quinta-feira, 20 de julho de 2017

22/07/2017
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MARIA MADALENA:
SEU AMOR E SEU PRANTO POR JESUS


22 de Julho
O que procurais? (Jo 1,38); A quem procuras? (Jo 20,15).
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Primeira Leitura: Ct 3,1-4a
Eis o que diz a noiva: 1 Em meu leito, durante a noite, busquei o amor de minha vida: procurei-o, e não o encontrei. 2 Vou levantar-me e percorrer a cidade, procurando pelas ruas e praças, o amor de minha vida: procurei-o, e não o encontrei. 3 Encontraram-me os guardas que faziam a ronda pela cidade. “Vistes porventura o amor de minha vida?” 4ª E logo que passei por eles, encontrei o amor de minha vida.


Evangelho: Jo 20,1-2.11-18
1 No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda estava escuro, e viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo. 2 Então ela saiu correndo e foi encontrar Simão Pedro e o outro discípulo, aquele que Jesus amava, e lhes disse: “Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o colocaram”. 11 Maria estava do lado de fora do túmulo, chorando. Enquanto chorava, inclinou-se e olhou para dentro do túmulo. 12 Viu, então, dois anjos vestidos de branco, sentados onde tinha sido posto o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos pés. 13 Os anjos perguntaram: “Mulher, por que choras?” Ela respondeu: “Levaram o meu Senhor e não sei onde o colocaram”. 14 Tendo dito isto, Maria voltou-se para trás e viu Jesus, de pé. Mas não sabia que era Jesus. 15 Jesus perguntou-lhe: Mulher, por que choras? A quem procuras?” Pensando que era o jardineiro, Maria disse: “Senhor, se foste tu que o levaste dize-me onde o colocaste, e eu o irei buscar”. 16 Então Jesus disse: “Maria!” Ela voltou-se e exclamou, em hebraico: “Rabunni” (que quer dizer: Mestre). 17 Jesus disse: “Não me segures. Ainda não subi para junto do Pai. Mas vai dizer aos meus irmãos: subo para junto do meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus”. 18 Então Maria Madalena foi anunciar aos discípulos: “Eu vi o Senhor”, e contou o que Jesus lhe tinha dito. (Jo 20,1-2.11-18)
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Maria Madalena: Do Seu Primeiro Encontro com Jesus. Este é um dos personagens bíblicos escritos pelo famoso escritor libanês, Khalil Gibran, no seu livro: Jesus, o Filho do Homem. No encontro com Maria Madalena, Khalil Gibran colocou na boca de Jesus as seguintes palavras dirigidas a Maria Madalena: “Tu tens muitos amantes; entretanto só eu te amo. Os outros homens amam a si mesmos quando te procuram. Eu ti amo por ti mesma. Os outros homens veem em ti uma beleza que desaparecerá mais cedo do que seus próprios anos. Mas eu vejo em ti uma beleza que não esmaecerá e, no outono dos teus dias, esta beleza não terá receio de olhar-se no espelho, e não será ofendida. Somente eu amo o que não se vê em ti”.


Khalil Gibran colocou na boca de Maria Madalena as seguintes palavras como sua reação diante da pessoa e das palavras de Jesus: “Então, levantou-se e olhou-me como as estações devem olhar para os campos, e sorriu. E disse novamente: ‘Todos os homens te amam por si mesmos. Eu te amo por ti mesma’. E afastou-se, caminhando. Eu não sabia, mas naquele dia o poente de Seus olhos matou o dragão que havia em mim, e tornei-me uma mulher, tornei-me Miriam”.


Celebramos no dia 22 de julho a festa de Maria Madalena. “Maria” significa “preferida por Deus”. Seu sobrenome “Madalena” é o nome da cidade onde ela nasceu, situada na orla do mar da Galileia.


Dela sabemos muito pouco, mas os traços, que nos oferece o evangelho, nos permitem adentrarmos no mistério de “um amor muito mais forte do que a morte”, como nos relatou o episódio do evangelho lido neste dia. A frase “Encontrei o amor de minha vida” que nos diz o Livro do Cântico dos Cânticos parece-nos apropriada para resumir a trajetória pessoal de Maria Madalena. Quem experimenta o amor de Cristo vê as coisas de outra maneira, vê a morte da vida velha ou vê a morte da vida passada para experimentar a vida nova. Por causa dessa nova visão a pessoa acaba mudando de vida (maneira de viver). Maria Madalena viveu essa experiência em seu encontro pessoal com Jesus. Tão profundo e tão decisivo foi o primeiro encontro com Jesus que tornou a vida de Maria Madalena uma busca incessante do Bem Maior que é Jesus Cristo como relatou o evangelho deste dia. Somente busca o Bem Maior aquele que foi encontrado pelo Bem Maior. Parece-nos que o Salmo Responsorial foi feito para esse fim: “A minha alma tem sede de vos, Senhor, minha carne também vos deseja como terra sedenta e sem água!... Vosso amor vale mais do que a vida, e por isso, meus lábios vos louvam” (Sl 62/63,1-2).


Que o amor que transformou Maria Madalena em uma buscadora do Senhor fica patente na pergunta que o Ressuscitado lhe dirigiu: “Mulher a quem procuras?”. Chamam nossa atenção duas coisas. A primeira é que esta pergunta-chave é precedida por outra pergunta: “Mulher, por que choras?”. Como se a intensidade da busca/procura fosse proporcional à magnitude da perda. Somente choramos por aquilo que nos afeta profundamente, seja por causa da tristeza profunda, seja por causa da alegria profunda, seja por causa da partida de uma pessoa tão amada. O pranto de Maria Madalena é um certificado de um amor direto ao coração. Choramos por causa de alegria profunda como choramos por causa de uma tristeza profunda. O choro é a única linguagem capaz de expressar tudo que sentimos profundamente em lagrimas que nenhuma outra língua capaz de expressar.


O pranto de Maria Madalena, como o de Pedro durante a Paixão é fruto de uma descoberta da verdade. Por isso, trata-se de um pranto salutar, de um pranto que exprime o que não pode ser expresso por nenhuma palavra humana. O pranto de Maria Madalena nasce do sentimento de pertença. Ela chora por estar em relação com Jesus que em determinado momento desaparece. Ela tem sentimento de pertencer a Cristo, a relação com define sua vida. Ela é como é agora por causa de Cristo que devolveu sua dignidade.


A segunda coisa que chama atenção é a mudança de termos. Para o pranto se busca uma causa: “Por que choras?”. Ou “Por qual razão tu choras”. O que se busca na pergunta é a causa do pranto. Mas para a busca se faz referência a uma pessoa: “A quem procuras?”. Maria Madalena não busca um ideal, não uma causa pela qual lutar, não busca um sentido, pois tudo isto vem por acréscimo. Maria Madalena busca Aquele que, olhando-a de outra maneira, restituiu-a em sua dignidade de mulher. Ela busca Aquele a Quem seguia pelos caminhos da Galileia em companhia de outros homens e mulheres. Ela busca Aquele que foi cravado em uma madeira e abandonado quase por todos, exceto ela e a própria mãe de Jesus e algumas outras pessoas (cf. Jo 19,25). Ela busca Aquele que lhe garante um futuro seguro. Ela busca Aquele que tem a última palavra para sua vida e sua morte. Ela busca Aquele que é capaz de lhe dar a serenidade apesar de estar no meio das tempestades desta vida.


“Jesus lhe disse: ‘Maria’”. Jesus escolhe a maneira mais pessoal e a mais imediata: chama-a pelo nome “Maria”. Para cada um de nós Deus tem nome, por anônima que seja uma pessoa na sociedade. E Deus nos chama pelo nome: “Eu te chamo pelo nome, és meu”, disse Deus para cada um de nós (Is 43,1). “Eis que estás gravada na palma de minhas mãos, tenho sempre sob os olhos tuas muralhas”, acrescentou Deus (Is 49,16). Quando estivermos dominados pelas preocupações, pelo medo, pela tristeza, pelo desespero, pela confusão; quando trilharmos pelo caminho errado, quando compactuarmos com o mal ou com a maldade; quando ficamos irritados, nervosos com a vontade de destruir tudo, Deus nos chama pelo nome: Maria, Valéria, Mônica, Bernardo, Lucas, João, José...! Deus quer nos dizer: “Ei.. Estou aqui! Não estás Me vendo? Dirige teus olhos para Mim, e não para o túmulo de tua vida!”.


Merecem nossa atenção e nossa meditação para duas perguntas essenciais encontradas no evangelho de João para nossa vida e nossa peregrinação neste mundo: “O que realmente você está procurando neste mundo?”. Esta pergunta é feita por Jesus logo no início do evangelho de João: “Que estais procurando?”. É a pergunta dirigida aos primeiros discípulos no evangelho de João (Jo 1,37). 


Parece-me que dedicamos bastante tempo de nossa vida em função da procura do “o quê” de nossa vida. Uma vez Oscar Wilde escreveu: “Neste mundo só há duas tragédias: uma é não se conseguir o que se quer, a outra é conseguir”. Mas no fim confessamos que o dinheiro e o poder não satisfazem aquela fome sem nome que temos na alma. Carl Gustav Jung escreveu no seu livro: O Homem Moderno à Procura de Uma alma, escreveu: “O problema de cerca de um terço de meus pacientes não é diagnosticado clinicamente como neurose, mas resulta da falta de sentido de suas vidas vazias. Isto pode ser definido como a neurose geral de nossa época”. O que nos frustra e tira nossa alegria de viver é a ausência do significado de nossa vida. Nossa alma não está sedenta de poder, de fama, de popularidade, de conforto, de propriedades e assim por diante. Nossa alma tem fome do significado da vida, ou de aprendermos a viver de tal modo que nossa existência ou nossa passagem neste mundo tenha importância ou significado capaz de modificar ou de melhorar o mundo, pelo menos, ao nosso redor.




Através dessa primeira pergunta o evangelista João nos dirige para a pergunta essencial que ele coloca no fim do seu evangelho. A pergunta é esta: “A quem procuras?”. De fato, as coisas, as riquezas, os bens materiais mesmo que os possuamos, eles continuam sendo alheios a nós. Eles jamais serão nossos próximos. No fim confessamos que estamos procurando Alguém capaz de nos salvar de uma vida vazia. A resposta que o evangelista nos dá é Jesus: “Jesus fez ainda, diante de seus discípulos, muitos outros sinais, que não se acham escritos neste livro. Esses, porém, foram escritos para crerdes que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo 20,30-31; cf. Jo 10,10; 14,6).


O que estais procurando?” e “A quem estais procurando?”. Como é que você pode colocar em equilíbrio estas duas perguntas na sua vida cotidiana para que sua vida realmente tenha sentido? Você enfatiza mais na pergunta “O que estais procurando?” ou “A quem estais procurando?”.


Para Refletir:


“Onde é que Te encontrei para poder conhecer-Te (Senhor)? Não estavas na minha memória antes de eu Te conhecer. Onde, então, Te encontrei, para conhecer-Te, senão em Ti mesmo, acima de mim?


Eis que habitavas dentro de mim e eu Te procurava do lado de fora! Tu me chamaste, e Teu grito rompeu a minha surdez. Fulguraste e brilhaste e Tua luz afugentou a minha cegueira. Espargiste tua fragrância e, respirando-a, suspirei por Ti. Eu Te saboreei, e agora tenho fome e sede de Ti. Tu me tocaste, e agora estou ardendo no desejo de Tua paz.


Fizeste-nos para Ti, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em Ti. Dá-me, Senhor, saber e compreender qual seja o primeiro: invocar-Te ou louvar-Te... Quem O procura O encontra, e, tendo-O encontrado, O louvará”.  (Santo Agostinho. Confissões, X,26-27; I,1).
 
P. Vitus Gustama,svd

quarta-feira, 19 de julho de 2017

21/07/2017
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A SALVAÇÃO DO SER HUMANO ESTÁ ACIMA DE QUALQUER LEI POR SAGRADA QUE ELA PAREÇA SER


Sexta-Feira da XV Semana Comum


Primeira Leitura: Ex 11,10-12,14
Naqueles dias, 11,10 Moisés e Aarão realizaram muitos prodígios diante do Faraó; mas o Senhor endureceu o coração do Faraó, e ele não deixou que os filhos de Israel saíssem da sua terra. 12,1 O Senhor disse a Moisés e a Aarão no Egito: 2 “Este mês será para vós o começo dos meses; será o primeiro mês do ano. 3 Falai a toda a Comunidade dos filhos de Israel, dizendo: ‘No décimo dia deste mês, cada um tome um cordeiro por família, um cordeiro por casa. 4 Se a família não for bastante numerosa para comer um cordeiro, convidará também o vizinho mais próximo, de acordo com o número de pessoas. Deveis calcular o número de comensais, conforme o tamanho do cordeiro. 5 O cordeiro será sem defeito, macho, de um ano. Podereis escolher tanto um cordeiro, como um cabrito: 6 e deveis guardá-lo preso até o dia catorze deste mês. Então toda a Comunidade de Israel reunida o imolará ao cair da tarde. 7 Tomareis um pouco do seu sangue e untareis os marcos e a travessa da porta, nas casas em que o comerdes. 8 Comereis a carne nessa mesma noite, assada ao fogo, com pães ázimos e ervas amargas. 9 Não comereis dele nada cru, ou cozido em água, mas assado ao fogo, inteiro, com cabeça, pernas e vísceras. 10 Não deixareis nada para o dia seguinte: o que sobrar devereis queimá-lo ao fogo. 11 Assim devereis comê-lo: com os rins cingidos, sandálias nos pés e cajado na mão. E comereis às pressas, pois é a páscoa, isto é, a Passagem do Senhor! 12 E naquela noite passarei pela terra do Egito e ferirei na terra do Egito todos os primogênitos, desde os homens até os animais; e infligirei castigos contra todos os deuses do Egito, eu, o Senhor. 13 O sangue servirá de sinal nas casas onde estiverdes. Ao ver o sangue passarei adiante, e não vos atingirá a praga exterminadora, quando eu ferir a terra do Egito. 14 Este dia será para vós uma festa memorável em honra do Senhor, que haveis de celebrar por todas as gerações, como instituição perpétua’”.


Evangelho: Mt 12,1-8
1 Naquele tempo, Jesus passou no meio de uma plantação num dia de sábado. Seus discípulos tinham fome e começaram a apanhar espigas para comer. 2 Vendo isso, os fariseus disseram-lhe: “Olha, os teus discípulos estão fazendo o que não é permitido fazer em dia de sábado!” 3 Jesus respondeu-lhes: “Nunca lestes o que fez Davi, quando ele e seus companheiros sentiram fome? 4 Como entrou na casa de Deus e todos comeram os pães da oferenda que nem a ele nem aos seus companheiros era permitido comer, mas unicamente aos sacerdotes? 5 Ou nunca lestes na Lei, que em dia de sábado, no Templo, os sacerdotes violam o sábado sem contrair culpa alguma? 6 Ora, eu vos digo: aqui está quem é maior do que o Templo. 7 Se tivésseis compreendido o que significa: ‘Quero a misericórdia e não o sacrifício’, não teríeis condenado os inocentes. 8 De fato, o Filho do Homem é senhor do sábado”.
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Páscoa: Passagem Do Senhor Para Salvar


“Assim devereis comê-lo: com os rins cingidos, sandálias nos pés e cajado na mão. E comereis às pressas, pois é a páscoa, isto é, a Passagem do Senhor!”.


Continuamos a acompanhar a leitura do livro de Êxodo. A leitura dos capítulos 4 a 11 do livro é suspensa onde se falam do estado das famílias israelitas no Egito, da missão de Moisés diante de Faraó para deixar os israelitas irem embora do Egito, das pragas sobre o Egito como sinais de Deus e da preparação acelerada na organização da saída do povo do Egito.


Hoje, na Primeira Leitura lemos a cena pascal, (noite da Páscoa), que é o relato fundacional de uma prática que se mantém até hoje. O relato termina assim: “Este dia será para vós uma festa memorável em honra do Senhor, que haveis de celebrar por todas as gerações, como instituição perpétua”. Para o povo judeu, celebrar a Páscoa era uma “memória subversiva”. Não é somente a recordação da libertação da opressão egípcia e sim para continuar experimentando a mão do Senhor no presente. A Páscoa é sempre hoje para o povo judeu.


A Páscoa, a passagem do Senhor para salvar, será para todo o AT a grande festa, a primeira e mãe de todas as festas do povo hebreu. De uma maneira dinâmica e viva na Páscoa está a síntese de toda a fé e de toda a esperança do povo eleito. Com efeito, a Páscoa é um “credo em ação”. Mais do que um ensinamento sobre Deus que liberta, é uma experiência da liberdade que Deus e somente Deus pode conceder. Na Páscoa se recorda e faz presente, se proclama e se reconhece Deus em toda a força de seu poder, em toda a imensidade de sua ternura, em toda a grandeza de seus desígnios e em toda a perfeição de suas obras.


A Páscoa é a grande prova de amor de Deus para seu povo, o amor que faz o que parece impossível. O Deus da Páscoa é o Deus solícito pelo seu povo, próximo às dores daqueles que lhe pertencem, atento à tribulação de seus filhos, zeloso pelo bem do seu rebanho. Por sua parte, o povo pascal é aquele que confia no seu Criador e Redentor; é o povo que reconhece sua pequenez, mas também a grandeza de seu Deus; admite sua debilidade, mas conhece a força do seu Senhor; é humilde e confessa seu pecado, mas sabe que Deus pode apagar o pecado para quem se converte, pois Ele é misericordioso.


Falai a toda a Comunidade dos filhos de Israel, dizendo: ‘No décimo dia deste mês, cada um tome um cordeiro por família, um cordeiro por casa. Se a família não for bastante numerosa para comer um cordeiro, convidará também o vizinho mais próximo, de acordo com o número de pessoas. Deveis calcular o número de comensais, conforme o tamanho do cordeiro”. Assim fala o Senhor.


A ceia pascal é um encontro de irmãos que revivem os laços perdidos durante a escravidão, o sangue os liberta do exterminador. É um chamado à unidade e à solidariedade acima dos individualismos egoístas. É um momento de consolidar o grupo/família.


A experiência de Israel na primeira Páscoa nos ajuda a entendermos toda a riqueza da segunda, a Páscoa de Jesus que celebramos na Eucaristia. E somos encarregados para celebrar o memorial desta Páscoa na Eucaristia. Toda vez que celebramos a Eucaristia, o próprio Senhor, agora Ressuscitado, nos faz participarmos em seu passo da morte à vida, nos faz entrarmos em Sua Páscoa. Na nossa passagem diária da escravidão do pecado para a liberdade de filhos de Deus, nós nos apoiamos no alimento que é o Corpo de Cristo entregue por nós e seu Sangue derramado por nós. Ele é o Cordeiro cuja Carne nos alimenta e cujo sangue nos salva, pois tem poder de remissão dos pecados. Em cada Eucaristia atualizamos o mistério pascal do Senhor Jesus Cristo. Na Eucaristia nos unimos ao redor da mesma mesa, comemos do mesmo pão e nos comprometemos em manter união ou comunhão de irmãos.


Páscoa significa passo, passagem, trânsito. Para nós cristãos a verdadeira Páscoa se cumpriu em Cristo Jesus: “Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai...” (Jo 13,1). Jesus atravessou as águas da morte para entrar na nova existência para a qual ele nos conduz, como Moisés que conduziu o povo eleito da escravidão do Egito para a libertação e a liberdade. Desta Páscoa, acontecimento repetível, sua morte e ressurreição nos faz participes já no dia de nosso Batismo: "Fomos, pois, sepultados com ele na sua morte pelo batismo para que, como Cristo ressurgiu dos mortos pela glória do Pai, assim nós também vivamos uma vida nova" (Rm 6,4).


A Vida Humana É Maior Do Que Qualquer Lei                             


Com este capitulo (Mt 12) começam as controvérsias entre Jesus e os fariseus. Desta vez a controvérsia gira em torno da observância do Sábado.


A observância do Sábado era entre os principais mandamentos. Era tão importante como todos os mandamentos juntos. Todo trabalho era proibido (cf. Dt 5,14). Tinha uma lista de 39 trabalhos proibidos no Sábado. E cada um desses 39 trabalhos proibidos se desdobrava em mais seis, ao todo 234 atividades proibidas. Transgredir o Sábado podia levar o acusado à condenação. A punição prevista chegava à pena de morte (cf. Ex 31,12-17; 35,1-3). Durante o exílio na Babilônia observar o Sábado era um sinal da identidade israelita entre os gentios.


Na verdade inicialmente observar o Sábado tinha como finalidade o descanso humano, para celebrar a libertação humana (interpretação da tradição deuteronomista. Cf. Dt 5,12-15). Mais tarde na tradição sacerdotal (cf. Ex 20,8-11), o descanso sabático tinha como finalidade imitar o repouso de Deus ao findar-se a obra da Criação. Com essa interpretação o Sábado passou a ser considerado como dia a ser “santificado”, dedicado a Deus e ao culto.


Na verdade, ao comentar Ex 31,13-14 os rabinos permitiam realizar trabalho em Sábado, se fosse em função de socorrer alguém em extremo perigo de vida. Eles diziam: “O homem não foi feito para o mundo, mas o mundo para o homem”. Ou: “O Sábado foi entregue a vós, não vós ao Sábado” (Simeão ben Menaxa, em 180 a.C, na época dos Macabeus). Na mesma linha está o Segundo Livro dos Macabeus: “Não foi por causa do Lugar que o Senhor escolheu o povo e sim por causa do povo, o Lugar” (2Mc 5,19).


Na interpretação dos fariseus sobre a observância do Sábado o que conta é a Lei. Os fariseus julgam o atuar humano a partir da lei e o julgam sob o aspecto que afeta a um preceito determinado, não a lei em seu conjunto. Os fariseus sabem que no Sábado pode-se comer, mas não se pode “colher”. Para eles cortar as espigas é colher. Logo este ato é considerado como trabalho e por isso, é proibido. Daí a pergunta deles: “Olha, os teus discípulos estão fazendo o que não é permitido fazer em dia de sábado!”. Ama menos quem se preocupa apenas com a lei e não com a dignidade do ser humano.


Jesus, na sua interpretação sobre a observância do Sábado, destaca a importância máxima do ser humano. Toda a atividade de Jesus tem como centro o ser humano e sua salvação. Para Jesus o que conta é o homem. Em nome da importância máxima do homem Jesus cita o profeta Oseías: “Quero a misericórdia e não o sacrifício” (Os 6,6). Com esta citação Jesus destaca a dignidade do homem diante de Deus. Em nome de um ser humano necessitado de libertação e de salvação Jesus é capaz de “transgredir” uma lei por mais sagrada que ela pareça ser, como o Sábado. Em nome do ser humano por amor Deus Pai enviou Seu Filho unigênito a fim de salvar a humanidade (cf. Jo 3,16). Em nome do ser humano e sua salvação, Jesus aceita ser perseguido, crucificado e morto. O preço de nossa salvação é o sangue de Jesus derramado na Cruz. Ao olhar para a Cruz de Jesus sabemos logo o quanto Jesus nos amou. E o mesmo Jesus continua se oferecendo como alimento para todos os seus seguidores, pois Ele continua nos amando. Por isso, ao participar da Eucaristia sabemos o quanto Jesus nos ama, pois Ele nos alimenta com seu próprio Corpo para podermos fazer nossa caminhada rumo à comunhão plena com nosso Deus e para que sejamos vida para os outros. A Eucaristia é nosso “Viático”, isto é, nosso alimento para nossa viagem nesse mundo rumo ao encontro derradeiro com Deus.


Por causa da grandeza do homem e de sua dignidade entre outras criaturas o Salmista fez a seguinte oração: “Quando contemplo o firmamento, obra de vossos dedos, a lua e as estrelas que lá fixastes: Que é o homem, digo-me então, para pensardes nele? Que são os filhos de Adão, para que vos ocupeis com eles? Entretanto, vós o fizestes quase igual aos anjos, de glória e honra o coroastes. Destes-lhe poder sobre as obras de vossas mãos, vós lhe submetestes todo o universo” (Sl 8,4-7).


“Que é o homem de quem cuidas Tu, Senhor? Um ponto de poeira num cosmos de luz. (...) Sorrio em reconhecimento quando vejo que fizeste de mim o rei da tua criação, inferior, tão-somente, a Ti mesmo. Conheço a minha pequenez e a minha grandeza, a minha dignidade e a minha insignificância... Grande é o Teu Nome, ó Senhor, por toda a terra” (Carlos G. Valles. Busco Tua Face, Senhor: Salmos para contemplação. Ed.Loyola).


São Boaventura colocou na boca de Deus as seguintes palavras sobre o ser humano: "Quando te criei, pus sobre tua fronte a imagem da minha divindade, adaptei-me à imagem da tua humanidade quando te quis redimir; tu, pois, que cancelaste a imagem da minha divindade, impressa na tua fronte quando foste criado, retém ao menos na mente a imagem da tua humanidade, impressa em mim quando quis redimir-te; se não soubeste ficar qual tal te criei, sabe ao menos reter-me como eu fiz quando de novo te criei".


 “Quero a misericórdia e não o sacrifício”, diz-nos Jesus hoje. O culto e a vida, a oração e a convivência fraterna devem andar de mãos dadas. Trazemos nossa vida para nossa oração e levamos para a vida nossa oração na convivência fraterna.


Toda a atividade na Igreja do Senhor está em torno das pessoas e não em torno do trabalho. Na Igreja do Senhor, jamais pode ser colocada a pessoa de lado em função do trabalho. Trabalhamos na Igreja em função das pessoas e sua salvação e não em função do próprio trabalho. As pastorais e os movimentos existem para alcançar esse objetivo. Por isso, a seguinte pergunta permanece como um alerta: Se Jesus coloca o ser humano como o centro de sua atividade, qual é o lugar do homem, das pessoas nas nossas atividades pastorais e profissionais? “Quero a misericórdia e não o sacrifício”.


P.Vitus Gustama, SVD

20/07/2017
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DEUS ESTÁ PRESENTE NA HUMILDADE E NA MANSIDÃO


Quinta-Feira da XV Semana Comum


Primeira Leitura: Ex 3,13-20
Naqueles dias, ouvindo a voz do Senhor no meio da sarça, 13 Moisés disse a Deus: “Sim, eu irei aos filhos de Israel e lhes direi: ‘O Deus de vossos pais enviou-me a vós’. Mas, se eles perguntarem: ‘Qual é o seu nome?’ o que lhes devo responder?” 14 Deus disse a Moisés: “Eu sou aquele que sou”. E acrescentou: “Assim responderás aos filhos de Israel: ‘Eu sou enviou-me a vós’”. 15 E Deus disse ainda a Moisés: “Assim dirás aos filhos de Israel: ‘O Senhor, o Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó, enviou-me a vós’. Este é o meu nome para sempre, e assim serei lembrado de geração em geração. 16 Vai, reúne os anciãos de Israel e dize-lhes: ‘O Senhor, o Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó, apareceu-me, dizendo: Eu vos visitei e vi tudo o que vos sucede no Egito. 17 E decidi tirar-vos da opressão do Egito e conduzir-vos à terra dos cananeus, dos hititas, dos amorreus, dos ferezeus, dos heveus e dos jebuseus, a uma terra onde corre leite e mel. 18 Eles te escutarão e tu, com os anciãos de Israel, irás ao rei do Egito e lhe direis: O Senhor, o Deus dos hebreus, veio ao nosso encontro. E, agora, temos de ir, a três dias de marcha no deserto, para oferecermos sacrifícios ao Senhor nosso Deus’. 19 Eu sei, no entanto, que o rei do Egito não vos deixará partir, se não for obrigado por mão forte. 20 Por isso, estenderei minha mão e castigarei o Egito com toda a sorte de prodígios que vou realizar no meio deles. Depois disso, o rei do Egito vos deixará partir”.


Evangelho: Mt 11,28-30
Naquele tempo, tomou Jesus a palavra e disse: 28 “Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso. 29 Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vós encontrareis descanso. 30 Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve”.
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Deus Se Revela A Cada Um De Nós Para Ser Seu Parceiro Na Libertação Dos Irmãos


Eu Sou Aquele Que Sou”. "Eu vi, eu vi a miséria do meu povo que está no Egito. Ouvi o seu clamor por causa dos seus opressores; pois eu conheço as suas angústias. Por isso, desci a fim de libertá-lo da mão dos egípcios” (Ex 3,7-8).


Jamais Deus se revela a uma pessoa sem chamá-la para assumir alguma responsabilidade na libertação dos irmãos e na solução dos problemas existentes. Deus soluciona os problemas conosco e através de nós. Deus se revela a Moisés com o seguinte nome: “Eu Sou Aquele Que Sou”. E chama Moisés para assumir a missão de libertar os hebreus escravizados pelo poder de Faraó: "Eu vi, eu vi a miséria do meu povo que está no Egito. Ouvi o seu clamor por causa dos seus opressores; pois eu conheço as suas angústias. Por isso, desci a fim de libertá-lo da mão dos egípcios” (Ex 3,7-8). Ver, ouvir, conhecer. Estes verbos supõem a aproximação. Somente pode ver, ouvir e conhecer quem está próximo do outro. Deus se aproxima de nós e por isso, Ele vê, ouve e conhece. Deus está conosco. Deus nos chama e Ele próprio vai ser uma garantia na nossa missão. Deus conta com nós como nós devemos contar com Ele na nossa missão.


Diante da chamada de Deus, Moisés inventa desculpas para não assumi-la. A primeira objeção de Moisés: fingiu humildade: “Quem sou eu?” (Ex 3,11). Moisés tentou se diminuir e se fazer pequeno. Trata-se de uma tática para não assumir compromisso ao se mostrar muito humilde para assumir determinada responsabilidade. Moisés não queria encarar o Faraó, pois ele conhecia muito bem o palácio e os seus corredores. Diante dessa objeção Deus garantiu a presença: “Eu estarei contigo” (Ex 3,12).


Moisés inventa outra desculpa para fugir da responsabilidade. É a segunda objeção de Moisés: Simulou falta de conhecimento. “Eles vão perguntar pelo nome de Deus, e ai, o que vou responder?” (Ex 3,13). É outra tática para fugir do compromisso: a falsa ignorância que pode funcionar muito bem que consiste em não saber, não conhecer e não conseguir. Diante dessa objeção Deus se revelou: “Eu Sou Aquele que Sou. Sou o Deus dos vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus Isaac e o Deus de Jacó” (Ex 3,14-15).


Moisés inventa a terceira objeção porque não quer mesmo assumir a missão de libertar os hebreus escravizados: O pretexto de falta de fé por parte do povo: “Eles não vão acreditar em mim!” (Ex 4,1). Trata-se de uma desculpa ao jogar e colocar a dúvida e o problema nos outros. Na verdade, quem estava com dúvida era o próprio Moisés. Para solucionar essa objeção Deus lhe deu demonstrações de prodígios como o da serpente, da lepra e do rio (Ex 4,2-9).


Moisés não pára por ai. Ele inventa a quarta objeção: Alegou não saber falar e ser gago: “Eu não sei falar direito!” (Ex 4,10). Moisés buscou um defeito físico para justificar seu medo. É outra desculpa que muitas pessoas inventam/criam para não assumir compromisso. Como resposta, Deus se declarou o próprio autor da boca: “Quem dotou o homem de uma boca? Ou quem faz o mudo ou o surdo, o que vê ou o cego? Não sou eu, Deus? Vai, pois, agora, e eu estarei em tua boca, e te indicarei o que hás de falar." (Ex 4,11-12).


Moisés ainda procura inventar a quinta objeção: Reconheceu sua falta de coragem. Este foi o último recurso de Moisés: "Perdão, meu Senhor, envia o intermediário que quiseres!” (Ex 4,13). Deus ficou irado e mandou definitivamente Moisés em missão: “Então se acendeu a ira de Deus contra Moisés, e ele disse: ‘Não existe Aarão, o levita, teu irmão? Eu sei que ele fala bem. E eis que sairá ao teu encontro e, vendo-te, alegrar-se-á em seu coração. Tu, pois, lhe falarás e lhe porás as palavras na boca. Eu estarei na tua boca e na dele, e vos indicarei o que devereis fazer. Ele falará por ti ao povo; ele será a tua boca, e tu serás para ele um deus. Toma, pois, esta vara na mão: é com ela que irás fazer os sinais’” (Ex 4,14-18).


Finalmente Moisés foi convencido e superou seu medo e voltou para o Egito para libertar seus irmãos (cf. Ex 4,14-19).


Quais são suas desculpas para não assumir algum compromisso na sua comunidade eclesial em função de libertar seus irmãos de todo tipo de escravidão e em função de melhorar sua comunidade? Para que servem seus talentos dados por Deus como dons? O que você tem feito para melhorar sua comunidade?


Deus é Aquele Que É: Ele Está Sempre Conosco


Eu Sou Aquele Que Sou”. (‘Eyeh ‘aser ‘eyeh).


Como se chama Deus? É uma pergunta legítima de Moisés. Como você chama Deus? Qual é o nome de Deus para você. Por que você chama Deus com tal nome?


Sabemos muito bem da importância que tem o nome para os hebreus: indica “o ser” profundo. Assim Deus não é uma realidade imprecisa, impessoal. Deus não é uma coisa vaga. Deus tem um “nome”, é Alguém vivo.


No texto da Primeira Leitura, Deus se revela como “Eu sou Aquele que sou”. Este nome deve ser entendido a partir da perspectiva existencial e histórica. “Ser” na frase “Eu sou aquele que sou” não é verbo de essência ou de estado, e sim de ação, de presença real e efetiva. “Eu sou Aquele que está próximo”. “Eu estou ali para...”. “Eu sou” é o Deus dos patriarcas, o Deus da promessa, Aquele que decidiu estar sempre ajudando seu povo, no passado, no presente e no futuro. Por isso, agora se dispõe a sua libertação. O nome de Deus se revela a nós não nos livros e sim na história, na nossa existência de cada dia, na trivialidade da vida.


Sem dúvida nenhuma, nós podemos chamar Deus com melhores motivos que Moisés, “o Deus que está com”, “o Deus que sempre se aproxima para ajudar”. Porque em Jesus estamos convencidos de que Deus é Emanuel, o Deus-Conosco (cf. Mt 1,23; 18,20; 28,20). Jesus se chama a si mesmo com o nome: “Eu sou”. Às vezes Jesus se chama “Eu sou” com referências a diversos aspectos de sua personalidade: Eu Sou o bom pastor; Eu Sou a porta das ovelhas; Eu Sou o pão da vida; Eu Sou a luz do mundo; Eu Sou o caminho, a verdade e a vida. Outras, em sua totalidade divina: “Antes que Abraão existisse, Eu Sou” (Jo 8,58). Desde Abraão até no momento presente temos experimentado que nosso Deus continua sendo o Deus da Aliança porque, em Jesus, continuamos celebrando a Nova e definitiva Aliança. Se há um momento em que Deus se revela como Aquele que está próximo de nós é na Eucaristia: Deus nos dirige Sua Palavra que é Seu próprio Filho, e nos dá Seu melhor alimento de vida: o Corpo e o Sangue do Ressuscitado. Não podemos ter melhor luz e força para nossa jornada diária!


Somos Convidados a Ir Ao Encontro Do Senhor Para Aprender a Ser Manso e Humilde


Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo... Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vós encontrareis descanso”.


“Vinde a mim!”. Jesus nos convida a sairmos de nosso canto para o espaço maior, a sairmos de nosso pequeno horizonte para o horizonte maior. “Vinde a mim!”. É preciso caminharmos ao encontro de Jesus para aprender dele como devemos viver. A vida é uma caminhada. Caminhando criamos o caminho e aprendemos a ver mais coisas no caminho. “Vinde a mim!”. A vida é uma saída ao encontro do Senhor e ao encontro do irmão. “Vinde a mim!” é um convite do Senhor para sairmos de nosso isolamento para a comunhão de vida com Jesus juntamente aos nossos irmãos da mesma jornada: Quando a vida interior se fecha nos próprios interesses, deixa de haver espaço para os outros, já não entram os pobres, já não se ouve a voz de Deus, já não se goza da doce alegria do seu amor, nem fervilha o entusiasmo de fazer o bem. Este é um risco, certo e permanente, que correm também os crentes” (Papa Francisco: Exortação Apostólica Evangelii Gaudium no.2).


“Vinde a mim” é o convite de Jesus para nos encontrarmos com ele a fim de vivermos na alegria da Boa Nova: “A alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria” (Papa Francisco: Exortação Apostólica Evangelii Gaudium no.1).


De que fardo Jesus fala neste texto? Quem são os “cansados e fatigados” neste texto? Trata-se aqui da opressão moral e religiosa, provocada pelo formalismo de uma religião estéril e de um moralismo legalista. Os “cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos” aqui são os pobres e famintos, ignorantes e pequeninos, os míseros e os doentes. O legalismo é sufocante, é uma moral sem alegria. Assim, a religião fica longe de ser motivo de liberdade e alegria, pois ela é reduzida a uma carga pesada. O ser humano se torna animal, pois a quem se impõe “jugo” e “carga”, se não aos animais?


Pelo contrário, o cristianismo e a moral cristã não são uma imposição. A lei de Cristo é amor (Jo 13,34-35;15,12), libertação; é lei de liberdade, lei do Espírito que dá vida, lei de relação filial com Deus, nosso e amigo da vida. Ao lado de Cristo, todas as fadigas se tornam amáveis e tudo o que poderia ser mais custoso no cumprimento da vontade de Deus se suaviza. Quem se aproxima de Jesus, encontrará repouso para suas aflições. Jesus veio, certamente, para libertar o ser humano de todo tipo de escravidão, mostrando-se manso e humilde de coração e recusando-se a multiplicar normas religiosas. Jesus reduziu tudo ao essencial: amor e misericórdia. A religião torna-se, assim, prazerosa por respeitar a liberdade e por ser humanizadora. “Onde só o amor serve e não a necessidade, a escravidão se torna liberdade”, dizia Santo Agostinho (In ps. 99,8).


Para tudo isso se tornar possível, há uma chave principal: o amor, tanto como um dom recebido de Deus, pois ele nos amou primeiro (1Jo 4,19), como uma responsabilidade, como Cristo que se dá a si mesmo a Deus e aos irmãos. Quem ama não sente a lei de Cristo como uma obrigação pesada. Pela experiência sabemos que quando se ama de verdade muitas coisas se tornam fáceis e suportáveis que seriam difíceis e até insuportáveis sem o amor. Ir para Jesus é descarregar o fardo aos seus pés, olhá-lo nos olhos, renunciando às nossas pequenas ideias sobre a questão e preferindo seu pensamento ao nosso.


“... aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração...” (v.29).  Quem é humilde? Quem é manso?


Jesus se fez pequeno entre os pequenos e é afável, pobre, humilde e simples em seu comportamento. Põe-se junto aos pequenos, aos que ele sente como sua família e assim, quer caminhar vivendo de toda Palavra que sai da boca de Deus. A simplicidade aproxima as pessoas e as pessoas se aproximam dos simples e humildes sem dificuldade. "Ser humilde com os superiores é uma obrigação, com os colegas uma cortesia, com os inferiores é uma nobreza”, dizia Benjamin Franklin.


Ser humilde não é ser tímido; não é aquele que fica no cantinho por medo de se comunicar com os outros ou por medo da multidão e assim por diante. Muito menos é aquele que simula a humildade, pois “Simular humildade é a maior das soberbas”, dizia Santo Agostinho (De sanc. virg. 43,44). O orgulho é como o mau hálito, todos percebem, exceto quem dele padece. O humilde é aquele que tem noção da própria capacidade e da própria fraqueza e limitações e está aberto totalmente a Deus e para qualquer crescimento no bem. "Quanto maiores somos em humildade, tanto mais próximos estamos da grandeza", dizia Rabindranath Tagore.


A palavra “humildade” deriva do latim: “humilis”, que por sua vez, deriva de “humus” que significa “chão”, “terra”. Humilde é aquele que se acha bem consubstanciado com a terra. É aquele que tem os pés bem firmes no chão. É aquele que pisa firme, com segurança e confiança em si mesmo. A partir da humildade não se despreza, nem se teme ninguém. O “húmus” é a parte nutritiva da terra que possibilita o crescimento de uma planta. Da mesma maneira, a humildade é refúgio e alimento do ser. A humildade possibilita crescimento para quem a tem. É na humildade e da humildade que germinam nossos autênticos valores. Só a partir da humildade é possível trilhar a infinita e misteriosa caminhada do conhecimento de si mesmo e de se crescimento. O humilde reverencia o sagrado, pois ele se reconhece “terra”, “pó”, mas é “pó” vivente por causa do hálito que é soprado nele pelo Criador (cf. Gn 2,7; Jo 20,22).


 “Aprendei de mim por que sou manso de coração”, convida-nos o Senhor. O manso é a pessoa boa nas relações com os outros. Jesus se proclama o Mestre “manso e humilde de coração”, pois ele é totalmente aberto a Deus e bom com os outros a ponto de compartilhar de sua existência. A “mansidão” é fruto do Espírito (Gl 5,23) e é sinal da presença da sabedoria do alto (Tg 3,13.17). A mansidão é a virtude a ser invocada e conquistada por quem pretende seguir fielmente a Jesus manso.


Todos nós sabemos como é fácil combater a ira com a ira, a cólera com a cólera, a raiva com a raiva. A mansidão, pelo contrário, rompe esse círculo vicioso, cumprindo aquilo que é justo diante de Deus. A mansidão é a força que resiste e domina a ira. A mansidão é a virtude que modera a ira e conserva a caridade. Quem a possui é amável, prestativo e paciente. Até os pecadores e os ateus mais endurecidos não resistem diante de quem tem a virtude de mansidão. A um coração manso e humilde como o de Cristo, os homens se abrem. Por isso, a mansidão não é característica dos fracos; pelo contrário, ela exige uma grande fortaleza de espírito. Aquele que é dócil a Deus, é manso para com os outros. A mansidão é a arma dos fortes. A mansidão sabe esperar o momento oportuno e matiza os juízos e impede que falemos ou comentemos precipitadamente os acontecimentos e as pessoas e impede que usemos palavras ferinas. Da falta dessa virtude provêm as explosões de mau humor, irritação, frieza, impaciência, violência e ódio entre as pessoas que vão corroendo gradativamente amor. Não há vida que seja tão vazia do que uma vida sem amor, pois “Deus é Amor” (1Jo 4,8.16).“Não basta o trabalho sem a piedade; não basta a ciência sem a caridade; não basta a inteligência sem a humildade; não basta o estudo sem a graça”, dizia São Boaventura.


O problema grave que temos não é o cansaço produzido pela fatiga e sim o desgaste ocasionado pela falta de motivações na vida. A grande enfermidade de nosso tempo é este “cansaço existencial” que muitas vezes conduz a pessoa à depressão. Mas não podemos nos esquecer que temos um amigo: Jesus Cristo, que nos convida a irmos ao seu encontro para que tenhamos novamente uma vida cheia de força, amor e ânimo para seguir adiante.


Jesus nos convida a assumirmos uma nova forma de viver a vida, longe de legalismo inútil e sufocante. A ética de Jesus se resume em um incondicional amor ao próximo como fruto de uma experiência de Deus como Pai. Quem ama não sente a lei de Cristo como uma obrigação pesada. Quem ama, a oração se torna prazerosa.


“... aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vós encontrareis descanso” (Mt 11,29). O modo de viver de Jesus e o de tratar ao povo com compaixão e misericórdia nos indica claramente que Jesus é a revelação suprema da mansidão de Deus (cf. Is 42,1-4). Por isso, Jesus é a fonte da nossa mansidão: “... aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração...” (v.29).


Imitar Jesus na sua mansidão é o remédio contra as nossas irritações, impaciências e falta de cordialidade e de compreensão. Esse espírito sereno e acolhedor somente alcançaremos, se procurarmos permanecer em Jesus, revelação e fonte da mansidão, como ele sempre está com o Pai.
 
P. Vitus Gustama,svd







terça-feira, 18 de julho de 2017


19/07/2017
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A SIMPLICIDADE E A HUMILDADE SÃO MEIOS NOS QUAIS O SAGRADO SE REVELA


Quarta-Feira da XV Semana Comum


Primeira Leitura: Ex 3,1-6.9-12
Naqueles dias, 1 Moisés apascentava o rebanho de Jetro, seu sogro, sacerdote de Madiã. Levou um dia, o rebanho deserto adentro e chegou ao monte de Deus, o Horeb. 2 Apareceu-lhe o anjo do Senhor numa chama de fogo, do meio de uma sarça. Moisés notou que a sarça estava em chamas, mas não se consumia, e disse consigo: 3 “Vou aproximar-me desta visão extraordinária, para ver por que a sarça não se consome”. 4 O Senhor viu que Moisés se aproximava para observar e chamou-o do meio da sarça dizendo: “Moisés! Moisés!” Ele respondeu: “Aqui estou”. 5 E Deus disse: “Não te aproximes! Tira as sandálias dos pés, porque o lugar onde estás é uma terra santa”. 6 E acrescentou: “Eu sou o Deus de teus pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó”. Moisés cobriu o rosto, pois temia olhar para Deus. 9 E agora, o clamor dos filhos de Israel chegou até mim, e vi a opressão que os egípcios fazem pesar sobre eles. 10 Mas vai, eu te envio ao Faraó, para que faças sair do Egito o meu povo, os filhos de Israel”. 11 E Moisés disse a Deus: “Quem sou eu para ir ao Faraó e fazer sair os filhos de Israel do Egito?” 12 Deus lhe disse: “Eu estarei contigo; e este será o sinal de que fui eu que te enviei: quando tiveres tirado do Egito o povo, vós servireis a Deus sobre esta montanha”.


Evangelho: Mt 11,25-27
25 Naquele tempo, Jesus pôs-se a dizer: “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos. 26 Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado. 27 Tudo me foi entregue por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar”
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Deus Também Chama Você Para Libertar Os Que Se Encontram Escravizados Pelo Mundo


Apareceu a Moisés o anjo do Senhor numa chama de fogo, do meio de uma sarça”.


A visão da sarça ardente representa um momento decisivo na vida de Moisés e de seu povo: Deus chama Moisés para libertar Seu povo da escravidão. A experiência da sarça ardente é um momento fundante na vida e vocação de Moisés. Esta é uma cena de vocação. Deus chama Moisés pelo nome e este responde prontamente: “Eis-me aqui!”. Nessa experiência, Deus revela seu nome a Moisés: “Eu sou o Deus de teus pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó”. Trata-se de uma presença misteriosa que acompanha permanentemente Seu Povo. “Eu sou o que sou”, “Eu sou o Deus de teus pais”, “Eu estou contigo”. Deus se revela através de uma presença permanente e misteriosa. Mesmo que não percebamos a presença de Deus, mas Ele está conosco diariamente. Ele não abandona seu povo: “O clamor dos filhos de Israel chegou até mim, e vi a opressão que os egípcios fazem pesar sobre eles”. Deus está conosco. Fortalecido por esta experiência, Moisés começa sua missão libertadora: “Vai, eu te envio ao Faraó, para que faças sair do Egito o meu povo, os filhos de Israel”.


Quem sou eu para ir ao Faraó e fazer sair os filhos de Israel do Egito?”, é a resposta de Moisés ao Deus que o chama. Isto quer nos dizer que nenhum homem está à altura para sair com êxito das obras de Deus. Diante da magnitude da tarefa, sentimo-nos sempre muito pequenos. “Quem sou eu para ir ao Faraó?”. Faraó representa o poder humano, poder que destrói. E Moisés é um fugitivo. Ele é ordenado por Deus a voltar para o lugar de onde ele fugiu para encarar Faraó a fim de libertar os irmãos da escravidão. Tudo isso não é uma tarefa fácil! Quando nos sentimos pequenos e limitados é bom sinal. Aos pequenos é que Deus se revela.


Deus sempre leva a cabo seus planos por meio de intermediários humanos, por meio de homens e mulheres cheios de limitações. Deus necessita dos homens e das mulheres apesar de suas limitações. Ele chama as pessoas para Seu serviço. Ele também me chama para a mesma missão. A força daquele que recebeu missão não vem de si mesmo e sim vem de Deus, é uma força de Deus: “Eu estou contigo!”. Deus repetirá essa mesmas palavras para outros colaboradores humanos.


Na vocação de Moisés, encontramos o caminho contrário do ponto de vista humano. Normalmente é o homem quem chama a Deus porque nossa condição de criatura nos faz sentirmos dor e a indigência. Por isso, suplicamos a Deus para pedir Seu socorro. Este é o caminho humano. O texto quer que levemos em consideração o caminho sobrenatural em que Deus chama o homem, que o implica em Seus planos, que conta com o homem e faz um caminho junto a Ele: “Eu estarei contigo”. Deus e o homem caminham juntos para salvar os escravizados pelo espirito mundano. A salvação acontece quando Deus e o homem trabalham juntos. Como o homem precisa de Deus assim também Deus precisa do homem. Deus ajuda o homem. Mas o homem também precisa “ajudar” Deus. Nisto consiste a salvação.


Deus Põe Um Limite Na Nossa Vocação: É Preciso Respeitar o Sagrado


Não te aproximes! Tira as sandálias dos pés, porque o lugar onde estás é uma terra santa”, disse Deus a Moisés.


Deus atrai Moisés através da sarça ardente que não se queima. Deus chama Moisés pelo nome: “Moisés, Moisés!”, mostrando assim que Deus conhece Moisés de modo singular assim como conhece sua singularidade e a dor do povo hebreu que Ele ouviu.


No entanto, Deus também põe um limite a Moisés: “O lugar onde estás é uma terra sagrada”. Notemos o papel do Sagrado aqui. As dores dos israelitas são concretas e aparentemente “terrenas”: falta de descanso, sobrecarga de trabalho, maltrato. Para solucionar tudo isto, Deus marca uma fronteira, define uma terra como sagrada.


Faraó se considera dono e senhor da terra onde ele domina e governa. Moisés se encontra em Horeb, num monte. E Deus está dizendo: “Este monte é meu!”. O próprio monte com suas rochas, sarças e pedras etc. não são mais importantes. O que mais importante é que o Sagrado existe. A terra não é univocamente do homem. Com isso, Deus está restaurando a ordem original da criação: as coisas serão nossas, se nós formos de Deus.


Eu preciso respeitar o Sagrado dentro de mim, o Sagrado que está no coração do outro, o Sagrado que está no universo. A consciência da presença do Sagrado no outro resulta no respeito pela dignidade do outro, o respeito pela natureza e o respeito a mim mesmo. Consequentemente, o maltrato, a violência, o assassinato, a exploração irresponsáveis da natureza serão evitados.  Eu não posso profanar meu corpo, o outro e a natureza, pois neles está presente o Sagrado. Pelo fato de o Sagrado estar dentro nós, nós nos tornamos o Templo de Deus (cf. 1Cor 3,16-17; 6,19). Quando o homem não respeitar o Sagrado, tudo o que ele fizer tem como fim a sua própria destruição. Quando expulsarmos o Sagrado de dentro de nós, seremos incapazes de ser construtivos e sim destrutivos da vida alheia, de nossa própria vida e da natureza.


Somos Chamados a Ser Pequeninos Para Que Deus Se Revele a Nós


Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos”.


Para entender o sentido do texto lido neste dia é preciso ler o texto precedente no qual Jesus condena as cidades da Galiléia (cf. Mt 11,20-24). Por esta razão, para manter a continuação do narrativo Mateus usa a expressão “Por esse tempo”: “en ekeinoi toi kairõi...” (Mt 11,20). Mateus emprega neste texto o termo “kairós” que aqui significa mais do que simplesmente “tempo”. É um tempo determinado, oportuno e decisivo. É o tempo de Deus. É o tempo da graça. É o tempo da salvação. Por isso, a conotação escatológica é bem clara neste texto.


No texto precedente Jesus dirige sua condenação às três cidades: Corazim, Betsaida e Cafarnaum, que são sede de escolas rabínicas e, por conseguinte, centros de cultura religiosa. Por ser centros de cultura religiosa, seus membros se enchem de autossuficiência e orgulho que lhes impedem de descobrir as ações divinas que se realizam por meio das obras de Jesus. Santo Agostinho perguntava retoricamente: “Se tu estás preocupado com tua própria glória, como poderás interessar-te seriamente pelo bem dos demais?” (In ps. 37,8). Os sábios e os entendidos são, neste contexto, todos aqueles que com sua atitude irresponsável não são capazes de aceitar as intervenções de Deus na história. Sua soberba lhes impede de aceitar e de perceber a manifestação divina. “A alma do soberbo está cheia, mas de ar” (In ps. 39,28). Por isso, o mesmo Santo Agostinho deu o seguinte conselho: “Para tu alcançares as alturas necessitas de uma escada. Para alcançares a altura da grandeza, usa a escada da humildade” (Serm. 96,3). E "Quanto mais humildes, maiores" (In ps. 146,16)


Mesmo assim, Deus, apresentado como “Senhor do céu e da terra” continua sua obra criadora na história. Se Deus é apresentado como “Senhor do céu e da terra”, isto significa que não há outro “senhor” que seja maior do que Deus. Todos os demais são criaturas, simplesmente. O poder humano é temporário. A sabedoria humana é limitada. Quem estiver em sintonia com o Espírito de Deus, captará a presença de Deus nesta vida ou na história. O desígnio de Deus (do Pai) encontra sua realização em outros sujeitos que são classificados como “gente simples”.   


No texto do evangelho de hoje Jesus louva a Deus em uma oração de ação de graças: “Eu Te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra...”. É uma oração de ação de graças. É um louvor. O coração de Jesus transborda de agradecimento ao Pai.


O louvor se refere principalmente a Deus. Um cristão é vivo quando ergue o olhar para algo maior do que qualquer criatura, e o louva. Ao louvar a Deus, o homem olha tudo além de si mesmo. O homem louva porque percebe sua vida e seu sentido e a beleza do mundo a partir de Deus, e louva a Deus por tudo de bom que existe. O louvor é sinal de uma alma saudável e sempre faz bem para a alma. O louvor relativiza os problemas cotidianos. O homem que louva sempre ganha nova força para superar os problemas diários. O louvor é uma maneira de ver o mundo sob a nova luz que é a luz de Deus. Quem vive louvando a Deus vive feliz e sereno.   


Somente quando estivermos serenos é que percebemos a beleza da vida. A serenidade é a expressão da tranquilidade vivida com gratidão por nos sentirmos amparados por Deus e em Deus. A serenidade oferece e garante a justa perspectiva das coisas. Diante da glória e da bondade do Deus misericordioso qualquer sofrimento ou dificuldade perde o seu caráter ameaçador.


Jesus louva a Deus com o seguinte motivo: “... porque escondestes estas coisas aos sábios e entendidos e as revelastes aos pequeninos” (Mt 11,25). “Estas coisas” das quais o texto fala se referem às obras messiânicas de Jesus das quais o capítulo inteiro fala por ocasião da pergunta dos enviados de João Batista (cf. Mt 11,2-6).


Os pequeninos dos quais Jesus fala são os que se sabem necessitados e limitados. Esta é a razão pela qual eles abrem seu coração à misericórdia divina. Sempre necessitamos ser amados por Deus e pelos homens, pois somente o amor é que nos faz crescer e chegar à maturidade como pessoa. A simplicidade e a humildade são a porta de entrada ao conhecimento de Deus. Se não fizermos este primeiro passo, avançaremos na direção da falsidade e ficaremos cheios de vangloria. As pessoas simples, as de coração humilde, são as que sabem entender os sinais da proximidade de Deus. Elas têm um coração sem demasiadas complicações. Os humildes têm um coração limpo e simples que lhes permite ver tudo com os olhos de Deus. É a pureza de coração, a ausência de todo interesse distorcido que nos permite discernirmos as coisas de Deus na nossa vida e na história. Jesus chama bem-aventurados os que têm o coração puro: “Bem-aventurados os puros do coração, porque verão a Deus” (Mt 5,8).


O simples não se louva nem se despreza. Ele é o que é, sem desvios, sem afetação, faz o que faz, mas não vê nisso matéria para discursos ou para comentários. É a vida sem mentiras, sem exagero, sem grandiloquência. Ele acolhe o que vem, sem nada guardar como coisa sua. Ele ocupa-se do real, não de si. Por isso, a vida de um simples é leve.


Deus quer que os homens não se ocupem de si mesmos para que ele possa ter espaço neles para Sua graça, pois aquele que se enche de si não sobra espaço nem para Deus nem para os outros. Em outras palavras, que os homens voltem a ser simples.    


Deus se revela certamente àquele que se despoja de si mesmo e de tudo, ao simples, àquele que vive segundo o Espírito, àquele que tem um olhar e o coração limpos. O coração limpo e a ausência de todo interesse torcido permitem o simples discernir a ação de Deus na história. Os simples são os que, ao se esvaziarem de si mesmos, se abrem a Cristo e aos irmãos. Por isso, eles são preferidos de Deus. A atitude dos simples é, portanto, a alternativa diante da obstinada petulância dos soberbos.  Não é por acaso que Mahatma Gandhi dizia: “Como Deus se encontra mais frequentemente entre suas criaturas mais humildes do que entre os poderosos, esforço-me por me colocar no nível das primeiras- o que só se pode fazer colocando-se a seu serviço. Daí minha paixão pelo serviço das classes oprimidas. Servir é a minha religião. Não me inquieto com o futuro”.


Eu Te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra porque escondestes estas coisas aos sábios e entendidos e as revelastes aos pequeninos”. Que esta oração de Jesus seja um grande motivo para voltarmos a viver no louvor e na simplicidade, pois uma vida de louvor a Deus e uma vida vivida na simplicidade é uma vida leve, alegre, animada e cheia de esperança.


Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos”. É bom recordar: a simplicidade e a humildade são a porta de entrada ao conhecimento de Deus. Se não dermos este primeiro passo, avançaremos para a vanglória.

P.Vitus Gustama, SVD