quarta-feira, 16 de agosto de 2017

17/08/2017
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PERDOAR: POR QUÊ E PARA QUÊ?
Quinta-Feira da XIX Semana Comum


Primeira Leitura: Js 3,7-10ª.11.13-17
Naqueles dias 7 o Senhor disse a Josué: “Hoje começarei a exaltar-te diante de todo Israel, para que saibas que estou contigo assim como estive com Moisés. 8 Tu, ordena aos sacerdotes que levam a arca da aliança, dizendo-lhes: Quando chegardes à beira das águas do Jordão, ficai parados ali”. 9 Depois Josué disse aos filhos de Israel: “Aproximai-vos para ouvir as palavras do Senhor vosso Deus”. 10ª E acrescentou: “Nisto sabereis que o Deus vivo está no meio de vós e que ele expulsará da vossa presença os cananeus. 11 Eis que a arca da aliança do Senhor de toda a terra vai atravessar o Jordão adiante de vós. 13 E logo que os sacerdotes, que levam a arca do Senhor de toda a terra, tocarem com a planta dos pés as águas do Jordão, elas se dividirão: as águas da parte de baixo continuarão a correr, mas as que vêm de cima pararão, formando uma barragem”. 14 Quando o povo levantou acampamento para passar o rio Jordão, os sacerdotes que levavam a arca da aliança puseram-se à frente de todo o povo. 15 Quando chegaram ao rio Jordão e os pés dos sacerdotes se molharam nas águas da margem – pois o Jordão transborda e inunda suas margens durante todo o tempo da colheita –, 16 então as águas que vinham de cima pararam, formando uma grande barragem até Adam, cidade que fica ao lado de Sartã, e as que estavam na parte de baixo desceram para o mar da Arabá, o mar Salgado, até secarem completamente. Então o povo atravessou, defronte a Jericó. 17 E os sacerdotes que levavam a arca da aliança do Senhor conservaram-se firmes sobre a terra seca, no meio do rio, e ali permaneceram até que todo Israel acabasse de atravessar o rio Jordão a pé enxuto.


Evangelho: Mt 18,21-35
Naquele tempo, 18,21 Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou: “Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?” 22 Jesus respondeu: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete. 23 Porque o Reino dos Céus é como um rei que resolveu acertar as contas com seus empregados. 24 Quando começou o acerto, trouxeram-lhe um que lhe devia uma enorme fortuna. 25 Como o empregado não tivesse com que pagar, o patrão mandou que fosse vendido como escravo, junto com a mulher e os filhos e tudo o que possuía, para que pagasse a dívida. 26 O empregado, porém, caiu aos pés do patrão, e, prostrado, suplicava: ‘Dá-me um prazo! e eu te pagarei tudo’. 27 Diante disso, o patrão teve compaixão, soltou o empregado e perdoou-lhe a dívida. 28 Ao sair dali, aquele empregado encontrou um dos seus companheiros que lhe devia apenas cem moedas. Ele o agarrou e começou a sufocá-lo, dizendo: ‘Paga o que me deves’. 29 O companheiro, caindo aos seus pés, suplicava: ‘Dá-me um prazo! e eu te pagarei’. 30 Mas o empregado não quis saber disso. Saiu e mandou jogá-lo na prisão, até que pagasse o que devia. 31 Vendo o que havia acontecido, os outros empregados ficaram muitos tristes, procuraram o patrão e lhe contaram tudo. 32 Então o patrão mandou chamá-lo e lhe disse: ‘Empregado perverso, eu te perdoei toda a tua dívida, porque tu me suplicaste. 33 Não devias, tu também, ter compaixão do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?’ 34 O patrão indignou-se e mandou entregar aquele empregado aos torturadores, até que pagasse toda a sua dívida. 35 É assim que o meu Pai que está nos céus fará convosco, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão”. 19,1 Ao terminar estes discursos, Jesus deixou a Galileia e veio para o território da Judeia além do Jordão.
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Deus Continua Nos Acompanhando Diariamente


Hoje começarei a exaltar-te diante de todo Israel, para que saibas que estou contigo assim como estive com Moisés”, disse Deus a Josué, o sucessor de Moisés”.


Depois que terminou o êxodo pelo deserto, a gora chegou o momento de o povo eleito entrar na terra de Canaã cuja entrada não foi tao pacifica nem poética como aquie se descreve. Foi uma luta longa, encarnizada com muitas vítimas, povo por povo e região por região. Mas quando se escreve o livro, séculos depois, tende-se a mitificar.


Hoje e nos próximos dias (alguns dias) o texto da Primeira leitura é tirado do Livro de Josué. Este livro não é uma história cientifica escrita de acordo com as regras da historiografia moderna e sim uma coleção de dados que o autor sagrado, sob o influxo da inspiração divina escolheu e selecionou para pôr em detaque o profundo significado religioso da fidelidade de Deus em cumprir sua promessa de entregar a terra de Canaã ao seu povo eleito. Não se faz tanto história e sim catequese, inclusive com uma linguagem que parece litúrgica: a passagem pelo Rio Jordão com trombetas, cantos, procissão de sacerdotes e, sobretudo, a Arca da Aliança, símbolo da presença de Deus entre o povo eleito. Evidentemente, trata-se de mostrar que a divina providência continua cuidando do povo eleito. Deus sempre o mesmo e atua com idêntica misericórdia. Em cada época ou circunstancia da história humana Deus oferece ao povo algun sinal de sua existência e de sua proximidade.


No texto da Primeira Leitura de hoje fala-se da mudança da liderança. Depois que Moisés morreu, o seu fiel discípulo, Josué, assume a liderança. Mas o importante que o autor sagrado quer destacar é que Deus continua a estar na frente de seu povo: “Hoje começarei a exaltar-te diante de todo Israel, para que saibas que estou contigo assim como estive com Moisés”.


Aplicando este detalhe para nossa vida particular e missão, este relato significa que sempre devemos saber contar com o apio de Deus, pois segundo o filosofo pascal, quem não conta com Deus é porque sabe contar. Quando incluímos Deus como o protagonista de nossa vida e missão, no fim saborearemos o sucesso final. A fim de vencermos as dificuldades da vida, não podemos confiar totalmente nas nossas forças nem podemos luta baseando-nos apenas sobre nossa boa vontade. É importante manter nossa união com Deus e confiar na Sua força para que ganhemos e renovemos as forças que temos para continuar nossa luta. Deus é a fonte que não se esgota. Por isso, podemos voltar sempre para este Fonte para nos abastecer e renovar nossa forças.  


Além disso, nós podemos nos alegrar, com maior razão do que nossos irmãos do AT de que um Deus vivo está no meio de nós, pois seu nome é Emanuel, Deus-conosco que arrumou sua tenda no meio de nós (Jo 1,14). Agora não mais acompanhamos a Arca da Aliança e sim o próprio Cristo que se faz Eucaristia, se faz alimento para o caminho que percorremos rumo à eternidade. Por isso esse alimento se chama “viatico”. O próprio Jesus é nosso Comapnheiro da viagem. Com Ele não ficaremos perdidos, pois além de ser nosso alimento, Ele é o próprio caminho para o céu (cf. Jo 14,6).


Perdão É A Expressão Máxima Do Amor


Não te digo até sete vezes tu deves perdoar, mas até setenta vezes sete”.


Estamos na última parte do quarto discurso de Jesus sobre a vida comunitária no evangelho de Mateus (Mt 18). Na passagem do evangelho de hoje Jesus enfatiza a importância do mútuo perdão para que a convivência subsista e o Reino de Deus se realize na terra.


Um dos maiores desafios para qualquer tipo de convivência, como também na comunidade de Mt, é o perdão. A sobrevivência de qualquer comunidade humana depende da capacidade que seus membros têm de perdoar. Sem isto, não há comunidade ou convivência que possa subsistir por muito tempo. O perdão é que possibilita a própria existência e a continuação da comunidade ou de uma convivência. Sem o perdão não existe vida fraterna, vida religiosa, vida conjugal, vida familiar ou vida comunitária. Para aprender a amar verdadeiramente o cristão tem que aprender a perdoar vivendo o espírito de Deus que não se cansa de nos perdoar. Por isso, perdoar não é somente dever moral, e sim o eco da consciência de ter sido perdoado por Deus. Assim chega a ser uma espécie de virtude teologal que prolonga o perdão dado por Deus a mim (cf. Cl 3,13; Mt 6,14-15; 2Cor 5,18-20). “Perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido...”, assim rezamos no Pai Nosso. Neste sentido, perdoar o próximo é sinal da plenitude da eficácia do perdão de Deus recebido. Para pedir o perdão a Deus tenho que aprender a perdoar o outro.


Até quantas vezes devo perdoar? Os judeus diziam que o máximo de vezes a perdoar era quatro vezes. E quem perdoava sete vezes já era considerado santo. Pedro é generoso porque ele eleva o número para sete, pensando chegar ao ideal de Jesus. Mas qualquer que seja o motivo que leva Pedro a fazer sua pergunta ou a elevar o número quatro para o sete, uma coisa é certa: ele quer que Jesus confirme a existência de um limite no exercício da caridade cristã, especialmente no perdão.


Jesus, porém, enfatiza o perdão sem limite: Até 70 vezes sete (v.22). No AT o número 77 representava a vingança dos filhos de Caim (Gn 4, 24). O que tem por trás da afirmação de Jesus é o Deus da misericórdia. Jesus quer nos levar à consciência primordial sobre a razão de nossa existência. Jesus quer nos relembrar de que no início era a misericórdia. Fomos criados por um gesto misericordioso, fomos feitos por mãos misericordiosas, fomos idealizados por uma mente misericordiosa e fomos gerados pelo ventre misericordioso (misericórdia no AT significa “seio materno” = rahamim que se traduz para o português por “misericórdia”, que deriva do latim: miseris, “miserável” + “cor”, “coração” + “dare”, “dar”. Misericórdia significa dar o coração aos miseráveis).


A nossa origem é a misericórdia. Somos seres perdoados e por isso somos chamados a perdoar sem parar. Se esta é a nossa origem, o perdão não é mais uma realidade ocasional, da qual temos necessidade de vez em quando. Se a misericórdia existe desde o princípio, ela ainda agora é fonte de vida e da graça da qual temos necessidade continuamente e que constantemente está agindo em nós para nos reconciliar. O perdão é a expressão máxima do amor. Por isso, não existe perdão sem amor. O perdão é o critério para saber se temos ou não o amor no coração. Se não tem amor no coração, então somos ateus porque Deus é amor (1Jo 4,8.16). O amor é uma força poderosíssima, maior que pecado, não se rende diante do mal, porque é sempre capaz de descobrir o bem e de dar novamente a esperança ou de convidar ainda o outro a caminhar juntos. Para perdoar, basta ter um ato de amor. Mas se é sincero, é força que pode mudar a história.


Perdoar significar encarar positivamente os nossos sentimentos negativos como: a raiva, a mágoa, a culpa, a vingança, o rancor e assim por diante. Os sentimentos estão em cada um de nós. Os sentimentos não podem ser controlados, mas sim podem ser controladas suas reações. Sentir-se ofendido ou ofender o outro é uma prova de que somos vulneráveis e humanos, e que nossa pobreza interior foi posta à vista. Posso ser ofendido por alguém e sentir raiva ou mágoa dele. Mas posso reagir a esse sentimento com o perdão, pois o perdão não é sentimento, mas é decisão. Quando a raiva e outros sentimentos negativos não se libertam, costumam manifestar-se em forma de medo, isolamento, autodepreciação, fúria, depressão, comportamentos agressivos, falta de concentração no trabalho e incapacidade para relações emocionais íntimas. Muita gente sofre demasiadamente porque vive em mágoa contínua. Mantém-se preso ao passado levando vida sofrida, estagnada como água parada que apodrece. A mágoa produz efeitos nocivos. O estresse causado pela mágoa, pela falta de perdão, ataca muitas vezes o sistema imunológico. Assim se pode explicar a origem de muitas doenças, tais como artrite, arteriosclerose, doenças cardiovasculares, diabetes etc. Entre as melhores estratégias contra os efeitos múltiplos do ressentimento é a prática habitual do perdão no dia-a-dia. Muitas vezes acontece que o que nos perturba não é o que acontece, mas o modo de ver o que acontece; não o fato em si, mas a interpretação que é dada a esse fato. A interpretação, muitas vezes, atinge mais a pessoa do que o próprio ato ou evento desagradável. O que perturba é o modo de olhá-lo ou de interpretá-lo. Algumas pessoas não se corrigem e não podem sofrer correção porque vivem negativamente e se ofendem por qualquer coisa.


A recusa do perdão é a fonte de tristeza. O rancor (a mágoa do coração) é fruto do perdão recusado. A Bíblia mostra as conseqüências da amargura: o obscurecimento da inteligência, o desespero, o refúgio em Deus considerado um Deus vingativo (cf. Sl 12,2-5). O perdão recusado pode gerar a raiva e o desespero. Em troca, o perdão libera em nós a força de amar. A verdadeira liberdade é amar, pois o amor dilata o coração.


Perdoar não é uma atitude para gente fraca. A vingança é que o prazer do ofendido e o ódio rancoroso é o único refúgio do mais fraco. Quando se odeia alguém, o que se quer, no fundo, é que ele sofra e até se fica satisfeito com seus sofrimentos. A dificuldade de perdoar o outro nos revela a nós mesmos que existe em nós um instinto de perversidade e nos faz descobrir um eu hostil, atraído pelo mal. Isto quer dizer que existe violência em nosso coração e seria ingênuo e perigoso negá-lo. Perdoar, neste sentido, significa abandonar os desejos sutis de vingança, é renunciar a fazer justiça em causa própria. Quando você perdoa, você se livra do veneno que está dentro de você e sua saúde é recuperada. Quando você se nega a perdoar, você adoece e sofre pelo veneno da recusa do perdão.


A palavra grega para “perdão” é aphesis, que significa liberar, libertar da escravidão, remissão da dívida, da culpa e do castigo. É usada quando a prisão é aberta e o prisioneiro pode sair livre.


Todos nós somos chamados a ser livres, perdoando os outros e recebendo o pedido de perdão do outro. O não- perdão é um veneno que adoece a pessoa, que faz a pessoa infeliz, presa, triste, sem liberdade por causa dos sentimentos negativos cultivados em si. Todos nós que pensamos sobre a paz e queremos a paz, devemos considerar seriamente esse apelo para perdoar. É um apelo à mudança, a não mais sermos controlados por nossas mágoas e medos, nossos sentimentos de vingança e ressentimentos. “Quereis ser feliz por um instante? Vingai-vos! Quereis ser feliz para sempre? Perdoai! (Henri Ladordaire).


Deixemos hoje as seguintes interrogações que podem complementar a interrogação de Pedro:


1). Eu em relação aos outros no perdão:


Quantas vezes eu tenho que perdoar os outros quando o outro me ofendeu? O que é que eu tenho que perdoar nos outros? Eu devo colocar o limite para o perdão que eu devo dar aos outros?


2). Os outros em relação a mim no perdão:


Quantas vezes os outros devem me perdoar quando eu os ofendeu? O que eles devem me perdoar? Os outros devem colocar o limite para o perdão que eles devem me dar?


3. Eu e a Oração do Pai-Nosso


No Pai-Nosso rezamos: “Perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. Isto quer dizer que o perdão dado é o perdão recebido. Dentro do conteúdo dessa oração, o que acontecerá comigo diante de Deus se eu não perdoar o irmão? “O homem não se movimenta pelos pés, mas pelos afetos. Até os próprios pés ele move por afetos” (Santo Agostinho: In ps. 9,15). O afeto nos move a perdoarmos o outro. Perdoar não muda o passado, mas engrandece o presente e o futuro.
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P.Vitus Gustama, svd

terça-feira, 15 de agosto de 2017

16/08/2017

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VIVER NO AMOR FRATERNO E NA CORREÇÃO FRATERNA É OCASÃO DE SALVAÇÃO PARA O PRÓXIMO


Quarta-Feira da XIX Semana Comum


Primeira Leitura: Dt 34,1-12
Naqueles dias, 1 Moisés subiu das estepes de Moab ao monte Nebo, ao cume do Fasga que está defronte de Jericó. E o Senhor mostrou-lhe todo o país, desde Galaad até Dã, 2 o território de Neftali, a terra de Efraim e Manassés, toda a terra de Judá até o mar ocidental, 3 o Negueb e a região do vale de Jericó, cidade das palmeiras, até Segor. 4 O Senhor lhe disse: “Eis aí a terra pela qual jurei a Abraão, Isaac e Jacó, dizendo: “Eu a darei à tua descendência. Tu a viste com teus olhos, mas nela não entrarás”. 5 E Moisés, servo do Senhor, morreu ali, na terra de Moab, conforme a vontade do Senhor. 6 E ele o sepultou no vale, na terra de Moab, defronte de Bet-Fegor. E ninguém sabe até hoje onde fica a sua sepultura. 7 Ao morrer, Moisés tinha cento e vinte anos. Sua vista não tinha enfraquecido, nem seu vigor se tinha esmorecido. 8 Os filhos de Israel choraram Moisés nas estepes de Moab, durante trinta dias, até que terminou o luto por Moisés. 9 Josué filho de Nun estava cheio do espírito de sabedoria, porque Moisés lhe tinha imposto as mãos. E os filhos de Israel lhe obedeceram e agiram, como o Senhor tinha ordenado a Moisés. 10 Em Israel nunca mais surgiu um profeta como Moisés, a quem o Senhor conhecesse face a face, 11 nem quanto aos sinais e prodígios que o Senhor lhe mandou fazer na terra do Egito, contra o Faraó, os seus servidores e todo o seu país, 12 nem quanto à mão poderosa e a tantos e tão terríveis prodígios, que Moisés fez à vista de todo Israel.


Evangelho: Mt 18,15-20
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 15 “Se teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, mas em particular, à sós contigo! Se ele te ouvir, tu ganhaste o teu irmão. 16 Se ele não te ouvir, toma contigo mais uma ou duas pessoas, para que toda a questão seja decidida sob a palavra de duas ou três testemunhas. 17 Se ele não vos der ouvido, dize-o à Igreja. Se nem mesmo à Igreja ele ouvir, seja tratado como se fosse um pagão ou um pecador público. 18 Em verdade vos digo, tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu. 19 De novo, eu vos digo: se dois de vós estiverem de acordo na terra sobre qualquer coisa que quiserem pedir, isto vos será concedido por meu Pai que está nos céus. 20 Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome eu estou ali, no meio deles”.
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É Preciso “Subir” Para Falar Com Deus A Fim De Ter Uma Visão Ampla Sobre Nossa Vida e Seu Sentido


Moisés subiu das estepes de Moab ao monte Nebo, ao cume do Fasga que está defronte de Jericó... O Senhor lhe disse: ‘Eis aí a terra pela qual jurei a Abraão, Isaac e Jacó, dizendo: Eu a darei à tua descendência. Tu a viste com teus olhos, mas nela não entrarás’. E o Senhor mostrou-lhe todo o país... E Moisés, servo do Senhor, morreu ali, na terra de Moab, conforme a vontade do Senhor”.


O texto da Primeira Leitura nos relata o fim da vida de Moisés depois que passou a liderança para Josué (Num 27,18-21). Josué é o sucessor eleito por Deus cuja liderança foi adquirindo com Moisés. É um homem de grandes qualidades, com dotes de chefe, com espirito de Deus e foi consagrado numa cerimônia litúrgica.


Este texto (Primeira Leitura) é a continuação de Dt 32,48-52. Segundo a ordem recebida, o profeta (Moisés) sobe ao cume do monte Nebo, a partir do qual Javé lhe mostra os confins da terra prometida, mas o próprio Moisés, por ordem de Deus, não entra na terra prometida. O autor sagrado idealiza a história, e assim nos apresenta o próprio Deus enterrando Moisés num lugar secreto, desconhecido nos tempos da redação do livro (Dt 34,6). O hagiógrafo (autor sagrado) quer ressaltar com suas descrições a especialíssima providência de Deus e a grande veneração que sentia pelo profeta excepcional, Moisés, criador da teocracia hebraica. Para ressaltar diante das gerações sua particularíssima amizade com Deus, convinha rodear sua morte de mistério e solenidade como havia ocorrido com a morte do primeiro sumo sacerdote Aarão. Dentro do esquema teológico da narração do deuteronomista, a morte de Moisés é uma morte digna do maior dos profetas de Israel.


Moisés nos convida a subirmos ao alto, até Deus, para conversar com Ele a fim de enxergar melhor a dimensão e a amplitude de nossa vida e seu sentido, e para saber até onde devemos ir mesmo que tenhamos uma vontade enorme de avançar. Moisés esteve toda sua vida subindo espiritualmente. O pico de sua vida é o Sinai. Agora o Monte Nebo é o cume de sua morte. Moisés sobe agora para a montanha Nebo para não descer jamais. A cada passo se eleva. Moisés contempla e termina sua contemplação saturado de história e de paisagem e fecha os olhos para não abrir mais. O monte Nebo é o pedestral de sua vida e de sua morte: “Moisés, servo do Senhor, morreu ali, na terra de Moab, conforme a vontade do Senhor. E ele o sepultou no vale, na terra de Moab, defronte de Bet-Fegor. E ninguém sabe até hoje onde fica a sua sepultura” (Dt 34,5-6). “O homem perfeito e feliz (Moisés) não morre no vale, nem em planície alguma, nem sobre uma colina, mas no alto de uma montanha, isto é, em um lugar elevado e de difícil acesso. Porque a meta e a perfeição de sua vida tinham por cenário as alturas”, comentou Orígenes.


A morte de Moisés fecha o livro de Deuteronômio e todo o Pentateuco. São momentos solenes: a última conversa que Moisés mantém com Javé na Terra.


No desamparo de Israel que perdeu seu guia e profeta aparece Josué, seu sucessor (Dt 34,9). A imposição das mãos de Moisés sobre Josué significa a investidura do cargo e sobretudo, a transmissão do espirito. O relato da morte de Moisés está intimamente relacionado com a sucessão carismática de Josué, como ocorreu com Elias e Eliseu.


Grande profeta, amigo de Deus, solidário de seu povo, homem de grande coração, intercessor do povo, líder consumado, grande orante, convencido crente que deixou para trás a impressão de que não é ele, um homem, e sim o próprio Deus que atuou nele a favor de seu povo. O protagonista foi Deus. Inclusive, em sua morte, Moisés é discreto: não se sabe onde está seu túmulo. Moisés se deixava guiar por Deus como Seu instrumento eficaz para libertar o povo da escravidão. A vida de Moisés sempre esteve pendente da palavra de Deus. Moisés começou sua vida com Deus, estava com Deus durante a vida e terminou sua vida terrestre com Deus para estar com Deus na felicidade perpétua. Isso se chama a salvação. Ele estava com o povo, guiando-o, intercedendo por ele e morreu entregando a liderança para o outro (Josué) para continuar a guiar o povo de Deus. Isso se chama o amor fraterno que é o cumprimento de toda a lei (Cf. Rm 13,10)


Ser Ocasião De Salvação Para o Outro


Estamos acompanhando o quarto discurso de Jesus no evangelho de Mateus (Mt 18). Neste quarto discurso o que se enfatiza é a vida comunitária na fraternidade.


A passagem do evangelho de hoje quer dar resposta às seguintes questões: que atitude tomar em relação a quem erra? Em outras palavras, como corrigir o irmão que peca/erra? (Correção fraterna).


A correção fraterna é uma norma antiqüíssima, como lemos em Lv 19,17: “Deves repreender teu próximo, e assim não terás a culpa do pecado”. Com a correção fraterna nos tornamos um para o outro ocasião de salvação. Somente entre irmãos é que pode haver a correção. É por isso que s chama a correção fraterna. Ser irmão significa sentir-se responsável pelo crescimento do outro e, portanto, gozar de seu bem ou capacidade, e sentir seu mal. É ir além da indiferença e do medo, da inveja, da rejeição e do ciúme.


Nós não praticamos a correção fraterna a partir da agressividade e da condenação imediata de quem errou. A correção fraterna deve ser guiada pelo amor e pela compreensão na busca do bem do irmão: estender a mão para ajudá-lo, dirigir-lhe uma palavra de ânimo e ajudá-lo na sua recuperação.


A correção fraterna é uma atividade espiritual, pois deve ser feita à luz do Espírito de Deus para não transformá-la em censura e juízo que exprimem mais superioridade que fraternidade. A correção fraterna é um modo de ser e crescer juntos, de ligar a própria vida à vida de quem me está “próximo”, de conceber a fraternidade como evento de salvação. A correção fraterna me faz descobrir o irmão e me faz irmão para o outro. A correção fraterna faz alguém pôr-se ao lado do outro para caminhar junto.


A Igreja, todos nós, não constitui uma comunidade de perfeitos, mas de pessoas em busca da perfeição. Ninguém de nós é perfeito, e não é porque seguimos a Jesus é que estejamos livres de cometer erros. São João diz: “Se dissermos: ‘Não temos pecado’, enganamo-nos a nós mesmos e a verdade não está em nós... Se dissermos: ‘Não pecamos’, fazemos dele um mentiroso, e a sua palavra não está em nós” (1Jo 1,8.10). Todos nós, membros da Igreja de Jesus Cristo, somos convidados a manifestar nossa responsabilidade para com o irmão que erra ou peca. Não se trata de condenar, mas de fazer a correção fraterna para que se estabeleça o amor. A lei do amor, com certeza, obriga a um esforço para reconduzir o irmão que erra ao bom caminho.


O pecador ou um irmão que errou não descobrirá o perdão de Deus se não tomar consciência da misericórdia de Deus que atua na Igreja (entre os seus membros) ou em cada comunidade e na assembléia eucarística. Todos nós somos co-responsáveis na comunidade.


Por isso, há uma coisa que absolutamente não deve ser feita (mas infelizmente, a primeira que se faz): espalhar a notícia do erro cometido. Porque isto é difamação. A difamação presta-se somente a humilhar quem errou, a irritá-lo, a fazê-lo teimar no mal. É mesmo que perder para sempre a oportunidade de recuperar o irmão. A difamação pode destruir o homem, como diz o Eclesiástico: “Um golpe de chicote deixa marca, mas um golpe de língua quebra completamente os ossos” (Eclo 28,17). A difamação (língua) pode matar um irmão, pode arruinar uma família e pode destruir um casamento. Há quem pense que por ter falado a verdade pode ficar tranqüilo. A questão é de que modo se transmite a verdade. A verdade que não produz amor, mas que provoca perturbação e desunião, que gera discórdias, ódios e rancores, não deve ser dita. A verdade nua e crua, às vezes, provoca o efeito contrário do amor. A verdade que mata opõe-se à vida. Como dizia São Francisco de Sales: “Uma verdade que não é caridosa procede de uma caridade que não é verdadeira”. A verdade, então, está submetida à caridade. Precisamos levar em consideração o grande respeito e prudência em ditar a verdade. O que se diz e como se diz devem ser levados sempre em consideração.


Além da correção fraterna o texto do evangelho de hoje fala também da oração partilhada ou comunitária. Segundo Jesus, a oração eficaz somente pode ser fruto da superação da própria agressividade, do próprio egoísmo e dos interesses individuais. Quando houver concórdia entre os membros de uma comunidade, isto é, união dos corações, quando há preocupação recíproca (um cuida do outro), quando reinar a igualdade, pois todos são do mesmo Pai celeste, a oração se tornará eficaz e chegará até Deus: “Eu vos digo: se dois de vós estiverem de acordo na terra sobre qualquer coisa que quiserem pedir, isto vos será concedido por meu Pai que está nos céus. Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome eu estou ali, no meio deles”.


Acreditamos que em Deus não há espaço para as pessoas que pensam só em si mesmas, que se preocupam só com sua própria vida espiritual, pois no Reino de Deus não há espaço para os egoístas, pois Deus é Amor. Ele quer encontrar um povo, quer relacionar-se com pessoas que vivem em comunidade vivida na fraternidade. Pois onde dois ou três estarem reunidos em nome do Senhor Jesus, ele está no meio deles (v.20). Neste versículo se exprime a certeza de que Deus está no meio da comunidade quando ela se reúne no seu nome e quando a comunidade faz tudo no Espírito do Senhor. A presença de Jesus no coração de uma comunidade fraterna é o que qualifica a oração cristã. Quando os que crêem rezam juntos, revelam a própria fé, reconhecendo-se irmãos e irmãs, e assim proclamam ao mundo o seu pertencer ao Cristo ressuscitado. Assim os discípulos que rezam juntos criam interiormente um movimento de comunhão, fazem crescer um só coração e uma só alma (cf. At 4,32).


Precisamos manter nossa consciência de que a Igreja é o lugar da misericórdia, pois o Deus em quem ela acredita é amor (1Jo 4,8.16). “Sede misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36). A ofensa cria, ao contrário, a divisão na comunidade. Lembremo-nos de que cada um tem que ser ocasião de salvação para o outro. Como cristão eu devo me tornar ocasião de salvação para meu próximo. E tu deves te tornar ocasião de salvação para mim. Somente assim seremos todos salvos na misericórdia divina (cf. Carta de São Tiago 2,13).


P. Vitus Gustama,svd

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

15/08/2017

Nesta página há duas reflexões:
1. Reflexão sobre as leituras do dia (para os lugares em que a Festa da Assunção será celebrada no próximo domingo).
2. Reflexão sobre a Asssunção de Nossa Senhora para os lugares em que a festa é celbrada no dia 15 de Agosto.
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SOMOS CHAMADOS A VIVER NA FRATERNIDADE E LIDERAR COM O ESPÍRITO DIVINO


Terça-Feira da XIX Semana Comum


Primeira Leitura: Dt 31,1-8
1 Moisés dirigiu-se a todo Israel com as seguintes palavras: 2 “Tenho hoje cento e vinte anos e já não posso deslocar-me. Além do mais, o Senhor me disse: ‘Não atravessarás este rio Jordão’. 3 É o Senhor teu Deus que irá à tua frente; ele mesmo, à tua vista, destruirá todas essas nações, para que ocupes suas terras. Josué passará adiante de ti, como disse o Senhor. 4 E o Senhor fará com esses povos o que fez com Seon e Og, reis dos amorreus, e com suas terras, que ele destruiu. 5 Quando, pois, o Senhor os entregar a vós, fareis com eles exatamente o que vos ordenei. 6 Sede fortes e valentes; não vos intimideis nem tenhais medo deles, pois o Senhor teu Deus é ele mesmo o teu guia, e não te deixará nem te abandonará”. 7 Depois Moisés chamou Josué e, diante de todo Israel, lhe disse: “Sê forte e corajoso, pois és tu que introduzirás este povo na terra que o Senhor sob juramento prometeu dar a seus pais, e és tu que lhe darás a posse dela. 8 O Senhor que é o teu guia, marchará à tua frente, estará contigo e não te deixará nem te abandonará. Por isso, não temas nem te acovardes”.


Evangelho: Mt 18,1-5.10.12-14
Naquele tempo, 1 os discípulos aproximaram-se de Jesus e perguntaram: “Quem é o maior no Reino dos Céus?” 2 Jesus chamou uma criança, colocou-a no meio deles 3 e disse: “Em verdade vos digo, se não vos con­ver­terdes, e não vos tornardes como crianças, não entrareis no Reino dos Céus. 4 Quem se faz pequeno como esta criança, este é o maior no Reino dos Céus. 5 E quem recebe em meu nome uma criança como esta é a mim que recebe. 10 Não desprezeis nenhum desses pequeninos, pois eu vos digo que os seus anjos nos céus veem sem cessar a face do meu Pai que está nos céus. 12 Que vos parece? Se um homem tem cem ovelhas, e uma delas se perde, não deixa ele as noventa e nove nas montanhas, para procurar aquela que se perdeu? 13 Em verdade vos digo, se ele a encontrar, ficará mais feliz com ela, do que com as noventa e nove que não se perderam. 14 Do mesmo modo, o Pai que está nos céus não deseja que se perca nenhum desses pequeninos”.
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Ser Bom Lider É Aquele Que Guia o Povo Para Seu Bem e Anima o Sucessos Quando Termina a Liderança


O Senhor teu Deus é ele mesmo o teu guia, e não te deixará nem te abandonará... O Senhor que é o teu guia, marchará à tua frente, estará contigo e não te deixará nem te abandonará. Por isso, não temas nem te acovardes”, disse Moisés no seus discurso ao povo eleito, e a Josué. Trata-se do último testamento de Moisés pronunciado no fim de sua vida dirigido para o povo eleito e para Josué a quem dá a inverstidura como seu sucessor que vai guiar o povo eleito para a terra prometida.


No conjunto de Dt 31-34, no qual se situa o texto da Primeira Leitura, encontramos doze “discursos”. Sete deles saíram da boca de Moisés e outros cinco, da boca de Deus, sem perder a voz do narrador dentro desses discursos.


Moisés não vai poder entrar na terra prometida, por mais que ele peça a Deus. Mesmo assim a ausência de Moisés do meio do povo eleito, que se encontra na porta da terra prometida, não produzirá um vazio no poder porque Moisés nomeia Josué como guia do povo nesta etapa da entrada e o assentamento da terra prometida. E sobretudo, porque Deus continua acompanhando Moisés e o povo eleito como fez ao longo de todo o caminho pelo deserto. Mosiés anima o povo e Josue: “Sede fortes e valentes; não vos intimideis nem tenhais medo deles, pois o Senhor teu Deus é ele mesmo o teu guia, e não te deixará nem te abandonará”. É a convicção que o Responsório de hoje recolhe (Dt 32,3-12): “Recorda-te dos dias do passado e relembra as antigas gerações; pergunta, e teu pai te contará; interroga, e teus avós te ensinarão.... O Senhor, somente ele, foi seu guia, e jamais um outro deus com ele estava....  Ele é a Rocha: suas obras são perfeitas”.


O carisma de guiar o povo passa agora de Moisés para Josué e assim se sudem as pessoas. Mas Deus e sua fidelidade permanecem: “O Senhor teu Deus é ele mesmo o teu guia, e não te deixará nem te abandonará”.


Esta promessa chega intacta para o Novo Testamento e se expressa no paradoxo cristão: “Prefiro gloriar-me das minhas fraquezas para que pouse sobre mim a força de Cristo” (2Cor 12,9). As pessoas e as gerações se sucedem, mas permanece firme a promessa de Jesus: “Eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos” (Mt 28,20b).


Até aqui há algo que possamos aprender de Moisés. Moisés aceita o fato de não poder entrar na terra prometida. Ele não reage com amargura. O que preocupa Moisés é que o povo eleito tenha um guia, que Deus continue protegendo o povo e o novo guia, e que tenham sucesso na entrada e na ocupação da terra prometida. Alcançar a terra prometida é o único objetico de Moisés para o povo eleito saído da escravidão do Egito. Por isso, Moisés transmite a autoridade para Josué com sincero interesse sem rancor. Nos lábios de Moisés não há nenhuma palavra agressiva nem de queixa. Ele é um grande e verdadeiro líder.


De Moisés aprendemos que em nossa vida pode acontecer a mesma coisa. Em determinado momento o que semeamos, os outros vão colher seus frutos. Mas o importante é semear a semente boa sem nos preocuparmos com a colheita. Uma mudança de destino ou uma enfermidade ou a morte podem diminuir ou acabar com nossas forças. Mas os outros vao continuar o nosso trabalho ou vão melhorar o que precisa ser melhorado. A reação com um coração magnânimo é uma reação de um grande líder como Moisés. Animar o povo, em vez de dividí-lo, no fim de nossa liderança demonstra nossa verdadeira capacidade de liderar os outros. Um grande líder não se deixa dominar pelo sentimento de vaidade e de exibicionismo. Dificilmente, um grande líder cai na depressão a partir do momento em que deixa de ser líder do povo. Um grande líder trabalha pelo bem do povo e continua a animá-lo e animar o sucessor pela mesma obra: o bem do povo e sua salvação. A Igreja tem uma consciência plena disso, como lemos no último cânon do Côdigo do Direito Canônico: “... tendo diante dos olhos a salvação das almas que, na Igreja, deve ser sempre a lei suprema” (Can. 1752). Quando deixamos de salvar as almas no nosso trabalho evangelizador é porque temos algo escondido (interesses egositas) atrás de nossas atividades. Quando o objetivo é para salvar as almas, seremos capazes de abrir mão de tudo que possa atrapalhar essa missão mesmo que tenhamos algum interesses pessoal nisso, como Moisés que pediu para viver mais a fim de poder levar o povo até a terra prometida. Mas Deus não lhe concedeu essa graça. Deus coloca outro líder: Josué. Se reagirmos como Moisés, será um sinal de que não estávamos buscando a nós mesmos e sim que nosso interesse era o bem dos demais e a glória de Deus, pois somente Deus quem salva e leva à plenitude nossas obras. Nós somos apenas colaboradores de Deus neste mundo para salvar as almas. Não somos protagonistas nem imprencindíveis nem insubstiuíveis. Temos que saber nos retirar a tempo com a elegância espiritual de Moisés.


A autoridade de Josué será de ordem profano: conquistar uma terra, ser forte para levar a cabo a operação e infundir valor e confiança ao povo eleito. Nenhuma missão especificamente religiosa foi-lhe confiada, no entanto, o autor sagrado declara que Deus está com ele.


Um chefe politico não tem necessidade de uma responsabilidade religiosa e menos ainda, de uma consagração litúrgica para que sua autoridade revista um significado divino. Ele organiza a comunidade/povo de tal maneira que as opções espirituais e o destino de cada um possam realizar-se. Não é tampouco necessário que o chefe político defenda para cada um, o exercício da religião de sua preferências. Cada um tem a liberdade religiosa. Mas a partir do momento em que um chefe político se preocupa das condições ótimas para melhorar a vida em sociedade (a vida e a salvação do povo), sua liderança é revestida de uma dimensão divina.


Somos Chamados a Conviver Na Fraternidade Amorosa


 Em verdade vos digo, se não vos converterdes, e não vos tornardes como crianças, não entrareis no Reino dos Céus. Quem se faz pequeno como esta criança, este é o maior no Reino dos Céus. E quem recebe em meu nome uma criança como esta é a mim que recebe”, disse-nos o Senhor no texto do Evangelho deste dia.


Um Discurso Sobre Vida Comunitária


Estamos no quarto grande discurso de Jesus nos evangelho de Mateus (Mt 18). E este quarto discurso é conhecido como “discurso eclesiológico” (discurso sobre a Igreja) ou “discurso comunitário” onde se acentua a vida na fraternidade, isto é, cada membro da comunidade é considerado como irmão, pois tem Deus como o Pai comum. Este capítulo (Mt 18,1-35) foi escrito para responder aos problemas internos das comunidades cristãs: Quem é o primeiro na comunidade? O que fazer se acontecem escândalos? E se um cristão se perde ou se afasta da comunidade, o que fazer? Como corrigir um irmão que erra? Quando é que uma oração pode ser chamada de comunitária e partilhada? E quantas vezes se deve perdoar?


Na comunidade de Mt (como também em qualquer comunidade cristã) cresce a ambição e se cultivam sonhos de grandeza dos membros que se acham mais importantes dos demais membros. Há pouca consideração para com os pequenos, até são desconsiderados ou desprezados. Estes pequenos correm risco de se tornarem incrédulos e de se afastarem da atividade comunitária. Na comunidade de Mt suscitam também pecadores notórios, inclusive as ofensas e os ressentimentos que abalam a convivência fraterna.


Nesse capítulo, são dadas diversas orientações e algumas normas que têm por objetivo desenvolver o amor fraterno e favorecer a harmonia entre os membros da comunidade. Contra os sonhos de grandeza e de orgulho, Mt coloca a atitude de humildade que agrada a Deus e aos outros (18,1-4). Para os pequenos, os fracos na fé, é necessário ter uma acolhida cheia de caridade e de desvelo (18,6-7). O desprezo é inadmissível para uma boa convivência. Para enfatizar mais este tema, Mt fala dos anjos que sempre estão do lado dos pequenos (18,10). Se um dos membros da comunidade afastar-se ou desviar-se do caminho reto, em vez de condená-lo, a comunidade toda deve esforçar-se para que esse irmão volte para a comunidade, pois Deus não quer que nenhum deles se perca (18,12-14). E para o irmão pecador, a comunidade inteira deve usar todos os meios para recuperá-lo (18,15-20). E para as ofensas, deve haver perdão, pois uma comunidade só pode sobreviver se existe o perdão mútuo (18,21-35).


Ser Irmão e Fazer-se Pequeno


Quem é o maior no Reino dos céus?”. “Quem é o maior diante de Deus?”. “Quem vale mais diante de Deus?”. Assim inicia o quarto discurso de Jesus sobre a vida comunitária baseada na fraternidade. A pergunta é feita pelos discípulos para Jesus. Maior aqui significa proeminente, superior aos outros por força de uma qualidade ou de um poder ou de um cargo.


Atrás desta pergunta se esconde a ambição ou a mania de grandeza dos discípulos. É “a psicologia do príncipe”, segundo o Papa Francisco. É a ambição de grandeza que pode ser encontrada em qualquer comunidade cristã. É admirável a ambição de alguém que deseja redimir sua humilde condição, valorizando todas as suas capacidades de inteligência e de luta, pois um dos sentidos lexicais da palavra ambição é anseio veemente de alcançar determinado objetivo, de obter sucesso; aspiração, pretensão. A ambição só se transformará em vício quando a afirmação de si mesmo for exagerada e os meios adotados para atingir a glória forem desonestos. Uma pessoa de alma nobre não sai à procura das honras, e sim do bem, da fraternidade, da verdade, da caridade e assim por diante. Ao contrário, o ambicioso se sente totalmente envolto pela espiral da glória que o transforma em vítima da própria tirania. O ambicioso, quando dominado pelo vício, não suporta competidores, nem admite rivais. Quem desejar ser a todo o custo o primeiro, dificilmente se preocupar com ser justo. “A soberba gera a divisão. A caridade, a comunhão” (Santo Agostinho. Serm. 46,18).


Como resposta para a pergunta dos seus discípulos Jesus faz um gesto muito simbólico: Ele chamou uma criança e a colocou no meio dos discípulos. Ao ser colocada no meio de todos, a criança chamada se torna um centro de atenção de todos. Podemos imaginar que todos os olhares são dirigidos a essa criança e os ouvidos prontos para ouvir a palavra sábia do Mestre Jesus. “Em verdade vos digo, se não vos con­ver­terdes, e não vos tornardes como crianças, não entrareis no Reino dos Céus. Quem se faz pequeno como esta criança, este é o maior no Reino dos Céus. E quem recebe em meu nome uma criança como esta é a mim que recebe”, disse Jesus aos discípulos (Mt 18,3-5). Ser criança: frescor, beleza, inocência, não se basta a si mesma!


Esta é a primeira regra da vida comunitária: cuidar dos pequenos e tratá-los como irmãos, e fazer-se pequeno. Fazer-se pequeno, como exigência para viver a vida comunitária, significa renunciar a toda ambição pessoal e a todo desejo de colocar-se acima dos demais para estar em destaque e para oprimir os demais. Fazer-se pequeno é uma forma de “renegar-se a si mesmo” para colocar a vontade de Deus acima de tudo. A grandeza do Reino consiste no serviço humilde e gratuito ao próximo, na solidariedade para com os necessitados, na partilha do que se tem para com os carentes do básico para viver dignamente como ser humano, e no esforço para construir uma convivência mais fraterna. Trata-se de viver a espiritualidade familiar onde cada membro se preocupa com o outro membro e sua salvação. Vivendo desta maneira estaremos testemunhando para o mundo que temos fé em Deus e que estamos no Reino de Deus já neste mundo, pois vivemos como irmãos, filhos e filhas do mesmo Pai celeste.


Ser Ocasião de Salvação Para o Outro


Se um homem tem cem ovelhas, e uma delas se perde, não deixa ele as noventa e nove nas montanhas, para procurar aquela que se perdeu? Em verdade vos digo, se ele a encontrar, ficará mais feliz com ela, do que com as noventa e nove que não se perderam. Do mesmo modo, o Pai que está nos céus não deseja que se perca nenhum desses pequeninos”, acrescentou Jesus (Mt 18, 12-14). Esta é outra regra essencial da vida comunitária!


Os fariseus eram uns “separados”, e julgavam severamente os pecadores e os que erravam, os quais eram excluídos dos banquetes sagrados ou de um simples banquete comunitário, pois comer juntos significava igualar ou nivelar as relações. Deus atua completamente diferente. Deus nem sequer espera o arrependimento do pecador para amá-lo. Antes, abandonando o resto do rebanho, ele vai à busca de uma ovelha perdida. Através de uma conversa fraterna e através de sua participação na refeição com os excluídos pela sociedade em questão Jesus consegue trazer de volta para Deus muitos pecadores, como Zaqueu (Lc 19,2-10), como Mateus (Mt 9,9) e assim por diante.


O saudoso Cardeal François X. Van Thuan escreveu dois dos cinco “defeitos” de Jesus (Testemunhas Da Esperança. Edit. Cidade Nova). O primeiro defeito é que Jesus não tem boa memória. Ele esquece todos os pecados dos que se arrependeram, como o “bom ladrão”: “Hoje mesmo tu estarás comigo no Paraíso” (Lc 23,43) e a mulher pecadora: “... seus numerosos pecados lhe estão perdoados, porque ela demonstrou muito amor” (Lc 7,47). Deus não lhes pergunta nada a respeito de seu passado escandaloso. Deus esquece até mesmo que perdoou. E o segundo “defeito” de Jesus é que ele não “sabe” matemática. Ele abandona 99 ovelhas para procurar uma que está perdida. Na nossa matemática uma ovelha não é igual a 99 ovelhas. Para Jesus uma ovelha é igual a 99 ovelhas. Todos têm o mesmo valor diante de Deus.


Cada um de nós, por menor que seja no olhar de um ser humano ou de uma sociedade, é objeto de um carinho especial de Deus. Deus não despreza nenhum ser humano. Cada um é considerado na sua individualidade. A graça de Deus nos faz nós mesmos: “Eu sou o que sou pela graça de Deus” (1Cor 15,10). Jesus quer que cada membro da comunidade cristã precise ser uma ocasião de salvação para o outro e o outro é uma ocasião de salvação para mim. Somente é assim que uma comunidade cristã pode ser chamada e considerada como uma comunidade de irmãos.


Na Bíblia a misericórdia pertence rigorosamente à linguagem mais elevada da fé, designa uma atitude de todo o ser. A misericórdia evoca tanto o aspecto de fidelidade ao compromisso como o aspecto de ternura do coração. A experiência da condição miserável e pecadora do homem deu corpo à noção da misericórdia de Deus, que se apresenta a nós como a atitude de Deus diante do pecado do homem. A misericórdia de Deus não é ingenuidade e sim convite à conversão e convite para cada homem a praticar, por sua vez, a misericórdia para os demais homens.


Os escribas e os fariseus não são capazes de ver no pecados mais que a um inimigo de Deus. Se um pecador é inimigo de Deus, logo é inimigos dos que se consideram “religiosos”. Não é esta a atitude daqueles que julgam com excessiva severidade das falhas dos outros? Deus, ao contrário, não espera o arrependimento para amar o pecador. Quem é responsável pela comunidade, pela pastoral, pelo grupo na Igreja do Senhor é encarregado de revelar ao irmão que pecou que Deus o ama primeiro (1Jo 4,10.19; 2Cor 5,20) e que esse Deus se preocupa com a salvação de todos. Será que todos os responsáveis na comunidade está consciente dessa responsabilidade?


P.Vitus Gustama,svd
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ASSUNÇÃO DE MARIA


Texto: Lc 1,39-56



A proclamação do dogma da Assunção de Maria à glória dos céus, em alma e corpo, pertence ao século XX: foi declarado solenemente por Pio XII em 01 de Novembro de 1950 na bula Munificentissimus Deus. No entanto, a liturgia da Igreja universal, tanto no Oriente quanto no Ocidente, celebrou por muitos séculos esta convicção de .  No século V celebrava-se em Jerusalém no dia 15 de agosto uma festa importante que tinha por objeto a excelência da pessoa da Mãe de Deus, eleita por supremo conselho para desempenhar uma missão muito especial na história da salvação. Entre o V e VI século, a narração apócrifa sobre o Trânsito de Maria da vida terrena à glória eterna alcançou uma difusão extraordinária: a conseqüência foi o desejo natural dos peregrinos que ocorriam a Jerusalém de honrar o túmulo da Virgem. Durante o século VII, com o nome de Assunção foi acolhida na Igreja de Roma, juntamente com as festa da Apresentação, Anunciação e Natividade, para as quais o Papa Sérgio I(+ 701), instituiu uma procissão preparatória para a missa, celebrada na Santa Maria Maior. No fim do século VII encontra-se  uma antiga oração romana composta para a procissão que introduz a celebração mariana do dia 15 de agosto: “Venerável é para nós, Senhor, a festa deste dia em que a Santa Mãe de Deus sofreu a morte terrena, mas não permaneceu nas amarras da morte, ela que, do próprio ser, gerou, encarnado, o teu Filho, Senhor nosso” (Sacramentário Gregoriano Adrineu, no.661)


A bula da definição dogmática não fala de argumentos bíblicos, pois a Escritura não afirma a Assunção de Maria. Discute-se se Maria morreu ou não. Por isso, o texto dogmático, cautelosamente, diz “terminado o curso de sua vida terrestre”. Nós, por isso, afirmamos que Maria morreu, pois assim se pode falar, verdadeiramente, de ressurreição, porquanto somente um morto pode ressuscitar. Maria morreu pelo fato natural da morte que pertence à estrutura da vida humana, independentemente do pecado. Maria, livre e isenta de todo o pecado, pôde integrar a morte como pertencente à vida criada por Deus. A morte não é vista como fatalidade e perda da vida, mas como chance e passagem para uma vida mais plena em Deus.


Além disso, Maria participa na  economia da redenção pelo fato de ser a Mãe do Senhor(Lc 1,43). Ela se associou totalmente ao destino de seu Filho. A redenção implica sempre a colaboração de quem a recebe. Maria colaborou admiravelmente na própria salvação. por este título ela é o modelo original de quantos recebem a salvação, o modelo de todos os redimidos. Como tal, ela tem um significado universal de salvação. É o protótipo da vida redimida, a plena e perfeita realização, a imagem ideal de toda a vida cristã. Por sua vida e morte Jesus nos libertou. Por sua vida e morte Maria participou desta obra messiânica e universal. A co-redenção significa a associação de Maria tanto à cruz de Jesus como à sua ressurreição e exaltação gloriosa ou ascensão. Esta razão teológica tem o seu fundamento no triunfo de Cristo sobre a morte, de que faz participantes todos os cristãos por meio da e do batismo.


Maria foi assunta ao céu em corpo e alma. Aqui não se trata de dogmatizar um esquema antropológico (corpo e alma). Utiliza-se esta expressão, compreensível à cultura ocidental, para enfatizar o caráter totalizante e completo da glorificação de Maria. Maria vê-se envolvida na absoluta realização.  Assunta ao céu”, ela se nos apresenta como as primícias da redenção, tendo consumado em si o que ainda se realizará em nós e na Igreja. O corpo de Maria, enquanto ela perambulava por este mundo, foi somente veículo de graça, de amor, de compreensão e de bondade. Não foi instrumento de pecado, da vontade de auto-afirmação humana e de desunião com os irmãos.  O corpo é forte e frágil, cheio de vida e contaminado pela doença e morte. Por isso, é exaltado por uns até a idolatria e odiado por outros até a trituração. Maria vive e goza, no corpo e na alma, quer dizer na totalidade de sua existência, desta inefável realização humana e divina.


Para Maria a assunção significa o definitivo encontro com seu Filho que a precedeu na glória. Mãe e Filho vivem um amor e uma união inimaginável. Maria agora vive, em corpo e alma, aquilo que nós também iremos viver quando atingirmos o céu.


Enquanto peregrinamos, Maria atua como imagem que recorda e concretiza o nosso futuro. Em cada um que morre no Senhor se realiza aquilo que ocorreu com Maria: a ressurreição e a elevação ao céu. Andando por entre as tribulações do tempo presente, erguemos os olhos ao e rezamos: Salve Maria, vida, doçura e esperança, salve! Rogai por nós pecadores agora e na hora de nossa morte. Doce mãe da esperança, em quem apareceu o futuro do mundo e nos foi antecipada e prometida a glória do tempo futuro, ajuda-nos a ser peregrinos na esperança a caminho da unidade futura do Reino, sem pararmos diante das resistências e das canseiras, antes nos empenhando, com fidelidade e paixão, em levar no presente os homens ao futuro da promessa de Deus. Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora e na hora de nossa morte. Amém!


Algumas mensagens do texto


1. O Evangelista Lc não descreve que Maria simplesmente “andou”, mas que ela “partiu” / pôr-se a caminho”. Nos Evangelhos a idéia de viagem, de caminho, está intimamente ligada à obediência a Deus e ao discipulado de Jesus. O verbo “pôr-se a caminho” tem em Lucas o significado teológico de disponibilidade e obediência aos planos de Deus; pôr-se a caminho significa aceitar total e existencialmente o caminho proposto por Deus, pois esse caminho nos conduz sempre à felicidade embora tenhamos que atravessar vários obstáculos, mas no coração ressoa sempre uma certeza de que Deus está sempre caminhando conosco (Maria foi com Jesus no ventre).


Maria se pôs a caminho significa que a partir daquele momento começou a sua vida como resposta  à proposta ou aos planos de Deus.  É a resposta ao anúncio feito por Deus, que se funda, sobretudo, a leitura de Maria como modelo do discípulo perfeito, como a alma fiel por excelência.


A de Maria é uma missionária. Depois de dizer o seusim”, leva-o através dos caminhos do nosso mundo para suscitar a alegria e o louvor. A viagem de Maria à Judéia(para Ain Karin), por isso, é um símbolo do caminho da que precisa ser testemunhada, compartilhada, que precisa servir; porque a não é somente o dom de Deus, mas também é uma resposta humana, e com todo ato humano. Dessa é que faz encontro e serviço. E quando a Palavra de Deus é ouvida com autenticidade, como Maria, não pode deixar de ser profundamente criativa e dialogante. E quando a Palavra de Deus é ouvida e refletida com atenção por qualquer um, ele não pode deixar de ser missionário desta Palavra.


2. Maria partiu “apressadamente”. A expressãoapressadamentenão descreve a presteza externa com que parte nem descreve o estado psicológico de Maria. Lc quer sublinhar a atitude interior de e de obediência de Maria. Suapressa” está dinamizada pelo fervor interior, pela alegria e, sobretudo, pela (cf. Lc 1,38.45). “Às pressas” significa seriedade, empenho, solicitude, zelo, entusiasmo, ardor, prontidão etc.. No sentido teológico, então, a pressa de Maria é um reflexo da sua obediência, como serva e discípula fiel, em relação ao plano que lhe foi revelado pelo anjo, um plano que previa a gravidez de Isabel.


Segundo M. Descalzo, a viagem de Maria para visitar Isabel foi “a primeira procissão do Corpus Christi”. O corpo de Maria foi o ostensório vivo e precioso que carrega por primeira vez o Corpo de Cristo. Mas se nos mergulharmos um pouco mais no mistério, descobriremos que, na verdade, Maria é levada por Aquele que ela leva no seu ventre.


Quando Deus entra e atua na história de uma pessoa e tem realmente Jesus no coração, esse mesmo Jesus vai levar essa pessoa ao encontro dos outros, especialmente aos necessitados para partilhar a alegria e a esperança e irradiará e santificará os que dela se aproximarem.


3. Maria é a arca da nova aliança, o lugar da presença de Deus no meio de nós. Como a arca da nova aliança, em Maria o Verbo se fez carne e os céus e a terra se encontraram. Mas ela não é um lugar que encerra Deus e sim um lugar que O dá. Ela não é uma arca que esconde o mistério, mas uma arca que o irradia. Maria é Aquela que, habitada pelo mistério, o dá.


Quando na se dá espaço ao absoluto primado de Deus, a conseqüência lógica de ser habitado, de ser amado por Deus é sair de si, viver o êxodo sem regresso, que é o amor. O acolhimento da gratuidade do amor eterno torna-se a doação gratuita de tudo que se recebeu. Quem crê e vive da , tem capacidade de olhar para fora, aprecia o dom e o comunica. Certamente, respeitamos o dom de Deus quando nos tornamos arca irradiante e quando o restituímos a Deus, que nos estende a mão nos nossos irmãos.


4. Maria é o símbolo perfeito da atenção, pois ela tem o amor no coração. O amor é atenta. Maria serve Isabel na sua necessidade real. O seu amor se transforma em gesto, pois a caridade é concreta.  O amor sabe ver o que o não- amor nunca descobrirá. O seu amor causa a alegria, pois a caridade sabe se terna. A ternura consiste certamente em dar com alegria, suscitando em quem recebe o dom da alegria e não um sentimento de dependência. Ela faz tudo isso, porque Maria depende de Deus, por isso é livre(Nenhuma criatura a prende). Quem é livre na , pois depende somente de Deus, torna-o doado aos outros na gratuidade.


5. A saudação de Maria causa a alegria cuja característica é messiânica: os saltos de alegria de João no seio de sua mãe(vv.41.44); a irrupção do Espírito sobre Isabel(v.41b); a bênção messiânica de Isabel sobre Maria(v.42); a proclamação de Maria comomãe do Senhor”(v.43); e a proclamação de que Maria é “bem-aventuradapor causa de sua (v.45). Todas estas reações são de caráter messiânico


Se acreditarmos que Jesus está dentro de nós, nos comportaremos como Maria: seremos portadores de alegria no Senhor para os outros. O nosso encontro com os outros fará brotar neles a alegria pela presença do Messias, a docilidade ao Espírito, o louvor a Deus.


6. No Magnificat Maria anuncia que os poderosos serão derrubados de seus tronos. Não se trata de punição nem vingança, pois o Deus de Jesus não é vingativo. Descer do trono é condição de salvação. É preciso descer do trono para aprender a ser irmão, a ser solidário, a servir, a criar relações horizontais. É preciso despojar-se de auto-suficiência e reconhecer-se necessitado de salvação.


Estamos acostumados a reverenciar o poder, de várias maneiras. É alguémsubir na vidaque logo começa a receber um tratamento mais respeitoso. É como se o posto que cada um ocupa mudasse a qualidade humana das pessoas. Não será por isso que alguns são chamados de “excelênciamesmo quando não têm atitudes tão excelentes assim para com os outros? Por esses e outros motivos o poder fascina e muita gente vive correndo atrás dele.


O peso do prestígio do poder invade até o campo religioso. Usamos para Deus freqüentemente as mesmas imagens com que idealizamos o poder humano: Deus sentado no trono, Maria com coroa de rainha. Aliás, a Bíblia também faz isso, refletindo a cultura da época. O problema não está exatamente . O perigo está no jeito de utilizar essas imagens. Com essa noção de poder é possível até tentar dominar os outros, autoritariamente, em vez de dialogar e servir. Deus essa questão de outro jeito que nem sempre nós estamos preparados para entender.


Os “poderososnão são os outros. Cada um de nós pode fabricar seus própriostronos” e olhar o próximo de cima, de forma opressora, indiferente ou superior.


Se somos realmente Igreja servidora, como Jesus sempre quis, temos quedescer” de muitostronosque criamos e tratar o irmão, qualquer irmão, como um igual, digno de respeito e precioso como filho de Deus.


Que Maria, Doce Mãe da esperança nos ajuda a ser peregrinos na esperança sem pararmos diante das resistências e das canseiras a caminho da comunhão plena com o nosso Criador, o Deus Conosco.

P.Vitus Gustama,svd