quarta-feira, 8 de março de 2017

10/03/2017


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CRER NO DEUS DA MISERICÓRDIA E DA COMPAIXÃO QUE QUER  VIDA PARA TODOS


Sexta-Feira da I Semana da Quaresma


Primeira Leitura: Ez 18,21-28


Assim fala o Senhor: 21 “Se o ímpio se arrepender de todos os pecados cometidos, e guardar todas as minhas leis, e praticar o direito e a justiça, viverá com certeza e não morrerá. 22 Nenhum dos pecados que cometeu será lembrado contra ele. Viverá por causa da justiça que praticou. 23 Será que tenho prazer na morte do ímpio? — oráculo do Senhor Deus. Não desejo, antes, que mude de conduta e viva? 24 Mas, se o justo desviar de sua justiça e praticar o mal, imitando todas as práticas detestáveis feitas pelo ímpio, poderá fazer isso e viver? Da justiça que ele praticou, nada mais será lembrado. Por causa da infidelidade e do pecado que cometeu, por causa disso morrerá. 25 Mas vós andais dizendo: ‘A conduta do Senhor não é correta’. Ouvi, vós da casa de Israel: É a minha conduta que não é correta, ou antes é a vossa conduta que não é correta? 26 Quando um justo se desvia da justiça, pratica o mal e morre, é por causa do mal praticado que ele morre. 27 Quando um ímpio se arrepende da maldade que praticou e observa o direito e a justiça, conserva a própria vida. 28 Arrependendo-se de todos os seus pecados, com certeza viverá; não morrerá”.


Evangelho: Mt 5,20-26


Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 20 Se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da Lei e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus. 21 Vós ouvistes o que foi dito aos antigos: 'Não matarás! Quem matar será condenado pelo tribunal'. 22 Eu, porém, vos digo: todo aquele que se encoleriza com seu irmão será réu em juízo; quem disser ao seu irmão: 'patife!' será condenado pelo tribunal; quem chamar o irmão de 'tolo' será condenado ao fogo do inferno. 23 Portanto, quando tu estiveres levando a tua oferta para o altar, e ali te lembrares que teu irmão tem alguma coisa contra ti, 24 deixa a tua oferta ali diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão. então vai apresentar a tua oferta. 25 Procura reconciliar-te com teu adversário, enquanto caminha contigo para o tribunal. Senão o adversário te entregará ao juiz, o juiz te entregará ao oficial de justiça, e tu serás jogado na prisão. 26 Em verdade eu te digo: dali não sairás, enquanto não pagares o último centavo.
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A liturgia da Palavra de Deus neste dia é uma catequese sobre a justiça cristão. Quem é justo diante de Deus? Como podemos ser justificados? Ela também nos apresenta a nova lei, a lei de Cristo ou a nova justiça.


Deus Quer a Vida Para os Homens e Não Sua Perda Eterna


Será que tenho prazer na morte do ímpio? — oráculo do Senhor Deus. Não desejo, antes, que mude de conduta e viva?” (Ez 18,23).


A Primeira Leitura tirada do livro do profeta Ezequiel nos apresenta a ideia bíblica bastante avançada sobre justiça. Para falar sobre justiça Ezequiel fala sobre Deus.


Para o profeta Ezequiel o Deus do AT é também um Deus de amor, um verdadeiro Pai para suas criaturas. Este Deus é a vida. Por ser a Vida, Ele não pode querer o contrário. Para todas as criaturas Ele é um Deus de vida. Consequentemente, Ele quer a vida para suas criaturas e não o castigo: “Será que tenho prazer na morte do ímpio? — oráculo do Senhor Deus. Não desejo, antes, que mude de conduta e viva?” (Ez 18,23; cf. Os 11,8-9). A vida aqui deve ser entendida como a comunicação, o amor, a plenitude, a participação no gozo da verdadeira vida, na graça do Ser que é o próprio Deus. Trata-se da vida em plenitude.


Será que tenho prazer na morte do ímpio?  Não desejo, antes, que mude de conduta e viva?” O profeta Ezequiel nos apresenta a compaixão de Deus. Em Deus há uma paixão; o amor para o homem caído (cf. Jo 3,16). Em Deus há compaixão e misericórdia. Aqui se fundamenta a paixão e compaixão de Jesus (cf. Lc 6,36).


Este Deus de compaixão e de misericórdia há de castigar o pecado de acordo com a verdade, mas por outro lado, Ele não pode destruir a vida, pois seria contra a Si mesmo porque Ele mesmo é a Vida (cf. Jo 14,6; 11,25).


Além de apresentar o Deus da compaixão e da misericórdia, o profeta Ezequiel derruba todo o gênero de coletivismo sobre o pecado.


A teologia tradicional judaica afirmava que o castigo, o sofrimento, dor do presente são consequências do pecado ou de pecados do passado, cometidos por si mesmo que os sofre ou por algum antepassado seu. E a teologia da responsabilidade coletiva que ouvimos dos lábios de Jó, dos dirigentes judeus diante do cego de nascença (cf. Jo 9,2-3) e de tantos pregadores recentes. Os desterrados de Babilônia expressavam esta ideia com a seguinte frase: “Os pais comeram uvas verdes e os dentes dos filhos se embotaram” (Jr 31,29; Ez 18,2).


Sem anular o princípio da responsabilidade coletiva (que liga solidariamente os membros da comunidade entre si e com seus antepassados), o profeta Ezequiel desenvolve o princípio da responsabilidade pessoal, que supõe um avança revolucionário na teologia. Este princípio reza assim: “Eu vos julgarei a cada um conforme o seu procedimento” (Ez 18,30). O homem, cada homem sempre será dono de seu destino, e por isso, poderá escolher entre o bem e o mal, entre a morte e a vida, mas tudo depende dele (cf. Ez 18,5ss). Assim é possível romper a cadeia do passado, já que o Senhor não quer a morte de ninguém. No entanto, para obter a vida não bastam os atos isolados, é necessário uma atitude firme e decidida: “Quando um justo se desvia da justiça, pratica o mal e morre, é por causa do mal praticado que ele morre. Quando um ímpio se arrepende da maldade que praticou e observa o direito e a justiça, conserva a própria vida. Arrependendo-se de todos os seus pecados, com certeza viverá; não morrerá” (Ez 18,26-28).


Em teoria, todos nós estamos de acordo com o princípio de responsabilidade individual, mas a práxis é outra coisa. Por causa do erro de um sacerdote, condenamos todos os sacerdotes; por causa da culpa ou do crime de um membro de um partido ou de uma instituição, logo dizemos que tal partido ou tal instituição não vale para nada! Emitimos juízos categóricos e rotundos/redondos contra aquele partido ou aquele grupo ou instituição.  O profeta Ezequiel nos ensina que devemos nos despojar de uma mentalidade religiosa baseada nos méritos contraídos. Cada coisa deve ser tratada como uma coisa. Ou cada caso é um caso como dizemos frequentemente. Assim também cada pessoa deve ser tratada como uma pessoa. O descobrimento da unicidade da pessoa é o coração da liberdade. Este descobrimento é o fruto da fé em Deus-pessoa ou provem do Deus-pessoa. Este Deus não é instrumento da escravidão. O valor indestrutível da pessoa depende da presença de um Deus pessoal.


Será que tenho prazer na morte do ímpio? — oráculo do Senhor Deus. Não desejo, antes, que mude de conduta e viva.... Quando um justo se desvia da justiça, pratica o mal e morre, é por causa do mal praticado que ele morre. Quando um ímpio se arrepende da maldade que praticou e observa o direito e a justiça, conserva a própria vida. Arrependendo-se de todos os seus pecados, com certeza viverá; não morrerá”. É o recado de Deus para cada um de nós através da boca do profeta Ezequiel.


Deus nos ama como pessoas; Deus nos chama com um nome pessoal, conhecido unicamente por Ele (cf. Is 43; 49,16) e por aquele que recebe a chamada.


Ser Melhor Cristão


O texto do evangelho deste dia faz parte do Sermão da Montanha (Mt 5-7). O cristão deve recordar que já não está no Sinai e sim na Montanha das Bem-aventuranças (Sermão da Montanha); que não é um seguidor de Moises e sim um discípulo de Jesus que deve viver no amor, com amor e por amor.


O texto do evangelho de hoje inicia com a confrontação entre a justiça dos escribas e dos fariseus e a justiça exigida para os cristãos: “Se a vossa justiça não for maior que a dos mestres da lei e dos fariseus, vós não entrareis no reino dos céus” (Mt 5,20). É um princípio ético fundamental de Jesus. Para Jesus não basta ser bom, mas tem que ser melhor. “O bom é inimigo do ótimo”, dizia São João Bosco. A justiça do Reino de Deus é o sinônimo de amor misericordioso, de solidariedade fraterna, de perdão reconciliador, de igualdade respeitosa, de empenho por construir a paz, e a recusa de toda forma de idolatria e de injustiça.


Através desta afirmação que serve de alerta para quem quiser ser cristão, Jesus quer desenvolver o sentido profundo da Lei cristã. Por isso, o olhar se detém primeiramente nos deveres sociais (Mt 5) para passar às obras religiosas (Mt 6).


A primeira das oposições concerne ao ensinamento do quinto mandamento: “Não matarás”. Jesus propõe uma interpretação mais exigente desta disposição que abarca não somente as ações ou os atos culpáveis nessa ordem, mas também a raiz de onde brotam essas ações ou esses atos: o sentimento e a interioridade do ser humano. A proibição do homicídio inclui na nova interpretação de Jesus a proibição de todo sentimento de ira e animosidade, maledicência, insulto, desprezo contra o irmão: “Eu, porém, vos digo: todo aquele que se encoleriza com seu irmão será réu em juízo; quem disser ao seu irmão: 'patife!' será condenado pelo tribunal; quem chamar o irmão de 'tolo' será condenado ao fogo do inferno”. Segundo Jesus a ira e as palavras ofensivas contra o irmão são equiparadas ao homicídio. Nas suas palavras Jesus enfatiza que a relação com o irmão adquire uma tal seriedade que com ela se chega a decidir o destino definitivo da pessoa humana diante de Deus: “Quem chamar o irmão de 'tolo' será condenado ao fogo do inferno”.


Segundo Jesus o mandamento de “não matar” somente ficará superado no momento em que se pensar num amor universal que leva a amar e a perdoar. Uma sociedade não se torna justa somente por não matar. Somente o amor sem medida, convertido em solidariedade e igualdade de direitos para todos pode formar uma sociedade justa. O que está mandado não é “não matar” e sim “amar”. O pecado não é somente o mal que fazemos e sim o bem que deixamos de fazer (pecado de omissão).


Ser Cristão Reconciliado     


Logo depois que apresentou a nova formulação da antiga lei, Jesus passa a expor sua concretização em forma de um caso para enfatizar até que ponto essa nova lei deve ser observada. Trata-se de uma explicitação que indica a radicalidade de sua aplicação com a ajuda de um exemplo (cf. Mt 5,23-26). O cristão que se aproxima do Senhor da Vida deve reconciliar-se primeiro com o irmão: “Quando tu estiveres levando a tua oferta para o altar, e ali te lembrares que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa a tua oferta ali diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão. então vai apresentar a tua oferta. Se há discórdia entre os homens, a relação com Deus se rompe. Como se Deus quisesse nos dizer: “Antes de ter relações corretas comigo, tenham primeiro entre vocês, homens, essas relações corretas”. Não somente quem ofendeu está obrigado a se reconciliar, mas também quem sofreu uma ofensa. Sublinha-se o caráter urgente deste dever diante do qual perde a importância de ter ou de não ter a razão no conflito. Cada um é chamado à superação de qualquer tipo de divisão comunitária que lhe afete.


Jesus chama os cristãos a fazerem uma passagem urgente: de uma prática religiosa formalista que põe ênfase sobre o cumprimento cultual (cumprir apenas preceitos) para a vivência do amor fraterno. O amor fraterno passa diante do culto. O primeiro de tudo e o mais essencial para cada cristão é o amor, pois “a caridade é a plenitude da lei” (Rm 13,10). Por isso, “Quanto mais tu amas, mais alto tu sobes” (Santo Agostinho).


Para Jesus a reconciliação é tarefa prioritária: a reconciliação está antes de qualquer culto a Deus, está antes que ir à missa, antes que rezar, porque o projeto de Deus sobre a humanidade é nada mais do que criar um mundo de irmãos onde todos podem chamar a Deus de Pai. É uma sociedade nova onde regem as relações humanas próprias do amor mútuo. Uma oferenda é agradável a Deus, se, quem a oferece, não guarda, em seu coração, ódio, nem rancor nem ressentimento contra o próximo. A oferenda a Deus seria inútil, se o coração do oferente fosse contaminado pela inimizade e o seu relacionamento com alguém estivesse rompido. Trata-se de uma exigência radical que escandalizam até os nossos sentimentos humanos.


Se houver discórdia entre os homens, a relação com Deu se rompe. Deus quer nos dizer: “Antes de ter relações corretas comigo, vocês devem tê-las entre vocês”. A caridade fraterna passa adiante do culto. A reconciliação é um princípio essencial de sobrevivência para as pessoas, as famílias, as profissões, as etnias de uma geração em geração.


Portanto, convém reconciliar-se, pôr-se de acordo, antes que chegue o momento do juízo definitivo de Deus. Não se esqueça: “O bom é inimigo do ótimo”. Somos chamados a ser melhores diariamente no amor fraterno para ser dignos do Reino de Deus e para sermos reconhecidos como seguidores de Jesus (Jo 13,35).


Todos nós somos pecadores e devemos ter consciência de pecadores. Ninguém pode olhar para o outro e dizer que o outro é mau. Se tivermos uma boa formação de nossa consciência e se trabalharmos seriamente na nossa sensibilidade, a consciência nos acusará como pecadores. O insensível carece de consciência e nisto consiste a ruína. Somente um santo é que capaz de se reconhecer pecador, pois ele está sempre frente a frente com o Deus santo.


Para viver a vida cristã e a fé cristã temos necessidade de viver da superabundância da misericórdia de Deus. E somente tendo acolhido essa misericórdia infinita do Pai é que poderemos, por nossa vez, perdoar nossos irmãos. Amar é perdoar. Guardar rancor contra alguém é privar-se da bênção divina. De fato, cada pessoa não tem senão um só coração e não saberá parti-lo em dois, sob o risco de vê-lo dilacerar-se e morrer. A unidade do coração repousa sobre essa dupla misericórdia. O nosso mundo morre por falta de misericórdia, pois o mundo está repleto de agressividade de todos os tipos. Não tenhamos medo de denunciar esse drama, inclusive o mesmo drama que tem dentro de nosso coração.


P. Vitus Gustama,svd

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