segunda-feira, 13 de março de 2017

15/03/2017

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SER VOZ DE DEUS E SERVIR CRISTO NO IRMÃO


Quarta-Feira da II Semana da Quaresma


Primeira Leitura: Jr 18,18-20


Naqueles dias, 18 disseram eles: “Vinde para conspirarmos juntos contra Jeremias; um sacerdote não deixará morrer a lei; nem um sábio, o conselho; nem um profeta, a palavra. Vinde para o atacarmos com a língua, e não vamos prestar atenção a todas as suas palavras”. 19 Atende-me, Senhor, ouve o que dizem meus adversários. 20 Acaso pode-se retribuir o bem com o mal? Pois eles cavaram uma cova para mim. Lembra-te de que fui à tua presença, para interceder por eles e tentar afastar deles a tua ira.


Evangelho: Mt 20,17-28

Naquele tempo, 17enquanto Jesus subia para Jerusalém, ele tomou os doze discípulos à parte e, durante a caminhada, disse-lhes: 18“Eis que estamos subindo para Jerusalém, e o Filho do Homem será entregue aos sumos sacerdotes e aos mestres da Lei. Eles o condenarão à morte, 19e o entregarão aos pagãos para zombarem dele, para flagelá-lo e crucificá-lo. Mas no terceiro dia ressuscitará”. 20A mãe dos filhos de Zebedeu aproximou-se de Jesus com seus filhos e ajoelhou-se com a intenção de fazer um pedido. 21Jesus perguntou: “Que queres?” Ela respondeu: “Manda que estes meus dois filhos se sentem, no teu Reino, um à tua direita e outro à tua esquerda”. 22Jesus, então, respondeu-lhes: “Não sabeis o que estais pedindo. Por acaso podeis beber o cálice que eu vou beber?” Eles responderam: “Podemos”. 23Então Jesus lhes disse: “De fato, vós bebereis do meu cálice, mas não depende de mim conceder o lugar à minha direita ou à minha esquerda. Meu Pai é quem dará esses lugares àqueles para os quais ele os preparou”. 24Quando os outros dez discípulos ouviram isso, ficaram irritados contra os dois irmãos. 25Jesus, porém, chamou-os, e disse: “Vós sabeis que os chefes das nações têm poder sobre elas e os grandes as oprimem. 26Entre vós não deverá ser assim. Quem quiser tornar-se grande, torne-se vosso servidor; 27quem quiser ser o primeiro, seja vosso servo. 28Pois, o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate em favor de muitos”.
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A Presença Do Justo Incomoda Os Desonestos Que Quer Manter Sua Desonestidade


Vinde para conspirarmos juntos contra Jeremias; um sacerdote não deixará morrer a lei; nem um sábio, o conselho; nem um profeta, a palavra. Vinde para o atacarmos com a língua, e não vamos prestar atenção a todas as suas palavras”. São palavras da conspiração dos judeus contra o profeta Jeremias.


A Primeira leitura faz parte de uma seção, no livro de Jeremias, chamada, Confissões de Jeremias. Vários textos do livro de Jeremias nos esclarecem a respeito das intrigas contra Jeremias: Jr 11,8; 12,6; 11,19-20; 12,3; 11,20b-23 (É preciso ler estes textos nesta ordem).


Os inimigos do profeta julgam que sua morte (que eles planejam contra Jeremias) não será prejudicial, pois ainda resta muita “palavra” no povo pela presença dos sacerdotes e dos sábios institucionais que falam o que lhes agrada. São os falsos profetas que fazem carreira. Consequentemente, segundo eles, as palavras de Jeremias (verdadeiro profeta) não seriam necessárias para eles: “Vinde para conspirarmos juntos contra Jeremias; um sacerdote não deixará morrer a lei; nem um sábio, o conselho; nem um profeta, a palavra. Vinde para o atacarmos com a língua, e não vamos prestar atenção a todas as suas palavras”. Os inimigos querem tirar para sempre de seu convívio Jeremias que denuncia sua desonestidade (pecados). Trata-se de uma perseguição mortal contra o profeta. O golpe da língua é uma forma de falar sobre o golpe homicida: “Vinde para o atacarmos com a língua, e não vamos prestar atenção a todas as suas palavras”. Eles querem condenar Jeremias diante da opinião pública como sacrilégio, pois anunciava coisas contra os interesses da nação eleita por Deus. É a mesma acusação que os contemporâneos de Jesus fizeram contra Ele.


Jeremias havia denunciado os pecados do povo e especialmente, os pecados dos chefes do povo, dos representantes oficiais da lei religiosa. Era o dever de Jeremias como profeta e o fazia em nome de Deus para suscitar a conversão.


Mas em vez de se converter, os inimigos querem matar o profeta. Agora Jeremias se vê numa perseguição. Os inimigos acusam Jeremias como “perturbador da ordem” e começam a espiá-lo a fim de surpreender o profeta numa acusação para acabar com ele. Eles podem acabar com o profeta, mas jamais podem acabar com o profetismo, pois Deus continua a mandar seus profetas para despertar a consciência do povo sobre seus pecados a fim de voltar a se converter.


Diante dessa perseguição, o profeta Jeremias se dirige a Deus com esta oração: “Atende-me, Senhor, ouve o que dizem meus adversários. Acaso pode-se retribuir o bem com o mal? Pois eles cavaram uma cova para mim. Lembra-te de que fui à tua presença, para interceder por eles e tentar afastar deles a tua ira”. Esta oração é o primeiro grito do justo, perseguido em nome da missão que Deus lhe confia. Jeremias não quer se vingar com as próprias mãos, mas ele invoca a lei do talião diante do tribunal de Deus (Jr 18,23).


É normal que o profeta Jeremias pense na vingança porque ele pertence a uma religião que ainda crê na retribuição temporal. Só no NT pode ajudar a ultrapassar este ponto de vista (cf. Mt 5,43-48).


Através do Batismo recebemos a missão profética ao ser colocado o óleo de crisma na nossa fronte: “Que o Espirito Santo consagre....... (Nome) com este óleo para que participe da missão de Cristo, sacerdote, profeta e rei…”.


Mas não é simples aceitar as consequências do cumprimento fiel de nossa missão profética. Há duas coisas que temos que fazer na missão profética. Por um lado, temos a missão de denunciar o povo seus delitos. Mas, por outro lado, temos que propor caminhos de salvação. É claro que muitos se sentem afetados em seus interesses, carregados de maldades e de injustiças e consequentemente eles tentam acabar com nossa vida. No entanto, não por isso que permaneçamos calados. Ficar calado pode expressar uma atitude sábia. Mas pode também ser interpretado como conivência. Mas o Senhor Jesus Cristo nos ensina que há que orar por nossos inimigos, por aqueles que nos perseguem e amaldiçoam. Sejamos nós os primeiros em abris nosso coração a Deus. Deixemos nossos caminhos de maldade, de injustiça e de desonestidade. Reconheçamos humildemente nossos pecados e voltemos ao Senhor, rico em misericórdia e perdão.


Servir Os Outros Para Salvá-los


Vós sabeis que os chefes das nações têm poder sobre elas e os grandes as oprimem. Entre vós não deverá ser assim. Quem quiser tornar-se grande, torne-se vosso servidor; quem quiser ser o primeiro, seja vosso servo”. São palavras do Senhor para qualquer cristão em qualquer lugar e tempo.


O Evangelho deste dia fala do anúncio da paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo na sua subida para Jerusalém (vv. 17-19) e a reação dos discípulos diante do mesmo, especialmente dos irmãos Tiago e João (vv. 20-28). Em nove lugares diferentes dos evangelhos encontramos esse anúncio: Mt 16,21-23; 17,22-23; 20,17-23; Mc 8,31-33; 9,30-32; 10,32-34; Lc 9,22. 44-45; 18,31-33.


Notamos que Jesus não somente anuncia a sua morte, mas também a sua ressurreição. A vida em sintonia com a vontade de Deus não termina na cruz e sim na ressurreição ou na sua glorificação. Deus aprova com a glorificação todos aqueles que passarem por provações na vivência da vontade de Deus. Encarar as cruzes como conseqüência da vida vivida de acordo com os valores vividos por Cristo é sinal de nosso amor a Deus, e a ressurreição é o amor que Deus nos mostra por tudo isso ou a ressurreição é a resposta de Deus para quem vive de acordo com os ensinamentos de Cristo. Em outras palavras, com a ressurreição Deus quer dizer a cada um de nós, neste contexto: “Você está aprovado!”.


Ao ouvir o anuncio de Jesus sobre sua própria morte, os irmãos João e Tiago logo querem pedir a Jesus postos importantes para poder mandar mais. Mas Jesus nunca deu espaço para o egoísmo e para o poder mundano no seu coração. Sua existência é um serviço generoso para libertar os homens de qualquer tipo de escravidão. Pelo bem do homem e em nome do bem praticado para a salvação do homem Jesus aceitou ser crucificado e morto. Porém, Deus o ressuscitou. O mal não é capaz de enterrar o bem. O ódio é incapaz de eliminar o amor, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). Por isso, o bem ou a bondade é o investimento que nunca falha, pois tudo isto tem característica divina. Tudo que é divino não conhece a morte.


Contrastando com Jesus é a atitude dos filhos de Zebedeu: João e Tiago. Ambiciosos sem limite querem garantir um lugar de destaque no Reino do Messias para receberem honrarias e serem servidos.


A ambição em si não é negativa. Dentro do seu limite, a ambição pode servir de estímulo para nobres ações e para melhorar uma condição humilde. A ambição se transformará em vício quando a afirmação de si mesmo for exagerada e os meios para atingir a glória forem desonestos. O ambicioso, quando dominado pelo vício, não suporta competidores ou rivais. Ele gosta de humilhar os outros até eliminá-los em nome de sua ambição. Um viciado em ambição dificilmente se preocupa com ser justo. Ele utiliza os outros como escada sobre os quais ele pisa para chegar à própria afirmação ou glória. Uma pessoa de coração nobre não sai à procura das honras e dos aplausos, mas do bem, e ela reconhece o bem onde estiver.


Na cabeça dos dois filhos de Zebedeu têm apenas ideais de grandeza, postos a serviço do próprio egoísmo. Não lhes passa pela cabeça sacrificarem-se pelos outros, mas exigir que os demais se sacrifiquem por eles.


Diante da ambição dos filhos de Zebedeu Jesus dá esta lição para todos os seus discípulos e todos os cristãos de todos os tempos e lugares: “Quem quiser tornar-se grande, seja vosso servidor”. Para os discípulos de Jesus e para qualquer cristão existe uma grandeza reservada: servir com gratidão e gastar tudo que se tem (talentos, riquezas, cargos sociais etc.) para resgatar a vida do irmão. Servir no sentido cristão é igual a uma vela que se consome iluminando.


Quem quiser tornar-se grande, seja vosso servidor”. Atrás destas palavras Jesus quer nos alertar que existe um grande risco de transformar nossa missão, nossos trabalhos, nossaliderança” na comunidade/Igreja num exercício de poder e de ambição. Daí sairá a frase: “Quem manda aqui sou eu!”. Este tipo de frase na Igreja de Cristo é a expressão de um conceito de uma eclesiologia totalmente fora daquilo que Jesus quer: “Quanto a vós, nunca vos deixeis chamar de Mestre, pois um é vosso Mestre e todos vós sois irmãos”. (Mt 23,8). A comunidade cristã é uma comunidade de irmãos. Como irmãos um deve se preocupar com outro; um deve cuidar do outro e todos se protegem. Trata-se de uma família onde ninguém é superior ao outro. Conseqüentemente, na comunidade cristã, a autoridade e a responsabilidade, inclusive a fraternidade devem ser sinônimos de serviço. Na comunidade dos que seguem os ensinamentos de Cristo não tem cabimento o domínio, o autoritarismo, a ambição sem limite e a vontade de poder e de exibicionismo. Se alguém tiver alguma ambição na comunidade é porque está querendo tirar alguma vantagem pessoal em vez de pensar no bem comum. Aquele que serve aos outros em função do bem dos outros é grande no Reino de Deus. Porque se Deus é o Bem absoluto, logo aquele que pratica o bem é de Deus, tem algo de Deus nele e por isso, está com Deus ou do lado de Deus.


Vós sabeis que os chefes das nações têm poder sobre elas e os grandes as oprimem. Entre vós não deverá ser assim. Quem quiser tornar-se grande, torne-se vosso servidor; quem quiser ser o primeiro, seja vosso servo”.


A referência a “os chefes das nações” não pode menos que ser interpretada como referência ao império romano pelos leitores do evangelho. Porém o que interessa é o contraste. O Filho do Homem (Jesus) e os chefes das nações atuam de modos contrapostos e refletem duas atitudes contrapostas. Os chefes atuam “contra” e um exercício de poder que não seja em benefício do povo é pervertido. A atitude de serviço é exatamente contraposta: está em favor do povo. A diaconia é algo desprezado entre os chefes das nações.  O paralelismo de dois grupos e antítese de ambos reforça o contraste: chefes-dominam; os grandes-oprimem (grupo pervertido). Cristo propõe o contrário: ser grande-servidor; ser primeiro-servo.


A comunidade de Jesus deve ser constituída pelas pessoas capazes de abandonar definitivamente toda prática egoísta onde tudo se compra e se vende, até a consciência, em nome da vantagem pessoal. A opção pelo Reino equivale a uma opção pela humanização e fraternização. Tudo isto requer o abandono de todo tipo de ambição e de poder para deixar o poder da graça que salva operar na nossa vida e na nossa convivência. Assim, seremos o sacramento de Deus neste mundo.


Enquanto Jesus subia para Jerusalém, ele tomou os doze discípulos à parte...”. A Quaresma é também uma “subida para Jerusalém”. É um caminho para a cruz. Nossa vida deve ser uma subida contínua até Deus. Podemos até fazer algumas paradas, mas jamais uma paralisia.


Em cada Eucaristia comungamos o Corpo de Cristo. Ao comungar o Corpo do Senhor estamos querendo proclamar a todos que queremos servir e praticar o bem, que queremos viver como Cristo viveu, que queremos mergulhar no amor sem limite de Jesus Cristo. Sem a sintonia com a vida de Cristo, a Eucaristia da qual participamos, supostamente, carecerá de sentido.


Vós não sabeis o que estais pedindo”, diz Jesus aos filhos de Zebedeu. Também nós pedimos muitas coisas a Deus, sem que de fato, “saibamos” o significado de nossos pedidos.


Quem quiser tornar-se grande, torne-se vosso servidor; quem quiser ser o primeiro, seja vosso servo. Pois, o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate em favor de muitos”. A vida é dada a nós e nós a merecemos dando-a (Rabindranath Tagore).


P. Vitus Gustama,svd


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