segunda-feira, 27 de março de 2017


31/03/2017
"Porque no evangelho é revelada, de fé em fé, a justiça de Deus, como está escrito: Mas o justo viverá da fé." Romanos 1:17

A justiça de Deus é revelada pela fé, é justamente assim que o justo vive: pela fé!
Amados, nós devemos acreditar muito no nosso milagre, pois Deus é poderoso para fazer aquilo que o nosso coração almeja, mas isso só irá acontecer de nós acreditarmos de todo o coração! 
Quando Habacuque fez questionamentos e pediu socorro a Deus a resposta que Ele deu foi bem clara "VIVA PELA FÉ" 👉 "Habacuque 2:3 Pois a visão é ainda para o tempo determinado, e se apressa para o fim. Ainda que se demore, espera-o; porque certamente virá, não tardará.
4 Eis o soberbo! A sua alma não é reta nele; mas o justo pela sua fé viverá."
Não adianta ter pressa, não adianta querer que as coisas aconteçam sem acreditar, pois tudo é no tempo de Deus e em tudo devemos colocar nossa fé, afinal nós vivemos pelo que acreditamos e não pelo que vemos.
Jamais perca a fé em Deus, pelo contrário, acredite fervorosamente no seu milagre! "Respondeu-lhes Jesus: Tende fé em Deus." Marcos 11:12


A VIDA DO JUSTO ESTÁ NAS MÃOS DE DEUS QUE TEM A ÚLTIMA PALAVRA SOBRE O HOMEM

Sexta-Feira da IV Semana da Quaresma

I Leitura: Sb 2,1. 12-22

1ª Dizem entre si os ímpios, em seus falsos raciocínios: 12 “Armemos ciladas ao justo, porque sua presença nos incomoda: ele se opõe ao nosso modo de agir, repreende em nós as transgressões da lei e nos reprova as faltas contra a nossa disciplina. 13Ele declara possuir o conhecimento de Deus e chama-se ‘filho de Deus’. 14 Tornou-se uma censura aos nossos pensamentos e só o vê-lo nos é insuportável; 15 sua vida é muito diferente da dos outros, e seus caminhos são imutáveis. 16Somos comparados por ele à moeda falsa e foge de nossos caminhos como de impurezas; proclama feliz a sorte final dos justos e gloria-se de ter a Deus por pai. 17 Vejamos, pois, se é verdade o que ele diz, e comprovaremos o que vai acontecer com ele. 18 Se, de fato, o justo é ‘filho de Deus’, Deus o defenderá e o livrará das mãos dos seus inimigos. 19 Vamos pô-lo à prova com ofensas e torturas, para ver a sua serenidade e provar a sua paciência; 20 vamos condená-lo à morte vergonhosa, porque, de acordo com suas palavras, virá alguém em seu socorro”. 21 Tais são os pensamentos dos ímpios, mas enganam-se; pois a malícia os torna cegos, 22 não conhecem os segredos de Deus, não esperam recompensa para a santidade e não dão valor ao prêmio reservado às vidas puras.

Evangelho: Jo 7,1-2.10.25-30

Naquele tempo, 1Jesus andava percorrendo a Galileia. Evitava andar pela Judeia, porque os judeus procuravam matá-lo. 2Entretanto, aproximava-se a festa judaica das Tendas. 10Quando seus irmãos tinham subido, então também ele subiu para a festa, não publicamente mas sim como que às escondidas. 25Alguns habitantes de Jerusalém disseram então: “Não é este a quem procuram matar? 26Eis que fala em público e nada lhe dizem. Será que, na verdade, as autoridades reconheceram que ele é o Messias? 27Mas este, nós sabemos donde é. O Cristo, quando vier, ninguém saberá donde ele é”.  28Em alta voz, Jesus ensinava no Templo, dizendo: “Vós me conheceis e sabeis de onde sou; eu não vim por mim mesmo, mas o que me enviou é fidedigno. A esse, não o conheceis, 29mas eu o conheço, porque venho da parte dele, e ele foi quem me enviou”. 30Então, queriam prendê-lo, mas ninguém pôs a mão nele, porque ainda não tinha chegado a sua hora.
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Viver Como Justo É Estar Com Deus Da Vida Eternamente

Dizem entre si os ímpios, em seus falsos raciocínios: ‘Armemos ciladas ao justo, porque sua presença nos incomoda: ele se opõe ao nosso modo de agir, repreende em nós as transgressões da lei e nos reprova as faltas contra a nossa disciplina. Ele declara possuir o conhecimento de Deus e chama-se ‘filho de Deus’. Tornou-se uma censura aos nossos pensamentos e só o vê-lo nos é insuportável; sua vida é muito diferente da dos outros, e seus caminhos são imutáveis. Somos comparados por ele à moeda falsa e foge de nossos caminhos como de impurezas; proclama feliz a sorte final dos justos e gloria-se de ter a Deus por pai”. Assim lemos alguns versículos da Primeira Leitura tirada do Livro de Sabedoria.

O autor do livro de Sabedoria nos apresenta neste fragmento (Sb 2,1-20) um dos mais belos de todo o livro por seu estilo e vigor, os sentimentos dos ímpios a respeito da vida presente (Sb 2,1-5), sua atitude diante dos prazeres da vida (Sb 2,6-9) e sua conduta frente o justo (Sb 2,10-20). Os ímpios aos quais o autor refere aqui poderiam ser também judeus apóstatas que influenciados pelo ateísmo e materialismo abandonaram a Lei e as tradições patrísticas.

A vida é curta assim começam a dizer os ímpios. Esta frase repetimos também para nós mesmos e para os outros. Dada a brevidade da vida e o vazio que existe no pensamento dos ímpios pela certeza da morte, não há outra conclusão  lógica que desfrutar dos prazeres da vida presente: “Aproveitemo-nos das boas coisas que existem! Vivamente gozemos das criaturas durante nossa juventude! Inebriemo-nos de vinhos preciosos e de perfumes, e não deixemos passar a flor da primavera!” (Sb 2,6-7). São Paulo vê nesta conclusão como uma negação da ressurreição dos mortos (cf. 1Cor 15,32). A juventude é o tempo mais propício para gozar da vida com toda intensidade. O vinho de que se fala simboliza os prazeres da mesa. Os perfumes podem referir-se ao costume oriental de misturá-lo com o vinho ou para perfumar o corpo que os orientais introduzem nos judeus.

O autor do Livro dos Provérbios afirma que “as entranhas dos malvados são cruéis” (Pr 12,10). Com efeito eles são cruéis e desumanos com os justos, pois a presença dos justos é uma censura para a leviandade dos ímpios: “Armemos ciladas ao justo, porque sua presença nos incomoda: ele se opõe ao nosso modo de agir, repreende em nós as transgressões da lei e nos reprova as faltas contra a nossa disciplina”, lemos na Primeira Leitura de hoje. Os grandes libertinos são freqüentemente os mais cruéis perseguidores. As primeiras vítimas da crueldade dos libertinos, dos ímpios são os débeis, os justos, as viúvas, os anciãos que não podem sair em defesa própria por falta de recursos materiais e humanos. A impiedade, a libertinagem e o materialismo matam os sentimentos de compaixão e de caridade que todo coração nobre sente. Quando estes sentimentos faltarem, a única lei que vai funcionar é a lei da força. E o débil fica sem direito a viver e parece destinado a perecer sob a opressão dos tiranos, dos libertinos. A impiedade do coração e a entrega aos prazeres materiais nublam a inteligência e lhe impede de ver a luz das verdades ultra terrenas. Assim os ímpios não descobriram os misteriosos desígnios de Deus.

Mas os justos se gloriam de possuir o verdadeiro conhecimento de Deus e ser membros do povo eleito. A consciência e o profundo convencimento que têm desta realidade é o que mantém os justos firmes em sua fé ainda que estejam cercados pelas dificuldades, pois a esperança dos justos está em Deus que tem palavra final para a vida humana.

Chama a atenção o parecido de Sb 2,10-20 com o Sl 22 e o poema do Servo de Javé (cf. Is 42,1-9; 49,1-13; 50,4-9; 52,13-53,12) e a semelhança de atitude dos ímpios a respeito dos justos que aqui se refere (alusão) à conduta de Cristo observada por parte de seus inimigos. Um bom número dos Padres da Igreja (São Hipólito, Orígenes, Santo Atanásio, São Cipriano, Santo Ambrosio, São Cirilo, Santo Agustinho) interpretou a perícope em sentido literal do Messias, vendo no justo que sofre uma profecia da Paixão de Cristo. Cremos que, em sentido literal histórico, o autor sagrado se refere aos israelitas justos que sofreram perseguições por parte dos pagãos e dos judeus apóstatas. Mas tendo em conta que o Espírito Santo é o Autor principal da Sagrada Escritura, não é difícil descobrir um sentido típico em relação ao Messias, pois o que  o Livro da Sabedoria diz dos israelitas justos se verifica e de maneira eminente em Jesus Cristo. Jesus Cristo é o Justo por antonomásia (perífrase). Será que vivemos como justos?

Somos Chamados a Ser Justos Como Jesus

Jesus subiu a Jerusalém para a festa dos Tabernáculos. É a festa judaica de maior concorrência, que celebrava o final da colheita e preparava a próxima sementeira. As solenidades no templo se prolongavam durante oito dias: “Quando seus irmãos já tinham subido, então também ele subiu para a festa, não publicamente, mas sim como que às escondidas” (Jo 7,10). Por si mesmo, Jesus não busca conflitos. Mas o conflito sempre vem porque Jesus permanece fiel à missão recebida do Pai para devolver a dignidade do homem e para salvá-lo. Mesmo assim, Ele é cercado de ódio dos adversários. O ódio mortal.

O texto do Livro de Sabedoria lido neste dia nos apresenta como as forças do mal, encarnadas nos ímpios, querem e tentam sufocar a força de Deus que se manifesta ou que se encarna na vida dos justos. “Ímpio” é aquele que não respeita os valores comumente admitidos ou é aquele que revela impiedade, ou aquele que tem desprezo pela religião. Os ímpios, com seus atos, geram a morte. Sua visão materialista da vida os incapacita a valorizarem o que ultrapassa a razão: “... a malícia os torna cegos, não conhecem segredos de Deus, não esperam recompensa para a santidade e não dão valor ao prêmio reservado às vidas puras” (Sb 2,21-22). 

Malícia” é aptidão ou inclinação para fazer o mal; má índole; malignidade, maldade; ou habilidade para enganar, despistar. Todo ímpio tem malicia. Os ímpios se deixam levar por uma existência sem sentido. Eles vivem somente em função dos prazeres, pois para eles nãooutra vida além desta vida. Eles detestam a censura permanente que a vida do justo constitui para sua vida depravada. Quem vive somente em função dos prazeres é porque não tem prazer de viver. A vaidade torna qualquer um cego.

O justo, ao contrário, se gloria de ter Deus como Pai, e Deus como Pai não faz mal a ninguém, somente faz o bem. O justo tem uma escala de valores e por isso, constitui uma acusação contra as convicções mundanas dos ímpios. Por ser uma censura viva para seu modo de viver, o justo é eliminado pelos ímpios. Masa vida dos justos está nas mãos de Deus e nenhum tormento os atingirá” (Sb 3,1).

Para que o mundo não se torne surdo Deus precisa permanentemente dos justos, dos honestos, dos verdadeiros, dos coerentes e assim por diante. Jesus Cristo é o Justo por excelência e é o protótipo do justo, pois seu alimento é fazer a vontade de Deus: “Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e consumar a sua obra” (Jo 4,34). Por Jesus ser justo em tudo, os seus adversários querem silenciá-lo para sempre. Todas as acusações dos adversários contra Jesus nascem do ódio e de raiva mórbida. Sb 2,1. 12-22

O texto da Primeira Leitura (Sb 2,1. 12-22) aparece como uma análise do que passará durante a Paixão de Jesus. No evangelho de João a ameaça sobre a morte de Jesus é constante. À medida que ficamos próximos da Semana santa será importante que dediquemos mais tempo para contemplar o Cristo sofredor: Ele está cercado de morte, fruto de um ódio fatal de seus adversários. Trata-se de uma experiência de estar rodeado e encurralado de ódio. É sempre ter gente que está contra e busca nos prejudicar ou acabar com nossa vida por vivermos uma vida digna, honesta e justa, como acabaram com a vida terrestre de Jesus. Ao pé da cruz alguém vai fazer a gozação contra Jesus: “Se tu és Filho de Deus...!”. Estas palavras continuam ressonando: “Se tu és justo, bom, religioso, freqüentador da Igreja e tens vida honesta e correta, por que Deus permite as coisas ruins na tua vida?”. Jesus enfrenta tudo na serenidade porque Ele se sabe amado por Deus apesar do sofrimento. No mesmo momento em que é odiado, acusado, isolado, Jesus se sabe amado. Jesus é um homem cheio de paz ainda que esteja rodeado de homens rancorosos, porque vive sua relação profunda com o Pai.

Não sejamos os justos cansados por causa do mal que é, aparentemente, onipresente e onipotente. O mal e a maldade não têm futuro. Jesus Cristo veio manifestar o amor de Deus que nos espera como um Pai amoroso para nos receber nas moradas eternas depois de termos caminhado por esta vida fazendo o bem a todos. Para os justos, a exemplo de Jesus, a morte não tem a ultima palavra e sim a vida. A vida dos justos está nas mãos de Deus. Nossa passagem por este mundo nos conduzirá para a possessão dos bens eternos na medida em que abandonarmos nossos egoísmos e amarmos com lealdade nosso próximo na mesma forma que Deus nos ama (cf. Jo 15,12). Deus está sempre próximo daqueles que sabem amar e vivem fieis.

A Palavra de Deus foi e é proclamada sobre nós para que ela se converta em nossa salvação. E ao entrar em comunhão de vida com Jesus na Eucaristia é porque queremos entregar todo nosso ser para o bem, para a salvação de todos. O mal não tem futuro algum. Acaba destruindo-se a si mesmo. É essa a profunda convicção de Jesus. Por isso, ele não pede ao Pai nenhum poder destruidor; não pede legiões de anjos que o protejam. Tampouco o crucificado devolve o mal pelo mal, nem insulto por insulto, nem profere ameaças (1Pd 2,23). Um poder desarmado e vulnerável pode ser também um poder que desarma. O poder de Deus é o poder do amor que se encarna na vida de Jesus. É esse poder do amor o que lhe permite exclamar: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34), pois ele sabe que o mal não tem futuro, somente o bem.

Jesus nos ensina que temos que nos apegar a Deus para manter nossa paz e serenidade apesar da realidade dura que nos cerca, e não ao caminho que temos para ir até Ele. Não podemos nos escravizar a uma maneira como a única maneira para chegar até Deus, pois nos colocaremos como superiores e fiscalizadores dos outros. Temos que estar abertos para qualquer forma que Deus queira para se apresentar ou para se revelar. Deus sempre quer nos surpreender em todos os momentos. “Se dizes ‘já basta’, estás perdidos. Aumenta sempre, progride sempre, avança sempre, não pares no caminho, não voltas atrás, não te desvies”, dizia Santo Agostinho.

P. Vitus Gustama,svd

domingo, 26 de março de 2017




30/03/2017
 

SER CRISTÃO É  SER TESTEMUNHA  DE CRISTO COM OBRAS BOAS

Quinta-Feira da IV Semana da Quaresma

I Leitura: Ex 32,7-14

Naqueles dias, 7 o Senhor falou a Moisés: “Vai, desce, pois corrompeu-se o teu povo, que tiraste da terra do Egito. 8 Bem depressa desviaram-se do caminho que lhes prescrevi. Fizeram para si um bezerro de metal fundido, inclinaram-se em adoração diante dele e ofereceram-lhe sacrifícios, dizendo: ‘Estes são os teus deuses, Israel, que te fizeram sair do Egito!’” 9 E o Senhor disse ainda a Moisés: “Vejo que este é um povo de cabeça dura. 10 Deixa que minha cólera se inflame contra eles e que eu os extermine. Mas de ti farei uma grande nação”. 11 Moisés, porém, suplicava ao Senhor seu Deus, dizendo: “Por que, ó Senhor, se inflama a tua cólera contra teu povo, que fizeste sair do Egito com grande poder e mão forte? 12 Não permitais, te peço, que os egípcios digam: ‘Foi com má intenção que ele os tirou, para fazê-los perecer nas montanhas e exterminá-los da face da terra’. Aplaque-se a tua ira e perdoa a iniquidade do teu povo. 13 Lembra-te de teus servos Abraão, Isaac e Israel, com os quais te comprometeste por juramento, dizendo: ‘Tornarei os vossos descendentes tão numerosos quanto as estrelas do céu; e toda esta terra de que vos falei, eu a darei aos vossos descendentes como herança para sempre”’. 14 E o Senhor desistiu do mal que havia ameaçado fazer a seu povo.

Evangelho: Jo 5, 31-47

Naquele tempo, disse Jesus aos judeus: 31“Se eu der testemunho de mim mesmo, meu testemunho não vale. 32Masum outro quetestemunho de mim, e eu sei que o testemunho que ele dá de mim é verdadeiro. 33Vós mandastes mensageiros a João, e ele deu testemunho da verdade. 34Eu, porém, não dependo do testemunho de um ser humano. Mas falo assim para a vossa salvação. 35João era uma lâmpada que estava acesa e a brilhar, e vós com prazer vos alegrastes por um tempo com a sua luz. 36Mas eu tenho um testemunho maior que o testemunho de João; as obras que o Pai me concedeu realizar. As obras que eu faço dão testemunho de mim, mostrando que o Pai me enviou. 37E também o Pai que me enviou dá testemunho a meu favor. Vós nunca ouvistes sua voz, nem vistes sua face, 38e sua palavra não encontrou morada em vós, pois não acreditais naquele que ele enviou. 39Vós examinais as Escrituras, pensando que nelas possuís a vida eterna. No entanto, as Escrituras dão testemunho de mim, 40mas não quereis vir a mim para ter a vida eterna! 41Eu não recebo a glória que vem dos homens. 42Mas eu sei que não tendes em vós o amor de Deus. 43Eu vim em nome do meu Pai, e vós não me recebeis. Mas, se um outro viesse em seu próprio nome, a este vós o receberíeis. 44Como podereis acreditar, vós que recebeis glória uns dos outros e não buscais a glória que vem do único Deus? 45Não penseis que eu vos acusarei diante do Pai. Há alguém que vos acusa: Moisés, no qual colocais a vossa esperança. 46Se acreditásseis em Moisés, também acreditaríeis em mim, pois foi a respeito de mim que ele escreveu. 47Mas se não acreditais nos seus escritos, como acreditareis então nas minhas palavras?”
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1. Idolatria De Ontem e De Hoje

Vai, desce, pois corrompeu-se o teu povo, que tiraste da terra do Egito. Bem depressa desviaram-se do caminho que lhes prescrevi. Fizeram para si um bezerro de metal fundido, inclinaram-se em adoração diante dele e ofereceram-lhe sacrifícios, dizendo: ‘Estes são os teus deuses, Israel, que te fizeram sair do Egito!’”, falou o Senhor para Moisés.

A Primeira Leitura nos relata o pecado do povo eleito. Não é um pecado de apostasia, pois o povo não renega seu Deus (Ex 32,4-5), nem um pecado de apego às riquezas materiais ou de culto ao dinheiro, mas fabricaram um bezerro de metal para ser adorado. Trata-se de idolatria. É o pecado contra o segundo mandamento do decálogo: “Não farás para ti escultura, nem figura alguma do que está em cima, nos céus, ou embaixo, sobre a terra, ou nas águas, debaixo da terra. Não te prostrarás diante delas e não lhes prestarás culto. Eu sou o Senhor, teu Deus, um Deus zeloso que vingo a iniqüidade dos pais nos filhos, nos netos e nos bisnetos daqueles que me odeiam, mas uso de misericórdia até a milésima geração com aqueles que me amam e guardam os meus mandamentos” (Ex 20,4-6).

Quando estava com eles (os hebreus), era Moisés quem lhes manifestava os planos e os desejos de Deus e lhes transmitia a Palavra de Deus. Mas agora, na ausência de Moisés eles se queixam. Além disso, eles se esqueceram que Moisés era o instrumento e intérprete da vontade divina. Por isso, eles buscam outras seguranças e não são capazes de permanecer em Deus que os tirou do Egito.

Devemos reconhecer que este é também nosso freqüente pecado. Não renegamos Deus, mas queremos um Deus ao nosso alcance, à nossa medida. Em vez de servir Deus, utilizamos Deus para Ele nos servir. Queremos Deus “domesticado”.

Diante do povo idólatra  Deus decide:  “Vejo que este é um povo de cabeça dura. Deixa que minha cólera se inflame contra eles e que eu os extermine”.

Esta reação de Deus mostra que Ele leva a sério as coisas. Não se pode andar com ambigüidade ou em meio termos. Deus é um Deus zeloso (Ex 20,5). Por outro lado, esta reação é completamente normal e necessária: a aliança é coisa de dois: de Deus com o povo eleito. Deus toma a sério a aliança. A aliança é comunhão de pessoas, não pode ser restabelecida mecanicamente e sim a relação real entre o homem e Deus. O povo eleito cometeu a idolatria.

Mas Moisés faz suplica a Deus para que perdoe o povo: Por que, ó Senhor, se inflama a tua cólera contra teu povo, que fizeste sair do Egito com grande poder e mão forte? Não permitais, te peço, que os egípcios digam: ‘Foi com má intenção que ele os tirou, para fazê-los perecer nas montanhas e exterminá-los da face da terra’. Aplaque-se a tua ira e perdoa a iniquidade do teu povo”. Por causa do pedido de Moisés Deus cancela o castigo sobre o povo: “O Senhor desistiu do mal que havia ameaçado fazer a seu povo”.

Em sentido próprio e clássico, idolatria é a adoração ou o culto que se tributa a entidades, objetos, imagens ou elementos naturais que se consideram dotados de poder divino, ou também a divindades falsas. A palavra “idolatria” provém do grego “eidolon”, imagem. É evidente que neste sentido se trata de um termo contextual que tem significado somente dentro de uma religião conhecida.

A idolatria é uma verdadeira aberração na ordem religiosa e moral já que nela se inverte por completo a ordem dos valores: o Absoluto, Deus, se relativiza, e o relativo se absolutiza. O que não é Deus ou o que é inferior aos homens se considera como Deus ou algo divino.

Quem pratica a idolatria erra no conhecimento de Deus (cf. Sb 14,22) e quem erra no mais fundamental acerca de Deus, pode chegar aos erros mais inimagináveis ético-religiosos, começando pela negação da existência do próprio Deus. Os autores sagrados estão familiarizados com a verdade de fé de que Deus é o Criador e Senhor absoluto dos homens e do universo. Com o projeto ou ideia dos ídolos, aberração capital, originam-se em cadeia males de toda ordem, especialmente de ordem religiosa e moral chamada “a corrupção da vida” (Sb 14,12), pois ao pôr no lugar de Deus uma criatura, a ordem dos valores na vida se perverte, se perde o sentido moral. Com a mesma facilidade se passa de um conceito inadequado de Deus para sua negação, fenômeno bastante freqüente em nosso mundo moderno. A humanidade não se humaniza com o passo do tempo e sim com os valores éticos e morais. Os mais fortes ou aqueles que se sentem superiores aos demais são capazes de qualquer injustiça ou perversidade.

A idolatria não é coisa passada, dos tempos escuros e de civilizações primitivas. Os homens leva consigo os ídolos. Ídolos são puras criações do egoísmo, do medo, da insegurança, da soberba do homem que não encontrou seu centro ou seu norte.

2. As Obras Boas Que Realizamos São Testemunhas De Que Somos Seguidores de Cristo

O texto do evangelho de hoje é a continuação do texto do evangelho do dia anterior em que relatou a cura de um paralítico no Sábado. Os judeus da época criticaram Jesus que curou o paralítico, pois a cura aconteceu no Sábado que era o dia sagrado para eles. Dessa vez os judeus questionaram a autoridade de Jesus em fazer essa cura no dia de Sábado.

2.1. Jesus e Sua Autoridade Divina

Um dos problemas que o evangelho de João enfrenta é o da autoridade de Jesus questionada pelos seus adversários, porque Jesus não faz parte do grupo dos escribas, nem é da descendência sacerdotal, e sim vem de um lugar desconhecido, Nazaré. Mas o fundamento de sua autoridade está na sua comunhão plena com o Pai. O fruto desta profunda comunhão com o Pai é a sua preocupação em fazer o bem para os homens em qualquer circunstância e para qualquer pessoa. Somente tem autoridade quem faz alguém crescer. Somente tem autoridade quem pratica o bem. As palavras cheias de autoridade de Jesus e suas obras pelo bem de todos falam por si de que Jesus está em plena comunhão com o Pai. Quem pratica o bem normalmente fala menos de si, pois as obras falam mais por ele: “O ruído faz pouco bem, o bem faz pouco ruído", dizia São Francisco de Sales.  Quem pratica o bem é porque ele está em sintonia com o Bem maior, que é Deus, mesmo que ele não tenha consciência disso. "O bem é aquilo que dá maior realidade aos seres e às coisas; o mal é aquilo que disso os priva" (Simone Weil).

Quando nosso coração estiver duro ficaremos cegos diante das obras boas daquele que consideramos adversário. Se colocarmos o bem do homem acima de qualquer interesse, reconheceremos qualquer bem praticado por qualquer pessoa. A dureza de coração dos adversários de Jesus os leva a um ódio sempre crescente contra Jesus, pois eles se preocupam apenas com a própria gloria e o próprio interesse: “Como podereis acreditar, vós que recebeis glória uns dos outros e não buscais a glória que vem do único Deus?”. E o ódio dos escribas terminará no assassinato de Jesus. "Aquele que sem autoridade mata um criminoso, torna-se tão criminoso como este" (Blaise Pascal).  “Há pessoas que amam o poder, e outras que têm o poder de amar” (Bob Marley).

2.2. Testemunho Na Vida De Cristo E Na Vida Do Cristão

A cura do paralitico no Sábado (Jo 5,1-15) cria uma violenta oposição entre Jesus e os escribas que João descreve sob a forma de processo através do uso da palavra “testemunha/ testemunho”. No texto de hoje a palavra “testemunha/ testemunho” aparece, pelo menos, onze vezes.

Para Jesus, no evangelho de João, testemunhar equivale a manifestar o Pai, a revelar o Pai. O testemunho designa a função reveladora de Cristo e este testemunho tem como objetivo o próprio Cristo em seu mistério pessoal de Filho. Por isso, Cristo dá testemunho com toda sua presença e durante toda sua existência. Para Cristo, dar testemunho é revelar-se, dar-se conhecer: tudo o que é e de onde vem: do Pai. Se esta revelação termina na Cruz é porque na Cruz se opera a suprema revelação de Cristo, a saber: o amor supremo do Pai aos homens manifestado no amor supremo de Cristo aos seus (cf. Jo 13,1).

Jesus está “sozinho” para se defender. Logo seu testemunho ficaria sem validade nenhuma, pois a jurisprudência judaica determina: para que um testemunho seja válido são exigidas duas ou três testemunhas (Jo 5,31). Jesus apela para as obras pelo bem da humanidade. Essas obras mostram que Jesus está com o Pai e faz o que o Pai continua fazendo: “Meu Pai trabalho e eu também”. Logo sua testemunha mais válida é o Pai. Trata-se de um testemunho que se verifica nas obras e milagres (= sinais) que Jesus opera em favor da humanidade e não para a autopromoção.

Em relação à importância do testemunho o Papa João Paulo II escreveu na sua Carta Encíclica Redemptoris Missio no. 42:

·        O homem contemporâneo acredita mais nas testemunhas do que nos mestres, mais na experiência do que na doutrina, mais na vida e nos fatos do que nas teorias. O testemunho da vida cristã é a primeira e insubstituível forma de missão: Cristo, cuja missão nós continuamos, é a « testemunha » por excelência (Ap 1, 5; 3, 14) e o modelo do testemunho cristão. O Espírito Santo acompanha o caminho da Igreja, associando-a ao testemunho que Ele próprio dá de Cristo (cf. Jo 15, 26-27 ).

·        A primeira forma de testemunho é a própria vida do missionário, da família cristã e da comunidade eclesial, que torna visível um novo modo de se comportar. O missionário que, apesar dos seus limites e defeitos humanos, vive com simplicidade, segundo o modelo de Cristo, é um sinal de Deus e das realidades transcendentes. Mas todos na Igreja, esforçando-se por imitar o divino Mestre, podem e devem dar o mesmo testemunho, que é, em muitos casos, o único modo possível de se ser missionário.

·        O testemunho evangélico, a que o mundo é mais sensível, é o da atenção às pessoas e o da caridade a favor dos pobres, dos mais pequenos, e dos que sofrem. A gratuidade deste relacionamento e destas ações, em profundo contraste com o egoísmo presente no homem, faz nascer questões precisas, que orientam para Deus e para o Evangelho. Também o compromisso com a paz, a justiça, os direitos do homem, a promoção humana, é um testemunho do Evangelho, caso seja um sinal de atenção às pessoas e esteja ordenado ao desenvolvimento integral do homem.

Jesus quer nos dizer que para convencer os outros que realmente acreditamos em Deus temos que mostrar não com palavras e sim com as obras boas em favor dos homens. Não basta falar do amor, temos que aprender a amar especialmente através do perdão mútuo.

Além disso, Jesus quer nos ensinar a abrirmos nossos olhos e o nosso coração diante do bem que os outros podem fazer. Ninguém é exclusivo para fazer o bem. Ninguém pode encurtar a mão de Deus para fazer o bem. Somos convidados a reconhecer o bem praticado por quem quer que seja. Todos os cristãos devem fazer parte de um grupo: o grupo do bem. No seio da Igreja de Cristo não pode nem deve existir outro tipo de grupo. Ou você é de Cristo por se preocupar somente com o bem que deve ser praticado ou você não é de Cristo se você não se preocupa com o bem praticado. O bem não tem fronteiras. Deus pode usar qualquer ser humano para praticar o bem. Por isso, não podemos encurtar a mão de Deus. Quem pratica o bem é de Deus independentemente de quem quer que ele seja. Quem não pratica o bem não tem nada a ver com Deus, mesmo que alguém se considere cristão. Por isso, falar da é uma coisa. Falar da experiência de é outra coisa. Falar de amor é uma coisa. Falar amorosamente é outra coisa. Não basta não cometer algum crime ou algum mal, é preciso praticar o bem. Praticando o bem você afasta o mal e a felicidade é atraída. O bem praticado é o sinal da abertura diante do Bem Absoluto: Deus.

No evangelho de hoje Jesus reprovou seus conterrâneos por não ter escutado realmente Moisés: “Se acreditásseis em Moisés, também acreditaríeis em mim, pois foi a respeito de mim que ele escreveu”. Em Ex 32,7-14 Moisés reprova a atitude do povo, pois ao descer da montanha de Sinai, onde havia estado para falar com Deus, encontrou o povo adorando uma estátua de bezerro de metal.

O homem se rebaixa quando dá importância para as coisas, e gasta tempo para dar atenção maior para as coisas menos importantes que não edificam o ser humano. O homem se rebaixa quando ama as coisas e usa as pessoas em vez de amar as pessoas e usa as coisas. A adoração ao verdadeiro Deus através da vivência do amor fraterno é a única que não rebaixa o ser humano. “Quanto mais amas, mais alto tu sobes” (Santo Agostinho)

Quem procura a própria gloria e o próprio interesse será difícil saborear a convivência fraterna, pois haverá somente disputa e o jogo de interesse. O jogo de interesse para o próprio bem e não para o bem comum acabará com a comunidade. O homem se rebaixará, se ele der tanta importância às coisas mais do que às pessoas.  Quem não procurar a glória de Deus, mas, somente os próprios interesses e a própria glória, vai alimentar a própria vida com o ódio cada vez mais crescente contra os outros irmãos que não realizarem esses interesses. “Ali onde se destrói a comunhão com Deus, destrói-se também a raiz e o manancial da comunhão entre nós” (Bento XVI).

P. Vitus Gustama,svd

sábado, 25 de março de 2017



29/03/2017
 
 Deus cuidadosoesquecerei
DEUS TRABALHA ATRAVÉS DE NÓS EM PROL DO BEM DA HUMANIDADE

Quarta-Feira da IV Semana da Quaresma

I Leitura: Is 49,8-15

8 Isto diz o Senhor: “Eu atendo teus pedidos com favores e te ajudo na obra de salvação; preservei-te para seres elo de aliança entre os povos, para restaurar a terra, para distribuir a herança dispersa; 9 para dizer aos que estão presos: ‘Saí!’ e aos que estão nas trevas: ‘Mostrai-vos’. E todos se alimentam pelas estradas e até nas colinas estéreis se abastecem; 10 não sentem fome nem sede, não os castiga nem o calor nem o sol, porque o seu protetor toma conta deles e os conduz às fontes d’água. 11 Farei de todos os montes uma estrada e os meus caminhos serão nivelados. 12 Eis que estão vindo de longe, uns chegam do Norte e do lado do mar, e outros, da terra de Sinim”. 13 Louvai, ó céus, alegra-te, terra; montanhas, fazei ressoar o louvor, porque o Senhor consola o seu povo e se compadece dos pobres. 14 Disse Sião: “O Senhor abandonou-me, o Senhor esqueceu-se de mim!” 15 Acaso pode a mulher esquecer-se do filho pequeno, a ponto de não ter pena do fruto de seu ventre? Se ela se esquecer, eu, porém não me esquecerei de ti.

Evangelho: Jo 5,17-30

Naquele tempo, 17Jesus respondeu aos judeus: “Meu Pai trabalha sempre, portanto também eu trabalho”. 18Então, os judeus ainda mais procuravam matá-lo, porque, além de violar o sábado, chamava Deus o seu Pai, fazendo-se, assim, igual a Deus.
19Tomando a palavra, Jesus disse aos judeus: Em verdade, em verdade vos digo, o Filho não pode fazer nada por si mesmo; ele faz apenas o que o Pai fazer. O que o Pai faz, o Filho o faz também. 20O Pai ama o Filho e lhe mostra tudo o que ele mesmo faz. E lhe mostrará obras maiores ainda, de modo que ficareis admirados. 21Assim como o Pai ressuscita os mortos e lhes dá a vida, o Filho também dá a vida a quem ele quer. 22De fato, o Pai não julga ninguém, mas ele deu ao Filho o poder de julgar, 23para que todos honrem o Filho, assim como honram o Pai. Quem não honra o Filho, também não honra o Pai que o enviou.  24Em verdade, em verdade, eu vos digo, quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou, possui a vida eterna. Não será condenado, pois passou da morte para a vida. 25Em verdade, em verdade, eu vos digo: está chegando a hora, e chegou, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus e os que a ouvirem viverão. 26Porque, assim como o Pai possui a vida em si mesmo, do mesmo modo concedeu ao Filho possuir a vida em si mesmo. 27Além disso, deu-lhe o poder de julgar, pois ele é o Filho do Homem. 28Não fiqueis admirados com isso, porque vai chegar a hora em que todos os que estão nos túmulos ouvirão a voz do Filho e sairão: 29aqueles que fizeram o bem, ressuscitarão para a vida; e aqueles que praticaram o mal, para a condenação.  30Eu não posso fazer nada por mim mesmo. Eu julgo conforme o que escuto, e meu julgamento é justo, porque não procuro fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou. (Jo 5, 17-30)
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Deus Nos Ama Com Um Amor Materno e Eterno

Acaso pode a mulher esquecer-se do filho pequeno, a ponto de não ter pena do fruto de seu ventre? Se ela se esquecer, eu, porém não me esquecerei de ti”.

A Primeira Leitura, tirada do Livro do profeta Isaías, faz parte do conjunto chamado Segundo Isaías (Is 40-55). Esta parte foi escrita durante o exílio na Babilônia. Por isso, percebe-se o desespero dos israelitas exilados: “O Senhor abandonou-me, o Senhor esqueceu-se de mim!”. O sofrimento durante o exílio é tanto a ponto de o povo se sentir abandonado por Deus. O povo fica longe do Templo de Jerusalém onde adora o Deus de Israel.

Temos a mesma tentação de questionar a existência de Deus quando somos dominados pelos sofrimentos. “Será que Deus existe?”, assim perguntamos. Mas fiquemos atentos, pois Deus dá resposta através de tantas pessoas ou acontecimentos.

Para a pergunta dos israelitas desterrados se o Senhor os abandonou e se esqueceu deles, Deus dá sua resposta através da boca do profeta Isaías: “Acaso pode a mulher esquecer-se do filho pequeno, a ponto de não ter pena do fruto de seu ventre? Se ela se esquecer, eu, porém não me esquecerei de ti.

A dor e o sofrimento parecem ter a habilidade especial de nos mostrar quanto nós necessitamos uns dos outros. Nossa lutas nos recordam quão frágeis nós somos realmente. Inclusive, a debilidade dos demais pode nos sustentar quando nossa própria fortaleza ou força se esgota. Deus nos faz depender uns dos outros. Temos muito que oferecer aos que sofrem, e os demais tem muito que oferecer a nós quando temos problemas. O sofrimento nos ajuda a ter consciência de que necessitamos uns dos outros. E o sofrimento nos ajuda a aliviar as necessidades dos demais à medida que deixamos que Deus viva dentro de nós e através de nós. O amor nos capacita a detectarmos instintivamente daquilo que os outros necessitam e nos faz estendermos nossas mãos para ajudá-los.

O amor eterno de Deus por seu povo, especialmente pelos israelitas desterrados, parecido ao amor de uma mãe por seus filhos, se expressa de uma maneira concreta em toda a sua gratuidade e fidelidade indefectível: “Acaso pode a mulher esquecer-se do filho pequeno, a ponto de não ter pena do fruto de seu ventre? Se ela se esquecer, eu, porém não me esquecerei de ti. Deus jamais pode esquecer-se de seu povo, pois lhe professa um amor mais forte do que o amor maternal, o amor mais sincero e profundo e com um acento enfático Deus diz ao povo confidencialmente que o tem gravado nas palmas de suas mãos: “Eis que estás gravada na palma de minhas mãos, tenho sempre sob os olhos tuas muralhas” (Is 49,16). Deus leva o povo eleito nas palmas de suas mãos de modo que Deus possa tê-lo sempre presente para não esquecê-lo.

O profeta Isaias quer nos relembrar que Deus jamais nos abandona, como uma mãe que jamais abandona seu filho mesmo que este esteja muito doente. Deus está dentro de nós. Ou melhor dizer, nós estamos dentro de Deus, pois somos filhos e filhas seus. Sofrimento ou dor não sinaliza o abandono de Deus, mas mostra que somos finitos e criaturas dependentes de Deus. As duas frases do profeta Isaias servem como força para nós em qualquer momento: “Acaso pode a mulher esquecer-se do filho pequeno, a ponto de não ter pena do fruto de seu ventre? Se ela se esquecer, eu, porém não me esquecerei de ti”  e “Eis que estás gravada na palma de minhas mãos, tenho sempre sob os olhos tuas muralhas”. Seja na alegria, seja no sofrimento e dor Deus está conosco todos os dias (Mt 28,20). O sofrimento nos faz procurarmos os outros e Deus.

Temos Que Viver e Trabalhar Como Filhos de Deus

“Em verdade, em verdade vos digo, o Filho não pode fazer nada por si mesmo; ele faz apenas o que vê o Pai fazer. O que o Pai faz, o Filho o faz também”.

O evangelho deste dia é a continuação do evangelho do dia anterior. Seus contemporâneos judeus perseguem Jesus porque Ele “violou” o Sábado porque curou o paralítico nesse dia que para eles é o dia muito sagrado. Jesus justifica sua atuação com umas palavras que acabam agravando a situação: Jesus chama Deus de Pai e faz igual ao Pai: “Meu Pai trabalha até agora e eu também trabalho”.

Precisamos sublinhar a diferença sobre o tema do Sábado nos sinóticos (Mt, Mc e Lc) e no evangelho de João. No evangelho de João a cura no Sábado não tem como objetivo relativizar a lei do Sábado como nos evangelhos sinóticos, embora acabe relativizando o Sábado em função da salvação do homem. O evangelho de João quer nos demonstrar a autoridade de Jesus sobre o Sábado que vem por sua igualdade com Deus, como lemos no texto: Meu Pai trabalha até agora e eu também trabalho... O que o Pai faz, o Filho o faz também”.

As razões para esta interpretação se encontram no Gn 2,2-3 onde Deus descansa no mesmo dia que termina a obra da criação. Nesta perspectiva Jesus resgata a dimensão criadora do Sábado devolvendo a vida e a liberdade ao homem enfermo, ao mesmo tempo, demonstra a união perfeita entre a ação de Jesus e a ação do Pai. O ponto de partida é que o Pai continua sendo o Autor da obra e o Filho seu cumprimento definitivo. O projeto de Jesus atualiza o projeto de Deus que continua tendo como fundamento Deus Pai, o amor, a , a Palavra e a vida. Se quisermos unir nosso projeto com o projeto que vem do Pai e passa pelo Filho, devemos trabalhar em torno desse fundamento. Os projetos são muitos, mas o problema se eles estão em comunhão com o projeto de Deus. Ao fazer qualquer obra ou trabalho pastoral devemos lançar primeiro nosso olhar para o Pai e o Filho, poisO que o Pai faz, o Filho o faz também”.  E o que Jesus Cristo faz é isso que devemos fazer também.

O que Deus faz pela humanidade nós podemos ler também na primeira leitura e no Salmo de meditação neste dia. A primeira leitura deste dia, tirada do Segundo Isaías e foi escrita durante o exílio na Babilônia, nos apresenta Deus não como o soberano onipotente e majestoso, nem como juiz implacável, mas comoaquele que tem compaixão”, queconsola”, que “conduz seu Povo às fontes de água”, como uma mãe carinhosa que cuida dos seus filhos e se comove por eles. São imagens cheias de calor humano. Imagens que dizem como Deus está ligado às criaturas e como Ele as ama com muita ternura! Deus dialoga com o homem nos largos espaços do amor, não no escrúpulo da observância dos preceitos. Deus ama todos nós mais do que uma mãe que ama seus filhos: “Acaso pode a mulher esquecer-se do filho pequeno, a ponto de não ter pena do fruto de seu ventre? Se ela se esquecer, eu, porém, não me esquecerei de ti”, diz-nos Deus (Is 49,15). E a bondade, a ternura, a misericórdia, a justiça e a santidade de Deus são proclamadas no Salmo de meditação deste dia.

No NT o amor cheio de ternura de Deus se fez carne em Jesus Cristo, Deus-Conosco (Mt 1,23; 18,20; 28,20), pois Ele dá a vida por nós todos: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham abundantemente” (Jo 10,10b). Jesus coloca o homem acima de qualquer lei por sagrada que ela pareça ser como a Lei de Sábado para o Povo eleito. Para Jesus a salvação do homem é muito mais importante do que a Lei do Sábado por sagrado que ele possa ser considerado, como lemos no texto do evangelho deste dia. Toda a obra de Jesus é a obra do Pai que tem como foco o ser humano e sua salvação: “Em verdade, em verdade Eu vos digo, o Filho não pode fazer nada por si mesmo; ele faz apenas o que o Pai fazer. O que o Pai faz, o Filho o faz também” (Jo 5,19). Jesus trabalha como o Pai para salvar o homem. A glória de Deus é a salvação do homem. Jesus atua em perfeita sintonia com o Pai que O enviou. A plena unidade na ação brota de uma profunda comunhão de amor entre o Pai e o Filho. Por esta perfeita união Jesus tem o poder sobre a vida e a autoridade de juízo.

Os judeus acusaram Jesus por violar o Sábado. Mas Jesus respondeu: “Meu Pai trabalha até agora e eu também trabalho” (Jo 5,17). Trata-se de uma revelação surpreendente. Palavra que deve continuar ressonando e ressoando em nós. Deus “trabalha”! A palavra “Sabbat” (hebraico), Sábado, significa repouso. Acusaram Jesus de não respeitar o repouso de Sábado. Resposta de Jesus: Deus não cessa de trabalhar. Sim, Deus continua “trabalhando” em mim e através de mim, na Igreja e através da Igreja, nas pessoas de boa vontade e através delas, nos que ajudam os necessitados e através deles, nos doentes e através dos doentes, nos que guiam e ensinam os demais para o bem e através deles, nos que acolhem os outros como irmãos e através deles, nos que visitam os doentes e através deles, nos que alimentam os famintos e através deles, nos que lutam pela dignidade de sua família e a família dos demais. Deus continua trabalhando através das pessoas ao meu redor, e assim por diante. Deus realmente continua trabalhando. Jesus, o Filho amado do Pai continua cooperando no trabalho do Pai em salvar a humanidade, em devolver a dignidade para os excluídos e marginalizados. Por isso, ele curou o paralítico no Sábado. A salvação e a dignidade do paralítico estão acima de qualquer lei por sagrada que ela pareça ser. O ser humano é mais sagrado do que qualquer lei, pois ele é o templo do Espírito Santo (cf. 1Cor 3,16-17).

O Pai não conhece o repouso, não cessou de trabalhar, porque enquanto o homem estiver/está oprimido pelo pecado e privado de liberdade, enquanto não tiver/não tem plenitude de vida, o Pai continuará trabalhando. Deus continua comunicando vida onde o homem coloca a morte, a esperança aos desesperados, a força aos debilitados, a guia e a luz de seu Santo Espírito para os desorientados e confusos. O amor de Deus pela humanidade está sempre ativo. Jesus atua como o Pai, não aceita leis que limitem sua atividade em favor da dignidade do homem.

Que nosso lema como cristãos seja o lema de Cristo: “O que o Pai faz, o Filho o faz também”. Não podemos parar de fazer o bem como Jesus “passou a vida fazendo o bem” (At 10,38). Só assim seremos chamados de filhos e filhas de Deus.

No fim do texto do evangelho de hoje Jesus fez a seguinte declaração: “Não fiqueis admirados com isso, porque vai chegar a hora em que todos os que estão nos túmulos ouvirão a voz do Filho e sairão: aqueles que fizeram o bem, ressuscitarão para a vida”. Os que praticam o bem não ficarão para sempre no túmulo. O túmulo nenhum é capaz de destruir quem pratica o bem a exemplo do próprio Jesus ressuscitado. A partir de Jesus e com Jesus a ressurreição e a vida começam para os homens que acreditam n’Ele e para aqueles que praticam o bem.

Jesus prosseguiu: “Em verdade, em verdade, eu vos digo, quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou, possui a vida eterna. Não será condenado, pois já passou da morte para a vida”. A morte perdeu sua eficácia destruidora pela presença da vida, pela palavra vivificadora de Jesus, pela prática do bem. Crer é a orientação da vida para Jesus como centro da existência, ou orientar a vida para o bem. Vale a pena, então, fazer o bem todos os dias. Vale a pena não se cansar de praticar o bem apesar dos sofrimentos ou dificuldades. Uma vida dedicada ao bem do próximo é sempre uma vida glorificada. “Só a caridade, um dilúvio de caridade pode salvar o mundo” (Maritain).

As leituras de hoje nos convidam a colocarmos o nosso coração em harmonia com o coração de Deus. É preciso contemplarmos o mistério de Cristo, Deus-Conosco para que possamos alcançar o que diz São Paulo: “para termos o pensamento de Cristo” (1Cor 2,16) ou para termos “os mesmos sentimentos que havia em Jesus Cristo” (Fl 2,5). O que nos identifica com Cristo é o nosso amor fraterno (Jo 13,35; 15,12). Se Jesus coloca o homem acima de qualquer lei por sagrada que ela pareça ser, o cristão deve estar em plena unidade na ação com Cristo onde o ser humano é o foco de qualquer trabalho, pastoral e apostolado. Somente assim seremos chamados de irmãos, irmãs, mães, pais de Jesus: “Todo aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mt 12,50). Se quisermos ser verdadeiros cristãos devemos trabalhar em nome de Cristo e em perfeita sintonia de amor com ele para que todos nós sejamos reflexos do amor de Deus neste mundo. O amor nos faz detectarmos as necessidades dos outros. Sem o amor nada se detecta.

“Meu Pai trabalha até agora e eu também trabalho” . Nesta Quaresma, especialmente, somos chamados a nos vestir do Espírito de Jesus. Converter-se a Cristo significa deixar Cristo presente na minha existência em todos os momentos da minha vida. Consequentemente, faremos tudo que o Pai quer: salvar a humanidade.

P. Vitus Gustama,svd