quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Domingo,05/02/2017

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SER SAL E LUZ DO MUNDO


V DOMINGO DO TEMPO COMUM  ANO “A”


I Leitura: Is 58,7-10


Assim diz o Senhor: 7 Reparte o pão com o faminto, acolhe em casa os pobres e peregrinos. Quando encontrares um nu, cobre-o, e não desprezes a tua carne. 8 Então, brilhará tua luz como a aurora e tua saúde há de recuperar-se mais depressa; à frente caminhará tua justiça e a glória do Senhor te seguirá. 9 Então invocarás o Senhor e ele te atenderá, pedirás socorro, e ele dirá: 'Eis-me aqui'. Se destruíres teus instrumentos de opressão, e deixares os hábitos autoritários e a linguagem maldosa; 10 se acolheres de coração aberto o indigente e prestares todo o socorro ao necessitado, nascerá nas trevas a tua luz e tua vida obscura será como o meio-dia.


II Leitura:1Cor 2,1-5


1 Irmãos, quando fui à vossa cidade anunciar-vos o mistério de Deus, não recorri a uma linguagem elevada ou ao prestígio da sabedoria humana. 2 Pois, entre vós, não julguei saber coisa alguma, a não ser Jesus Cristo, e este, crucificado. 3 Aliás, eu estive junto de vós, com fraqueza e receio, e muito tremor. 4 Também a minha palavra e a minha pregação não tinham nada dos discursos persuasivos da sabedoria, mas eram uma demonstração do poder do Espírito, 5 para que a vossa fé se baseasse no poder de Deus e não na sabedoria dos homens.


Evangelho - Mt 5,13-16


Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 13 Vós sois o sal da terra. Ora, se o sal se tornar insosso, com que salgaremos? Ele não servirá para mais nada, senão para ser jogado fora e ser pisado pelos homens. 14 Vós sois a luz do mundo. Não pode ficar escondida uma cidade construída sobre um monte. 15 Ninguém acende uma lâmpada, e a coloca debaixo de uma vasilha, mas sim, num candeeiro, onde brilha para todos que estão na casa. 16 Assim também brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e louvem o vosso Pai que está nos céus.
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O texto pertence ao complexo do Sermão da Montanha e continuação imediata das bem-aventuranças. Continuando seu discurso, usando pronomevós”, que se iniciou na última bem-aventurança, Jesus dirige-se explicitamente aos discípulos para falar-lhes da sua missão no mundo (identidade do discípulo): ser “o sal da terra” e “a luz do mundo”. Estas duas comparações formam parte do preâmbulo do Sermão da Montanha e estão muito relacionadas com a última bem-aventurança (Mt 5,11-12) que reflete a experiência da perseguição vivida pela comunidade de Mateus. Seu objetivo é animar os discípulos perseguidos e mostrar-lhes qual é a missão daqueles que vivem segundo o espírito das bem-aventuranças.


Vós sois o sal da terra... Vós sois a luz do mundo”. Jesus não diz isto porque o são: o são porque ele o disse, porque os chamou e, uma vez recebida sua adesão, os instaura em sua missão de “sal e luz”, como fará mais adiante com Simão quando lhe confiará a missão de Pedro (cf. Mt 16,18-19). Simão é Pedro porque Jesus o fez assim. O discípulo é “sal da terra” e “luz do mundoporque Jesus quer. São duas definições de discípulos que se unem aos precedentes, sobretudo, à de “misericordioso” e a de “portador de paz”, delineando o papel do discípulo na história ou no mundo.


As duas imagens de sal e luz enfatizam a identidade missionária e o estilo de vida dos discípulos. As duas imagens consolidam a identidade dos cristãos e direcionam seu modo de vida em qualquer contexto de vida.


Se os cristãos forem pobres no espirito e misericordiosos, mansos e puros de coração, portadores da paz e jubilosos da perseguição, como foi proclamado por Jesus nas bem-aventuranças, eles serão o tempero para revigorar a humanidade desvirtuada e luz que ilumina o caminho da humanidade que anda nas trevas do pecado. Mas somente “Se destruíres teus instrumentos de opressão, e deixares os hábitos autoritários e a linguagem maldosa; se acolheres de coração aberto o indigente e prestares todo o socorro ao necessitado, nascerá nas trevas a tua luz e tua vida obscura será como o meio-dia” (Is 58,9-10).


Vós sois o sal da terra (v.13).


O sal é um protagonista muito especial, para não dizer indispensável, no âmbito culinário. Ele é elemento familiar para qualquer cultura, pois desde sempre foi empregado para dar sabor à comida. Até o surgimento do frio industrial (geladeira, freezer/frigorífico) era praticamente o único meio para preservar da corrupção os alimentos, especialmente carne.  Sua presença discreta na comida não é detectada; mas sua ausência não pode ser dissimulada (embora hoje em dia exista o sal artificial, mas nunca substituirá o sal verdadeiro). O sal dissolve-se completamente nos alimentos e se perde em agradável sabor (principalmente para quem não tem problema de pressão). Sua condição é passar despercebido, mas atuar eficazmente.


Na cultura bíblica o sal tinha uma grande função. A imagem de sal é polivalente. O sal era considerado como algo “de primeira necessidade para a vida humana” (Eclo 39,26). Ele tempera alimento (Jó 6,6). Sal e sacrifício estão vinculados (Lv 2,13; Ez 43,24). Elias usa sal para purificar água potável (2Rs 2,19-23).  O sal, que assegura a incorruptibilidade, usava-se nos pactos como símbolo de sua firmeza e permanência. No AT, prescrevia-se que tudo o que se oferecesse a Deus devia estar condimentado com sal para significar o desejo de que a oferenda fosse agradável, principalmente como sinal da permanência da aliança (Lv 2,13; Nm 18,19;2 Cr 13,5).  O sal significava também a sabedoria. E não é em vão que nas línguas latinas os vocábulos sabor, saber e sabedoria pertencem à mesma raiz semântica e família linguística. Uma pessoa sem sal é uma pessoa pouco agradável, sem conteúdo. Uma pessoa- sal é aquela que tem muita sabedoria, uma pessoa sensata.


Como sal da terra, os cristãos devem viver este tipo de vida temperadora, purificadora e sacrifical, comprometidos com o bem comum do mundo e fieis aos propósitos de Deus. A terra é a esfera da ação e o objeto da missão dos cristãos. A terra pertence a Deus que a criou, mas nem todos os seus habitantes fazem a vontade do Deus-Criador do universo.


Os discípulos de Jesus, os cristãos são o sal que assegura a aliança de Deus com a humanidade (terra). Como o sal é firme e permanente na comida, os discípulos devem ser fiéis ao projeto de Jesus. A missão dos discípulos é dar um sentido mais alto a todos os valores humanos, evitar a corrupção, trazer com as suas palavras a sabedoria aos homens. O discípulo é aquele que consegue dar sabor e sentido a tudo aquilo que acontece, difunde uma palavra de sabedoria onde existe dor e semeia bondade onde existe ódio, rancor e a vontade de vingar-se. Com a sua presença o discípulo impede que a humanidade se corrompa, não permite que a sociedade seja conduzida por princípios perversos, apodreça e descambe para a ruína. Os cristãos devem ser força que conserva e transforma.


Mas tal empenho traz seus desafios. O sal pode deixar de ser salgado. Se o sal perder seu sabor com nada se pode recuperá-lo. Assim acontece com cada discípulo de Jesus. Se aqueles que se chamam cristãos/discípulos de Jesus não forem fiéis aos ensinamentos de Jesus, sem dúvida, merecerão o desprezo dos homens cuja libertação deviam ter colaborado (veja Mt 7,26). Uma comunidade ou um discípulo que, em sua prática, trai a mensagem evangélica perde a razão de existir e a credibilidade será tirada do cristão. Um cristão que não vive os ensinamentos de Jesus Cristo é insensato. Ele é como o sal que perde as suas propriedades características.


O texto sublinha também o modo de presença do discípulo. Como o sal que passa despercebido, mas atua eficazmente e se torna em agradável sabor, assim sublinha a sublime tarefa do discípulo: transbordar sem ostentação a riqueza de uma vida cristã interior, fecunda, alentadora para os outros. Na prática do bem e da bondade o cristão não pode fazer barulho ou trocar trombeta. As obras boas falam por si sobre quem as fez ou praticou. O cristão deve ser como Cristo que passou a vida fazendo o bem. O cristão não pode deixar o tempo passar sem fazer o bem ou a bondade. A bondade é o único investimento que jamais falha. A única coisa que o cristão pode exagerar é praticar a bondade. Para o resto ele tem que ser bastante moderado.


Vós sois a luz do mundo (v.14)


Ser luz é uma segunda imagem que identifica essencialmente os cristãos: “Vós sois a luz do mundo”. Luz é o atributo da divindade: “Envolto em luz como num manto” (Sl 104,2). A luz se associa ao céu, com o divino. O caráter espiritual da luz se manifesta pelo fato de ela ser o fundamento do ver e do conhecer: “Quem nos fará ver o bem? Javé, levanta sobre nós a luz da tua face” (Sl 4,7). A sabedoria é “reflexo da luz eterna” (Sb 7,26. O agir de Deus, e sua graça se revelam na luz.


A luz é como imagem da missão de Jesus na escuridão e morte da Galileia governada pelo poder imperial (Mt 4,16). No Evangelho de João Jesus se diz a Si mesmo ser “Luz do mundo” (Jo 8,12). Aqui são os discípulos luz do mundo: “Vós sois a luz do mundo”. Os discípulos estão tão intimamente ligados a Jesus e tão repletos dele que eles mesmos se tornam luz para os outros.  Quando Jesus diz aos cristãos: “Vós sois a luz do mundo”, Ele quer lhes dizer que eles não existem para si mesmos. Eles devem ser como o sol que brilha durante o dia e como a lua e as estrelas que brilham durante a noite para todos. Em qualquer situação e ambiente, os cristãos devem ser luz para os outros: ilumina e orienta.


Vós sois a luz do mundo”. Sem a luz do sol não há cores nem beleza e não se enxerga nenhum caminho nem se distinguem as coisas. Quem vive num país tropical o sol faz parte de seu dia-a-dia. Talvez, por isso, esqueçamos este grande privilégio. Quando estivermos na escuridão é que sentimos a importância de uma luz. Quando estivermos na prisão é que começamos a valorizar a liberdade. A presença é mais sentida na sua ausência. É o paradoxo da vida cotidiana. Quem vive no polo norte ou sul sabe muito bem o que significa a presença do sol. Mas, na verdade, não é necessariamente a presença da escuridão para valorizar a importância da luz na nossa vida, como não precisamos ter a fome para comer, mas precisamos comer/nos alimentar para viver e ajudar quem carece dessa necessidade básica.


A luz serve para iluminar os objetos e aquece, especialmente a luz do sol. A luz existe não para ser olhada diretamente, pois pode causar a cegueira se for forte como o sol ou uma lâmpada de grande watt. Não se deve olhar para a luz, mas para as coisas iluminadas. Numa escuridão ninguém usa uma lanterna direcionada para os olhos, mas para o caminho para que seja iluminado, assim facilitará a caminhada sem tropeços.


Na Bíblia, a luz é a glória ou esplendor de Deus mesmo que, segundo Is 60,1-3, devia luzir ou brilhar sobre Jerusalém. A interpretação deste texto (v.3) aplicava a frase a Israel; também à Lei e ao Templo (Is 2,2) e à cidade de Jerusalém (Is 60,19), sempre como reflexo da presença de Deus neles. Deus é a luz de Jerusalém e de seu povo; assim, este povo se torna, por sua vez, luz para o mundo.


Chamados a ser “a luz do mundo”, os discípulos devem viver como reflexos de jesus Cristo, a Luz do mundo (Jo 8,12). assim eles podem garantir a continuidade da missão de Jesus. Essa presença radiante e perceptível se verificará doravante nos discípulos. Essa luz há de ser percebida: a comunidade cristã e cada cristão não se podem esconder nem viver cerrados em si mesmos. A glória de Deus não mais se manifesta no texto da Lei nem no lugar do templo, mas no modo de agir dos que seguem Jesus e vivem seus ensinamentos fielmente. Os discípulos são a luz do mundo à medida que são os reflexos autênticos da vida e do ensinamento de seu Mestre Jesus, e não como os vaga-lumes que piscam de vez em quando.


A parábola da lâmpada (v.15) explicita a metáfora da luz. Uma lâmpada acesa colocada debaixo de uma vasilha se apaga a chama. Deve-se colocá-la, de preferência, em um candelabro, num lugar bem alto, para aumentar o alcance da luz e consequentemente, todos os moradores se beneficiam da claridade. A conclusão tirada disto é clara: os discípulos não têm o direito de se omitir na transmissão da luz, pois ser a luz é a identidade deles. Por isso, devem eles estar bem visíveis e brilhar todos os que se aproximarem deles ou todos os que conviverem com eles. Mas nenhuma luz faz barulho. Simplesmente ilumina silenciosamente. É o silêncio que faz efeito.


Por isso, apesar de os discípulos serem a luz, eles não podem praticar as boas obras para chamar a atenção sobre si, para ser admirados e elogiados (como objetivo e não como consequência). Não é para eles que os homens devem olhar, mas para Deus de Bondade, fonte de todas as boas obras. Os discípulos devem permanecer discretos, pois se a luz bate diretamente nos olhos, somente prejudica, incomoda e irrita.


Da vida prática, sal e luz são duas coisas que devem ser bem dosadas, como tudo na vida. O salsabor ao alimento, mas quando excessivo tira-lhe o sabor e faz o paladar provar apenas o dissabor do sal. Acontece mesma coisa com a luz. Para ver, precisamos necessariamente da luz, pois nossos olhos têm capacidade de ver somente os objetos iluminados, os olhos funcionam quando existe a luz, pois na escuridão ninguém enxerga nada, apesar de ter os olhos saudáveis. Mas quando a luz é excessiva, pode até cegar, eliminando a capacidade de visão dos olhos.


A prática da religião, das virtudes e o bom exemplo, quando mal dosados, podem causar efeito contrário. Se praticarmos as virtudes para criticar quem não as tem e querendo que os outros sejam como nós, nasce, então, a aversão e ainda impede os outros de serem melhores, como quem toma um raio luminoso diretamente nos olhos que cega. Mas se as pessoas virem a nossa religiosa e a nossa conduta, orientadas para a fraternidade e o amor, reconhecer-nos-ão como portadores da luz de Cristo e glorificarão o Pai.


Para Mateus, ser luz (e ser sal) consiste, antes de tudo, em praticar as boas obras para que todos os homens deem glória a Deus. Com esta menção das boas obras se introduz o corpo do Sermão da Montanha, cujo tema principal será, precisamente, aclarar quais são as boas obras que o discípulo deve pôr em prática.


Por isso, devemos nos perguntar se os outros, os colegas, os nossos familiares, ao perceberem as nossas boas obras e veem nelas a luz de Cristo, os levam a glorificar a Deus e os levam a praticar as mesmas. paramos para pensar sobre como podemos fazer para um testemunho evangélico mais eficaz na nossa vida cotidiana? Na escuridão não percebemos se a roupa que usamos está suja ou limpa, pois somente existe uma cor: preta. Se não conseguirmos distinguir mais o que é certo e errado, cuidado, talvez estejamos na escuridão.


O famoso Mahatma Gandhi um dia disse: “Cristo, se os teus fossem como Tu, hoje toda a Índia seria Tua”. Sempre que alguém nos diz: “Cristo sim, mas vocês, cristãos, não”, devemos sempre pensar que existe em nós qualquer coisa que não é Cristo ou não é de Cristo, e que Deus morreu em nós em certa medida. Por isso, temos o dever de O fazer ressuscitar em nós. Se Deus não conseguir ser visto no mundo é porque não se mais na vida de quem se chama cristão. Quem crê em Jesus se converte em luz para si mesmo e para os outros e se torna aquele que dá sabor para convivência.


Deus nos chamou para que nos esforcemos simplesmente por encontrar o nosso irmão, em ser para sua tristeza um pequeno raio de luz, no perigo e na fraqueza, a força e o sabor do sal. Em todo o bem que fizermos, a glória deve ser exclusivamente de Deus. “Brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e louvem o vosso Pai que está nos céus”. Assim seja!


P. Vitus Gustama,svd

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