segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

11/02/2017
 



VIDA VIVIDA EM DEUS E NA PARTILHA É A VIDA EM PLENITUDE

Sábado Da V Semana Do Tempo Comum

Primeira Leitura: Gn 3,9-24

9 O Senhor Deus chamou Adão, dizendo: “Onde estás?” 10E ele respondeu: “Ouvi tua voz no jardim, e fiquei com medo porque estava nu; e me escondi”. 11 Disse-lhe o Senhor Deus: “E quem te disse que estavas nu? Então comeste da árvore, de cujo fruto te proibi comer?” 12 Adão disse: “A mulher que tu me deste por companheira, foi ela que me deu do fruto da árvore, e eu comi”. 13 Disse o Senhor Deus à mulher: “Por que fizeste isso?” E a mulher respondeu: “A serpente enganou-me e eu comi”. 14Então o Senhor Deus disse à serpente: “Porque fizeste isso, serás maldita entre todos os animais domésticos e todos os animais selvagens! Rastejarás sobre o ventre e comerás pó todos os dias da tua vida! 15Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar”. 16À mulher ele disse: “Multiplicarei os sofrimentos da tua gravidez: entre dores darás à luz os filhos; teus desejos te arrastarão para o teu marido, e ele te dominará”. 17E disse em seguida a Adão: “Porque ouviste a voz da tua mulher e comeste da árvore, de cujo fruto te proibi comer, amaldiçoado será o solo por tua causa! Com sofrimento tirarás dele o alimento todos os dias da tua vida. 18Ele produzirá para ti espinhos e cardos e comerás as ervas da terra; 19comerás o pão com o suor do teu rosto até voltares à terra de que foste tirado, porque és pó e ao pó hás de voltar”. 20E Adão chamou à sua mulher “Eva”, porque ela é a mãe de todos os viventes. 21Então o Senhor Deus fez para Adão e sua mulher túnicas de pele e as vestiu. 22Disse, depois, o Senhor Deus: “Eis que o homem se tornou como um de nós, capaz de conhecer o bem e o mal. Não aconteça, agora, que ele estenda a mão também à árvore da vida para comer dela e viver para sempre!” 23E o Senhor Deus o expulsou do jardim de Éden, para que ele cultivasse a terra donde fora tirado. 24Expulsou o homem, e colocou a oriente do jardim de Éden os querubins, e a espada lampejante de chamas, para guardar o caminho da árvore da vida.

Evangelho: Mc 8,1-10

1Naqueles dias, havia de novo uma grande multidão e não tinha o que comer. Jesus chamou os discípulos e disse: 2“Tenho compaixão dessa multidão, porque já faz três dias que está comigo e não têm nada para comer. 3Se eu os mandar para casa sem comer, vão desmaiar pelo caminho, porque muitos deles vieram de longe”. 4Os discípulos disseram: “Como poderia alguém saciá-los de pão aqui no deserto?” 5Jesus perguntou-lhes: “Quantos pães tendes?” Eles responderam: “Sete”. 6Jesus mandou que a multidão se sentasse no chão. Depois, pegou os sete pães, e deu graças, partiu-os e ia dando aos seus discípulos, para que o distribuíssem. E eles os distribuíram ao povo.7Tinham também alguns peixinhos. Depois de pronunciar a bênção sobre eles, mandou que os distribuíssem também. 8Comeram e ficaram satisfeitos, e recolheram sete cestos com os pedaços que sobraram. 9Eram quatro mil, mais ou menos. E Jesus os despediu. 10Subindo logo na barca com seus discípulos, Jesus foi para a região de Dalmanuta.
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Pecado e Suas Conseqüências No Relacionamento Com Deus, Com Próximo, consigo Próprio e Com a Natureza

O texto da Primeira Leitura contém uma cena muito viva que nos é relatado depois do pecado de Adão e Eva. Deus pede contas, e cada um dos protagonistas se defende, se esconde e joga culpa no outro. O homem quase se atreve em jogar as culpas para o próprio Deus: “A mulher que tu me deste por companheira, foi ela que me deu do fruto da árvore, e eu comi”.

Este texto, com uma aparência ingênua, tem uma surpreendente profundidade filosófica e teológica.

1.    O homem, feito para a “relação com Deus” destrói esta harmonia por seu pecado. O homem começa a ter medo de Deus. Ele não considera mais Deus como Pai e sim como rival.

2.    O homem, feito para a “relação com seu semelhante” destrói tudo isso por seu pecado. O “semelhante” do homem foi apresentado como “osso de seus ossos e a carne de sua carne”. Agora esta relação se rompe e faz acusação contra sua mulher: “A mulher que tu me deste por companheira, foi ela que me deu do fruto da árvore, e eu comi”. É o primeiro conflito da humanidade nascente. Atrás dessas palavras entrevemos as lutas, as iras, os golpes, as guerras, as violências de todo tipo. Se os pais, Adão e Eva estão desunidos, seus filhos, Caim e Abel, vão mais longe, até o derramamento de sangue (Cf. Gn 4,1-8).

3.    O homem, feito para a “harmonia de seu ser”, se sente dividido em seu próprio interior. Adão e Eva nos foram apresentados como seres inocentes nos quais o corpo e a alma estavam em perfeita harmonia: estavam nus e não se envergonhavam disso. Agora se sentem obrigados a se vestir, seus maus desejos são decididamente demasiado fortes, seus corpos são difíceis de dominar, os instintos violentos se despertem em qualquer momento. Atrás destas palavras entrevemos todas as tendências que o corpo provoca: orgias, alcoolismo, droga, sexualidade mal controlada.

4.     O homem, feito para a “relação com a natureza”, fica duramente submetido a ela. Adão e Eva foram colocados num meio ambiente feliz, num “Jardim” bem ornamentado com árvores cheias de boas frutas para alimento. Inclusive, os animais eram seus amigos e a serpente falava discretamente. Agora em diante tudo será diferente. O homem fica marcado por seu trabalho essencial, seu ofício, e o suor é o sinal do esforço a fazer para “ganhar sua vida”. A mulher fica marcada por seu trabalho essencial, dar a luz a seus filhos: “Multiplicarei os sofrimentos da tua gravidez: entre dores darás à luz os filhos; teus desejos te arrastarão para o teu marido, e ele te dominará”. Atrás destas palavras, entrevemos as dificuldades da educação, os distintos sofrimentos que tecem a vida mulher.

Ao “roubar” de Deus o conhecimento do bem e do mal, isto é, ao não referir-se a ninguém maior que ele próprio para julgar as coisas e as pessoas, o homem introduz a maldição no mundo. Colocando-se no lugar de Deus, o homem não admite outro deus a não ser seu próprio eu e seu egoísmo. Consequentemente, as coisas não terão mais a bondade que Deus lhes conferiu quando foram criadas (depois de cada coisa criada fala-se: “Deus viu que era bom”). Outra conseqüência de o homem se colocar no lugar de Deus é que o bem e o mal, a vida e a morte se convertem em realidades contrastantes e inimigas entre si, porque o homem que as experimenta não pode, como Deus, perdoar o mal e convertê-lo em bem, nem curar a morte e fazê-la vida. Por causa disso, mesmo que semelhante a Deus, o homem não tem acesso à vida divina, capaz de transformar o mal e a morte.

O mal que acontece no mundo não se deve a Deus e sim à desordem do pecado que nós mesmos introduzimos em Seu plano. Por causa da ruptura com Deus de Bondade, pois somente criou tudo que era bom, a harmonia e o equilíbrio já não funcionam. Consequentemente, nós temos medo de Deus, não nos entendemos uns com os outros e somos expulsos do Jardim da felicidade (Paraíso). Queríamos ser como deuses, mas nos deparamos que somos finitos, frágeis e caducos, pois somos “iguais à erva verde pelos campos: de manhã ela floresce vicejante, mas à tarde é cortada e logo seca” (Sl 89/90: Salmo responsorial). Somente Deus é capaz de potenciar nossa humanidade. Sozinho, o homem não se salva. Por isso, “Ensinai-nos a contar os nossos dias, e dai ao nosso coração sabedoria! Senhor, voltai-vos! Até quando tardareis? Tende piedade e compaixão de vossos servos!” (Salmo responsorial).

Viver Com e Em Jesus É Viver Na Compaixão e Na Partilha

No evangelho de Mc se relata duas vezes a multiplicação dos pães (Mc 6,30-44; 8,1-10). A segunda multiplicação nós lemos neste dia e sucede em território pagão. Trata-se do banquete de Jesus com os pagãos. Assim Jesus se apresenta como Messias para todos, judeus e outros povos da terra. Ele veio para todos e por isso, ninguém escapa de seu amor.

O texto nos diz que “Jesus chamou os discípulos e disse: ’Tenho compaixão dessa multidão, porque já faz três dias que está comigo e não têm nada para comer’”. O povo se sente abandonado e que está ali porque quer confiar totalmente em Jesus, pois Jesus se apresenta como Pastor destinado para apascentar, restaurar e unificar o rebanho de Deus, o povo de Deus e não para dispersá-lo. Jesus é a revelação da misericórdia divina que quer socorrer e que se faz pão para todos.

Nesta segunda multiplicação, Jesus não manda os discípulos para que resolvam a fome da multidão como na primeira multiplicação (cf. Mc 6,37), mas Ele lhes manifesta a Sua preocupação: “Tenho compaixão dessa multidão, porque já faz três dias que está comigo e não têm nada para comer. Se eu os mandar para casa sem comer, vão desmaiar pelo caminho, porque muitos deles vieram de longe”.  “Tenho compaixão dessa multidão”. Nosso Deus é um Deus compassivo. Ele é “louco” de amor por nós todos: “Pode uma mulher esquecer-se daquele que amamenta? Não ter ternura pelo fruto de suas entranhas? E mesmo que ela o esquecesse, eu não te esqueceria nunca”, diz o Senhor (Is 49,15). Somos frutos deste amor “louco” de Deus.

Os discípulos pensam que deveria ter bastante dinheiro para comprar pão para alimentar o povo. O problema se torna grave ainda, pois o povo se encontra no deserto (longe dos povoados): “Como poderia alguém saciá-los de pão aqui no deserto?”.

Mas Jesus encontra a solução no próprio povo que os próprios discípulos deixam de lado: “Quantos pães vós tendes?”. E os seus discípulos responderam: “Sete”. “Sete” é um número simbólico indicativo das nações.  Sete era o número das nações pagãs habitantes da terra de Canaã (cf. At 13,19). A totalidade das nações é setenta (7x10). O sete era o numero da perfeição e da totalidade, da plenitude acabada e perfeita (Santo Agostinho), da universalidade (Santo Tomás), o numero que une o par e o impar, o fechado e o aberto, o visível e o invisível. Para os autores do século XII o sete tinha uma dignidade suprema: sete foram os dias da criação, sete eram os dons do Espírito Santo, sete virtudes (três teologais, quatro cardinais), sete os pecados capitais.

Isso significa que a partilha (com cinco pães e dois peixes) é a plenitude da vida, pois a alma do projeto de Jesus é a partilha, a generosidade. A plenitude da vida está na partilha, está na generosidade, está na solidariedade. A partilha, a generosidade, e a solidariedade tiram o homem da garra da ganância para transformá-lo em irmão para os demais, especialmente para os necessitados. A generosidade transforma o coração de pedra em coração humano para sentir novamente a necessidade dos outro. A generosidade é o caminho da libertação; é o caminho da fraternidade. “Somente uma vida vivida para os outros, vale a pena ser vivida”, dizia Albert Einstein. Através da partilha assumimos uma parte do fardo de dor que pesa sobre a humanidade.

Jesus resolve o problema da fome a partir da partilha e da solidariedade do próprio povo, a partir do amor mútuo. “Ensine muito cedo os seus filhos que o pão dos homens é feito para ser dividido” (P. Carré). “Quem espera o supérfluo para dar aos pobres, nunca lhes dará nada” (Provérbio chinês). O amor que se faz piedade e compaixão tem uma força enorme que leva à ação concreta para resolver o problema existente. De fato, o evangelista nos relatou que houve “sete cestos com os pedaços que sobraram”.

“Tenho compaixão dessa multidão”, disse Jesus aos discípulos. Aprendemos de Jesus seu bom coração, sua misericórdia diante das situações de fome e de outras necessidades da grande maioria. Não sabemos fazer milagres porque não temos poder para fazer isso. Mas há multiplicações de pães, de paz e de esperança, de cultura e de bem-estar que não necessitam do poder milagroso, e sim de um bom coração, semelhante ao de Jesus Cristo para fazer o bem. Através do milagre da multiplicação dos pães Jesus quer nos ensinar que a força de solidariedade não fará falta o essencial na vida de todos. O egoísmo, ao contrário, causa a fome da maioria, pois uns querem agarrar tudo. Onde há o acúmulo de bens, há a fome para a maioria.

Nas duas multiplicações Jesus faz o mesmo gesto: “Pegou os sete pães, e deu graças”.  Esse gesto nos recorda a Eucaristia. A mensagem é, portanto, bastante clara para nós: aqueles que participam da Eucaristia devem ter o espírito de partilha e de doação. É ser pessoa eucarística. Além disso, nas duas multiplicações dos pães há sobras. Isto indica que o alimento distribuído é inesgotável. É o símbolo de um ato que terá que ser repetido constantemente pelos cristãos e pelas pessoas de boa vontade. Se cada um tirar um pouco de bom que tem para os outros, jamais faltará nada no mundo. Este é o grande desafio da espiritualidade eucarística. Viver eucaristicamente significa viver na permanente solidariedade e partilha. Sem tudo isto, a eucaristia da qual participamos carecerá de sentido. Partilha e solidariedade são formas de ação de graças a Deus por tudo que temos e recebemos de Deus.

A multiplicação dos pães por parte de Jesus não é um quadro de um museu, nem é uma peça arqueológica. Os que assumem a causa de Jesus, os que se dizem cristãos devem viver continuamente a espiritualidade da partilha e da solidariedade. Diante do Senhor cada cristão deve se perguntar: Senhor o que queres de mim neste mundo com tantos famintos em todos os sentidos? Nós cristãos temos que fazer possível o milagre da solidariedade, da partilha, da compaixão, do amor mútuo no meio de tantas pessoas governadas pelo egoísmo, pelos interesses particulares. O amor vencerá, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16).

P. Vitus Gustama,svd

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