sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

28/02/2017

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LARGAR TUDO PARA SER SALVO E PARA SALVAR OS OUTROS


Terça-Feira Da VIII Semana Do Tempo Comum


Primeira Leitura: Eclo 35,1-15


1 Aquele que guarda a lei faz muitas oferendas; 2 aquele que cumpre os preceitos oferece um sacrifício salutar(3). 4 Aquele que mostra agradecimento, oferece flor de farinha, e o que pratica a beneficência oferece um sacrifício de louvor. 5 O que agrada ao Senhor é afastar-se do mal, e o que o aplaca é deixar a injustiça. 6 Não te apresentes na presença de Deus de mãos vazias, 7 porque tudo isso se faz em virtude do preceito. 8 O sacrifício do justo enriquece o altar, o seu perfume sobe ao Altíssimo. 9 A oblação do justo é aceitável, e sua memória não cairá no esquecimento. 10 Honra ao Senhor com coração generoso e não regateies as primícias que apresentares. 11 Faze todas as tuas oferendas com semblante sereno, e com alegria consagra o teu dízimo. 12 Dá a Deus segundo a doação que ele te fez, e com generosidade, conforme as tuas posses; 13 porque ele é um Deus retribuidor, e te recompensará sete vezes mais. 14 Não tentes corrompê-lo com presentes: ele não os aceita; 15 nem confies em sacrifício injusto, porque o Senhor é um juiz que não faz discriminação de pessoas.


Evangelho: Mc 10,28-31


Naquele tempo, 28começou Pedro a dizer a Jesus: “Eis que nós deixamos tudo e te seguimos”. 29Respondeu Jesus: “Em verdade vos digo, quem tiver deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos, campos, por causa de mim e do Evangelho, 30receberá cem vezes mais agora, durante esta vida — casa, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, com perseguições — e, no mundo futuro, a vida eterna. 31Muitos que agora são os primeiros serão os últimos. E muitos que agora são os últimos serão os primeiros”.
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A Liturgia e a Prática Do Bem e Da Caridade São Inseparáveis


A questão que a Primeira Leitura deste dia quer colocar em destaque é esta: o que é mais importante, os sacrifícios rituais do Templo ou uma vida segundo a vontade de Deus? A comparação entre a “liturgia” e a “caridade” aparece muitas vezes tanto no AT como no NT. Aqui o autor do Eclesiástico faz um equilíbrio entre as duas dimensões na vida do crente.


Jesus Ben Sirac, o autor do Eclesiástico, nos afirma através do texto da Primeira Leitura que o verdadeiro sacrifício agradável a Deus é o cumprimento de Seus mandamentos e a prática das virtudes, sobretudo, a gratidão para com Deus, Autor de todos os benefícios que temos recebido durante a vida, e a misericórdia para com o necessitado, tantas vezes recomendada pela lei. Deus se compadece com quem se afasta do mal e da injustiça, e nisso, seu sacrifício serve para a expiação dos pecados cometidos anteriormente. O autor inculca a doutrina dos profetas de que não agradam a Deus os sacrifícios que não são acompanhados pelas devidas disposições interiores, do temor de Deus que se manifesta no fiel cumprimento da lei. Aqui aparece a preocupação do autor contra o nascente espirito farisaico, que descuidando do aspecto moral da vida, se preocupa mais com o ritual.


Há recomendações da Primeira Leitura que podemos aplicar na nossa vida de cristãos sem grandes esforços teológicos. O texto da Primeira Leitura nos afirma que a liturgia, para ser verdadeira, tem que ser acompanhada de boas obras na vida. No texto aparece a caridade como pedra de toque para saber se os sacrifícios rituais são somente aparência ou vem do mais profundo de nosso coração. O pobre e o oprimido, o órfão e a viúva, os desvalidos e desamparados constituem a pedra de toque para a justiça dos justos. Eles nos humanizam através da prática de caridade, de solidariedade e de compaixão. As predileções de Deus estão decididamente em favor dos necessitados.


Podemos pensar equivocadamente que com umas orações ou umas missas que participamos ou umas esmolas/oferendas já agradamos a Deus e já somos bons cristãos. Que bom que rezamos e levamos oferendas/coleta e oferecemos sacrifícios a Deus. Porém tudo isto deve ser acompanhado daquilo que afirma a verdadeira religião: cumprir a vontade de Deus, fazer favores ao próximo, ajudar ou ser solidário com os pobres, afastar-se do mal, fazer o bem e ser justo.


Que bom que oferecemos coisas. Mas sobretudo devemos oferecer nós mesmos como fez Jesus que se entregou a si mesmo no altar da cruz. E tudo isso devemos fazer sem chamar atenção de ninguém que sejamos santos ou bons cristãos. Devemos realizar ou praticar a caridade com simplicidade e autenticidade interior, pois o Pai que vê no escondido nos premiará com sua graça. Ir à missa, sim! Rezar, sim! Mas ao mesmo tempo ter coração bom para o próximo. Os sacrifícios “rituais” e o sacrifício “vital” de nossa pessoa devem caminhar juntos para que sejam agradáveis a Deus.


Largar Tudo Para Ganhar o Todo


No texto do evangelho nos é oferecida uma espécie de plenitude de oferenda que se pede na Primeira Leitura e como sugeriu Jesus ao jovem rico. Na linguagem bem chocante Jesus vem dizer que diante da importância e do amor ao Reino o resto vale muito pouco. São duras palavras.


O pescador Pedro com uma presunção diz a Jesus: “Eis que nós deixamos tudo e te seguimos”. Porém é quase verdade o que ele diz, porque deixaram a barca, os peixes, a proximidade familiar e seguiram a Jesus. Isto não é pouco. O que, provavelmente, não deixaram tudo foi sua mentalidade um tanto utilitarista e uma certa esperança de que com Jesus as coisas poderiam melhorar para eles. É a pequenez humana que não nos despojamos facilmente.


O texto do evangelho de hoje, como também o do dia anterior, se encontra na parte central do evangelho de Marcos (Mc 8,22-10,52). Este conjunto começa com a cura do cego (8,22-26) e termina com a mesma (10,46-52). Com isso Marcos quer nos mostrar que os discípulos continuam com sua incompreensão diante da missão de Jesus.


No início e no fim desta seção, Marcos coloca o tema de fé como dom de Deus. A fé faz ver quem é Jesus e faz entender o sentido da vida e de nossa presença neste mundo. Desde o começo da atividade pública de Jesus, Marcos mostrou-nos a cegueira dos discípulos. Mas Jesus fará tudo para, pouco a pouco, tirar a cegueira dos discípulos. A visão clara que se tem de Jesus não vem de uma só vez. Mas, aos poucos, com a ajuda de Jesus, vamos vendo com mais clareza e com maior nitidez quem é Jesus e o que significa seguir a este Jesus neste mundo. A fé também faz ver o caminho que Jesus trilhou e que devemos trilhar. Assim a seção começa e termina com a cura de um cego (8,22-26; 10,46-52). E essas duas curas têm uma função simbólica: para mostrar a cegueira dos discípulos. Elas também lembram o leitor de que é Jesus quem faz possível a fé daqueles que acreditam nele e O seguem no caminho.


No evangelho do dia anterior (Mc 10,17-27) o jovem rico recusou o convite de Jesus para que ele vendesse tudo que tinha para depois dar tudo aos pobres. Em vez de seguir a Jesus, Àquele que tem “as palavras da vida eterna” (Jo 6,68b), o jovem rico foi embora triste porque tinha muitos bens e não quis partilhá-los nem com os necessitados (pobres). Depois que ele foi embora, Jesus pronunciou esta frase para os discípulos: “Meus filhos, como é difícil entrar no Reino de Deus! É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus!”.


Os discípulos ficaram espantados diante da afirmação de Jesus. Para os discípulos seguir a Jesus significa enriquecer-se de bens materiais. Por isso ficaram assustados com as palavras de Jesus: “Então, quem pode ser salvo?” (Mc 10,26). Ao que Jesus respondeu: Aos homens é impossível, mas não a Deus, pois para Deus tudo é possível” (Mc 10,27). Para Jesus o caminho da vida consiste em enriquecer-se diante de Deus. Somente quem sabe perder a vida neste mundo por causa do evangelho vai recuperá-la na vida eterna. Salvar-se não está nas mãos do homem, mas é um dom gratuito de Deus e não pode merecer-se. Somente quando for acolhido o evangelho e viver-se na graça é que conduz a pessoa à vida eterna. Trata-se de uma vida sustentada pela força de Deus.


Ao ouvir a afirmação de Jesus, Pedro também perguntou a Jesus: “Eis que nós deixamos tudo e te seguimos”. E o evangelista Mateus explicita ou acrescenta a seguinte frase: “O que é que vamos receber?” (Mt 19,27). Pedro já abandonou tudo, desapegou-se de tudo para se aderir a Jesus e quer saber de Jesus qual será a recompensa do seguimento.


O que é que tem no fundo ou por trás da frase de Pedro? Está seu conceito político e interesseiro do Messianismo. Os discípulos buscam postos de honra, recompensas humanas, soluções econômicas e políticas. Eles querem transformar Jesus em empresário para resolver sua carência econômica.


Jesus, com sua paciência, continua educando os discípulos e lhes garante: “Em verdade vos digo, quem tiver deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos, campos, por causa de mim e do Evangelho, receberá cem vezes mais agora, durante esta vida — casa, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, com perseguições — e, no mundo futuro, a vida eterna”. A afirmação de Jesus vale para qualquer pessoa que se adere a Jesus e que se dedica à propagação do evangelho de Jesus. Jesus assegura que no Reino ou na nova sociedade, na nova família não haverá miséria, pois vivem na partilha, na solidariedade, na compaixão, na fraternidade. Nessa nova família não haverá domínio, nem desigualdade nem superioridade nem poder. Por isso, na segunda afirmação de Jesus a palavra “pai” não se menciona que é símbolo do poder ou de autoridade. Em Mateus podemos entender o sentido dessa afirmação quando Jesus disse: “Quanto a vós, não permitais que vos chamem ‘Rabi’, pois um só é o vosso Mestre e todos vós sois irmãos. A ninguém na terra chameis ‘Pai’, pois um só é o vosso Pai, o celeste” (Mt 23,8-9). Chamar Deus de Pai leva a pessoa a viver a fraternidade na convivência com os demais, pois todos são filhos e filhas de Deus (cf. 1Jo 3,1-2).


Necessitamos dos bens materiais como meio para o bem de nossa vida neste mundo, pois uma pessoa pode rezar ou meditar durante horas, mas no fim ela precisará de um pedaço de pão e de um copo de água. Mas reparamos que os bens materiais sempre são alheios a nós. Eles nunca serão nossos amigos. A vida feliz está na partilha, na solidariedade, na fraternidade, na compaixão, no amor mútuo, na caridade e assim por diante. A partilha é a alma do projeto de Jesus Cristo. Ele nos chama para segui-lo nessa direção. No evangelho de Marcos Jesus e seu Espírito vão ajudando os discípulos para que cheguem à maturidade de sua fé. Somente depois da ressurreição (Páscoa) eles vão se entregar também gratuito e generosamente ao serviço de Jesus Cristo e da comunidade até sua morte, pois eles captaram o sentido da mensagem de Jesus.


A resposta de Jesus diante da pergunta de Pedro é esperançosa e misteriosa, ao mesmo tempo: “Em verdade vos digo, quem tiver deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos, campos, por causa de mim e do Evangelho, receberá cem vezes mais agora, durante esta vida e, no mundo futuro, a vida eterna”. Não se trata de quantidades aritméticas (cem vezes). A resposta se refere à nova família que se cria em torno de Jesus: deixamos um irmão e encontramos cem irmãos (irmãs). O laço desta nova família está na prática da vontade de Deus que consiste na prática do bem e na vivência do amor fraterno: “Quem fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, irmã e mãe” (Mc 3,35).


Quantos irmãos e irmãs leigos, quantos pastores, quantos médicos e enfermeiros sem fronteiras e as demais pessoas de boa vontade que entregam sua melhor força e tempo para trabalhar pelo bem dos irmãos da comunidade e fora da comunidade e para ajudar os sofredores em todos os sentidos! Quantos sacerdotes, quantos religiosos e religiosas, quantas pessoas consagradas que não formaram a própria família, mas não por isso que deixaram de amar. Ao contrário, eles estão plenamente disponíveis para todos, movidos de um amor universal. Todos esses irmãos e irmãs são reflexos da generosidade de Jesus Cristo neste mundo. Jesus está presente nesses irmãos e irmãs, se quisermos perguntar onde está Jesus Cristo (cf. Mt 25,31-46). Jesus promete já desde agora uma grande satisfação e promete a vida eterna: “receberá cem vezes mais agora, durante esta vida e, no mundo futuro, a vida eterna”. Mas o verdadeiro amor supõe sacrifício, cruz e perseguição, porém, vale a pena! A Páscoa salvadora passa pelo caminho da Cruz da Sexta-Feira Santa. A vida do cristão não termina na Sexta-Feira Santa. Ela termina na ressurreição. A força da ressurreição dá força e anima o cristão para encarar a cruz da Sexta-Feira Santa. Jesus nos mostrou isso.


P. Vitus Gustama,svd

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