quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

27/02/2017
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USAR E PARTILHAR OS BENS MATERIAIS SEM SER POSSUIDO POR ELES FAZ PARTE DA VERDADEIRA CONVERSÃO


Segunda-Feira da VIII Semana Do Tempo Comum


Primeira Leitura: Eclo 17,20-28


20 Aos arrependidos Deus concede o caminho de regresso, e conforta aqueles que perderam a esperança, e lhes dá a alegria da verdade. 21 Volta ao Senhor e deixa os teus pecados, 22 suplica em sua presença e diminui as tuas ofensas. 23 Volta ao Altíssimo, desvia-te da injustiça e detesta firmemente a iniquidade. 24 Conhece a justiça e os juízos de Deus e permanece constante no estado em que ele te colocou, e na oração ao Deus altíssimo. 25 Anda na companhia do povo santo, com aqueles que vivem e proclamam a glória de Deus. 26 Não te demores no erro dos ímpios, louva a Deus antes da morte; o morto, como quem não existe, já não louva. 27 Louva a Deus enquanto vives; glorifica-o enquanto tens vida e saúde, louva a Deus e glorifica-o nas suas misericórdias. 28 Quão grande é a misericórdia do Senhor, e o seu perdão para com todos aqueles que a ele se convertem!


Evangelho: Mc 10,17-27


Naquele tempo, 17Ao retomar seu caminho, alguém correu e ajoelhou-se diante de Jesus, perguntando: “Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna?” 18Jesus respondeu: “Por que me chamas bom? Ninguém é bom senão só Deus.19Tu conheces os mandamentos: não mates; não cometas adultério; não roubes; não levantes falso testemunho; não defraudes ninguém; honra teu pai e tua mãe!” 20Entao, ele replicou: “Mestre, tudo isso eu tenho guardado desde minha juventude”. 21Fitando-o, Jesus o amou e disse: “Uma só coisa te falta: vai, vende o que tens, dá aos pobres, e terás um tesouro no céu. Depois vem e segue-me!” 22Ele, porém, contristado com essa palavra, saiu pesaroso, pois era possuidor de muitos bens. 23Entao Jesus, olhando em torno, disse a seus discípulos: “Como é difícil a quem tem riquezas entrar no Reino de Deus!” 24Os discípulos ficaram admirados com essas palavras. Jesus, porém, continuou a dizer: “Filhos, como é difícil entrar no Reino de Deus! 25É mais fácil um camelo passar pelo fundo da agulha do que um rico entrar no Reino de Deus!” 26Eles ficaram muito espantados e disseram uns aos outros: “Então, quem pode ser salvo?” 27Jesus, fitando-os, disse: “Aos homens é impossível, mas não a Deus, pois para Deus tudo é possível”.
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Converter-Se É Voltar-se Para Deus, o Bem Maior


Aos arrependidos Deus concede o caminho de regresso, e conforta aqueles que perderam a esperança, e lhes dá a alegria da verdade” é a mensagem que o autor do Eclesiástico nos transmite.


Deus, que não quer a morte do pecador e sim que se converta e viva, está sempre disposto a perdoar o pecador arrependido e esquecer seus pecados, e inclusive, socorre com sua graça e os que se sentem tentados a cair no desalento e no desespero. Com frequência experimentamos a incapacidade de nos mudar por nossas próprias forças, mas a graça de Deus está à disposição para nos ajudar. Também Jesus nos olha hoje com carinho individualmente e nos diz o mesmo convite: “Siga-me!, pois falta uma coisa em você que se encontra em mim: a salvação”.


Depois de falar da misericórdia de deus para aqueles que se arrependeram de seus pecados, o autor do Eclesiástico faz uma exortação para se converter ao Senhor: “Volta ao Senhor e deixa os teus pecados, suplica em sua presença e diminui as tuas ofensas. Volta ao Altíssimo, desvia-te da injustiça e detesta firmemente a iniquidade”.


Converter-se é em hebraico como também em latim, voltar-se, voltar: o homem volta para Deus, porque Deus o chama. É uma voz que salva a distância e supera os obstáculos para voltar a criar presença e intimidade. A conversão é um retorno. Jesus ilustra de maneira inesquecível essa imagem do retorno com a maravilhosa parábola do filho pródigo (cf. Lc 15,11-32).


O pecado é sempre um afastamento. Com o pecado se estabelecem distâncias, se abandona a casa paterna. Por Jesus sabemos que o Pai continua nos esperando nossa volta.


A conversão implica um duplo movimento. O movimento do pecador que se volta para Deus. Este movimento cria a liberdade. E o movimento de Deus que abre o caminho do retorno. O movimento de Deus que se chama a Graça.


A celebração eucarística nós começamos com um breve ato penitencial, reconhecendo diante de Deus nossa debilidade e pedindo-Lhe que nos purifique interiormente. É uma boa maneira de começar a nos deixar dominar pela graça do Ressuscitado. Mas temos outro Sacramento, o da Reconciliação destinado especificamente para celebrar esta conversão e o perdão recebido de Deus. Da parte de Deus há perdão. Da nossa parte é a conversão.


Daqui a alguns dias começaremos o tempo da quaresma, a preparação para a Páscoa. Essa vida ressuscitado, livre do pecado e do egoísmo é que Deus quer nos comunicar mediante Seu Espirito. O cristão ou qualquer crente nunca está plenamente convertido, pois em qualquer momento ele pode cair no pecado. É necessária a oração para obter o perdão dos pecados e perseverar na amizade divina. É preciso afastar-se dos obstáculos e ocasiões que nos levam ao pecado. A conversão constitui uma mudança radical a respeito da precedente conduta.


Despojar-Se Dos Bens Materiais Faz Parte Da Verdadeira Conversão


Lemos no evangelho deste dia que “alguém” (sem nome, que pode ser qualquer um de nós) correu ao encontro de Jesus para fazer a seguinte pergunta: “Bom mestre, que farei para herdar a vida eterna?” É uma pergunta que jovens faziam aos rabis, quando se apresentavam para iniciarem a formação acadêmica nas escolas hebraicas: que devo fazer? No evangelho de Mateus o jovem rico diz: “Mestre, que farei de bom para ter a vida eterna?” (Mt 19,16).


Antes de responder à pergunta desse rico, Jesus se cautela diante do apelativo “bom”: “Por que me chamas bom? Ninguém é bom senão só Deus”. Essa precisão servirá para se compreender a resposta que Jesus fará a esse rico. Esta observação de Jesus corresponde perfeitamente à concepção bíblica e judaica segundo a qual só Deus é chamado bom, porque ele usa de misericórdia, socorre os pobres e defende os fracos (cf. Dt 10,18). Por isso, a única condição para entrar na vida eterna é imitar o único bom, Deus. A fidelidade a Deus é exercida no amor ao próximo, síntese dos mandamentos (cf. Rm 13,8-10).   


Jesus prossegue, indicando ao seu interlocutor o caminho para “herdar” a vida definitiva junto a Deus, e citou só os mandamentos que se referem aos deveres para com o próximo (v.19). Jesus omite os mandamentos referentes a Deus. Em vez disso, ele recorda os éticos, os que se referem ao próximos, que são independentes de todo contexto religioso: Tu conheces os mandamentos: não mates; não cometas adultério; não roubes; não levantes falso testemunho; não defraudes ninguém; honra teu pai e tua mãe!”.  O rico responde: “Mestre, tudo isso eu tenho guardado desde a minha juventude” (v.20).


O texto prossegue: “Fitando-o, Jesus o amou e disse: ’uma só coisa te falta: vai, vende o que tens, dá aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me’” (v.21).


“Fitar” é o mesmo que cravar, admirar, fixar a atenção e o pensamento, ficar imóvel. O sinal distintivo da identidade do discípulo é seguir a Jesus, isto é, ficar envolvido em seu destino, seu modo de amar e de ser fiel ao outro homem até o testemunho supremo da cruz (cf. Jo 13,1). A diferença entre a renúncia aos bens como estilo de vida e o seguimento evangélico está nessas duas palavras de Jesus: “dá-os aos pobres”. Se nos detivermos na primeira: “vai e vende tudo o que tens”, ainda nós estaremos no limiar do evangelho que para termos liberdade interior, devemos nos afastar (longe de cobiça ou ganância) de todas as coisas e preocupações materiais.


A novidade evangélica é o convite: “dá aos pobres, porque assim tu imitas o único bom, Deus; depois vem e segue-me”. Trata-se de seguir aquele que, pelos pobres, deixou não só sua atividade, a segurança social e os laços de parentesco, mas também entrega sua própria existência como dom de amor pelos muitos, pela libertação deles (cf. Mc 10,45).


O homem rico, pelo seu apego à riqueza, não aceita o convite de Jesus. Seu amor aos outros é relativo, não chega ao nível necessário para um cristão. Não está disposto a trabalhar por uma mudança social, por uma sociedade justa; a antiga lhe basta. Prefere o dinheiro ao bem do homem.


A cena do evangelho de hoje é simpática: uma pessoa (jovem) inquieta que busca caminhos e quer dar um sentido mais pleno para sua vida. Mas o diálogo, que prometeu muito, acaba em fracasso. Tampouco Jesus consegue tudo o que quer em sua pregação, pois ele respeita, com delicadeza, a liberdade das pessoas. Alguns lhe seguem, deixando tudo para trás, como os apóstolos. Outros, como o homem rico no evangelho de hoje, ficam para trás, pois seus bens estão na sua frente que acabam não vendo mais nada senão os bens.


O jovem rico se converteu em símbolo de qualquer cristão que quando chegou o momento não quis aceitar a mensagem de Jesus. Jesus não pede “coisas” e sim a entrega total. Não se trata de “ter”, mas trata-se de “ser” e de “seguir” vitalmente a Jesus: “Quem quer me seguir, carregue sua cruz de cada dia e me siga. Quem quer guardar sua vida, vai perdê-la”. Para todos nós custa muito renunciar ao que estamos apegados: as riquezas ou ideias ou a família, ou os projetos individuais ou a mentalidade. Quando estamos cheios de coisas, menos agilidade para avançarmos pelo caminho de vida e de Deus. Um atleta que quer correr, mas com uma mala às costas, será difícil conseguir medalha.


Jesus pede a todos os seus seguidores que tenham o desprendimento que sabe se conformar com o necessário e compartilhar com os outros o que se tem, sem entesourar nem incorrer na idolatria do dinheiro como bem supremo. Um dia seremos obrigados a largar tudo quando chegar nosso momento para partir deste mundo. De fato, temos apenas o usufruto das coisas criadas por Deus para nossa felicidade neste mundo e não para possuí-las.


P. Vitus Gustama,svd

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