens cumprirem a vontade de Deus. Por isso, no Pai-Nosso pedimos: “Venha a nós o Vosso Reino! Seja feita a Vossa vontade assim na terra com no Céu”.

O sacrifício que Cristo quer de nós cristão é que nos amemos uns aos outros como Jesus nos amou (cf. Jo 15,12; cfr. Jo 13,1). Não há outro sacrifício que seja maior do que o amor fraterno, pois onde há amor, ai está Deus, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16).

Ser Membro Da Família De Jesus

Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”, disse o Senhor.

O evangelista Marcos vai relatar mais tarde em Mc 4,1-9 a parábola da semente que cai em diferentes terrenos. Mas de antemão ele ilustra dizendo-nos que a família de Jesus não é necessariamente o ideal terreno. A não se pode confundir com o contexto sociológico nem se pode reduzir a sentimentos humanos ainda que sejam fraternos ou familiares.

Pela segunda vez, até agora, Jesus é procurado pelos parentes seus (cf. Mc 3,21). “Tua mãe e teus irmãos estão lá fora à tua procura”, disse alguém para Jesus. O evangelista Marcos sublinha um contraste entre o grupo dos Doze (discípulos de Jesus) e os parentes de Jesus. E a família de Jesus fica fora e os discípulos estão sentados, em casa, em torno de Jesus (=“estar com Jesus” cf. Mc 3,14). “Estar sentado” em torno de Jesus significa a adesão incondicional e permanente a Jesus e seus ensinamentos. Enquanto a mãe e irmãos de Jesus estão fora da casa. Aqui, a mãe, sem nome, representa a origem de Jesus onde se criou; seus irmãos são os membros dessa comunidade ligados à instituição judaica que recusaram os ensinamentos de Jesus violentamente.

Como resposta Jesus disse: “Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe. Para Jesus os laços de sangue, os laços familiares, os laços sociais são indispensáveis e reais, porém não é licito encerrar-se neles. Aprendemos da afirmação de Jesus que o Reino é um agrupar-se, como irmãos e companheiros, unidos agora por uma forçafamiliarque é distinta da “carne e o sangue”: a opção convencida pela Causa de Jesus como a Causa absoluta da própria vida. Se essa Causa se converter verdadeiramente em meu ideal máximo, então eu vou sentir e considerar todos os que lutam pela mesma Causa comominha mãe e meus irmãos”.

No Reino de Deus, a fraternidade cristã não se funda nos vínculos de carne e sangue e sim no espírito comum: fazer a vontade do Pai. Levaram o nome de Jesus os que vivem em seu coração o que foi para Jesus a razão de ser de sua vida: “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (Jo 13,35). O amor fraterno ou o amor mútuo é a norma de vida do cristão.

É surpreendente o tamanho do coração de Jesus: universal e grande como o universo, pois é aberto para toda a humanidade: “Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe.  Jesus se sente irmão de todos aqueles que fazem a vontade do Pai que se resume no amor fraterno (ágape). Graças ao coração de Jesus que nos possibilita a fazermos parte da família de Jesus ao fazermos a mesma vontade de Deus. Graças a Jesus, cada cristão tem um numero grande de irmãos, de irmãs, de mães e de pais no mundo inteiro ao fazer algo comum: a vontade de Deus. É uma felicidade sem limite ter Jesus como nosso irmão. Tudo isso nos enche de alegria. Somos filhos e filhas de Deus em Jesus e somos irmãos entre nós, como rezamos no Pai Nosso (Mt 6,9-15). Ao aceitarmos Jesus Cristo e ao vivermos seus ensinamentos, entramos na comunidade nova do Reino.

E nesta comunidade nova temos como Mãe comum: Maria, a Mãe de Jesus, o grande exemplo na vivência da Palavra de Deus. Ela é a mulher crente totalmente disponível para e diante de Deus. Maria acolheu antes o Filho de Deus, o Verbo de Deus (Jo 1,1-2) em seu coração por meio da e depois ela acolheu-O em seu seio por sua maternidade. Ela O educou a ponto de seu filho crescer “na sabedoria e na graça diante de Deus e dos homens” (Lc 2,52). Neste sentido, Maria é duplamente a Mãe de Jesus: dela ele nasceu e ela é a primeira discípula de Jesus por causa de seu “Fiat”: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a Vossa Palavra” (Lc 1,38). Maria, antes de ser Mãe fisicamente foi a Mãe espiritualmente. Antes de o Anjo do Senhor lhe anunciar a grande mensagem, ela vivia aberta a Deus. Ela colaborou ativamente durante toda sua vida no plano de salvação. “Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe.  Por isso, Maria é, para nós, nossa boa Mestra porque foi a melhor discípula na escola de Jesus. Ela nos assinala o caminho da vida cristã: escutar a Palavra de Deus, meditá-la no coração e levá-la à prática.

Por isso, cada cristão jamais pode se sentir solitário, pois ele tem, no mundo inteiro, seus irmãos e irmãs, pais e mães que rezam por ele em qualquer celebração eucarística e em outras celebrações. Conseqüentemente, cada cristão deve ter um coração universal e do tamanho do universo no qual possam caber todos. Um coração que ama é sempre espaçoso. Quanto mais o cristão ama, mais espaço ele terá no seu coração para todos como o coração de Jesus.

Será que faço parte da família de Jesus? Será que eu estou sentado em torno de Jesus com seus discípulos ou estou fora da casa de Jesus? Será eu estou consciente de que todo homem é meu irmão? Será que tenho consciência de que toda mulher é minha irmã, minha mãe por causa de Deus que é o Pai de todos? Será que a fidelidade à vontade de Deus ocupa primeiro lugar na minha vida e em todas as minhas decisões? Será que posso afirmar que eu sou membro da família de Jesus?

Para Refletir Mais

Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos? Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe.

É certo que a família é a célula básica da sociedade ainda que ela sempre se encontre em crises. É certo também que na família recebemos normalmente amor, cuidados, educação e apoio. Porém, não é menos certo que abramos nossa família para uma família mais extensa, se quisermos amadurecer e assumir nossa própria existência: transformar nossa família em família de Jesus onde cada um de seus membros vive de acordo com os ensinamentos de Jesus. A família definitiva é a família dos filhos e filhas de Deus, os homens e as mulheres que querem construir uma família justa e pacífica, solidária e compassiva de acordo com o querer divino. A porta de entrada para a casa de Jesus, para a nova família de Jesus é fazer a vontade de Deus. Tudo o mais fica relativizado: a família, propriedades, pátria, estado até mesmo a própria vida. Por isso, no evangelho de Mateus Jesus disse: “Quem ama pai ou mãe mais do que a mim, não é digno de mim. Quem ama filho ou filha mais do que a mim, não é digno de mim” (Mt 10,37).

No circulo de Jesus somentelugar para a fraternidade, a nota característica dos membros dessa sociedade alternativa que Jesus vem implantar com a Judá de seus novosirmãos, irmãs e mãe”. Da “sociedade alternativaou comunidade de seguidores de Jesus somente podem fazer parte dela aqueles que cumprem o desígnio de Deus, Seu projeto, Sua utopia que não é outra que fazer do mundo uma família, uma fraternidade universal. Para fazer do mundo uma família, temos que viver profundamente a espiritualidade familiar: um se preocupa com o outro, um protege o outro, um se solidariza com o outro, um ama o outro incondicionalmente como uma mãe ou um pai de uma família que ama seus filhos gratuitamente, sem mérito algum. Se o Deus em quem acreditamos é Uno e Trino, logo esse mesmo Deus quer que todos formem uma família. Toda família humana tem, então, em Deus Uno e Trino seu espelho perfeito. A própria família humana de Jesus, conhecido como a Sagrada Família de Nazaré é um grande exemplo para qualquer família humana. Todos na família humana de Jesus vivem de acordo com a vontade de Deus: Maria obedeceu totalmente à vontade de Deus (cf. Lc 1,38) e exemplo como uma mãe educadora, pois “Jesus crescia em estatura, em sabedoria e graça, diante de Deus e dos homens” (Lc 2,52); José, pai adotivo de Jesus não mostrou nenhuma resistência diante do plano de Deus (cf. Mt 1,18-25; 2,13-23; e o próprio Jesus faz da vontade de Deus seu alimento diário (cf. Jo 4,34). E no fim de sua vida terrestre, Jesus rezou tanto pela união e unidade de todos (cf. Jo 17,20-23).

P. Vitus Gustama,svd

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