quinta-feira, 6 de abril de 2017


Domingo de Ramos,09/04/2017

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DOMINGO DE RAMOS


Domingo de Ramos e Sua Dupla Face


Os evangelistas (Mt 21,1-11; Mc 11,1-11; Lc 19,28-38; Jo 12,12-16) entendem a entrada histórica de Jesus em Jerusalém como uma apresentação pública, que Jesus faz de si mesmo como Messias, disposto a assumir sua missão até o final aceitando a entrega e a própria morte de cruz. É uma entrada de rosto triunfal e coração amargo, onde uns (os simples) o aclamam e acolhem, enquanto outros (chefes do Sinédrio) o recusam e condenam.


Ele vem como Rei e Messias original, não em poder e glória como vingador de inimigos e salvador de amigos e sim em humildade e simplicidade, como Salvador dos pobres e empobrecidos, dos marginalizados e excluídos, dos abandonados e dos oprimidos, dos discriminados e dos desprezados, e assim por diante. Este Messias não responde às expectativas políticas da tradição. Jesus sabe que somente aceitando a missão sem engano nem mentira é que salvará os que o esperam cujo número é majoritário, sem se esquecer dos minoritários que precisam ser salvos e das ovelhas de outro rebanho (Cf. Jo 10,16). O triunfo de Jesus está selado com a dor. Somente pela cruz se chegará à glória. A subida de Jesus a Jerusalém é um peregrinar para a Páscoa, para cumprir até o fundo a missão.


O Domingo de Ramos é o começo da Semana Santa na qual se situa o Tríduo Pascal. É como um prelúdio ou um pórtico pascal que anuncia a grande celebração do Tríduo.


No Domingo de Ramos são unidos os elementos triunfais (procissão, entrada) e elementos dolorosos (paixão). A proclamação da Paixão de Jesus indica claramente a intenção de unir desde o princípio as duas faces do mistério pascal: fracasso e triunfo, morte e ressurreição, dor e alegria. Na liturgia do Domingo de Ramos a ordem é o seguinte: primeiro, o triunfo (procissão, entrada solene) e logo, o fracasso (paixão). É uma forma de Igreja atualizar o mistério sem divisão, convidando-nos desde o princípio a seguir Jesus Cristo até a cruz para podermos participar também de Sua ressurreição. A vida não fracassa quando é dada pelos demais. Somente subindo à cidade (santa) e sentindo o grito simples das crianças e dos pobres e olhando com os olhos da fé e o coração para Aquele que vem num jumento é que poderemos compreender a grandeza da missão.


No cortejo triunfal Jesus caminha obediente até a morte e morte de cruz. Ele assume sua missão totalmente e definitivamente. Ele não se rebaixa nem foge de sua missão apesar de tudo. Esta é a entrada de Jesus em Jerusalém que se realizou dentro de sua alma no umbral da Semana Santa. Ele escuta o grito “Hosana” da multidão, mas seu pensamento está fixado nas palavras de Joao Batista: Eis aqui Aquele que tira o pecado do mundo.


Para qualquer seguidor de Jesus Cristo, a partir do mistério do Domingo de Ramos, existe uma chamada e exigência a fazer da vida e da missão como uma entrega por amor aos demais. A “entrada interior” na missão se produz quando se assume radicalmente esta missão em seu pleno sentido cristão e em suas verdadeiras repercussões humanas e sociais, e se produz quando não nos deixamos abrigar nem fascinar pelo triunfo externo e sim pela verdade interna; quando não nos deixamos vencer pela dor e sim pelo amor; quando não buscamos a maneira de utilizar os demais em nome de nossos interesses egoístas e sim de servir a todos.


Participar na liturgia do Domingo de Ramos (Domingo da Paixão) faz possível que façamos parte da multidão que acompanhou o Senhor naquele dia. Vivamos a procissão de ramos como expressão de nosso desejo e compromisso de viver em comunhão com o Senhor durante esses dias nos quais somos convidados a participar nos Sacramentos pascais.


Ramos Na Procissão


As palmas ou os ramos do Domingo de Ramos são símbolos do martírio e da vitória.


A palma ou os ramos são símbolo de martírio. Ao leva-los queremos manifestar a Cristo que estamos dispostos a dar-lhe testemunho como os mártires, tanto com nossa vida como com nossas boas obras de cada dia e com nossa luta incessante contra a injustiça, a corrupção, a desigualdade e exclusão social e assim por diante.


Somente o evangelista Joao menciona os ramos de palmeira/palmas (Jo 12,13). Mc e Mt falam de ramos de árvores. O uso dos ramos de palmas se associava à comemoração anual do triunfo de Macabeus que significava a libertação de Jerusalém (1Mac 13,50-52; 2Mac 10,1-8). Ao mencionar os ramos, João quer expressar que a multidão viu em Jesus Aquele que, unindo em si o poder espiritual e o poder temporal, levará a feliz término a libertação desejada ao estilo ocorrido em tempos de Macabeus.


Por isso, os ramos também são símbolos da vitória. O ramo de palma é símbolo da vitória e se levava nos cortejos triunfais (1Mac 13,51; Ap 7,9). Com os ramos nas mãos queremos manifestar que vencemos o diabo, isto é, aquele que é causador da desunião e da divisão dentro da pessoa e entre as pessoas. Unir e reunir é salvar. Dividir e desunir significa ficar fora da salvação. Quando tudo for dividido e desunido, o inimigo tem facilidade de dominar e de explorar e até de matar a comunhão, a família, a amizade, a fraternidade e assim por diante. Para ser lógicos e coerentes com nossa fé é necessário que a realidade se ajuste ao simbolismo. É necessário que o que expressamos externamente seja uma manifestação do que possuímos dentro de nós.


Jesus: Rei e Messias


A entrada de Jesus na cidade santa de Jerusalém (cidade da paz) é um gesto simbólico que quer pôr em destaque o caráter messiânico da pessoa e da obra de Jesus Cristo. Jesus é Rei-Messias anunciado pelos profetas e por isso, entra solenemente na cidade santa e é aclamado pelo povo como Enviado de Deus.


Mas as características externas desta entrada “triunfal” não tem nada de triunfalistas. Jesus não se apresenta como um vencedor militar diante de um exército (militar) e sim como um rei da “gente boa” do povo. Gente boa e gente simples tem poder de atrair qualquer pessoa, pois no seu coração não há maldade.


Ao comemorar ritualmente este episódio da vida de Cristo nós desejamos proclamar que Jesus é nosso Rei. Mas Sua realeza não consiste na possessão do domínio universal e sim que foi conquistada ao preço do sacrifício de sua própria vida. Ele chegou à realeza passando pela humilhação. Ele chegou ao domínio total graças à obediência perfeita à vontade do Pai. Nosso Rei é um Rei sofredor que conserva as cicatrizes gloriosas das chagas. Penetrar no sentido deste paradoxo que é o sentido do mistério da Páscoa é uma graça própria do domingo de Ramos.


Jesus e Jumentinho/Asno


Jesus tem necessidade de um jumentinho. Os guerreiros montam o cavalo. No antigo Oriente, a mula, e não jumento, era usado para os reis montarem e pessoas nobres (Cf. 1Rs 1,33.38.44). O jumentinho ou asno era usado pelos pobres para ser montado, e também pelas pessoas de paz.


Os evangelistas querem ressaltar o significado pacifico, prioritariamente espiritual e interior da ação de Jesus Cristo. Jesus não é o rei guerreiro que vem conquistar pela força nem um libertador político rodeado de carros de guerra, e sim o Messias da paz que traz a salvação, a vida em plenitude para os homens; uma vida que surge de seu próprio interior como uma fonte (cf. Jo 4,14). Tal é o rei de Israel querido por Deus.


A observação de Marcos e Lucas sobre o asno ou jumentinho “que nunca montou pessoa alguma” (Mc 11,2; Lc 19,30) tem sua importância. Mc e Lc querem sublinhar a dignidade de Jesus. Segundo os textos do AT, tudo quanto se utiliza no serviço de Deus não deve ser usado antes (Nm 19,2; Dt 21,3). Com este detalhe os evangelistas nos mostram todo o respeito que sentem pelo Mestre, e mostram também que Jesus é o Senhor ou Deus-conosco, segundo evangelista Mateus (Mt 1,23; 18,20; 28,20).


Chama nossa atenção também que Jesus se designa a si mesmo com “o Senhor”: “Se alguém vos disser qualquer coisas (sobre o jumento), respondei-lhe que o Senhor necessita dele....” (Mt 21,3). Poucos dias depois Jesus será humilhado e crucificado, estará maltratado com crueldade humana. Mas agora nos é advertido, antecipadamente, que esse homem maltratado e assassinado é realmente “o Senhor”.


Jesus, Irmão e Eu Caminhemos Juntos!


Nosso caminho de conversão se une hoje ao caminho de Jesus para aprender dele que o mais importante da vida é pô-la ao serviço de uma causa digna. Se nos esforçamos por mudar de atitude e afinar nossos sentimentos durante as semanas da Quaresma é simplesmente para nos identificar melhor com este Jesus que hoje entra triunfante em Jerusalém, e compreender que a alegria e a felicidade fazem parte de nosso ser cristão. Mas também para saber compartilhar na intimidade e na ternura familiar da Quinta-Feira Santa as emoções e a sensibilidade do irmão. Para assumir com fortaleza e decisão as dificuldades que comportam nossa vocação cristã de tantas Sextas-Feiras Santas de nossa vida. Para viver com esperança os momentos de vazio e de aflição de tantos Sábados (santos) de solidão de um túmulo onde Jesus foi sepultado. Para celebrar e viver mais autenticamente unidos a Cristo Ressuscitado a nova vida que Ele nos oferece no Domingo da Páscoa.


Nosso caminhar ao lado de Jesus ao longo desta semana santa é a melhor escola que podemos frequentar para nossa vida de cada dia. Triunfar (Domingo de Ramos), Amar (Quinta-Feira Santa), Morrer (Sexta-feira Santa) e Ressuscitar para uma vida nova e renovada (Domingo da Páscoa) fazem parte inseparável da vida cristã e são interconectados. Com a segurança de que nosso caminho já não o fazemos sozinhos e sim com Jesus da Semana Santa e com tantos irmãos e irmãs na fé que têm nossos mesmos gozos e esperanças, nossos mesmos anseios e inquietudes. Hoje nos é ensinado a caminharmos juntos sempre ao lado de Jesus para, no fim, triunfarmos com Ele. Jesus, os irmãos e eu devemos caminhar juntos.


P. Vitus Gustama,svd

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