sábado, 11 de fevereiro de 2017

15/02/2017
VISÃO TOCADA POR JESUS É CAPAZ DE VER AS MARAVILHAS DE DEUS NA VIDA DIÁRIA

Quarta-Feira Da VI Semana Do Tempo Comum

Primeira Leitura: Gn 8,6-13.20-22

6 Passados quarenta dias, Noé abriu a janela, que tinha feito na arca, e soltou um corvo, 7 que ficou revoando, até que secassem as águas sobre a terra. 8 Soltou, também, uma pomba para ver se as águas tinham baixado sobre a face da terra. 9 Mas a pomba, não achando onde pousar, voltou para junto dele na arca; porque as águas ainda cobriam a superfície de toda a terra. Noé estendeu a mão para fora, apanhou a pomba e recolheu-a na arca. 10 Esperou, então, mais sete dias e soltou de novo a pomba. 11 Pela tardinha, ela voltou, e eis que trazia no bico um ramo de oliveira com as folhas verdes. Assim, Noé compreendeu que as águas tinham cessado de cobrir a terra. 12 Esperou ainda sete dias, e soltou a pomba, que não voltou mais. 13 Foi no ano seiscentos e um da vida de Noé, no primeiro dia do primeiro mês, que as águas se retiraram da terra. Noé abriu o teto da arca, olhou e viu que toda a superfície da terra estava seca. 20 Então Noé construiu um altar ao Senhor e, tomando animais e aves de todas as espécies puras, ofereceu holocaustos sobre o altar. 21 O Senhor aspirou o agradável odor e disse consigo mesmo: “Nunca mais tornarei a amaldiçoar a terra por causa do homem, pois as inclinações do seu coração são más desde a juventude. Não tornarei, também, a ferir todos os seres vivos, como fiz. 22 Enquanto a terra durar, plantio e colheita, frio e calor, verão e inverno, dia e noite, jamais hão de acabar”.

Evangelho: Mc 8,22-26

Naquele tempo, 22Jesus e seus discípulos chegaram a Betsaida. Algumas pessoas trouxeram-lhe um cego e pediram a Jesus que tocasse nele. 23Jesus pegou o cego pela mão, levou-o para fora do povoado, cuspiu nos olhos dele, pôs as mãos sobre ele, e perguntou: “Estás vendo alguma coisa?” 24O homem levantou os olhos e disse: “Estou vendo os homens. Eles parecem árvores que andam”. 25Então Jesus voltou a pôr as mãos sobre os olhos dele e ele passou a enxergar claramente. Ficou curado, e enxergava todas as coisas com nitidez. 26Jesus mandou o homem ir para casa, e lhe disse: “Não entres no povoado!”
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Com Seu Coração Magnânimo Deus Continua Acreditando No Homem

Nunca mais tornarei a amaldiçoar a terra por causa do homem, pois as inclinações do seu coração são más desde a juventude. Não tornarei, também, a ferir todos os seres vivos, como fiz. Enquanto a terra durar, plantio e colheita, frio e calor, verão e inverno, dia e noite, jamais hão de acabar”, prometeu Deus que lemos na Primeira Leitura de hoje.

Que lição nós podemos tirar do relato sobre o dilúvio que o texto da Primeira Leitura nos apresenta neste dia?

É digno de sublinhar aqui no relato do dilúvio a importância do papel de cada individuo a exemplo de Noé. O individuo (Noé) é eleito por Deus e é chamado pelo seu nome (Gn 7,1-4). O individuo responde à Palavra de Deus e segue seu mandato (Gn 7,5). Neste individuo, nele e sobre ele, se congrega todo o mundo salvo, se regeneram os homens e sua vida. Flutuando sobre as águas, ele sobrevive do juízo de Deus e supera a catástrofe.  A arca oculta a bênção de Deus e garante a preservação da humanidade. Por Noé, como um indivíduo, são salvos sua mulher, seus filhos e as mulheres de seus filhos; são salvos os animais, os puros e os impuros, um par de cada espécie. O indivíduo, através deste relato, tem uma função salvadora e santificadora para toda a comunidade.

É muito importante revermos nosso modo de viver como indivíduos. Será que cada um de nós pode ser chamado de o indivíduo capaz de salvar a comunidade mesmo sendo sozinho como justo e honesto? Noé nos diz muita coisa sobre a vocação de cada um de nós como indivíduo chamado para salvar e preservar a vida humana e a criação como toda. Ninguém pode se desprezar na sua vocação para salvar mesmo sendo apenas um indivíduo. Quando Deus e o individuo justo, como Noé, se juntarem, sairá a salvação de muitas pessoas. Quantas pessoas na sociedade, como Noé, que trabalham individualmente em prol de salvação de tantas pessoas abandonadas e que trabalham silenciosamente, porém suas obras gritam por elas?! Nossa sociedade e nossa Igreja continuam em busca de novos Noés para salvar a vida humana e toda a criação.

Em segundo lugar, a arca foi o instrumento da salvação de Noé e de sua família. Com estes “restos” da humanidade Deus volta a começar a história de suas maravilhas sobre a humanidade. A humanidade que sai da arca é uma humanidade nova; a salvação realizada equivale a uma nova criação, a uma ressurreição. A vida começa outra vez. Para os salvos tudo é novo, como recéns-estreados, como recéns-saídos da mão de Deus. Tudo volta a ser bom.

A arca se converteu no paraíso onde reinava a paz, a harmonia, a amizade com Deus, pois todos são justos de Deus. Os santos Padres da Igreja viram na arca de Noé a imagem da Igreja. A arca é tipo da Igreja, comunidade dos fiéis e povo santo de Deus, imagem daquela família que confia no Deus uno e único e Lhe segue incondicionalmente apesar de qualquer tipo de catástrofe da vida. Tudo isto os primeiros cristãos expressaram maravilhosamente nas pinturas das catacumbas.

Precisamos reconquistar o paraíso perdido de nossa vida, de nossa convivência, por causa das catástrofes de nossos pecados, seguindo novamente as orientações de Deus através de Sua Palavra, pois Sua Palavra tem vida eterna (cf. Jo 6,68). A Palavra de Deus nos cria e recria apesar das catástrofes de nossa vida e nos promete apesar dos dilúvios de nossa existência. Ser justo de Deus, como Noé, é ser eterno começo e recomeço. Deus sempre quer renovar nossa vida toda vez que Ele nos encontrar no meio de qualquer catástrofe da vida, como aconteceu com Noé.

Em terceiro lugar, o autor do texto quer nos dizer que Deus gosta muito mais de salvar do que de “castigar”. Quando “castiga” é para servir como medicina ou remédio e pedagogia para a conversão. Depois do pecado de Adão e Eva, Deus promete a salvação. Depois do assassinato de Abel, Deus dá outro filho a Eva e deixa a porta aberta para a esperança. Depois do dilúvio, Deus sela um pacto de bênção para os homens. Deus continua acreditando no homem. Será que temos um coração magnânimo como o de Deus diante do mal que encontramos nos demais homens, nossos irmãos? Se Deus continua acreditando no homem apesar de seus pecados ou de suas fraquezas, por que negamos, muitas vezes, uma margem de confiança nos nossos irmãos que falharam na vida?

Em quarto lugar, Noé é apresentado como homem justo cujo coração é limpo de qualquer pecado e como homem cujo olhar é sempre dirigido a Deus. É um grande dom manter o olhar puro para o bem, para encontrar Deus em meio dos afazeres de cada dia, para ver os homens como filhos de Deus, para penetrar no que verdadeiramente vale à pena, para contemplar junto a Deus a beleza divina que deixou como um rastro nas obras da criação. Além disso, é necessário ter o olhar limpo para que o coração possa amar, para mantê-lo jovem.

O Senhor Necessita Tocar Nos Nossos Olhos Para Vermos As Maravilhas De Deus Na Nossa Vida e Em Toda Criação

O texto do evangelho de hoje pode ser chamado de “o evangelho interior”, pois o relato pretende mostrar a progressão da fé, a progressão do descobrimento da pessoa de Jesus.

O texto nos relatou que “Jesus pegou o cego pela mão, levou-o para fora do povoado, cuspiu nos olhos dele, pôs as mãos sobre ele” (Mc 8,23). Estes gestos de Jesus são os mesmos gestos que, no tempo de São Pedro se faziam sobre os catecúmenos, para conduzi-los da incredulidade à iluminação da fé. Teologicamente há que relacionar este milagre com a cura do “surdo-mudo” (Mc 7,31-37), que se encontra depois da primeira multiplicação dos pães (Mc 6,30-44) e a cura deste cego depois da segunda multiplicação (Mc 8,1-9).

“Jesus cuspiu nos olhos do cego” e este ficou curado da cegueira. A saliva indica que algo da vida de Jesus, de seu alento vital entra no cego. E “Pôs as mãos sobre o cego”. O gesto das mãos indica a bênção do céu desce sobre o cego.

Este processo nos recorda também o itinerário sacramental: com o contato, a imposição de mãos e a unção, Cristo nos quer comunicar sua salvação por meio de sua Igreja. A pedagogia dos gestos simbólicos, unida à palavra iluminadora é a própria dos sacramentos cristãos em sua comunicação da vida divina.

O que nos chama a atenção é que quando Jesus perguntou ao cego se estava vendo algo? E o cego respondeu que não estava vendo bem (ver as pessoas como se fossem árvore). Vem a pergunta para nossa cabeça: por acaso Jesus não foi capaz de fazer milagre?

A cura do cego, gradualmente, é colocada aqui de propósito num contexto em que se fala também da cegueira dos fariseus e dos discípulos. Por isso, trata-se de uma indicação simbólica.

A cura do cego acontece gradativamente. Primeiro o cego vê os outros como se fossem árvores (ele troca gente por árvores) e depois quando recebe o outro toque de Jesus, ele começa enxergar perfeitamente. Marcos, através deste detalhe, vê a lentidão do caminhar dos discípulos para chegar à fé profunda e para chegar à compreensão plena da mensagem de Jesus. Trata-se de uma cegueira espiritual capaz de não entender as palavras de Jesus ou capaz de deturpá-las. Faltava para os discípulos uma visão perfeita sobre quem era Jesus. Para eles Jesus era um messias rei cheio de poder e de glória (cf. Mc 10,35-45). Os discípulos são os que necessitam ser tocados nos olhos por Jesus, porque têm olhos, mas não veem (Mc 8,18). Jesus os toca, isto é, levar gradualmente, pouco a pouco, ao conhecimento profundo de Seu mistério.

A fé é um dom de Deus, mas a fé é também um caminho, um itinerário. Ela, às vezes ou muitas vezes, se encontra entre luzes e sombras, entre a claridade e a escuridão, tem seus avanços como seus recuos; às vezes ela nos dá coragem e em outras vezes, ela nos causa medo. O dom da fé requer nossa colaboração permanentemente, pois a fé não é um tesouro adquirido de uma vez só.

Por causa de nossa debilidade também nós avançamos lentamente para a fé no poder da Palavra de Deus. Muitas vezes ficamos meio cegos por algum tempo. Mas por nos esforçamos no nosso seguimento acabaremos compreendendo o significado da Palavra de Deus e enxergaremos melhor sobre o sentido da vida e de seus acontecimentos. É preciso que nos mantenhamos no caminho do progresso da fé em Jesus, o progresso do descobrimento da pessoa de Jesus diariamente. Somente convivendo com uma pessoa diariamente é que acabaremos conhecendo melhor quem é ela.

Além disso, freqüentemente nos encontramos muito cegos espiritualmente que nos incapacita a vermos o essencial para nossa vida. A falta de uma visão clara do essencial faz com que tenhamos uma visão deturpada de tudo na nossa vida. O contato permanente com Jesus devolve nossa capacidade de percebermos e de vermos com clareza para cada coisa no seu devido lugar. É um grande dom manter o olhar limpo para o bem, para encontrarmos Deus no meio de nossas ocupações de cada dia, para vermos os homens como filhos de Deus, para penetrarmos no que verdadeiramente vale a pena para a edificação do homem, para vermos a beleza de Deus no universo. É preciso termos um olhar limpo para que o coração possa amar e mantê-lo jovem.

Não tenhamos que perder a paciência nem com nós mesmos nem com aqueles que queremos ajudar em seu caminho de fé. Não podemos exigir resultados imediatos. Cristo teve paciência com todos os discípulos e com as demais pessoas. Para um cego ele impôs as mãos duas vezes até que ele começou a enxergar completamente. Deve ficar claro para nossa vida comunitária que Jesus se chega passo a passo fora dos cálculos humanos. As intervenções de Deus são também pedagógicas e pacientes com uma sabedoria que nós não conhecemos e por isso, nem sempre compreendemos. Quando tivermos um pouco de amor no coração, a paciência vai nos ajudar a ter mais forças para superar tudo.

“Tu vês algo?”. É a pergunta de Jesus ao cego. Esta mesma pergunta é dirigida a cada um de nós. Será que podemos responder que estamos vendo bem? Jesus nos pergunta se nós vemos com os olhos da fé, isto é, se em tudo que fazemos/fizermos tem por trás a mão de Deus? O que é que vemos em um ser humano? Que conceito nós temos sobre um ser humano? Vemos um ser humano como um objeto (árvore) ou como um irmão, pois ele é o filho de Deus? Um verdadeiro conceito sobre um ser humano muda nosso modo de tratar as pessoas. Mas sem a ajuda de Deus, sem o contato permanente com Deus não conseguiremos ver a beleza do dom da vida, das pessoas, do universo. Por falta dessa visão clara tropeçaremos permanentemente nesta vida.

P. Vitus Gustama,svd

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