sábado, 4 de fevereiro de 2017

08/02/2017

Resultado de imagem para o Senhor Deus formou o homem do pó da terra, soprou-lhe nas narinas o sopro da vida e o homem tornou-se um ser vivente
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MANTER O CORAÇÃO PURO E IMACULADO, POIS SOMOS TEMPLO DE DEUS


Quarta-Feira da V Semana Do Tempo Comum


Primeira Leitura: Gn 2,4b-9.15-17


4b No dia em que o Senhor fez a terra e o céu, 5 ainda não havia nenhum arbusto do campo sobre a terra, e ainda nenhuma erva do campo tinha brotado, porque o Senhor Deus não tinha feito chover sobre a terra, nem existia homem para cultivar o solo. 6 Mas uma fonte brotava da terra, e lhe regava toda a superfície. 7 Então o Senhor Deus formou o homem do pó da terra, soprou-lhe nas narinas o sopro da vida e o homem tornou-se um ser vivente. 8 Depois, o Senhor Deus plantou um jardim em Éden, a oriente, e ali pôs o homem que havia formado. 9 E o Senhor Deus fez brotar da terra toda sorte de árvores de aspecto atraente e de fruto saboroso ao paladar, a árvore da vida no meio do jardim e a árvore do conhecimento do bem e do mal. 15 O Senhor Deus tomou o homem e colocou-o no jardim de Éden, para o cultivar e guardar. 16 E o Senhor Deus deu ao homem uma ordem, dizendo: “Podes comer de todas as árvores do jardim, 17 mas não comas da árvore do conhecimento do bem e do mal; porque, no dia em que fizeres, sem dúvida morrerás”.


Evangelho: Mc 7, 14-23


Naquele tempo, 14Jesus chamou a multidão para perto de si e disse: “Escutai todos e compreendei: 15o que torna impuro o homem não é o que entra nele vindo de fora, mas o que sai do seu interior. 16Quem tem ouvidos para ouvir ouça”. 17Quando Jesus entrou em casa, longe da multidão, os discípulos lhe perguntaram sobre essa parábola. 18Jesus lhes disse: “Será que nem vós compreendeis? Não entendeis que nada do que vem de fora e entra numa pessoa pode torná-la impura, 19porque não entra em seu coração, mas em seu estômago e vai para a fossa?” Assim Jesus declarava que todos os alimentos eram puros. 20Ele disse: “O que sai do homem, isso é que o torna impuro. 21Pois é de dentro do coração humano que saem as más intenções, imoralidades, roubos, assassínios, 22adultérios, ambições desmedidas, maldades, fraudes, devassidão, inveja, calúnia, orgulho, falta de juízo. 23Todas estas coisas más saem de dentro e são elas que tornam impuro o homem”.
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O Homem É o Sopro De Deus


Continuamos a acompanhar o relato da criação do universo e da humanidade. Desta vez o que se enfatiza é a formação do ser humano: “O Senhor Deus formou o homem do pó da terra, soprou-lhe nas narinas o sopro da vida e o homem tornou-se um ser vivente”.


Não se trata de uma afirmação cientifica. Mas trata-se de uma reflexão “sapiencial”. Em hebraico o termo “adamah” significa solo, terra. E o termo “adam” significa homem. Isto leva o relator a fazer um joga de palavras muito profundo: o homem é terra, pó. É um símbolo do efêmero, da fragilidade, da caducidade.


No entanto, o homem experimenta também sua grandeza. A tradição sacerdotal que escreveu o relato precedente sobre a criação do homem disse que o homem foi “criado à imagem de Deus”. E o relator do texto que lemos hoje nos diz, concretamente, que Deus influiu seu próprio hálito no homem.


O homem, por ter sido feito do barro da terra, à semelhança dos animais, é frágil, caduco, mortal. Porém, por ser vida da vida de Deus, é transcendente. O sopro divino é o que coloca o homem no âmbito humano e o distingue dos animais. Nenhum outro vivente possui esse hálito divino. O homem vale mais do que todas as criaturas, porque Deus o fez mais perfeito e o encheu com seu hálito e com a plenitude de seu amor.


A vida de Deus é que sustenta a vida do homem. Mesmo que esteja na ordem puramente natural (feito do barro), a vida do homem é divina, pois nele Deus soprou seu hálito. Por isso, a vida do homem não pode ser sacrificada, vendida ou comprada. Escravizar o homem significa atingir o próprio Deus em seu ponto mais sensível (cf. Mt 25,40.45).


Por ser sopro de Deus, o homem pertence a Deus. É próprio do homem não pertencer a si mesmo e sim a Deus, pois é obra das mãos de Deus. Na medida em que é de Deus, o homem é de si mesmo. O homem bíblico não é um anônimo nem solitário nem abandonado, pois ele pertence a Deus. O homem é o próprio templo de Deus (cf. 1Cor 3,16-17; 6,19).


Para Viver Eternamente o Homem Necessita Viver De Acordo com a Lei Do Senhor


Podes comer de todas as árvores do jardim, mas não comas da árvore do conhecimento do bem e do mal; porque, no dia em que fizeres, sem dúvida morrerás”.


A proibição de comer do fruto da arvore do conhecimento do bem e do mal não se refere a uma espécie de maçã. Deus está dizendo ao homem que será feliz e imortal, se ele viver em perfeita comunhão de obediência com Ele. Para conhecer o que é bom e o que é mau e para saber o que deve e o que não deve fazer, o homem deve perguntar a Deus e à Sua Palavra e obedecer-lhe livre e alegremente. Mas no dia em que o homem quiser ser lei para si mesmo, quando decidir por sua própria conta o que é bom e o que é mau, sentando-se no trono de Deus, ele se destruirá e destruirá a vida dos outros.


É bem provável que você tenha ouvido ou dito as seguintes frases: “Para mim isto não é pecado”; “A Igreja não tem porquê dizer-me o que tenho que fazer”; “O Papa está fora do tempo e não entende a sociedade”. O relato do Gênesis que se repete. Tomemos cuidado para não nos destruirmos em nome dos próprios interesses e prazeres passageiros.


Pureza No Coração, Pureza No Agir


Em Mc 7,1-23 há três cenas: Jesus, de um lado e os escribas e os fariseus de outro lado numa controvérsia (Mc 7,1-13); Jesus- multidão (Mc 7,14-15) e Jesus- discípulos (Mc 7,17-23). Mas o ensinamento de Jesus tem como objetivo educar seus discípulos para que tenham um senso crítica sobre as tradições de seu povo a fim de colocar em destaque a lei de Deus.


O texto do evangelho de hoje começa com a seguinte frase: “Jesus chamou a multidão para perto de si e disse: Escutai todos e compreendei...”. A frase “chamou a multidão” é um verdadeiro ato de convocação. Jesus faz isso de maneira concisa e incisiva e convida a multidão para pensar sobre aquilo que ele vai dizer a fim de entendê-lo. Não era fácil mudar a mentalidade daqueles que estavam ali, escutando Jesus.


Depois que atacou a hipocrisia dos fariseus que honram Deus apenas com os lábios enquanto que seu coração está longe d’Ele, agora Jesus expõe para todos o princípio sobre o santo e o profano: o que separa o homem de Deus não é o que procede de fora dele: “O que torna impuro o homem não é o que entra nele vindo de fora, mas o que sai do seu interior.  E Marcos acrescentou: “Assim Jesus declarava que todos os alimentos eram puros”.


O livro de Levítico (AT) enumera uma serie de animais que são tabu para o Povo eleito. Comê-los significava tornar-se impuro e impedia a pessoa de participar no culto de Deus (cf. Lv 11). Semelhante proibição está em contradição coma palavra de Deus a Noé: “Tudo o que se move e vive vos servirá de alimento...” (Gn 9,3). No entanto, era necessário o povo eleito aceitar a proibição para se defender dos cultos pagãos que usavam amplamente determinados animais. Por isso, não comê-los se convertia num sinal de que o povo eleito queria viver separado dos cultos pagãos e disponível ao culto a Deus.


Jesus não discute essa boa vontade e sim a forma de conceber o “puro” e o “impuro”. Por isso, Jesus declara: “O que torna impuro o homem não é o que entra nele vindo de fora, mas o que sai do seu interior.  A lei de Deus não é algo exterior e sim algo presente em nosso interior, em nosso coração que nos faz tomarmos atitudes e darmos respostas adequadas para o viver de cada dia. O puro e o impuro não devem ser procurados fora do homem, mas no seu coração. Dessa maneira, Jesus está em perfeita sintonia com os profetas; não se opõe à Lei e sim a aprofunda, a espiritualiza e vai à raiz do mal. Há uma impureza muito maior e a única que realmente se afasta de Deus: quando o homem se decide, livremente, pelo mal. Esta é a impureza que deve ser eliminada da vida ou do coração do homem.


Quando se fala do “coração”, deve ser entendido no sentido de toda a interioridade da pessoa, o centro da vida, das decisões e do encontro pessoal com Deus. Se o coração for bom, os gestos de relacionamento humano obedecem aos imperativos de humanizar, de fraternizar e de santificar a convivência. A pureza do agir depende da pureza do coração. Mas se o coração for mau, a vida é envenenada pela insatisfação, pela inveja, pelo ciúme, pela disputa, pela discriminação, pelo sensualismo, pelas más intenções e assim por adiante. Para Jesus, o teste decisivo para saber se o coração está perto de Deus é o comportamento fraterno para com o próximo. O coração é o lugar onde o homem se revela e onde Deus se revela. Em outras palavras pode-se dizer que a vida cristã se resume em uma palavra: AMOR. Mas o conceito do amor tem sido tão manipulado e profanado que requer uma clarificação para dissipar possíveis confusões. O amor, núcleo da vida cristã é uma atitude. Consiste em uma entrega total e desinteressada de nossa pessoa a Deus e ao próximo. A antítese do amor cristão é o ritualismo que utiliza Deus e os demais para o proveito próprio, ou um ritualismo que se desliga dos compromissos com a vida e com os problemas humanos. A relação com Deus não depende da observância de normas ou de gestos religiosos, mas da atitude fraterna para com os demais seres humanos. Muitas vezes, somos fiscais do comportamento alheio como os fariseus, gente sempre pronta a julgar, a criticar, a condenar o próximo a partir de detalhes, muitas vezes, mínimos. Às vezes são até pessoas aparentemente boas, que acabam estragando a convivência porque adoram exibir o seu estrito cumprimento de todas as regras, sociais e religiosas, com o intuito de diminuir os demais. “Seja humilde para evitar o orgulho, mas voe alto para alcançar a sabedoria”, dizia Santo Agostinho (In ps. 130,12). Muitas vezes também nós andamos a toda hora medindo a piedade alheia pelos padrões das nossas próprias normas, sem perceber que, ao fazermos isso, estamos bloqueando o acolhimento, o testemunho de comunhão e de fraternidade que são alguns dos valores importantes na Igreja e na vida cotidiana. Precisamos estar conscientes de que a dignidade da pessoa humana não consiste em parecer bom, mas em ser bom. “É mais fácil simular virtudes do que possuí-las. Por isso, o mundo está cheio de farsantes”, dizia Santo Agostinho (De mor. Eccl. Cath. 1,12). Tudo é puro quando sai de um coração limpo. Mas tudo pode ser inútil, se for contaminado pela vaidade, pelo exibicionismo ou pela hipocrisia. Por isso, a conversão do coração e as vitórias interiores sempre são necessárias, pois elas acabam melhorando a conduta de qualquer um de nós e a qualidade de nossa convivência.


Honrar a Deus de verdade, para Jesus, não é apenas estar em dia com os regulamentos nem seguir devoções particulares. Honrar a Deus é fazer prevalecer a caridade fraterna, estar ao lado dos que sofrem que nos exigem gestos concretos de bondade e de amor para com eles. A vida no Espírito é antes uma realidade interior. A partir daí, o exterior é manifestação de uma verdade mais profunda. A comunidade não se cria por decreto, mas nasce quando as pessoas têm um coração que sabe amar e respeitar aos outros e quando fazem circular um espírito novo, de união e de preocupação mútua pelo crescimento dos outros.


Se quisermos cumprir a lei de Deus, devemos ter em vista sempre, em primeiríssimo lugar, os objetivos do projeto de Deus. Ele quer mais vida, mais amor, mais compaixão e misericórdia, mais partilha, mais igualdade e mais justiça. Esse é o critério mais evangélico para avaliar a legitimidade de nossa vida cristã e do nosso modo de seguir a lei. Somos Igreja para nos ajudarmos uns aos outros a crescer, não para virarmos fiscais das virtudes e da vida alheias. Somos chamados a construir um mundo mais humano e fraterno, pois Deus é o Pai de todos. “É preciso amar os homens não pela simpatia que nos inspiram nem pelas qualidades que apreciamos, mas porque Deus os ama” (Martin Luther King).


P. Vitus Gustama,svd

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