sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

27/01/2017 

SABER SE APOIAR EM DEUS PARA MANTER-SE PERSEVERANTE NA FÉ

Sexta-Feira Da III Semana Do Tempo Comum

Primeira Leitura: Hb 10,32-39

Irmãos, 32 lembrai-vos dos primeiros dias, quando, apenas iluminados, suportastes longas e dolorosas lutas. 33 Às vezes, éreis apresentados como espetáculo, debaixo de injúrias e tribulações; outras vezes, vos tornáveis solidários dos que assim eram tratados. 34 Com efeito, participastes dos sofrimentos dos prisioneiros e aceitastes com alegria o confisco dos vossos bens, na certeza de possuir uma riqueza melhor e mais durável. 35 Não abandoneis, pois, a vossa coragem, que merece grande recompensa. 36 De fato, precisais de perseverança para cumprir a vontade de Deus e alcançar o que ele prometeu. 37 Porque ainda bem pouco tempo, e aquele que deve vir virá e não tardará. 38 O meu justo viverá por causa de sua fidelidade, mas, se esmorecer, não encontrarei mais satisfação nele”. 39 Nós não somos desertores, para a perdição. Somos homens da fé, para a salvação da alma.

Evangelho: Mc 4, 26-34

Naquele tempo, 26Jesus disse à multidão: “O Reino de Deus é como quando alguém espalha a semente na terra. 27Ele vai dormir e acorda, noite e dia, e a semente vai germinando e crescendo, mas ele não sabe como isso acontece. 28A terra, por si mesma, produz o fruto: primeiro aparecem as folhas, depois vem a espiga e, por fim, os grãos que enchem a espiga. 29Quando as espigas estão maduras, o homem mete logo a foice, porque o tempo da colheita chegou”. 30E Jesus continuou: “Com que mais poderemos comparar o Reino de Deus? Que parábola usaremos para representá-lo? 31O Reino de Deus é como um grão de mostarda que, ao ser semeado na terra, é a menor de todas as sementes da terra. 32Quando é semeado, cresce e se torna maior do que todas as hortaliças, e estende ramos tão grandes, que os pássaros do céu podem abrigar-se à sua sombra”. 33Jesus anunciava a Palavra usando muitas parábolas como estas, conforme eles podiam compreender. 34E lhes falava por meio de parábolas, mas, quando estava sozinho com os discípulos, explicava tudo.
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Tenhamos Fé Perseverante Em Todas As Situações De Nossa Vida, Pois “Aquele que deve vir virá e não tardará”.

O texto da Primeira Leitura, tirado da Carta aos hebreus, nos faz conhecer um pouco mais as circunstancias que rodeavam os destinatários da Carta: “Irmãos, lembrai-vos dos primeiros dias, quando, apenas iluminados, suportastes longas e dolorosas lutas”. Eles começaram sua vida cristã com muito fervor, mas agora lhes faltava constância, perseverança. Por isso, o autor da Carta convida os fieis, em perigo de fraquejar diante das excessivas adversidades e afetados pela prova do tempo e das contradições, a voltarem ao ponto inicial de sua fé.

Os hebreus, para os quais a Carta é dirigida, são antigos judeus convertidos ao cristianismo, mas eles sentem, no momento, a tentação de voltar para trás com tanta força, principalmente no momento das perseguições. O autor da Carta se dirige, então, a esses hebreus para despertar neles a necessidade da fé perseverante a fim de resistir às tentações de uma volta para o passado: “Não abandoneis, pois, a vossa coragem, que merece grande recompensa. De fato, precisais de perseverança para cumprir a vontade de Deus e alcançar o que ele prometeu”. O autor da Carta quer dizer com outras palavras: Não percam o fervor dos primeiros dias! Sejam valentes para poder ver a salvação. Se acovardarem, perderão tudo!

Há três demonstrações sucessivas do autor da Carta para convencer os indecisos. A primeira demonstração se encontra em Hb 10 (de onde a Primeira Leitura é tirada) em que ele enfatiza a necessidade da fé perseverante: “Precisais de perseverança para cumprir a vontade de Deus e alcançar o que ele prometeu”. O autor quer dizer que nenhuma pessoa, que vive de acordo com a vontade de Deus, sofre em vão, pois ela vai alcançar a promessa de Deus. Não adiantaria os combates se tudo desembocasse na apostasia. A segunda demonstração se encontra no texto seguinte, em Hb 11 onde o autor recorda o exemplo da fidelidade dos patriarcas que vivem a fé e da fé até o fim, pois “A fé é o fundamento da esperança, é uma certeza a respeito do que não se vê. Foi ela que fez a glória dos nossos, antepassados” (Hb 11,1-2). Terceira demonstração se encontra em Hb 12 onde encontramos o argumento principal que nos proporciona o exemplo de Cristo e os conselhos e advertências que Deus faz a seus filhos.

A exortação do autor da Carta aos hebreus não perde sua atualidade. Em certos momentos nós nos cansamos de tudo e o primeiro fervor nos diminui e os ideais não brilham sempre de maneira igual.

O autor nos convida a sermos constantes na nossa fé em Deus apesar das dificuldades, a sermos valentemente cristãos em meio de um mundo hostil.  Não somos os primeiros em sofrer contradições e dificuldade no seguimento de Cristo. Não acreditemos numa vida fácil quando se trata do seguimento sério de Jesus Cristo. Sejamos heróis da fidelidade a Cristo e aos seus ensinamentos. Recordemos os inícios (de nossa vida cristã, de nossa vida religiosa, de nossa vida sacerdotal, de nossa vida matrimonial etc.), quando éramos capazes de suportar tudo com amor e fé e com ideais convencidos de que Deus nos prepara uma vitória para quem é fiel até o fim.

Recordemos algumas frases do texto de hoje:

·       Lembrai-vos dos primeiros dias, quando, apenas iluminados, suportastes longas e dolorosas lutas.
·       Não abandoneis, pois, a vossa coragem, que merece grande recompensa. De fato, precisais de perseverança para cumprir a vontade de Deus e alcançar o que ele prometeu.
·        Nós não somos desertores, para a perdição. Somos homens da fé, para a salvação da alma.
·        Aquele que deve vir virá e não tardará.

Tudo isso nos faz lembra aquilo que dizia o filosofo grego Epíteto (55-135 d.C): “A essência da fidelidade está, antes de tudo, em manter opiniões e atitudes corretas com relação ao Supremo, ao Elementar. Lembre-se de que a ordem divina é inteligente e fundamentalmente boa. A vida não é uma série de episódios aleatórios e sem sentido, mas um todo ordenado e refinado que segue leis em ultima analise compreensíveis... Quando procuramos adaptar nossas intenções e ações  à ordem divina não nos sentimos perseguidos, indefesos, confusos ou ressentidos diante das circunstancias desagradáveis de nossas vidas. Nós nos sentimos cheios de força, determinação e segurança” (Arte de Viver, Sextante,2000 p.74).

Fé No Provir De Deus

As duas parábolas de hoje tem em comum o “símbolo” da germinação, da potência da “vida nascente”. Jesus assim sua obra.

“O Reino de Deus é como um homem que lança a semente à terra”. Lançar semente à terra é um gesto absolutamente natural, apaixonante e misterioso. É um gesto de esperança e de aventura. A semente crescerá? Haverá boa colheita, ou não haverá nada? O semeador é aquele que crê na vida, que tem confiança no porvir. O semeador é aquele que semeia a mãos cheias para que a vida se multiplique. O semeador é aquele que investe no porvir. Jesus está consciente de estar fazendo isto: semear.  Ele empreende uma obra que tem porvir. Mas esta imagem é válida para qualquer vida humana: para os empresários, para os professores, para os pais e mães de uma família e assim por diante. Há que semear, há que investir sobre o porvir.

O homem dorme, levanta-se, de noite e de dia, e a semente brota e cresce, sem ele o perceber.    Pois a terra por si mesma produz, primeiro a planta, depois a espiga e, por último, o grão abundante na espiga”.  Marcos é o único que nos relata esta maravilhosa, curta e otimista parábola do “grão-que-cresce-só”. Tudo reside na vitalidade da semente: aparentemente frágil, mas nela tem uma potência ou uma vitalidade. Basta a semente estar na terra, começa, então, em segredo e em silêncio uma serie de maravilhas, pouco importa se o semeador se preocupa ou não com a semente.

Da mesma maneira, disse Jesus, o Reino de Deus é como uma semente viva. Semeada numa alma, semeada no mundo, cresce lentamente, imperceptível, mas com um crescimento contínuo. Sem intervenção destruidora da parte do homem, a vida progride sem que ninguém possa segurar seu avanço ou seu crescimento.

O Reino de Deus, a Palavra de Deus, tem dentro de si uma força misteriosa que apesar dos obstáculos encontrados no seu caminho vai germinar e dar fruto. Com esta parábola Jesus quer sublinhar a força intrínseca da graça e da intervenção de Deus. O protagonista da parábola não é o lavrador nem o terreno bom ou mau e sim a semente. O Reino de Deus está no meio de nós. Este Reino cresce em segredo em nosso mundo, alimentado pelo próprio Deus que o põe no coração dos crentes como uma semente que, pouco a pouco, dá abundantes colheitas de solidariedade e de serviço entre as pessoas de boa vontade. Essas duas parábolas podem alimentar e fortalecer nossa esperança. Pouco importam os aparentes fracassos e as grandes dificuldades. É o próprio Deus Pai que faz crescer e germinar seu Reino, muitas vezes, através dos caminhos misteriosos e desconhecidos por nós, pobres pecadores.

Outra comparação é a semente da mostarda, menor de todas as sementes, mas que chega a ser um arbusto notável. Novamente, a desproporção entre os meios humanos e a força de Deus.

Para as duas parábolas une uma mesma realidade: a força de Deus está além tanto das habilidades do evangelizador como da debilidade dos evangelizados. É o próprio Deus que se faz presente, superando a ação humana e a insignificância da semente.

O evangelho de hoje nos ajuda a entendermos como conduz Deus nossa história. Se esquecermos Seu protagonismo e a força intrínseca que tem Seu Evangelho, Seus sacramentos e Sua graça poderão acontecer duas coisas: se tudo for bem, pensamos que mérito seja nosso. Se tudo for mal, nos afundamos. Não teríamos que nos orgulhar nunca, como se o mundo se salvasse por nossas técnicas e esforços. Não podemos esquecer aquilo que São Paulo nos aconselhou: “Eu plantei, Apolo regou, mas Deus é quem fez crescer. Assim, nem o que planta é alguma coisa nem o que rega, mas Deus, que faz crescer. O que planta ou o que rega são iguais; cada um receberá a sua recompensa, segundo o seu trabalho.  Nós somos operários com Deus. Vós, o campo de Deus, o edifício de Deus. Segundo a graça que Deus me deu, como sábio arquiteto lancei o fundamento, mas outro edifica sobre ele. Quanto ao fundamento, ninguém pode pôr outro diverso daquele que foi posto: Jesus Cristo” (1Cor 3,6-11). 

Jesus quer nos dar lição de que os meios podem ser muito pequenos, mas podem produzir frutos inesperados, não proporcionados nem a nossa organização nem a nossos métodos e instrumentos. A força da Palavra de Deus vem do próprio Deus e não de nossas técnicas. Quando em nossa vida há uma força interior, a eficácia do trabalho cresce notavelmente. Mas quando essa força interior é o amor que Deus nos tem, ou seu Espírito ou a Graça salvadora de Cristo ressuscitado, então, o Reino de Deus germinará e crescerá poderosamente. Deus nos surpreende tirando força do débil, confundindo os sábios e entendidos, fazendo da fragilidade seu próprio testemunho. Cada evangelizador, cada agente de qualquer pastoral ou movimento ou de qualquer ministério na Igreja do Senhor deve estar consciente de que ele é apenas um colaborador de Deus e não é o dono que pode manipular a salvação.

O que se pede de nós não é o êxito e sim a fidelidade. E o que devemos fazer é colaborar com nossa liberdade. Mas o protagonista é Deus. Não é que sejamos convidados a não fazer nada e sim a trabalhar com o olhar posto em Deus, sem impaciência, sem exigir frutos a curto prazo, sem absolutizar nossos méritos e sem demasiado medo ao fracasso. Há que ter paciência como a tem o lavrador esperando a colheita.

Basta ter um pouco de amor no coração, a paciência será nossa parceira inseparável para esperar os frutos abundantes que virão da própria mão de nosso Pai celeste. Por isso, Deus quer que entremos na aliança de amor com Ele. Ao entrar em comunhão de vida com ele, Deus quer nos fazer sinais de seu amor para com os outros. Mas Deus jamais deixa de nos amar, pois Ele é amor (1Jo 4,8.16). Deus nos ama e cremos no seu amor. Se quisermos que a Palavra de Deus chegue aos demais não somente como informação e sim como testemunho de vida, nós devemos ter a abertura suficiente ao dom de amor de Deus.

P. Vitus Gustama,svd

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